Meu Papel no Mundo!
maio 5, 2013
Nos meses de abril e maio aconteceram a primeira edição do Meu Papel No Mundo no HUB Curitiba. Em junho haverá a segunda.
A partir de um esforço por entender a cultura e espiritualidade dos lugares que visitamos, encontrei na tradição espiritual dos povos, o conteúdo para montar o workshop Meu Papel no Mundo, uma forma de compartilhar um pouco do que recebi viajando e também, de levá-los para o mundo.
Para quem se interessa pelo tema, abaixo segue as informações.
Acontecerá em Curitiba nos dia 01, 14 e 15/junho.
Inscrições pelo: http://hub-curitiba.com/meu-papel-no-mundo-2/
Meu Papel No Mundo
Meu Papel No Mundo II – Encontrando a sua própria voz e expressão pessoal
com Bianca Soprana
Em função do sucesso do primeiro workshop Meu Papel no Mundo e da importância do tema na atualidade, vem aí a segunda edição.
A partir de conhecimentos das grandes tradições filosóficas e espirituais do Oriente e Ocidente, bem como da teoria vocacional hindu e de filósofos do pensamento existencial, este workshop irá ajudá-lo a identificar seu centro diretor de ação e forma de contribuição, desvelando o seu propósito de vida e fazendo com que ela adquira um caráter diferente, que converse com todo o seu ser, de modo a unificar e integrar suas ações.
Este workshop traz conhecimentos fundamentais para uma compreensão objetiva do homem; para uma ampliação do imaginário e do horizonte de consciência; para a formação de indivíduos mais nobres; para a busca de uma sinceridade existencial; para o resgate do senso de comunidade, e para uma abertura da inteligência para todas as dimensões da existência humana.
Datas: 1, 14 e 15 de junho
Hora: 1 de junho – 9h às 17h30 | 14 de junho – 19h às 22h | 15 de junho – 9h às 17h30
Local: HUB Curitiba
Rua Comendador Macedo, 233 – centro
Primeiro encontro: 01 de junho
Carga horária: 09h00 às 12h30 e 13h45 às 17h30
Objetivo: Compreensão e desdobramento das realidades Homem-Mundo-Papel.
manhã
1- Exercício individual: reconhecimento de si mesmo.
2- Quem é o homem: dimensão biológica, psíquica, cultural e noética.
3- O que quer o homem: os propósitos humanos fundamentais.
tarde
1- Como o homem se desenvolve: formação da personalidade e sua relação com os propósitos humanos.
2- Onde está o homem: paradigma atual – pensamento pós-moderno, sua forma de atuação e efeitos na vida interior e exterior do indivíduo.
3- O homem e o mundo. Vida e Morte.
Segundo encontro: 14 de junho
Carga horária: 19h00 às 22h00
Objetivo: Identificação da tipologia vocacional pelos participantes.
1- Exercício individual: reconhecendo seu tipo humano e seus valores vocacionais.
2- Como o homem contribui: tipologias humanas – seu centro gerador de vontade e sua variedade de expressões.
3- Atividade em grupo: elaboração e discussão dos tipos humanos.
Terceiro encontro: 15 de junho
Carga horária: 09h00 às 12h30 e 13h45 às 17h30
manhã
Objetivo: Reconhecimento de minha hierarquia de valores.
1- Quadro universal de valores humanos: reconhecendo minha hierarquia de valores a partir de minha tipologia vocacional.
2- Exercício individual: análise da vida.
3- Atividade em grupo: compartilhamento de reflexões.
tarde
Objetivo: Desvelamento do meu propósito de vida.
1- Como vive o homem: propósito de vida.
2- Meu papel no mundo.
3- Exercício individual: construção do meu propósito de vida.
4- Discussão em grupo: compartilhamento.
Currículo da Palestrante
Bianca Soprana é Psicóloga, Pós-graduada em Dinâmica dos Grupos, cursando especialização em Análise Existencial. Realiza estudos continuados em Filosofia, Religiões Comparadas e Literatura Clássica. Presta atendimento individual em diferentes modelos de relação de ajuda: a psicologia clínica; a análise vocacional e mudança de vida; e análise biográfica. É consultora na área de Desenvolvimento Humano promovendo workshops sobre temas diversos relacionados ao autoconhecimento e desenvolvimento do elemento humano. Trabalhou dez anos na área de Recursos Humanos em empresas de grande porte na área de Desenvolvimento de Pessoas. Realização de uma viagem de autoconhecimento e conhecimento de outras culturas no período três anos pelos continentes Africano, Asiático e Europeu com o objetivo de estudo de outras culturas, tendo como principal interesse o conteúdo cultural, espiritual e religioso dos povos.
Delhi!
setembro 27, 2011
Apesar de todo barulho de Delhi, existem muitos lugares tranquilos para ficar. Nesse sentido, a nossa escolha pela regiao dos refugiados tibetanos foi perfeita. Mas eu ainda me sentia mal do estomago, e não foi fácil os primeiros dias.
No dia seguinte, fui buscar um lugar para fazer uma massagem ayurvédica, mas o folder tornava o lugar muito mais interessante do que era verdadeiramente. Deu para relaxar, mas não muito. Saí cheia de oleo dos pés a cabeça, fomos ao centro, rodamos bastante e só a noite pude tomar banho…
Depois de passearmos pelo centro de Delhi, na região “comercial barata”, e encontrar muitas lojinhas legais para a Jami levar lembranças, percebi como a India estava ficando mais cara, do ano anterior para esse, senti um aumento de 20% nas coisas…
Muitas coisas me chamaram a atenção em Delhi nesta vez, uma delas é o quanto eu amo a India, apesar de tudo (sujeira, barulho, número de pessoas). Outra é como a India realmente é o lugar mais exótico do mundo. Não tem como comparar com nada.
Nas ruas do centro, vimos uma criança muito machucada, de uns 12 anos, com um olhar profundamente triste, e metade de sua bochecha rasgada como que por uma mordida, e ela estava de cabeça baixa numa calçada qualquer. Com certeza era moradora de rua. Alguns indianos trouxeram comida para ajudá-la e ela não conseguia nem esboçar um sorriso, nem levantar a cabeça. A sensação que me passou é que alguém muito mal vem judiando dela. Aquela cena rasgou meu coração. Eu queria levar aquela criança comigo. O machucado no rosto era chocante. E a percepção de que algo muito injusta estava acontecendo ali era gritante.
A noite fomos para o cinema local e depois de um filme incrível, recheado de dramas humanos típicos da região, sem final feliz, o casal romantico do filme, que longe de ser o principal tema, apenas mais um dos diversos levantados, os enamorados nunca se beijavam, só dançavam e se aproximam, se insinunado um para o outro. Acho lindo esse romantismo antigo dos filmes de bollywood. Durante o filme, de duração de 3 horas, intervalo no meio com direito a pessoas lhe oferecendo comidas e bebidas. Voltei maravilhada com o filme, com as cenas, paisagens e música, sou apaixonada pelo cinema indiano.
Quando voltamos para casa uma outra cena me tocou.
