Quem acompanhou nossa viagem, sabe que a maior parte dela se deu no Oriente. Ate, quando chegamos na Europa no final da jornada, estivemos mais na Europa Oriental. Oriente e Ocidente sao termos que caem em desuso quando estamos no nosso dia a dia, mas lembramos muito deles quando viajamos.

No passado Oriente e Ocidente representavam mais que uma demarcacao geografica, representavam dois mundos distintos e ao mesmo tempo complementares, que viviam lado a lado, mesmo se as vezes um estivesse geograficamente para um ou para outro lado. Hoje eles estao se aproximando, mas tivemos a sorte de buscar lugares que essa diferenca ainda esta bem acentuada. Minha intencao ‘e falar um pouco destas diferencas que se revelam quando se est’a no Oriente. E ate responder porque nao concentramos nossa viagem no Ocidente.

As primeiras diferencas que se percebe ‘e do sistema de pensamento. Eles nao foram tao marcados como a gente com o periodo renascentista, a queda de Deus e todas as suas consequencias posteriores. Enquanto nos estivemos pensando nisso, muitos deles ainda pensavam em coisas muito mais basicas e imediatas como, por exemplo, garantir a sobrevivencia ou conseguir a independencia de algum pais Europeu.

Por isso, quando voce esta no Oriente – refiro-me aos paises subdesenvolvidos, a ultima coisa que voce ve ‘e infra-estrutura e organizacao. As coisas nao funcionam. Eles pecam no basico. Formar uma fila exige muito estudo para conseguir se concretizar. De outro lado, as tradicoes e a religiao estao presentes, sustentando todo o seu caos.

Quando eles nos encontram, nos veem como superiores, superiores em ordem e  materia. Tentam nos copiar como n’os sul americanos copiamos os Estados Unidos. Pois somos mais fortes em dinheiro e em poder que eles. E a lei do mais fraco buscar ser como o mais forte ‘e uma tendencia ontologica do ser humano. Se nao fosse assim, nao buscariamos Deus. Os indianos, por exemplo, quando estavamos na India, eles adoravam pegar meu oculos escuros e provar! Aquilo era especial para eles.

Ja no Ocidente, com a queda de Deus e o Imperio do Relativismo, onde tudo cabe a mim e a voce, o cristianismo foi enfraquecendo e enfraquecendo, principalmente com alguns abusos da igreja catolica. E o nosso homem hoje se orgulha de rechassa-la o tempo todo, generalizando fatos, como se a Igreja tivesse como unico objetivo na vida nos manipular, enganar e abusar de criancinhas. Eu fico horrorizada como perdemos o senso critico. Bom, e dai? No que nos tornamos fracos? No Sagrado! Jesus era nossso elo. E isso se acentua mais ainda quando subimos para os paises desenvolvidos da Europa.

Na India, olhava os turistas ocidentais fazendo o mesmo movimento que os indianos faziam com o meu oculos. Eles sao mais fortes em espirito, certo? E nesse ponto tentamos imita-los. Os turistas imitavam suas religioes num ponto quase ridiculo, como  o indiano ao provar o meu oculos que se olhava no reflexo do vidro do carro e tirava fotos fazendo pose. O turista ocidental nao ficava para tras.

Chegavam na India, especialmente em cidades com varios ashrams, e se fantasiavam em poucos dias. Passavam a usar varios colares de rudraksha, que é como usar um crucifixo no Ocidente. E depois a coisa so ia piorando, se fantasiavam de yogues, uns andavam quase ao estilo Adao e Eva segurando um pau para se apoiar exatamente como faziam os yogues e, claro, testas pintadas para ca e para la. Quando voce conversava com eles muito poucos sabiam o significado de cada um daqueles aderecos. Bem ao estilo de um homem material, comecando primeiro pelo externo, como se a roupa fosse te trazer iluminacao. Soube de alguns casos de turistas que tiveram que ser buscados pelos pais, pois piraram de vez.

No ashram do Ramana Maharish, um dos maiores santos hindus, uma das maiores provas do tratado Divino, muitos passavam os dias la, mas quando eu perguntava: “voce sabe quem foi o Ramana?” Nao, nao tive tempo ainda de ver, mas gosto muito da energia desse lugar.” Essa da energia para ca e para la é de matar!

Outra coisa que era “ engracado” eram os Ocidentais falando de como se tornar um Iluminado. Falavam da iluminacao como algo que se alcanca com um boa dose de determinacao, como passar numa prova de vestibular no Brasil de Medicina na Federal. Nao como uma forte inclinacao ao divino movimentado pelo proprio Divino, que so se concretiza em pouquissimas pessoas. Alem de ja pensarem em se tornar Iluminado como uma meta e nao no Sentido que move alguem a buscar a Iluminacao, que ‘e o maximo encontro possivel com a Divindade em tudo que existe. Outros ainda falavam do caminho da iluminacao como se estivessem formando um check-list, meditar tantas horas por dia, nao comer mais carne, respeitar a alimentacao ayurvedica, rezar, etc. Faltava so uma planilha de excel!

Nessas horas eu via a diferenca de sistema de pensamento. E como eram mundos tao distintos. Quando nos perguntam insistentemente porque nos nao viajamos mais pela Europa? Eu tenho vontade de responder: porque deveriamos ter viajado mais pela Europa?

Gosto muito da beleza da Europa, da limpeza das ruas, das vitrines das lojas, dos cafes, tortas e sorvetes e dos banheiros – esses especialmente, sao os melhores! A Arte? Tem muita arte hindu, arabe e persa de tirar o chapeu tambem. Mas quando decidimos fazer essa viagem, nao queriamos voltar mais descolados para o Brasil, com um corte de cabelo que ainda nao chegou, queriamos voltar melhores do que fomos! Melhores dentro, nao fora! E buscamos ir ate o mais forte hoje – forte em Espirito!

Pessoas!

maio 13, 2010

Conhecer pessoas sempre foi uma das minhas grandes paixoes. Ao contrario de alguns, as pessoas de forma geral nao me irritam ou perturbam, nao roubam o meu tempo e nao me cansam. Sempre me alegro ao dividir alguma coisa com alguem ou simplesmente em ter o prazer de ouvi-las falar da vida e de si.

Durante os dias do ashram, tive a oportunidade de conhecer belas pessoas e dividir com elas momentos que estarao sempre comigo e nas minhas mais doces memorias da viagem.

Nao vou esquecer das longas conversas com a Marlinda no terraco, fumando escondido, olhando para as estrelas, e dividindo a alegria de ter viajado durante quase um ano pelo mundo. Das trocas sobre nossas descobertas espirituais; de falar da nova vida que se abriu pela experiencia da viagem; da volta para casa e de todo o significado que esta viagem proporcionou para cada uma.

Nao vou esquecer da suica que passeava todos os dias com seu cachorro de rua que havia adotado na Tailandia, ela estava sozinha no ashram ha dois meses. Ela era leve, firme e honesta. Tinha uma ligacao forte com a natureza, percebia mudancas sutis nas arvores e plantas, sem ser babona, era orientada por sua intuicao e sensacao das coisas. Ela passava paz e fortaleza. Tivemos momentos muito especiais, principalmente um dia que resolvemos tomar um lanche no Freedom Cafe, um lugar delicioso de frente para o Ganges e fomos de moto balancando as trancas pelo longo caminho ate a cidade.

Nao vou esquecer da italiana, tao doce e carinhosa, que na sua busca incansavel por compreender seu vazio, um dia ficou tao doente, que nao conseguiu levantar da cama, nem comer, nem abrir os olhos. Nestes dias sozinha, ela teve um grande contato com os seres divinos e dali em diante, resolveu cuidar de si. Foi para India passar 15 dias no ashram do Sai Baba e acabou morando no ashram por tres anos. La acabou se casando numa cerimonia hindu com um italiano e agora se preparava para voltar ‘a Roma. Nao vou esquecer de nos duas, sentadas sobre uma grande pedra, de frente para o Ganges, falando sobre o que de verdade importa nessa vida.

Nao vou esquecer da neo zelandeza de 26 anos, que tinha concluido a faculdade e estava viajando pelo mundo antes de comecar a trabalhar.  Ela tinha uma grande duvida se necessariamente precisaria entrar no sistema ou poderia ja comecar sua vida num trailler trabalhando com coisas bastante alternativas. Ela tinha uma linda humildade e muita vontade de descobrir a Verdade das coisas e se dirigir para o caminho certo. Uma bela garota!

Nao vou esquecer tambem, que dias antes de me encontrar com o Gui, estava tentando ver como iria para Delli e de ultima hora surgiu um ingles, que estava indo de taxi sozinho e me convidou para ir junto. Ele tinha quarenta e poucos anos, havia sido casado durante 20, tem duas filhas e fazia 3 meses que tinha se separado. Sua ultima viagem, havia sido uma volta ao mundo de combe com um amigo, durante dois anos, pouco antes de conhecer sua esposa. Durante os ultimos 20 anos, ele so fez uma viagem para uma cidade a uma hora de sua casa e trabalhou como um condenado. A vida passou! E como obra do destino eles se separaram e na semana seguinte ele foi para India pensar na vida. Comecou por longas semanas de meditacao num lindo monasterio na Tailandia. Seus tres meses estavam acabando e ao chegar em Delli, no dia seguinte, ele voltaria para casa. Que grande mundanca e que belo momento a vida estava proporcionando para ele. Falamos sem parar um segundo durante o caminho ate Delli, foi uma das pessoas mais genias que conheci durante toda a viagem.

Nao vou esquecer do Daniel, um ingles filho de mae viciada em cocaina, neto de um prisioneiro do Auchevitz. Era meu vizinho de quarto e quando falava parecia o Joao Pequeno do Cidade de Deus. Era traficante de drogas e usuario de cocaina em Londres, quando descobriu a yoga. Hoje seu objetivo ‘e nada mais do que se tornar um yogue e iluminado. Para isso faz varias horas de yoga por dia, cuida da alimentacao, jejua quase diariamente ate a noite, oferece toda sua comida a Deus e segue todas aquelas recomendacoes de yoga para limpeza do corpo. Como tinha que dividir banheiro com ele, sempre esperava muito, ate ele limpar seu nariz com um tubo, depois enfiar metros de pano no estomago para deixar tudo bem limpinho. Um dia, apos o jantar, alguns turistas perguntaram porque ele era tao maluco, se referindo ao jeito Joao Pequeno de falar e ele comecou a despencar a historia da  familia dele. Desde seus tres anos de idade sua mae ‘e dependente de heroina. Foi criado praticamente na rua. Hoje le Bagavaghita diariamente. Quando ele acabou de falar, as pessoas ficaram em silencio e eu disse olhando bem para ele: voce ‘e uma grande pessoa. Parabens! Acho que ninguem nunca tinha dito isso. Ele encheu os olhos de lagrimas, e sempre passava pelo meu quarto com doces cumprimentos…

Gostaria de oferecer um brinde a essas pessoas Marlinda, Nicola, Kyara, Nicci, Jaison e Daniel, e a todas as outras que conhecemos na viagem e que nao estao relatadas aqui!

* As fotos desse post vem qdo encontrarmos uma boa internet.

Vida de Ashram II!

maio 11, 2010

Ao final dos 10 dias, o Gui chegou e aproveitou o ashram comigo durante mais quatro dias. Ele adorou! Aproveitamos para matar a saudades e passear na natureza. Quando chegou a hora de ir embora, pois haviamos comprado nossa passagem para a Jordania (nosso proximo destino ‘e fazer o Oriente Medio) nao queria ir embora de jeito nenhum.

Caminho de volta para o ashram ao final das meditacoes!

Fim de tarde!

Fim das contas, decidimos mudar a passagem e o Gui foi para as montanhas e eu voltei para o ashram, pois precisavamos fazer algumas coisas praticas em Rishikesh. A principio duvidei da minha decisao pois estava perto daqueles dias femininos e fiquei me culpando por ter dado todo o trabalho para o Gui de mudar a passagem, que nao foi uma jornada facil. Quando os dias chegaram, relaxei e pude entender porque aquele chamado era tao forte para voltar.

Tive algumas meditacoes inexplicaveis. Um dia, quando acordei numa chuva forte, fazia nao sei quantos meses que nao sentia o cheiro da chuva e nem o prazer de te-la, levantei da cama e fui meditar, num lugar bem especial no ashram de frente para o Ganges. Eram quase seis da manha. Duas horas depois quando abri os olhos, tudo silenciou, nao havia sequer uma coisa dual no meu ser, tudo era harmonia, eu, o chao, a chuva, as plantas, o ganges, o ashram, todos eram uma coisa so e nao havia separacao de nada. Nao havia eu e nao-eu, como explica Buda. E eu chorava! Chorava em ter aqueles minutos contemplando a magia e os misterios da Revelacao. Aqueles longos minutos que fiquei sentindo aquela absoluta harmonia, esta tao registrado em mim, que depois daquele dia, parei de duvidar de muita coisa e a confiar na sinfonia que rege o mundo.

Sobre uma pedra, no dia seguinte frente ao Ganges, quando estava rezando por um longo tempo, fui tomada por uma sensacao absurda de amor, de bencao e de acolhimento. Senti, pela primeira vez na vida, de forma clara, a presenca dos anjos que me acompanham. Estava rezando Santo Anjo!

Durante todo o percurso dessa viagem, queria entender o que era a falta que ainda sentia e que ja nao era mais daqui. Ja nao era mais um insight de terapia que buscava, nem compreender mais minha psique, nem entender mais porque as vezes os mesmos comportamentos surgem novamente, nao sentia mais falta de respostas para a minha psicologia e nem vontade de entender nada nesse sentido. Queria entender o que era aquela pergunta que havia no meu coracao desde pequena, quem sou eu e para onde vou, que tomava formas diferentes….