Centenas de rikishas (bicicletas-táxi) parados nas gramas, como seus motoristas dormindo em cima tortos, de qualquer jeito. Depois de um dia de trabalho imenso, sobre duas rodas, levando peso para lá e para cá a troco de centavos, muitas vezes sendo explorados e mau tratados pelos seus clientes, numa competição desumana entre os outros rikishas, no final do dia os motoristas ainda dormem na rua porque nao vale a pena voltar para casa, talvez só no fim de semana.
Eu chorei copiosamente vendo esta cena. Era um mar de gente. É de matar imaginar a luta pelo pao de cada dia dessas pessoas. Verdadeiros heróis!
Um dos povos mais interessantes que conheci, sem dúvida foram os indianos, desde a riqueza cultural e espiritual, até a luta diária por trabalho e pela vida. O folego dos indianos é impensável.
Nos camelos, uma camiseta representava o que era um indiano (sempre tem essas camisetas, em qualquer lugar que você vá, destacando algo de marcante na cultura:
Full power, 24 hours and no shower!!!
Kashimira!
setembro 20, 2011
Os dias seguintes sobre o lago Dhal foram especiais e cheios de surpresas. O filho do Sr. Gulmon, que surgiu em nossa frente quando descemos de nosso táxi comunitário após 16 horas de viagem, e que com muita insistencia nos convenceu a ficar no barco de seu pai, com o passar dos dias se tornou um amigo…
Passeamos com ele por muitos lugares, almoçamos em restaurantes típicos, fomos ao centro, as mesquitas, aos templos, e nos perdemos olhando para a beleza de Srinagar, e principalmete, para as pessoas que surgiam para conversar.
Caminhar pelo centro de Srinagar e arredores tem uma atmosfera especial. É diferente de toda a India. Além de ser mais limpa e fresca (por ser região montanhosa), a cidade é muito bela. Há um toque muito mais muçulmano que hindu, já que estes são a maioria por ali.
Os passeios sobre o lago eram os melhores, e sempre tinha algo surpreendente para conhecer e ver na comunidade sobre palafitas que ali vive. O mais especial foi um dia que fomos convidados para um casamento muçulmano que ocorria ao lado de nosso barco. Foram dois dias de preparação e tres de festas. Mulheres para um lado, cantando e arrumando a noiva, homens para o outro matando carneiros e preparando a comida.
Uma tenda foi montada para receber todos os convidados. Do outro lado do lago estava a festa da família e amigos do noivo, já que primeiro eles festejavam lá, para depois os noivos se encontrarem do lado de cá, no ultimo dia, na tenda da esposa, deixando todo um gostinho de suspense. Acabamos sendo tiradas para dançar, e foi divertido, eu a Jami no meio da tenda. O dançarino era um homem que dançava meio sexy e de forma engraçada, e os convidados riam muito.
Nos esbaldamos com as opções de kashimiras no centro, e achamos um lugar barato para comprar uns chales direto da fabrica, o que trouxe alegria para nossa alma feminina. Graças ao nosso amigo.
Depois de alguns dias em Srinagar, com o coração apertado fomos embora. Nosso próximo destino era Leh. Sem dúvida a Kashimira foi um dos lugares mais incríveis que conheci na India.
Chegada da Jami!
setembro 13, 2011
Mal o João e o Marco saíram e recebemos nossa segunda ilustre visita – minha querida amiga Jami. Conheci a Jami em 2006 numa pós-graduação e desde lá nos tornamos grandes amigas. A Jami é uma daquelas amigas meio superdotadas que tenho, ao lado da Malu, talentosíssima, 10 em tudo e que tem um caráter de tirar o chapéu.
Quando voltamos da nossa primeira viagem a Jami nos recebeu em sua casa com uma comida mexicana deliciosa, e nos acolheu muito bem, quando eu e o Gui nos sentíamos “um pouco” (imagina!) perdidos. Nesse dia, conversamos muito sobre a viagem e as aprendizagens. A Jami foi uma das poucas pessoas que conversamos mais profundamente sobre a viagem, e ali, maravilhada com o nosso jeito pós-viagem, ela disse que se encontraria com a gente, e como vocês já podem supor, se a Jami diz, está dito. Combinamos que na nossa próxima viagem ela nos encontraria em alguma parte, e decidimos juntos que seria a Índia. Ela delirou!
Quando a Jami chegou, pouco mais de 24 horas depois que o Jony e o Marco foram embora, nós estávamos exaustos, pois o Paquistão foi uma viagem difícil em termos de transporte (claro não para o Gui, mas para mim). Muitas curvas, estradas esburacadas e como tínhamos o visto somente de 30 dias e tínhamos que chegar a Délhi a tempo dos meus irmãos pegarem o voo para o Brasil, tivemos que apressar o passo ao longo do Paquistão.
Como a Jami estava com um fuso forte na cabeça, já que o voo dela atrasou e ela encontrava-se há 36 horas na função para chegar até a Índia, aproveitamos todos para descansar. Logo que a buscamos no aeroporto de autoricksha (é claro!), ela olhava para fora e dizia: “caramba, isso parece um filme, estou encantada, obrigada por me receberem com vocês”. E seus olhos brilhavam vendo a Índia, emocionada. Ali percebemos que a Jami tinha alma de viajante, porque ao invés de ficar olhando para as sujeiras das ruas, e fazendo comentário de como eles vivem assim e blábláblá, ela ia logo se maravilhando com a experiência única que alguém pode sentir, quando pela primeira vez, experimenta estar “num outro mundo”. E para quem tem mais sensibilidade, isso se torna tão maior que a sujeira, que não dá para ficar se limitando em olhar para o chão.
Conversamos bastante e a Jami apagou no quarto do hotel. Batemos na sua porta para acordá-la mais perto do final da tarde e, fomos ao Golden Temple, que é claro, arrebentou!! A Jami estava perplexa com a beleza dos Sikis (devotos da “religião” sikki), que coitados, direto são confundidos com muçulmanos por causa do turbante no Ocidente, e muitas vezes matam os inofensivos Sikis achando que são terroristas. Quanta ignorância!
De Amristar pegamos um trem para Jamu, e ficamos apenas um dia nesta cidade feia e caótica, cheia de templos hindus, mas não valia muito a pena. Dormimos num hotel estranho, e a noite houve muitos trovoes, e eu senti bastante medo, aquela cidade estava bem esquisita. Os templos da cidade estavam sendo meio alvo de uns muçulmanos extremistas, e estávamos um pouco apreensivos de estar ali. A Jami disse que se assustou também com a cidade e dormiu mal.
No dia seguinte, logo cedo, pegamos um share-taxi e seguimos para Kashimira. Nossos companheiros de carro eram interessantíssimos (um sikki, um muçulmano e dois quatro hindus), e dividimos com eles todas as nossas comidas. Por sinal, no Oriente não tem essa do MEU pacote de bolacha, todo mundo oferece tudo ao vizinho e, se você oferecer, também ninguém fará cerimonia (como muitas vezes fazemos com desconhecidos), eles aceitarão na hora e comerão algumas bolachas…
Nesse dia, esperando no táxi, enquanto tomávamos um chay numa rua decadente, surgiu uma vaca com a mandíbula quebrada, a mandíbula dela estava solta, a vaca era deficiente. Ela caminhava arrastando aquela mandíbula presa a um feixe de pele. Eu e a Jami ficamos chocadas olhando para a vaca. Na Índia já vimos muitas coisas, mas vaca com a mandíbula pendurada era realmente uma novidade. Esse costume de sacrificar o animal que nós temos, não precisa nem dizer que não acontece em terra hindu.