Quando a Andrea, minha amiga querida, me entregou um CD de Religios Comparadas antes mesmo de eu viajar, peguei aquele CD como se tivesse recebido um presente para estudar alguma coisa, mas nada demais. Queria mesmo era entender um pouco mais do sentido das religios, mas uma coisa bem assim sem pretensao e sem grandes interesses.

As aulas comecavam na propria ordem da Revelacao. As primeiras aulas foram de Hinduismo, depois de Budismo, depois Judaismo, Cristianismo, Islamismo, Confucionismo, Taoismo e Tradicoes Indigenas. Em cada religiao, meu professor era de uma imparcialidade admiravel. Quando ele fala do hinduismo, ele ‘e um hindu, quando fala do Budismo, ‘e um budista e assim por diante…. Bom, ouvindo essas aulas ao longo da viagem e estando ao mesmo tempo em frente a estas religioes, convivendo com pessoas de cada uma delas… na Africa, nos paises que passamos boa parte era muculmana, no sudeste asiatico obviamente budista e na India hindu.

E nessa caminhada percebi que nao precisava mais de novas abordagens espirituais como toda hora surgem na nossa frente, nem de livros de auto-ajuda, nem de “ OSegredo”, nem de psicologia, nem de retiros malucos, nem de nada…. eu queria entender o basico e ter uma visao mais inteira do mundo, nao varios pedacos, queria conseguir conectar religiao com historia com sociedades com o homem. Eu nao queria mais tirar o que me interessava de todos os conselhos de ser melhor, nem de meditar por meditar… Eu queria Deus, essa era a minha falta! E eu fui descobrir nessa viagem, olhando para esses povos, com dinheiro ou sem dinheiro, firmes no seu amor e na sua fe, que era isso que eu precisava.

Eu nunca tinha sentido a fe. Eu nunca consegui acreditar em algo que nao entendia. E nesse sentido as aulas foram perfeitas para mim, pois eu pude comecar a entender Deus, religiao e o homem atraves do estudo; atraves, primeiramente, do intelecto, que ‘e mais meu jeito de aprender.

Hoje descobri minha falta: eu nao tinha nenhuma relacao com Deus. Advinha quem ‘e o Guru que descobri que mais fala de mim? Jesus Cristo. Que grande ironia do destino. Precisei viajar o mundo para voltar as origen

Pra pensar:

Este chamado que ouvimos rumo a um tipo de vida, esta voz ou grito imperativo que se eleva de nosso intimo mais radical, ‘e a vocacao. Na vocacao ‘e proposto ao homem, nao imposto, o que ele deve fazer. E a vida adquire, por isso, o carater da realizacao de um imperativo. Est’a em nossas maos querer ou nao realiza-lo, ser fieis ou infieis ‘a nossa vocacao. Mas est’a, quer dizer, aquilo que verdadeiramente devemos fazer, nao est’a em nossas maos. Chega at’e nos inexoravelmente proposto. Eis porque toda a vida humana tem uma missao.

Ortega y Gasset

Encontro!

Vida de ashram!

abril 28, 2010

Pra quem nao sabe direito o que ‘e um ashram, vale uma breve explicacao. Ashram ‘e um lugar sagrado para os hindus, morada de algum Guru/Swami vivo ou falecido. Geralmente funciona por doacao e oferece um programa de yoga, meditacao e estudos vedicos durante boa parte do ano. Os funcionarios que ajudam a manter o ashram, na sua maioria trabalham praticamente de graca, apenas para ter a oportunidade de morar na casa de seu Guru.

Alguns buscam um ashram somente para fazer um programa de yoga e meditacao para conhecer; outros simplesmente para ficar no ashram e fazer seu proprio retiro espiritual; e outros ainda vao para conhecer o Guru.

No Pool Chatti Ashram haviam passado por la quatro grandes Swamis, pois o ashram completava quase 130 anos, O mais importante deles, tinha seu corpo enterrado ali e sua alma protegia o lugar (isso tambem ‘e bastante comum nos ashrams). A diferenca entre um Guru e um swami ‘e o desenvolvimento espiritual, o Swami est’a acima do Guru.

Portao para natureza!

O grande diferencial do Pool Chatti na verdade nao eram seus mestres vivos, apesar de hoje contar com mais dois Swamis, mas a area verde ao redor e a atmosfera do lugar. Ao contrario da maioria dos ashrams de Rishikesh, este ficava a 6km da barulhenta Laxmanjula e era cercado por uma natureza tal que calava as mentes mais exitadas. O sagrado Ganges passava em frente, formando diversas prainhas isoladas a escolher ao longo do rio, recheadas de pedras enormes, alem de cachoeiras.

Caminhada diaria!

A comida do ashram (obviamente vegetariana) era baseada na medicina ayurvedica, pois os Swamis que ali moraram eram doutores em ayurveda. A comida era simples e saborosa, mas a escolha dos alimentos dava prazer em comer. Cada um recebia uma bandeja que era de sua responsabildiade ate o ulitmo dia. Sentia o meu corpo gritando: “ obrigada Bianca, podia ser sempre assim!” A minha pele parecia uma seda, meu intestino funcionava maravilhosamente, meu estomago estava leve, apos as refeicoes nao me sentia fadigada e a minha mente estava serena e silenciosa. E mesmo comendo muito bem, perdi peso.

Refeicoes!

Lembro da minha sensacao ao chegar quando largamos as mochilas no fim de tarde do dia 13/abril. O Pool Chatti era absolutamente silencioso, no maximo conseguiamos ouvir o barulho do Ganges, era formado por um conjunto tres predinhos baixinhos, onde no centro de todos ficava o Templo e um lugar para os pombos. Eles tinham 3 cachorrros encontrados na rua que cuidavam e se alimentavam tambem das comidas ayurvedas, e um lugar especial para os pombos dormirem a noite. Duas familias de indianos que nao tinham onde morar, tambem ficavam la.

Area interna!

Templo!

Fomos recebidas pela indiana que coordena o ashram e sua assistente. Marlinda veio para fazer seu proprio retiro e eu, num primeiro momento, fazer o programa de yoga, meditacao e estudos vedicos e depois seguir sozinha. O programa comecava no dia seguinte as 15:00h. Com a chave do meu quarto em maos, fui conhecer o lugar que passaria dias. Era um quarto simples, limpo e aconchegante, com banheiro fora. Pensava: “meu Deus, finalmente um lugar para digerir a viagem.”

Os meus companheiros de jornada comecavam a chegar. Meus vizinhos de andar eram um ingles bem bacana, ateu e que ambiguamente buscava meditacao, yoga e paz. Do lado esquerdo uma americana que mais parecia uma boneca quando comecava a falar (era como se fosse ligada a pilha e tudo saia com a mesma voz e trejeitos) tb ateia, veio para fazer o programa e dar uma alongada, como disse. No mais, o restante do meu grupo era mais ou menos, no sentido de que nenhum deles sabia direito o que estava fazendo ali ou tinha uma busca espiritual que os movia, a maior parte queria dar uma alongada nos musculos, infelizmente. Com excessao de uma canadense que causou certo frisson, pois ela nao gostou da assistente americana.