Quando chegamos a Kashimira depois de 16 horas de viagem, ficamos chocados com a beleza do lado Dhal e seus barcos-casas. Fomos logo pegando um barco-casa de um cara muito insistente, porque estava num preço muito bom, e apesar do nosso barco ser num lugar lindo, e ser muito aconchegante e com cara de casa de vó, era um dos mais pobrinhos do Lago.
Largamos as malas e vimos o sol se pôr ao som das inúmeras mesquitas e de todo comércio que acontece sob o lago. Tem farmácia, mercado, transportes, vendedores… tudo sob palafitas. Ficamos maravilhados com aquela experiência mágica de estar no lago ao som estridente de todas as mesquitas, vendo todos aqueles vendedores ambulantes passando com suas canoas, e os locais remando até em casa. Acho que foi um dos lugares mais incríveis de toda a viagem.
A Jami estava emocionada e nós também! Ninguém mais queria sair mais daquela “sacada” do barco… Ao fim do som das mesquitas e do silencio da oração em comunidade, o Sr. Gulmon serviu nossa comida bem caseira e fresca preparada por ele. Conversamos bastante sobre a vida, a viagem… e fomos dormir. Antes de dormir, tomamos um banho, tinha até banheira no quarto, mas a água era meio verde e fedida, mas nada que não pudesse fazer nos sentirmos limpinhas depois, e dormir maravilhadas com a experiência de estar sob o gloriosíssimo Lago Dhal.
Marco e Jony!
setembro 5, 2011
Quando eu tinha 12 anos, um dia antes de começar as aulas, meu irmão mais velho que tinha ido viajar, não voltou para casa naquele domingo. Ele tinha 13 anos. O Marco 8 e o Joao 7. Um abismo se abriu na minha frente e a nossa casa virou um vale de lagrimas. Cada um sofreu da sua maneira. O Silvinho estudava na mesma escola que eu, o Marco e o Jony, ainda estavam na nossa ex-escola, que ia até o fim do primário. Eu e o Silvinho fazíamos tudo juntos, tínhamos os mesmos amigos, a mesma turma de inglês, os mesmos programas e praticávamos o mesmo esporte – o tênis. Ele por paixão, eu, pela turma. Quando o Silvinho se foi, eu fiquei muito sozinha. Como o Marco e o João eram crianças, não me passava pela cabeça contar com eles. A diferença de idade nessa época criava uma distancia natural entre nós. Eu não brincava mais, eles ainda viam desenhos. Quando eu saí de casa aos 17 anos para me preparar para o vestibular, o Marco tinha 14 e o Joao 12. Nessa época, quando a barreira da idade ia começar a se dissolver, eu estava saindo e sabia que não voltaria mais. Não combinava voltar para casa depois, sabia que uma vez dado um passo em uma nova direção, o estado anterior se tornaria impossível para mim. As coisas sempre foram assim comigo… Os feriados começaram a chegar, e cada vez que eu visitava a família, o Jony e o Marco estavam maiores. Parecia mágica, eles cresciam centímetros de um feriado para o outro. Num desses feriados, fui com uma amiga na “boate”, como chamávamos a night do Clube Recreativo Chapecoense, e eu bebi um pouco além da conta para quem voltaria dirigindo, e pedi ao Marco para voltar pilotando. Ele ainda era de menor. Lembro que naquele dia pensei “nossa já estou encontrando meu irmão na boate, que legaaaal!!!” Por fim, o Marco acabou quase atropelando um ciclista, e derrubando um muro de uma casa uns 100 metros depois. Quando tentamos sair do lugar, não haviam mais pneus para isso, e em poucos minutos estávamos cercados pela população local enraivecida, o ciclista sobrevivente e a polícia. Eu havia esquecido de perguntar se o Marco estava em condições de dirigir rssrs… Enfim, pelas diferenças de idade e minha saída relativamente cedo de casa, não foi possível conviver muito com eles, pelo menos o quanto eu gostaria, mesmo que há alguns anos já conseguíamos conversar como adultos sem eles ficarem me chamando de “Bianca Potranca” só porque rima. Sempre fiquei com a sensação de “eu não pude acompanhar de perto a vida deles como gostaria!!!” Graças a insistência de minha mãe e a vontade deles de viajar, eles se organizaram e vieram nos encontrar. Minha mãe falava que seria uma grande oportunidade de convivência mais intensa entre nós e que eu deveria aproveitar para “conhecê-los” muito mais. E eu não tinha noção do quanto aquelas palavras eram verdadeiras. Tinha certo receio, porque eles fariam com a gente a Karakoran, que é uma estrada que corta todo o norte do Paquistão, atravessando os Himalaias. Então, eu sabia que a viagem seria infinitamente roots, as estradas ruins e cheias de curvas. Para quem viajaria por terra o tempo todo, isso seria um desafio! A única ideia que eu fazia deles quanto a companheiros de viagem era que para o Marco seria muito difícil, pois lembrava que ele não gostava do vinagre do pai (um vinagre que ele fazia na pipa, espetacular!), o que criava certa distância entre ele e os demais membros da família, e adorava couve-flor cozida, então automaticamente pensava que ele não aguentaria a comida. O Joao sempre foi um apaixonado pelo vinagre do Pai, e comia de tuuudo, assim como eu, então tinha certeza que com o João não teríamos problemas. Bem que uma amiga minha tinha falado “a gente nunca atualiza a imagem que temos da família…” Até na Bíblia Jesus diz que o profeta nunca é reconhecido na sua própria terra. E é verdade, você pode se tornar o sucesso que for, que a tua família continuará se lembrando daquela tua característica infame de quando você tinha não sei quantos anos. Então eu falava para o Marco muito surpresa: “ você vai experimentar leite de égua (bebida típica do Quirguistão)? Comoooo? Você só comia couve-flor…?” Ele me dizia: “ Bianca, isso já faz tanto tempo…” “Mas Marco é leite de ÉGUA!!” “Sim, Bianca mas deixa eu experimentar, tem que interagir com a cultura local!” “ O quê (eu dizia)?” “ Bianca eu como de tudo!” “Até molho de tomate Marco?” “ Óbvio, da onde tu tirou que eu não como molho de tomate?” “ Do fato de você amar couve-flor só com água e sal…” “ Mas eu não amo couve-flor…” “Não, como assim? Não era tua comida favorita?” “ O quê? Da onde tu tirou isso?” Enquanto o João acabava de deixar o prato de “ravióli de carneiro” porque não gostou do gosto do carneiro… Eu não entendia mais nada! O João comia até pedra! Como assiiiim? Não posso contar às surpresas que tive com o João, porque ele nunca gostou que falassem da vida dele, para quem entende um pouco de astrologia ele é escorpião, signo que normalmente odeia que invadam sua privacidade. Enfim, ia percebendo que eu não havia atualizado os meus irmãos e nem os conhecia tanto assim como supunha. E eles dia a dia, iam me surpreendendo!