Quando ainda estava buscando qual ashram ficar na India, amigos me recomendaram alguns Gurus vivos, como o Sai Baba ou a Ama, por exemplo, mas nenhum deles me tocava. Sentia atracao pelo Maharish e alem dele ninguem mais. Foi quando recebi uma otima recomendacao de um ashram orientado para Jnanas-Yogas (tipo de pessoa que se une a Deus atraves do conhecimento, da filosofia perene, do estudo) com um grande Swami vivo, mas seis meses antes da data que gostaria ja estava lotado para ve-lo. Fim das contas, contei com o destino, pois sabia que seria encaminhada de uma maneira ou outra para o ashram que precisava. E foi a melhor coisa que fiz, pois quando chegou a epoca de ir eu nao queria mais conhecer nenhum Guru/Swami, pois havia encontrado o meu (*conto mais tarde). O Pool Chatti entao surgiu de ultima hora atraves da Marlinda e como ela havia estado la era uma referencia forte. E como aquelas obras dos nossos anjos guardioes, o lugar foi perfeito para mim.

A rotina do programa era bastante intensa. As 5:30h tocava o sino (do templo que havia dentro do ashram) nos acordando; 06:00h comecavamos a meditar; 06:50h nos dirigiamos para o patio para limpeza do nariz para os exercicios de respiracao (colocavamos uma especie de mini-regador com a quantidade de um copo cheio de agua quentinha numa narina para que a agua escorresse pela outra e trocavamos); 07:00h comecavam os exercicios de respitacao (pranayama) e yoga ate as 09:00h quando tomavamos nosso cafe da manha; 10:15h era hora de carma (acao) yoga onde limpavamos nossos banheiros, quarto, colhiamos alface na horta para o almoco; 10:30h comecava a caminhada contemplativa ate 12:30h almoco; as 15:00h leitura e discussao com a professora de yoga que vivia no ashram e sua assistente; 16:00h yoga novamente ate 17:30h, quando tinhamos tempo livre ate as 19:00h, horario da reza em frente ao templo e 19:45h jantar; 20:30h mais uma meditacao, antes do horario de dormir; 21:00h todos deviam se encaminhar para seus quartos.

A hora que mais gostava era a hora da reza. Os swamis comecavam a purificar o templo por dentro, com agua e incenso, e todos as pessoas que estavam la, fosse hospedes ou nao, tocavam os sinos ininterruptamente, eram varios, os cachorros comecavam a uivar ate os swamis comecarem a rezar. Apos todos nos sentavamos numa roda, pegavamos os chocalhos e tambores para comecar a rezar. Recebiamos um papel para acompanhar. E todos cantavam/rezavam juntos enquanto os sol se punha. Esse momento para mim era magico! Para todos que estavam la, acredito.

Eles recomendavam nao falar durante o programa, somente das 13:00 as 16:00h. Como a Marlinda estava la e passaria somente uma semana, o tempo certinho do programa, e depois nao sabia quando a veria de novo, fiz a escolha consciente de falar somente a noite com Marlinda para aproveitar sua presenca, nos demais periodos me mantinha em silencio e nao sentia falta nenhuma de falar. Na verdade, nao sentia vontade nem de falar a noite, mas queria estar com a Marlinda. Meu grupo quase nao ficava quieto, falavam o tempo todo, ate nas refeicoes que era terminantemente proibido. Depois do jantar eu e Marlinda conversavamos no terraco vendo as estrelas exitadas com as nossas descobertas espirituais, ela estava chegando a mesma conclusao que eu (* conto mais tarde).

Todos os dias, no horario livre depois da segunda yoga do dia, corria para me banhar no Ganges. A temperatura era mais ou menos 16 graus, ou seja, um freezer. Todo mundo pulava e saia correndo. Eu demorava longos 20 minutos para entrar e depois de submersa, ficava quase uma hora ali, sentindo a perfeicao da fisica atuando, tornando profundamente confortavel a temperatura do meu corpo. Dali seguia para um pequeno rio em frente, ja bem mais quente, parecendo que eu tinha saido da piscina para sauna. Me secava sobre uma grande pedra com os olhos fechados curtindo o silencio, sentindo a energia notavel da pedra e a atmosfera indescritivelmente Sagrada do lugar.

Do lado do Ganges!

O rio quente e o Ganges!

Ao fim do setimo dia, o programa acabou e a Marlinda foi embora. O programa foi ok, nada demais, mas suficiente para o que eu precisava – me organizar e centrar. Mas tudo foi muito “armado” no bom sentido, pois nem a indiana nem a americana me tocaram, nao aprendi quase nada com nenhuma das duas, na verdade gostei do xerox entregue para as aulas de leitura e discussao, mas so. O grupo apesar de legal, tambem nao houve ninguem que me identificasse. E nesse sentido acho que foi tudo armado, porque nao havia nada que me estimulasse nas pessoas, o que geralmente acontece comigo, pois gosto muito de me relacionar, gosto do outro, e isso fazia com que eu me voltasse mais ainda para mim e nao tivesse nem uma influencia externa na minha caminhada ali no Pool Chatti.

Quando a Marlinda se foi eu me calei de vez. Aproveitei para fazer minha propria pratica, tomar banhos e mais banhos no Ganges, e caminhar sem pretencao ate achar um lugar bonito a margem do rio para sentar e contemplar a vida, a natureza, as transformacoes que a viagem estava me propondo. O silencio foi tao profundo na minha alma, que cheguei a questionar se deveria um dia ir embora dali. E o que tinha na vida fora do ashram que me fazia voltar? A Lalita, a indiana, foi questionada pelos alunos porque ela estava ha 21 anos no ashram e nunca tinha saido dali, nao tinha familia, etc. Ela respondeu: “eu sou casada com Deus!”

 

O Rajastao ‘e um estado ao noroeste da India que contem uma cultura muito forte. Grande parte da nossa imaginacao sobre o pais sae dali. Entre as mulheres estao os saris coloridissimos e argolas largas no nariz; com os homens seus turbantes de cores vibrantes que identificam casta, religiao, alem de diversas outras tradicoes, que pertencem. As cores variam entre branco, rosa-pink, amarelo florecente, laranjado e colorido. O mesmo ocorre com os saris.

No Rajastao passamos por Udaipur, cidade com um lindo lago no centro juntamente com o imponente Palacio do Maraja. Passamos varios dias largados nos cafes e curtindo a beleza do lago nos finais de tarde no terraco de um gostoso restaurante.

Palacio do maraja!

Vista do restaurante!

Udaipur

De la seguimos para Jodpur, a cidade azul aos arredores de um imponente forte e de mais outro palacio de um maraja. Sujeira, buzinas e vacas faziam parte do cenario. O calor estava perto dos 40 graus e eu nao aguentava mais a bagunca da India. Comemoramos nosso aniversario de casamento ao mesmo tempo que comemoramos a Pascoa. Haviamos resolvido seguir a quarentena, entao no dia 04 aproveitei para degustar meu primeiro pedaco de carne e tomar uma cerveja. O Gui preferiu manter-se sem carne e alcool ate sairmos da India.