Até hoje todo mundo que veio nos visitar – minhas mãe, os pais do Gui, irmãs, marido e filhos, por uma questão de idade e de crianças –, nunca pensamos em fazer a “nossa” viagem com eles, sempre colocávamos a nossa em stand-by até por uma questão de bom senso (com exceção do Quirguistão, que tirando os transportes, os pais do Gui dormiram em lugares roots pra caramba e nem reclamaram). Mas com os manos foi bem diferente, eles não tinham nenhuma barreira, nem de idade, nem de filhos, então falávamos para eles “se preparem”. Tinha muita dúvida se eles iriam gostar, pois no Paquistão os perrengues prometiam ser diários. E eles se mostraram excelentes companheiros de viagem, topavam absolutamente tuuuudo, algumas vezes reclamando, com cara de “mas eles só podem estar de sacanagem com a gente”, mas seguiam em frente e no final, já nem se irritavam com os barulhos das buzinas e sujeiras nas ruas, e entendiam porquê tínhamos levado eles ali. Fizeram muito sucesso com os locais. Normalmente esses lugares são pouco visitados, então vem pouco turista e todo mundo quer te conhecer. E como os turistas europeus são a maioria esmagadora que vem para cá, não tem como comparar com um brasileiro quando resolve ser bem simpático, então eles só faltavam dar autógrafos. O Marco era o alvo, ele era o mais branco de nós três, com os cabelos claros e barba ruiva, parecia o mais internacional. Um dia conhecemos um casal de franceses mega ignorantes, que ficavam brincando que nós no Brasil deveríamos comer insetos de tão precário que eles imaginavam ser a situação do Brasil, e o Marco largou aquela célebre “e vocês que não tomam banho? Uma vez fui numa boate em Paris, estava eu e um amigo empolgados falando com duas francesinhas, quando elas levantaram o braço, veio aquele cheirão, e nos saímos correndo…” Os franceses murcharam e a gente dava rizada. Depois, não largavam mais os dois, era “Marco Jony” para cá e pra lá. Depois de 50 dias juntos, os Manos foram. Se despediram de nós no hotel e foram sozinhos para a estação de trem em direção a Agra, para ver o Taj Mahal e seguir para o Brasil. Quando vi os dois de costas, com suas respectivas mochilas, saindo naquela rua escura e suja, eu comecei a chorar. Parecia que eram os meus filhos partindo. Como eles cresceram e ficaram altos! Os 50 dias tinham passado e lá estávamos, eu e Gui, sozinhos novamente! Essas idas e vindas, chegadas e despedidas da vida sempre me chamaram muito atenção desde pequena. Como a vida é essa sucessão de acontecimentos, épocas, períodos, momentos, sempre com fim… Jony e Marco, muito obrigada pela companhia, pelos momentos inesquecíveis, conversas, apoio moral, risadas, e principalmente parceria!!! Hoje conheço muito mais vocês rsrs! Vocês são demais!! Amo vocês pra caramba! Obrigada mãe!
Chegada na Índia
setembro 4, 2011
De manhã cedo fizemos as malas e pegamos um táxi até a fronteira Paquistão – Índia. Deixei Lahore com o coração na mão, pois desde o Iran não gostava tanto de um país como gostei do Paquistão. Talvez por tudo o que esperava do Paquistão, tudo o que já tinha escutado, e a realidade que encontrei. Foi uma grande surpresa!
O Paquistão mexeu comigo, por seu povo, sua cultura, suas vilas intocadas, e por todo o medo que eu tinha de visita-lo. Chegar a Índia naquelas alturas, sabendo que estaríamos agora entrando em nosso último país da viagem, os Manos indo embora dali poucos dias, a Jami (amiga minha) chegando, me dava conta como a segunda viagem estava chegando ao fim, e que de agora em diante, não teria terceira tão cedo. Isso me deixou reflexiva!
Logo que começamos a procurar hotel em Amristar, comecei a me perguntar porque mesmo gostava da Índia, porque insistia em dizer que era um dos meus países preferidos, se o barulho ensurdecedor dos auto-rikshas eram insuportáveis, o transito era um caos, e tudo não tinha ordem e nem limpeza. O Gui também ficou com a mesma sensação e o João e o Marco me olhavam com uma cara de porque eles falam tão bem da Índia?
Logo achamos um hotel melhorzinho, que não passou pela minha cabeça que ficava bem no meio do caos, perto do Golden Temple, e de noite queria me arrancar os cabelos, não consegui dormir nada em função do barulho. E dormir mal é de matar! No dia seguinte nos mudamos para um “hotel paraíso” bem longe do centro e mais caro, claro.
Esperamos o entardecer para irmos todos juntos ao Golden Temple, o vaticano dos Sikis, uma religião relativamente nova da Índia, quando comparada ao Hinduísmo. Tem por volta de quase 600 anos e se diz mais como uma orientação para viver uma vida melhor, mais digna e generosa, do que propriamente uma religião que tem como objetivo a salvação da alma. O Sikismo já não é assim, fala mais de um modo de vida, do que alguma garantia pós-vida. Imagino que nos textos mais sagrados isso deva aparecer, mas para os fiéis leigos é isso que é conhecido.
No final do dia quando chegamos no glorioso Golden Temple, o João e o Marco não falavam, estavam estarrecidos diante da beleza do lugar, e mística da Índia. Os sáris coloridos, os turbantes coloridos na cabeça dos homens, a devoção das pessoas ao chegar, os mantras de fundo tocando ininterruptamente, as pessoas se purificando na “grande piscina” que tem na frente do templo, é uma visão incrível.
Nós nem falávamos, ficamos todos em silencio experimentando a delicia que é ficar no templo. Todo barulho das buzinas e caos ficam lá fora, não se escuta nada, o chão é impecavelmente limpo, e as pessoas sentam ao redor da “piscina” e ali ficam por horas observando e simplesmente estando ali. Em algumas horas começam as rezas nos microfones e os devotos circulam ao redor da piscina rezando. Ficamos horas largados até quando bateu a fome e fomos jantar. O jantar é gratuito no templo, com direito a chay, e uma comida deliciosa. Se você quiser dar alguma doação, tem alguns lugares disponíveis para deixar dinheiro. Mas ninguém vai lhe pedir.
De lá seguimos para o hotel e nos despedimos do Marco e do Jony, que estavam seguindo para Agra para ver o Taj Mahal, de lá eles dormiriam em Delhi e seguiriam para o Brasil. Só com aquele período no templo, eles já ficaram maravilhados com a Índia, tristes que tinham que voltar. E já começaram a entender porque muitos quando vão à Índia descrevem sentimentos intensos de amor e ódio, e mesmo os que sentem isso sempre retornam, como nós. Os que sentem só ódio, saem assustados do país, e não querem nunca mais voltar. Vale a pena o esforço de passar da fase do susto, a beleza da Índia se abrirá para você!
Dois mundos!
setembro 2, 2011
Na volta do show das Fronteiras Paquistão X Índia, demos carona a um casal de franceses que conhemos em Karimabad, ainda no começo da nossa jornada pelo país. Ao longo do trajeto, fomos encontrando os dois diversas vezes, em lugares diferentes, até reencontrá-los na nossa última noite no Paquistao.
Era um casal novo, de vinte e poucos anos, que guardaram dinheiro por uma longa data, ate realizar a sua primeira viagem longa. Eles nunca tinham saído da França antes. Ele era marcineiro e, ela psicóloga. Estava vindo desda Marcelia, cidade onde moram, ate o Paquistao praticamente só de carona.
Num primeiro momento, achamos eles legais, até pelo jeito que estavam viajando, mas aos poucos fomos percebendo que eles só tinham saído de corpo para viajar, nao de alma, e a viagem ja estava completando quase 6 meses. Tudo na França era melhor, todas os lugares que eles visitaram eram em geral ruins, com excessao de alguns países na Europa que cruzaram ao longo do caminho, as pessoas entao da Asia Central de uma ignorancia sem tamanho. Pegavam muito no pé dos muculmanos, fruto da crença do povo em Deus que se desdobrava em atos sem sentido para eles. As roupas da muçulmanas, o Ramadan, a chamada das mesquitas, os terroristas, tudo tudo no mesmo pacote.
Como eles cruzaram de carona desde a França até os países da Asia Central para chegar no Paquistão, os países que tinham um povo acostumado a dar caronas eram legais, os que nao eram, nao eram legais! Lugares como Turkomenistao, Uzbequistao, e Kazaquistao, onde ha um cultura fortíssima de táxi pago, nao eram legais. So porque nao existe apenas o taxista credenciado como o nosso, mas qualquer pessoa comum que esteja passando de carro pode ser o seu táxi ( seja dentro das cidades ou na estrada, voce faz um sinal para parar, e se parar é porque podem lhe dar carona, desde que seja para o mesmo sentido que a pessoa esteja indo, e ela te cobrará por isso). É uma forma, nesses países tao pobres e reprimidos pela ditadura, do cidadao comum tirar um troco a mais.
Eles achavam isso um absurdo, sem entender que naqueles lugares carona e taxi eram sinonimos. Como aqueles dinheiristas podiam cobrar, pensavam eles? Assim eles foram passando por diversos países, levando a referencia da França e das suas necessidades individuais como forma de medir as pessoas e os lugares…
Nesse dia, lá na torcida, encontramos os dois com um paquistanes, ele sentado num bom lugar na arquibancada, tomando uma coca-cola gelada, e a sua namorada, na arquibancada das mulheres (pois as arquibancadas eram separadas em homens, mulheres, famílias e turistas). Estranhamos o lugar e a coca-cola gelada. Depois, vimos eles dispensando o tal senhor assim que nos encontraram, dizendo que iriam com a gente, sem praticamente se despedir.
Perguntei quem era aquele senhor, e eles me contaram rindo que era um homem religioso que conheceram num restaurante quando estavam almoçando, que veio puxar assunto pedindo se estavam gostando do Paquistao, se nao queriam ir para casa dele, pois os estrangeiros sao enviados de Deus, e ele tinha o dever de recebe-los bem. Os dois agradeceram dizendo que ja estavam hospedados num hotel. O senhor entao, muito simpatico, pediu para eles outros pratos de comida, ja que como bons mochileiros tinham obviamente pedido os pratos mais baratos, e pagou tudo. Após o tal senhor concluir que eles estavam num hotel muito simples (óbvio, os locais nunca entendem porque escolhemos estes hoteis), insistiu para que eles mudassem de hotel, pois tinham outros melhores, e que ele pagaria a diária, pois precisavam estar confortáveis no país dele. Eles agradeceram tambem e, o senhor pediu entao onde eles estavam indo, e contaram que para o show das fronteiras. Na mesma hora o tal senhor pediu um taxi (evitando que eles fossem de onibus, pois era na saída da cidade) e os acompanhou ate o show, pagando a coca-cola gelada e escolhendo um lugar privilegiado para que eles assistissem. No retorno, levaria eles ate o hotel. Mas o senhor foi dispensado assim que eles nos viram!!
Fim da historia. Eles estavam rindo do homem, por ter sido “burro” de pagar tudo a eles, em nome de Alah, e que eles se deram muito bem, economizaram um monte, e comeram como reis. Aí começaram a caçoar da religiao, do islamismo, e falar de como essas pessoas podiam ser tao estupidas em acreditar em mitos e bobagens criadas como Deus, só para controlar o povo, e teceu toda aquela cartilha de sempre de argumentos que os ateus mais jovens usam. É tudo jogo de poder, invenção, e as traduçoes, etc. Que lá na França, onde o povo é mais escolarizado e educado, isso ja nao existe mais. Nem passou pela cabeça daquelas topeiras perguntar a nós qual era a nossa crença antes de sair desconsiderando o tal homem para gente.
Enfim, era difícil que aqueles dois mundos tao distantes compreendessem o que estava acontecendo ali. O senhor até agora deve estar se perguntando o que ele fez de errado, para ter sido dispensado daquela forma. De um lado um homem que fazia aquil0 por Deus num ato de dever, como ele mesmo disse, do outro o casal que olhava aquilo como uma vantagem economica em nome de algo sem sentido, pois o objetivo do ato do homem que era agradar a Deus nao havia neles, e muito menos o senso de dever, ja que eles vinham dos países da Liberdade de Escolha – do quero ou nao quero, nao do devo ou nao devo.
Enfim, nós nos revoltamos!! Todos nós da mesa queríamos matá-los por falar daquele jeito do pobre senhor, e por todas os absurdos que tinhamos ouvido ao longo dos encontros que tivemos com eles. Eles perceberam a nossa cara de indignação, e perguntaram ao Gui, ” voce nao concorda?” Porque eles falavam usando uma linguagem corporal tentando persuadir que concordassemos com aquilo, e nós fazíamos uma cara de indignados, que eles nao entendiam o porquê. Será que a gente tambem era burro e achava aquilo correto? Será que no Brasil o povo é tao ignorante assim?
O Gui então sabiamente disse: “quando a gente voltou da nossa primeira viagem, nos fizemos um vídeo para dividir com as pessoas o que tinhamos visto e vivido, e começamos o vídeo assim: Deixe seu emprego, abandone seus pertences, se dispeça dos seus familiares e amigos, Esqueca Tudo o que voce aprendeu e o mundo será seu.”
E seguiu: “Pelo jeito voces deixaram o emprego…, seguiram toda a cartilha do mochileiro (guardar dinheiro, sair do emprego, etc.), mas esqueceram do mais importante. Voces nunca compreenderão nada, se voces nao colocarem a França um pouco suspensa para olharem o mundo…”
O casal se calou, assim como nós todos, rendendo um momento emocionante de reflexao para todos que estavam ali naquela mesa, naquela noite quente do dia 02 de setembro de 2011, a ultima do Paquistao… Uma bela despedida!