Vista para o Forte

Palacio de outro maraja!

Quer comprar saris?

Jodpur - cidade azul!

No Forte!

Assistimos um filme maravilhoso de bollywood no cinema e deu ate para chorar. Como os filmes sao longos, depois de uma hora e meia tem intervalo e deu para aproveitar e espichar as pernas. Quero tentar baixar o filme pela internet quando voltar ao Brasil e ver de novo. Uma historia de amor daquelas dos tempos de nosso avos. Achei muito bonito ver como os indianos tem ainda um coracao ingenuo e pouco moderno, pena que alguns filmes de bollywood ja estao se contaminando e a nova geracao de jovens indianos estao ficando bem mais ocidentalizados.

Historia de amor!

De Jodpur resolvemos encarar Jaisalmer, a cidade ao lado do deserto Thar, mesmo sabendo do calor infernal que fazia. Foi uma otima decisao. Pois conseguimos encontrar um hotel baratissimo com piscina para passarmos o dia na agua e emendarmos um passeio no deserto. Conhecemos um casal portugues que estava fazendo a India de moto (que inveja!), foram nossas companhias por alguns dias. Conversavamos ao modo bem latino, dando para matar a saudades de casa, eles eram muito legais. Como nunca tinha estado no deserto e nem andado de camelo, estava curiosa de como seria a experiencia. Um casal ingles bem sem graca nos acompanhou.

O passeio de camelo foi ultra desconfortavel como todo mundo dizia, nao consigo entender porque os camelos andam daquele jeito tao insuportavel, podia ser tao legal! Como um cavalo, por exemplo, mas nao, dependendo das horas de passeio, voce pode passar alguns dias lembrando do camelo. Como estava num dia muito bom comigo, procurei me entregar ao ritmo do camelo e consegui ate meditar em alguns periodos.

Final de tarde chegou, o calor foi embora e fomos encontrar um lugar para dormir. A noite o guia fez uma comida bem gostosa e jantamos ao redor da fogueira. O sol estava estrelado e o silencio do deserto era fascinante. Para mim o deserto proporciona (nas horas de pouco calor)  um contato com Deus e  uma astmosfera sagrada que poucos lugares possuem. O silencio, o cenario todo igual, a distancia da areia e do ceu reduzida (pelo menos parece…) dao uma sensacao de que se existe um simbolo do purgatorio na terra, acho que ‘e o deserto. A sensacao ‘e de que so existe voce e Deus, cara a cara, prontos para dialogar. Amei!

Seguimos para Jairpur, somente para nao irmos direto para Delli, enfrentando muitas horas de trem. Conhecemos um local construido por mais um maraja com varios aparelhos de medicao astrologica. Ele adorava astrologia e os aparelhos eram capazes de dizer a hora do dia com precisao. Aproveitei para tirar foto do Grande Signo do Zodiaco.  Descansamos, passeamos, e a noite embarcamos para Haridwar, ao lado de Rishikesh, unica forma de chegar ate la. Estava muito empolgada, pois encontraria minha amiga Marlinda holandesa que estava me esperando e depois seguiria finalmente para o ashram que praticamente desde que comecei a viajem sonhava.

Jairpur - aparelhos de medicao astrologica.

Cena comum!

A chegada em Haridwar foi horrivel. A viagem que seria de 10 horas, foi de 15 e nos estavamos na ultima poltrona do onibus, quase nem mexia rsrs… Pegamos um transito infernal para entrar na cidade pois estava tendo o Kumba Mela, um festival importantissimo para os indianos, que ocorre a cada 4 anos, mas a cada 12, ‘e sagradissimo. Nos chegamos no dos 12 anos! Haviam 15 milhoes de pessoas na cidade, voces conseguem imaginar o que ‘e isso numa cidade minuscula? Por favor, parem um segundo e tentem. Eu nao conseguia ate ver com meus proprios olhos.

Chegada em Haridwar!

Nas ruas de Rishikesh!

Ponte para o ashram!

Yogis!

Sol, acampamentos para todos os lados e mar de pessoas compunham o cenario. Depois de muitas horas conseguimos uma bicicleta que nos levasse ate a estacao de onibus para Rishikesh a 30 min dali. Desembarcamos so depois de 4 h. Na chegada pilhas de pessoas tentavam descer do onibus e outras pilhas subir, resultado? Briga, acabei tendo que sair pela janela do motorista para nao levar um soco. Relembrando, nos saimos de Jairpur nove da noite e sete horas tambem da noite estavamos descendo em Rishikesh. Eu queria gritar e explodir pelo menos 800 milhoes de indianos, eu queria explodir todos os autorikshas, eu queria desaparecer com todas aquelas pessoas e queimar todas as buzinas dos carros numa grande fogueira… Me controlava para nao parecer uma louca varrida e comecar a gritar descontroladamente. Estava com fome (tinhamos tido uma parada para comer as sete da manha), cansada, suada, suja, fedida, grudenta e muito irritada. Acabamos num quarto de hotel luxuoso ao nosso padrao, com ar condicionado e edredon macio, sala de estar e banheira. Aos poucos fui voltando ao normal, principalmente depois de comer um pratao de chicken curry com gosto de comida de mae.

No dia seguinte combinamos de encontrar a Marlinda, saimos caminhando ate o Freedom Cafe, mas como nao sabiamos direito onde era e os indianos nunca admitem nao saber uma informacao, nos mandaram para outro lado. Fim das contas, olhei para o Gui e disse: “vou voltar para o hotel, manda um abraco para Marlinda!” Nao conseguia mais caminhar por aquelas ruas entupidas de pessoas, buzinas e autorikshas barulhentos, exalando gasolina queimada.

Grande Marlinda!

Acabei num lugar de massagem ao lado do hotel me informando sobre os horarios-precos e engatei uma conversa com uma inglesa, que tambem estava tentando ver como funcionava. Nao me lembro o que ela me perguntou, mas comecei a chorar dizendo: “ nao aguento mais a India!”  Ela foi muito legal e acabou me acompanhando novamente no meu chicken curry no hotel. Depois se juntou a nos, um casal (ela argentina e ele polones) e eu e a argentina engatamos uma longa discussao, pois ela era ateia e dizia que gostava de Buda porque ele tambem era ateu. Essa ‘e a pior ignorancia que um ignorante pode dizer. Buda nunca disse que depois do silencio da mente nao havia nada, ele so nao chamou de Deus, mas deixou bem claro que havia uma coisa belissima logo apos e que era a natureza de todas as coisas vivas… Bom, discussao vai e vem, meus olhos sao tapados e advinhem quem era? A Marlinda!!! O Gui continuou o bate papo com o casal enquanto eu e a Marlinda falavamos sem parar. Ela que tambem estava fazendo uma viagem de um ano, e queria viajar pelo resto da vida, muito mais ate do que eu, enfrentou os mesmos sintomas de stress absoluto na India e pensou seriamente em voltar para casa. Foi so no ashram em Rishikesh que ela se recuperou, mas ao sair se deparou com os milhares de devotos do KumbaMella e perdeu toda paz adquirida. Resultado? Estava voltando para o ashram junto comigo. Me preparava para me despedir do Gui, pois dia seguinte seguiria com Marlinda. Era a primeira vez dentro da viagem que eu e o Gui nos separariamos. Como estava ainda bem estressada, nao sabia direito mais porque estava fazendo aquilo, mas sabia que tinha que ir!