Paquistao, Paquistao, Paquistao!
setembro 2, 2011
Depois do intenso dia de viagem anterior, tentamos nos recuperar num hotel em Rawalpindi, cidade a 25km da capital Islamabad. Os meninos ainda conseguiram sair para tentar ver como eram pintados os típicos caminhões do Paquistão, mas o lugar estava fechado, pois era final de Ramadan e, com isto vinha um dos principais feriados do Islamismo. As ruas e comércios estavam vazias. Imaginem para os verdadeiros devotos de Alah, como final de Ramadan ‘e uma coisa Sagrada interiormente, ja que estes sabem de fato o que significa aqueles 30 dias de jejum no islã, e o quanto merece ser comemorado com a família.
O Ramadan é um período de purificação do mundo e de si mesmo. Uma tentativa de pelo menos ao longo daqueles 30 dias, obter algum domínio sobre si mesmo através do domínio do sentidos. Uma aprendizagem, que pode levar ao muçulmano, compreender o sentido de liberdade, fugindo da escravidão das reaçoes ao mundo e aos sentidos. Um momento para abdicar do pecado, pelo menos naqueles 30 dias. Além de um ato de sacrifício para o perdão dos pecados cometidos.
Lembro que os xiitas ismailis não faziam Ramadan, por pensar que o Ramadan deve ser feito o ano inteiro, nao somente 30 dias. Deve ser uma atitude interior que acompanha sempre o muçulmano. Eu achei bonita a idéia, mas na prática não sei se funciona tanto, porque quando isso fica encargo apenas do indivíduo, serão poucos que de fato procurão cumprir. Nesse sentido, acho interessante o Ramadan, pois toca na comunidade muçulmana toda. Lembro que o Baba Mondi, da ordem dos Bektashi, dizia que para os principiantes a lei, e para os devotos o Espírito.
A noite aproveitamos para conhecer o bairro descolado de Islamabad (capital construída, tipo a nossa Brasilia), e nos impressionamos com as lojas e shoppings naquela pequena regiao. Tirado algumas roupas típicas das mulheres, podia tranquilamente ser qualquer lugar do mundo, como todo lugar bem moderno que é o mesmo por onde quer que voce vá. De qualquer forma, dar um break na viagem e desfrutar de um bom restaurante ocidental, com ruas limpas e shoppings, é um conforto para quem viaja com uma mochila nas costas. Escolhemos uma casa de carnes deliciosas com molho barbecue.
No dia seguinte pegamos um ônibus ate Lahore, antiga capital antes de Islamambad. Lahore era muito parecido com o cenario das cidades grandes da India, entao nos sentimos em casa logo de cara. Passeamos bastante, fomos ao Forte e a Mesquita principal, e eramos atraçoes de fotos e olhares. Ninguem nos largava. E a simpatia do povo era absurda. E de novo aquela cena engraçada de muitos amigOs andando de maos dadas, sem querer dizer nada, apenas “eu amo meu amigo”.
Aproveitamos para ir ate a fronteira do Paquistao com a India, onde eles fazem aquele show de provocaçoes. O show comecou logo quando os países se separaram, e nunca mais parou, ha mais de 60 anos existe todos os dias, e sempre está lotado. Basicamente se formam duas torcidas, como de futebol, em cada lado do portao da fronteira, para gritar: Paquistao, Paquistao ou, India, India, tipo uma provocao de brincadeira, uma forma divertida e descontríida de levar uma rivalidade tao seria.
La havia uma arquibancada para os homens, outra para as mulheres, e outras para as familias, e uma ainda para os turistas. Quando chegamos, o Gui e o Marco estavam com a camiseta de cricket do Paquistao, e ao entrar, imagina!, os homens se animaram na arquibancada de ver os turistas com a camiseta do seu país, e os dois tascaram um beijo espontaneo na camiseta que foi ovacionado pela torcida. Eles gritavam, de pés na arquibancada, emocionados com os tais turistas. Tinha um senhorzinho que provavelmente era animador de torcida desde o comeco destes shows e que era uma simpatia, alem de uma figura engraçada. Acho que devia ter uns 70 anos. Da para imaginar que ele morrerá de infarto num desses shows nos proximos anos. Todos nos torcemos como loucos, e eu me sentia tao torcedora como no final de uma copa do mundo, tamanho é o amor que passei a ter pelo Paquistao depois de quase um mes de viagem.
As torcidas nao tiravam os olhos da gente e estavam super alegres de verem turistas tao envolvidos na gritaria pelo Paquistao e, nao simplesmente indo la, de forma imparcial para ver um show. Quando acabou, formou rodas de pessoas querendo nos conhecer, tirar fotos, apertar nossa mao, convidar para ir agora para a casa deles e largar o hotel que estavamos. Chegou um ponto, que surgiu até papéis para escrevermos os emails, ou simplesmente assinar, como um autografo.
Eles nao entendiam o que brasileiros estavam fazendo ali e porque gostavamos tanto do Paquistao. Nos agradeceram inumeras vezes, pela camiseta e pela torcida que fizemos “contra” a India, e nós diziamos, ” a gente ‘e que agradece por estar aqui. O Paquistao é o nosso país favorito.” Eles nao sabiam o que fazer de alegria. Diziam ” voces veem como nao somos só terroristas, como tem gente boa por aqui também? Conte para as pessoas do seu país quando voces voltarem…”
- Na saída!
Sem dúvida, o Paquistao é um dos países mais incríveis da nossa viagem, entre os mais de 45 visitados, é sem dúvida um dos TOP 5. Jula Jula Paquistão, como dizia a torcida, e nunca vou esquecer. Nao sei o que significa, mas nao importa! Valeu muito!
Paquistao Com Emocao!
agosto 29, 2011
Apesar da paz do lugar, e da beleza das pessoas somada a uma cultura tao intocada, dois dias depois tivemos que sair as pressas do Kalash Valley. Ainda de manha, o Gui chegou rindo de nervoso no quarto dizendo que tinha que me dar uma noticia. Como sabia que ali nao tinha telefone, me toquei na hora que era uma noticia paquistanesa. Talibans do Afeganistao haviam atacado a fronteira do Paquistao ao sul do vale Kalash. No total 56 pessoas morreram, entre talibans e militares paquistaneses. Como estavamos há 30 kilometros da fronteira e pelo vale não havia muita seguranca caso os talibans decidissem entrar por alguma montanha, pediram para voltarmos a Chitral, onde tinham uma forte base militar. Conforme as noticias, o interesse nao era entrar no pa’is, mas sim atacar a fronteira. De qualquer forma, nossa escolta disse que deveriamos voltar imediatamente para Chitral.
Voltamos parte do caminho a pe, pois não passava nenhum carro, ate que finalmente passou uma caminhonete e nos deu uma carona ate uma cidade proxima, onde poderiamos pegar um onibus ate Chitral. No total estavamos em seis turistas, nos quatro e mais dois japoneses, alem dos dois policiais, que pareciam não serem capazes de matar uma mosca.
No meio do caminho, um pouco nervosos com a situacao, um senhor sai detras de uma curva fazendo sinal desesperado para pararmos o carro, eu arregalei o olho assustada e pensei: “caramba, est’a vindo os talibans!” Nisso, as pedras do morro comecam a explodir, e eu entao olhei para o Joao que estava do meu lado e me desesperei. Pensei: “fo… !” Apos uns minutos, o tal Senhor acena dizendo algo do tipo: “podem vir agora!” Era so porque a estrada estava sendo arrumada e assim que explodiram um pedacinho do morro, fizeram sinal para a gente passar, ja que as pedras tinham quase tomado conta do estreito espaco entre precipicio e montanha. Eu nao respirava, estava branca, congelada, tremendo, mas não era nada… so conserto de estrada.
Chegamos em Chitral mortos de fome e fomos procurar um hotel mais confortavel para ficarmos. Achei um bem melhor por 100 rupais a mais, um pouco mais de um dolar. Como o hotel nao tinha restaurante, e ja tinha passado da hora do almoco e alem de tudo era Ramadam, pedimos se nos mesmos podiamos cozinhar, usando o espaco deles. O dono concordou. Ele estava faminto tambem, falou que era muito dificil seguir o Ramadam, que ele ficava irritado, nervoso, mas que ja estava quase terminando o mes Sagrado.
Entao, resolvemos nos dividir. O Gui ficou responsavel por ir ate a policia, primeiro para se apresentar junto com a escolta, mostrando que todos nos estavamos bem e tambem para se informar do ocorrido; depois ele iria ate o o escritorio do correio para ver se conseguiriamos pegar um aviao teco teco do correio que tres vezes por semana saia de Chitral ate Slamabad. Enquanto isso, eu e o Jony ficamos responsaveis por fazer a comida. Resolvi fazer o meu prato tipico: macarronada. As escoltas se separaram, um deles foi com o Gui e outro comigo e o Jony. O Marco teve de ficar no quarto, ou melhor, no banheiro, por um problema tecnico rsrsrs de viagem.
Seguimos com nosso guarda-costas, enquanto eu comprava os ingredientes, pedi ao Jony para providenciar o frango. Nisso o Joao voltou e me disse: “vem ver o acougue!” Quando olhei, num lugar caindo aos pedacos, com uma sensacao novamente de tunel do tempo, varias gaiolas com pequenos futuros galos. Apontamos qual nos queriamos, e o senhor matou e depenou na nossa frente, quando pegamos o saco, o frango ainda estava quente. Nunca tinha comido carne tao fresca!
Voltamos ao hotel, e mais um desafio, conseguir fazer a comida naquela cozinha suja, cheia de panelas engorduradas, sem detergente, nem esponja de louca, e muito menos colheres e afins para mexer. Com muito custo, consegui fazer uma macarronada gostosa, na companhia do Marco. Quando o Gui chegou vi que ele estava animado, e ja imaginei: nao tinha voo para Slamabad. E foi batata, teriamos que ir de onibus. Eu, Marco e Jony estavamos preocupados, porque passariamos por varias cidades nao tao tranquilas do Paquistao, ate agora estavamos sempre no meio do nada, em alguma vila nas montanhas, e agora passariamos por regioes mais perigosas, meio terra sem lei. Mas nao tinha opcao.
Dormimos entao em Chitral, onde as pessoas so falavam e lamentavam o ocorrido, e no dia seguinte pegamos um onibus de 14 horas ate a capital Islamabad. A escolta ficou com a gente ate o onibus partir e fez seu trabalho ate o fim, inclusive ficou do lado de fora nos abanando como se fossem familiares, enquanto nos da janela como bons brasileiros falavamos: “muito obrigado, valeu por tudo, vamos manter contato.”
Logo nos primeiros minutos, vimos que nosso motorista parecia direto de um filme: tinha uma barba comprida sem bigode ao modelo do Profeta Mohamed, um chapeuzinho branco e verde significando que ele era bem religioso e um livro falando do fim do mundo sobre o painel. Novamente uma estrada super segura, do lado direito montanha gingantesca e do esquerdo precipicio e entre eles apenas uma estrada de chao esburacada e bem estreita, com carros vindo nas duas direcoes, alem de carrocas de vez em quando, caminhoes e burros. Para completar, nosso motorista corria como se estivesse numa reta, numa pista bem larga e acostamento.
Umas tres horas depois, um carro de policia parou nosso onibus no meio da estrada, entrou e documento de todos. O “tenente” nos avisou que para nossa seguranca n’os seriamos escoltados ate proximo a Islamabad. Disse tambem ao motorista, que não deveria entrar mais nenhum passageiro ate perto o fim da viagem. O motorista ficou preocupado, pois sem passageiros não entraria dinheiro. E nos ficamos mais preocupados ainda. Nisso peco para ir ao banheiro, descem cinco homens mais o tenente, entram no banheiro antes, olham, voltam e dizem: pode entrar, esperamos a senhora aqui. Eu so pensava: “onde que a gente foi parar? So espero que isso tudo termine bem.”
Fim das contas, fomos escoltados ate perto de Islamabad, a cada final de um distrito mudava a escolta policial, no total foram sete ou oito. Dentro do onibus, dois locais fumavam haxixe enquanto a policia seguia nos escoltando. O motorista falava do fim do mundo de acordo com os muculmanos, era pro-taliban, e tinha varias teorias da conspiracao quanto aos americanos, judeus e Jerusalem. O Gui se divertia conversando com ele. Ate que uma hora ele falou: “ali do outro lado est’a cheio de talibans.” O Gui olhou e disse: “ali do outro da fronteira que fica aqui perto?” Ele respondeu: “nao, do outro lado desse rio aqui”, apontando para um rio seco que beirava nossa estrada…
Enquanto isso, o Marco e o Jony davam muita rizada com a emocao de um passageiro que contava nunca ter feiro uma viagem tao diferente, que no Paquistao so gente muito importante do governo era escoltada, e que ele estava adorando tudo aquilo. Quando atravessamos as cidades, a policia ligava a cirene para abrirem alas ao nosso onibus. Foi a viagem mais louca que já vivi em toda minha vida!!! Me sentia o presidente da republica, tirando o onibus, ‘e claro!
As pequenas cidades que passavamos eram uma volta ainda maior ao tunel do tempo: mulheres de burca, comercios decadentes, caos total de carros, cabras, carrocas, tudo ao mesmo tempo. Homens com barbas longas, turbantes, e muita sensacao de que estavamos no meio de um filme “faroeste paquistanes”. Essa acho que ‘e a comparacao mais proxima.
Ao longo do caminho, como era Ramadan, nao houve parada para comer, para o nosso desespero, pois eram 14 horas de viagem, mas para nossa sorte, eles pararam muitas vezes para rezar, e nisso a gente conseguiu comer alguma coisa. Nunca vou esquecer do suco de goiaba de caixinha do Paquistao.