O Rajastao ‘e um estado ao noroeste da India que contem uma cultura muito forte. Grande parte da nossa imaginacao sobre o pais sae dali. Entre as mulheres estao os saris coloridissimos e argolas largas no nariz; com os homens seus turbantes de cores vibrantes que identificam casta, religiao, alem de diversas outras tradicoes, que pertencem. As cores variam entre branco, rosa-pink, amarelo florecente, laranjado e colorido. O mesmo ocorre com os saris.

No Rajastao passamos por Udaipur, cidade com um lindo lago no centro juntamente com o imponente Palacio do Maraja. Passamos varios dias largados nos cafes e curtindo a beleza do lago nos finais de tarde no terraco de um gostoso restaurante.

De la seguimos para Jodpur, a cidade azul aos arredores de um imponente forte e de mais outro palacio de um maraja. Sujeira, buzinas e vacas faziam parte do cenario. O calor estava perto dos 40 graus e eu nao aguentava mais a bagunca da India. Comemoramos nosso aniversario de casamento ao mesmo tempo que comemoramos a Pascoa. Haviamos resolvido seguir a quarentena, entao no dia 04 aproveitei para degustar meu primeiro pedaco de carne e tomar uma cerveja. O Gui preferiu manter-se sem carne e alcool ate sairmos da India.

Assistimos um filme maravilhoso de bollywood no cinema e deu ate para chorar. Como os filmes sao longos, depois de uma hora e meia tem intervalo e deu para aproveitar e espichar as pernas. Quero tentar baixar o filme pela internet quando voltar ao Brasil e ver de novo. Uma historia de amor daquelas dos tempos de nosso avos. Achei muito bonito ver como os indianos tem ainda um coracao ingenuo e pouco moderno, pena que alguns filmes de bollywood ja estao se contaminando e a nova geracao de jovens indianos estao ficando bem mais ocidentalizados.

De Jodpur resolvemos encarar Jaisalmer, a cidade ao lado do deserto Thar, mesmo sabendo do calor infernal que fazia. Foi uma otima decisao. Pois conseguimos encontrar um hotel baratissimo com piscina para passarmos o dia na agua e emendarmos um passeio no deserto. Conhecemos um casal portugues que estava fazendo a India de moto (que inveja!), foram nossas companhias por alguns dias. Conversavamos ao modo bem latino, dando para matar a saudades de casa, eles eram muito legais. Como nunca tinha estado no deserto e nem andado de camelo, estava curiosa de como seria a experiencia. Um casal ingles bem sem graca nos acompanhou.

O passeio de camelo foi ultra desconfortavel como todo mundo dizia, nao consigo entender porque os camelos andam daquele jeito tao insuportavel, podia ser tao legal! Como um cavalo, por exemplo, mas nao, dependendo das horas de passeio, voce pode passar alguns dias lembrando do camelo. Como estava num dia muito bom comigo, procurei me entregar ao ritmo do camelo e consegui ate meditar em alguns periodos.

Final de tarde chegou, o calor foi embora e fomos encontrar um lugar para dormir. A noite o guia fez uma comida bem gostosa e jantamos ao redor da fogueira. O sol estava estrelado e o silencio do deserto era fascinante. Para mim o deserto proporciona (nas horas de pouco calor)  um contato com Deus e  uma astmosfera sagrada que poucos lugares possuem. O silencio, o cenario todo igual, a distancia da areia e do ceu reduzida (pelo menos parece…) dao uma sensacao de que se existe um simbolo do purgatorio na terra, acho que ‘e o deserto. A sensacao ‘e de que so existe voce e Deus, cara a cara, prontos para dialogar. Amei!

Seguimos para Jairpur, somente para nao irmos direto para Delli, enfrentando muitas horas de trem. Descansamos, passeamos, e a noite embarcamos para Haridwar, ao lado de Rishikesh, unica forma de chegar ate la. Estava muito empolgada, pois encontraria minha amiga Marlinda holandesa que estava me esperando e depois seguiria finalmente para o ashram que praticamente desde que comecei a viajem sonhava.

A chegada em Haridwar foi horrivel. A viagem que seria de 10 horas, foi de 15 e nos estavamos na ultima poltrona do onibus, quase nem mexia rsrs… Pegamos um transito infernal para entrar na cidade pois estava tendo o Kumba Mela, um festival importantissimo para os indianos, que ocorre a cada 4 anos, mas a cada 12, ‘e sagradissimo. Nos chegamos no dos 12 anos! Haviam 15 milhoes de pessoas na cidade, voces conseguem imaginar o que ‘e isso numa cidade minuscula? Por favor, parem um segundo e tentem. Eu nao conseguia ate ver com meus proprios olhos.

Sol, acampamentos para todos os lados e mar de pessoas compunham o cenario. Depois de muitas horas conseguimos uma bicicleta que nos levasse ate a estacao de onibus para Rishikesh a 30 min dali. Desembarcamos so depois de 4 h. Na chegada pilhas de pessoas tentavam descer do onibus e outras pilhas subir, resultado? Briga, acabei tendo que sair pela janela do motorista para nao levar um soco. Relembrando, nos saimos de Jairpur nove da noite e sete horas tambem da noite estavamos descendo em Rishikesh. Eu queria gritar e explodir pelo menos 800 milhoes de indianos, eu queria explodir todos os autorikshas, eu queria desaparecer com todas aquelas pessoas e queimar todas as buzinas dos carros numa grande fogueira… Me controlava para nao parecer uma louca varrida e comecar a gritar descontroladamente. Estava com fome (tinhamos tido uma parada para comer as sete da manha), cansada, suada, suja, fedida, grudenta e muito irritada. Acabamos num quarto de hotel luxuoso ao nosso padrao, com ar condicionado e edredon macio, sala de estar e banheira. Aos poucos fui voltando ao normal, principalmente depois de comer um pratao de chicken curry com gosto de comida de mae.

No dia seguinte combinamos de encontrar a Marlinda, saimos caminhando ate o Freedom Cafe, mas como nao sabiamos direito onde era e os indianos nunca admitem nao saber uma informacao, nos mandaram para outro lado. Fim das contas, olhei para o Gui e disse: “vou voltar para o hotel, manda um abraco para Marlinda!” Nao conseguia mais caminhar por aquelas ruas entupidas de pessoas, buzinas e autorikshas barulhentos, exalando gasolina queimada.

Acabei num lugar de massagem ao lado do hotel me informando sobre os horarios-precos e engatei uma conversa com uma inglesa, que tambem estava tentando ver como funcionava. Nao me lembro o que ela me perguntou, mas comecei a chorar dizendo: “ nao aguento mais a India!”  Ela foi muito legal e acabou me acompanhando novamente no meu chicken curry no hotel. Depois se juntou a nos, um casal (ela argentina e ele polones) e eu e a argentina engatamos uma longa discussao, pois ela era ateia e dizia que gostava de Buda porque ele tambem era ateu. Essa ‘e a pior ignorancia que um ignorante pode dizer. Buda nunca disse que depois do silencio da mente nao havia nada, ele so nao chamou de Deus, mas deixou bem claro que havia uma coisa belissima logo apos e que era a natureza de todas as coisas vivas… Bom, discussao vai e vem, meus olhos sao tapados e advinhem quem era? A Marlinda!!! O Gui continuou o bate papo com o casal enquanto eu e a Marlinda falavamos sem parar. Ela que tambem estava fazendo uma viagem de um ano, e queria viajar pelo resto da vida, muito mais ate do que eu, enfrentou os mesmos sintomas de stress absoluto na India e pensou seriamente em voltar para casa. Foi so no ashram em Rishikesh que ela se recuperou, mas ao sair se deparou com os milhares de devotos do KumbaMella e perdeu toda paz adquirida. Resultado? Estava voltando para o ashram junto comigo. Me preparava para me despedir do Gui, pois dia seguinte seguiria com Marlinda. Era a primeira vez dentro da viagem que eu e o Gui nos separariamos. Como estava ainda bem estressada, nao sabia direito mais porque estava fazendo aquilo, mas sabia que tinha que ir!

A beleza das obras Sacras!

março 29, 2010

Chegamos a Jalgaon e logo fizemos amigos, fechamos um taxi para as ruinas de Ajanta e Eloara. Tratavam-se de 3 tibetanos exilados na India, um casal e uma amiga. Quando seguimos viagem, nosso amigo comecou a recitar seus mantras ate chegarmos em Ajanta 1,5h depois. Era emocionante de ver!

Ajanta ‘e muito bonita, sao uma sequencia de templos budistas cravados na pedra, mas ainda mais bonito era ver a devocao do amigo tibetano frente as esculturas de Buda. O calor estava super forte, mas nao diminuia nossa exitacao frente a beleza das obras.

Quando chegamos em Elora apos o almoco, nossa expectativa era ainda maior, porque diziam que nem se comparava a Ajanta. Mas surpreendeu, foi muito alem do que esperavamos. A harmonia dos templos, agora tambem hindus e janeistas, os desenhos na parede e a perfeicao dos deuses esculpidos na pedra, eram chocantes. Eu e o Gui nao conseguiamos falar uma palavra um para o outro. E nosso amigo estava completamente emocionado por estar ali.

No final, caminho de volta para o hotel, ja de noite, o tibetano devoto nos disse que fomos abencoados por Buda, portanto seriamos muito felizes, haviamos estado frente a frente a lugares sagradissemos de pereguinacao budista. Voltamos sorrindo e curtindo a paisagem, escutando a musica indiana que tocava no toca fita do motorista embalados ao som dos mantras recitados ininterruptamente pelo tibetano. Ate chegarmos  no hotel e eu comecar a sentir umas coceiras insuportaveis nos bracos que durante a noite se tornaram bolas e parecia que meus bracos estavam borbulhando por dentro. Peguei uma alergia da comida e me cocei por tres dias ininterruptos ate chegar ao Rajastao.

Purificacao!

março 27, 2010

Os dias no ashram do Ramana foram bastante intensos. Apesar de tranquilos do ponto de vista da nossa rotina que basicamente consistia em participar dos pujas e descansar no ashram, o contato com os ensinamentos de Mararish foram aos poucos mexendo comigo.

Conhecemos um casal russo que mora em Nova Yorque ja ha muitos anos que foram otimas companhias para gente durante todo periodo que estivemos la. Eles sao praticantes de sufismo e levam uma vida de certa aspiracao espiritual que me encantou encontra-los e poder partilhar desses assuntos. Conhecemos sempre mochileiros muito legais, sao sempre boas experiencias em geral, mas sao raros os que eu posso conversar sobre isso. A Marinda holandesa foi uma delas, pois tambem escolheu essa viagem de um ano pelo mundo em partes por essa razao. A Silvia, alema, apesar de nao ter vindo viajar por isso, foi uma pessoa que pude partilhar bastante em Myamar sobre meus pensamentos a respeito do que estava descobrindo e que me ouviu como poucos e aproveitou para ela. Enfim, tudo para dizer que foi bom encontrar os russos e poder conversar sobre essa aspiracao.

Um dia resolvemos juntos participar de um ritual de troca de energia, onde tinha uma professora que havia aprendido o tal ritual com um casal hindu, que ensina que atraves da troca de energia positiva entre as pessoas podemos melhorar o mundo (assassinando um pouco teoricamente o sentido daquele ritual, pois a tal professora nao explicou bem). Mas fomos para conhecer! Eu gostei da experiencia, mas achei a explicacao da professora muito vazia e pobre para poder ver valor naquilo. Primeiro porque nao acredito que podemos melhorar o mundo de forma definitiva, segundo porque nao acho que o mundo ‘e mal, acho que ‘e bom e mal, pois todos os valores do mundo carregam sempre dois aspectos ambiguos, terceiro porque nao acho que ‘e nosso papel.  Entao para mim, ja na largada a experiencia nao era minha cara.

A tal professora disse que apos o ritual alguns sentimentos fortes poderiam vir a tona e que era para gente nao julga-los, simplesmente deixar vir. E veio. Nao sei se pelo ritual ou porque eu ja estava ha tempos para explodir internamente e chegou o terremoto. Faziam varios dias que estava cansada fisicamente da rotina da viagem, de me mudar, de fazer a mala, de conhecer novos lugares, alem de internamente estar atravessando mudancas permanentes ao mesmo tempo que conhecia um novo lugar. E estava faltando espaco para trabalhar com duas coisas tao contrarias, o processo de digerir e de ingerir.

No dia seguinte depois do templo explodi, gritava de cansaco e nao queria mais sair do lugar, queria ficar no ashram parada por meses. O russo tambem concidentemente ou nao teve um acesso forte apos o ritual. Eu e o Gui conversamos bastante e tentamos encontrar um caminho que fosse bom para os dois, afinal essa viagem ‘e nossa  e a minha explosao serviu para enxergar melhor os meus limites e tambem para nos reorganizarmos. Mas precisavamos seguir, pois queria chegar ate meados de abril em Rishikesh, onde finalmente ficaria no ashram que tinha reservado.