No fim da tarde, o sol se pos, ja com quase 12 horas de viagem, tivemos a nossa primeira parada oficial, quando eles desceram para fazer sua primeira refeicao do dia. Uma fila de onibus e carros se formou, as pessoas desciam, estendiam um pano grande e comiam sobre o asfalto: frutas, agua, e chay. Generosamente, nos convidaram para comer com eles, agradecemos e dissemos que queriamos que nao faltasse nem um pedaco de fruta para eles depois daquele longo dia. Em seguida rezaram e continuaram a viagem.
Essa cena de nos parados no meio da estrada com o sol se pondo, as pessoas comendo sobre o tapete no chao e depois rezando, nunca saira da minha memoria. Foi uma das cenas mais marcantes para mim de toda a viagem. Absolutamente diferente e especial! Fiquei pensando naquele mundo deles tao diferente do nosso…
Quando nosso motorista voltou a dirigir, ele pareceu cansado e falou para o seu ajudante que sentava ao lado, para ele dirigir. Estavamos há uns 60km/h quando nosso motorista troca de lugar com o ajudante com o onibus em movimento. Eu olhei para o Gui e os meus irmaos e todo mundo estava chocado. Eles perceberam e olharam pra tras vendo nossas caras de assustados, e deram muita rizada dos turistas. Se fosse um europeu ali teria enfartado, a sorte ‘e que vindo do Brasil nem tudo assusta tanto. O dia tinha sido realmente intenso e nos sentiamos numa terra sem lei… Ou talvez na terra dos Paks mesmo. So para titulo de informacao Paks quer dizer puros.
Chegamos em Islamabad as dez horas da noite, exaustos e cansados. Olhavamos um para o outro e riamos de nervoso do que tinha sucedido ao longo daquela viagem. Acho que isso ‘e uma das coisas que mais gosto de estar no Oriente, que de certa forma vicia, nem um dia de viagem ‘e previsivel ou monotono, sempre tem uma surpresa, uma emocao, um momento inesquecivel, seja porque a vida que eles levam ‘e muito diferente da nossa, seja porque voce tem a chance de viver um pouco a vida deles, de fazer parte de um mundo tao diferente do teu, de experimentar um aquario completamente surreal e de se dar conta de quao absurdamente belo e variado ‘e o mundo que Deus criou.
Povo Kalash!
agosto 25, 2011
Depois da vila mais incrivel da viagem, fomos ate Chitral, uma cidade proxima ao Kalash Valley, nosso proximo destino. Havia na cidade uma vida muito tipica e religiosa entre os locais e apesar do barulho do comercio, ver como tudo funcionava era novamente uma excelente experiencia de Paquistao. Fomos parados varias vezes nas ruas para as pessoas nos conhecerem e claro, perguntar se precisavamos de alguma coisa, se eles poderiam nos ajudar com algo, se gostariamos de ficar na casa deles, conhecer suas familias, etc.
Para ir ate o vale sabiamos que teriamos de nos identificar na policia local, que exige uma escolta que permaneca com a gente durante todo o periodo na vila. A razao ‘e porque o vale fica ha uns tres dias de caminhada com a fronteira do Afeganistao, e qualquer um pode passar caminhando, ja que nao tem estradas ou controle. Um unico caso ocorreu para que eles tomassem essa decisao, um ocidental de uma ONG que morava no vale ha muitos anos, foi sequestrado por talibans, e devolvido somente nove meses depois.
Apos o 11/set e ainda com esse acontecimento, o cuidado com a seguranca dos turistas ‘e imenso no pais, cada mudanca de cidade passamos por algum controle de passaporte, assim eles vao acompanhando os passos de cada um e sabendo exatamente onde estao os turistas.
Chegando na policia, fomos super bem recepcionados, queriam saber se fomos bem tratados no pa’is, se estavamos gostando, etc., e nos mostraram um quadro do turismo em Chitral. Nos ultimos 10 anos apenas 300 brasileiros visitaram a cidade, e no ano passado apenas tres. Depois de familiarizados com a nossa escolta, voltamos para o hotel, sabendo que no dia seguinte eles estariam la nos esperando. Outros turistas que encontramos antes no caminho, contaram que o vale era um sossego, mas que estar escoltado era bem desagradavel, obviamente. Os europeus estranham muito em geral, infinitamente mais que a gente. Nao adianta ser hipocrita, n’os brasileiros estamos muito mais acostumados com o perigo, tanto que nao demorou muito para estarmos amigos dos policiais e super a vontade com eles.
Na manha seguinte pegamos um jipe lotado para chegar ate o Vale Kalash e nos hospedamos numa homestay muito acolhedora. O dono era super simpatico, e professor na unica escola da vila. Contou-nos um pouco do povo Kalash, que ate hoje ninguem sabe exatamente a origem, pois muitos são louros de olhos azuis, entao alguns dizem que são descendentes do Alexandre o Grande, mas são tudo suposicoes.
Os Kalash são considerados pagaos para os vizinhos muculmanos. Ao conversar com eles, percebemos que mesmo pagaos, contavam com uma estrutura organizada de relaciomento com a divindade. Acreditam em um so Deus, possuiam os xamans responsaveis por orientar espiritualmente o povo, purificar suas casas, abencoa-los e curar doencas. Apesar dos kalash buscarem preservar sua cultura, muitos já se converteram ao islamismo, e isso tem modificado bastante os costumes e crencas do povo.
Uma coisa que me chamou atencao, foi o costume quanto as mulheres. No periodo menstrual, elas precisam sair de suas casas e ir ate uma outra no inicio do vale, para la permanecerem ate o fim do periodo. Sao proibidas de cruzar a vila ate que termine o ciclo, pois “sujam” o ambiente, fazendo com que o xaman tenha que purificar tudo por onde elas passam depois, atraves de longos rituais. O dono da guest house falou tambem que era otimo elas estarem la, já que causam muitos problemas familiares quando estao neste periodo, o que fez n’os darmos muitas rizadas. O pior ‘e que eu estava no tal periodo justamente quando estive la, infelizmente o xaman tera um trabalho enorme depois que eu for embora.
Passeamos muito pelo vale, fomos ate a escola das criancas, e passamos quase a manha toda la. Como um dos professores tinha faltado e o outro, era o dono da homestay, enquanto ele dava aula numa sala, distraiamos as criancas na outra, e vice-versa. Ficamos constrangidos de estarmos ali com a escolta, e tentamos divertir as criancas para amenizar.
Na volta, encontramos muitas mulheres lavando roupas no rio, batendo na pedra, fomos tambem convidados a tomar chay em algumas casas, e deu ate para provar suas roupas tipicas, que era muito pesada, principalmente o acessorio da cabeca. Aquelas mulheres sao guerreiras em passar o dia belissimas, lavando roupa e cuidando da casa vestidas daquele jeito. Se fossemos nos ja colocariamos uma calca e blusa velha para esse tipo de atividade. Mas elas, mesmo quando estao na lavoura permanecem impecaveis. Foi inesquecivel passar os dias no vale, observando a vida pacata dos Kalashes. As vestimentas, os costumes, as tradicoes e a beleza fazem do lugar mais um dos vales incriveis e inesqueciveis do Paquistao.
























