Seguimos entao para Hampi, uma cidade cercada por ruinas sagradas de tirar o folego. Alugamos uma moto e fomos conhecer o lugar. Final do dia cheguei no hotel me sentindo fraca, havia comido algo que me fez mal e acabei passando 5 dias internada no quarto do hotel. Podia tomar remedio, mas nao sentia vontade, queria que meu corpo fizesse o processo por si mesmo. Sabia que no fundo aquilo era porque eu precisava parar quieta e nao so ter um acesso de choro e ficar por isso mesmo.

Passei 5 dias lendo os tres livros do Ramana e as reacoes que sentia eram muito fortes. Meditei e rezei todos os dias e sentia meu corpo e mente se reorganizando, uma sensacao de limpeza e purificacao.  Minha mente ao final dos cinco dias estava quietinha, quase nao tinha coragem mais de falar, tamanha era a harmonia que sentia, corpo-mente-alma todo mundo falando a mesm lingua, pelo menos ate Ajanta e Elora.

De Tanjore seguimos para Tirunavamalai. Estava em duvida se encararia a viagem ate la, pois mudariamos bastante nossa rota e nao seria nem um pouco confortavel, pois a cidadezinha ficava um pouco no meio da nada. Mas a minha motivacao era enorme, pois la fica o ashram de Ramana Maharish, um santo hindu que morreu ao final dos anos 40 e que atingiu a iluminacao muito cedo, perto dos 20 anos e compartilhou sua experencia de uma forma muito objetiva com todos.

Minha curiosidade por Ramana iniciou quando ainda estava em Curitiba um pouco antes de sair para viajar e no centro onde faco yoga havia um cartaz na porta, com uma foto do Mararish escrita: “ Quem sou eu?”. Um indiano, devoto dele estaria em Curitiba para falar um pouco de seus ensinamentos ao redor desta pergunta central que aflige todos os que tem uma busca espiritual latente. Seria um final de semana de bate-papo e eu paguei o curso e de ultima hora nao consegui ir, pois estava atolada de trabalho para entregar na segunda-feira, o meu ultimo prazo. Aquilo ficou no meu coracao e pensei um dia ainda volto a pensar no Ramana… Mais tarde, escutando as aulas de hinduismo, meu professor citou ele como uma figura serissima e respeitada, inclusive dentre a bibliografia recomendada sobre hinduismo estao os ensinamentos de Sri Ramana Mararish.

Entao la fomos nos. Pegamos o onibus em Tanjore ate uma cidadezinha ha duas horas dali, onde havia outro onibus que seguia direto para Tirunavamalai. Quando chegamos na rodoviaria local me recordei da Africa. Era um lugar decadente, sujo, recheado por vacas e suas necessidades espalhadas por todos os cantos e ventos de mosca que quase te derrubavam. Como nao tinha nem um estrangeiro no lugar, fomos atracao de circo. Todo mundo nos olhava e todos queria nos conhecer. “ Which country?” E nao havia onibus direto como tinham nos falado, teriamos fazer nova conexao numa outra cidade que sim seguia para Tirunavamalai. Esperamos mais uma hora e chegou o nosso onibus podrasso 2.

Com as comidas na mao recem compradas pelo Gui, a caminho do onibus que estava ja saindo, ele literalmente chuta seu pe sobre uma bosta de vaca recem feita. Ele estava de chinelo! Com o onibus saindo, o jeito foi arrancar os jornais que enrolavam nossas samussas para limpar o pe e jogar com cuidado a agua que tinhamos para beber durante a viagem. Fomos com o pe do Gui meio fedendo ate a proxima cidade ha 3 horas dali.

Faco questao de compartilhar essa experiencia surreal para contar que essas sao coisas que so “ o Oriente faz para voce”. Voce passa por situacoes desumanas em termos de conforto, limpeza, organizacao em alguns momentos da viagem, que voce nunca mais vai esquecer na vida. Uma viagem pode acabar com sua cara cheia de terra de tanta poeira como na Africa ou pisar na ditucuja na India e quase se desequilibrar na sua caminhada pelas rajadas de moscas. *Sugiro lerem esses post da Africa, ‘e bem engracado, tem as fotos (esta no tambemsai do blog do Gui).

Quando chegamos na proxima cidade ja estava anoitecendo e achamos melhor dormir por la mesmo para seguirmos no outro dia. So achamos um hotel meia sola, fedidinho, daqueles para esquecer que um dia voce dormiu. No final da manha finalmente chegamos em Tirunablablabla. Tentamos ver se haviam quartos vagos no ashram do Ramana, mas estava lotado, entao fomos para um hotel/ashram recomendado por eles, que funciona por doacao. O lugar era simples, mas muito limpo e com quartos espacosos. Mas as tres refeicoes inclusas eram de chorar. Sem gosto, bem bandejao. Foi bom para perder alguns quilos que ha anos fazia dietas que nao alcancavam estas gorduras. Fiquei enxuta!

Passamos cinco dias em Tirunablablabla, e nossa rotina era ir todo dia no ashram, participar do pujas ao longo do dia, as cerimonias sagradas dos brahmanes. Pra quem nao sabe, cerimonias hindus sao sempre regadas com muito incenso, mantras e rezas longas, em geral lindissimas, com ritmos, batuques e tudo mais, para eles o canto e ritmo promovido pelas rezas eleva ao contado com Deus.

Ashram

Bom, mas quem foi Sri Ramana Mararish?

Ramana nasceu em Mandurai, era filho de uma familia brahmane que nunca falou de Deus, muito pelo contrario, so falavam em dinheiro. Maharish era um garoto normal, ate o dia em que recebe a visita de um tio monge mendigante, quando tinha uns 10 ou 12 anos, que dispertou nele muita curiosidade em querer compreender porque o tio vivia daquele jeito. O tio conta que havia uma maldicao feita contra a familia deles ha muitos seculos atras, onde em todas as geracoes sempre haveria um filho monge mendigante ou um esquisofrenico e o tio preferiu se tornar logo monge para garantir. Ramana ficou muito tocado com a historia e ficou pensando nisso por meses, pois nao queria nem ser monge mendigante nem esquisofrenico. Por um periodo longo deixou a historia de lado e um belo dia, quando tinha 16 anos, chegou em casa e nao havia ninguem. Subiu no seu quarto que ficava no sotao e veio repentinamente de uma forma muito forte a ideia da morte e ele sentiu um medo avassalador. Entao pensou: “O que ‘e morrer?” E deitou sobre o chao do quarto dele em posicao de morto e tentou devagar e de forma bem consciente simular para si mesmo sua morte. “E se eu nao escutasse mais? E se eu nao sentisse mais?…” E foi desligando todas as funcoes do seu corpo uma a uma, bem devagar, ate prender bem forte a respiracao e conseguir desligar toda as sensacoes do seu corpo. Mas nao conseguiu desligar o EU que falava dentro dele, e se deu conta de que o EU teria que ser desligado por um outro! Entao se perguntou: “Quem sou eu?; Quem ‘e esse eu?” Como ele nao tinha a resposta, ele comecou a frequentar o templo e rezar muito para descobrir, ficou 2 ou 3 meses fazendo isso, com a ideia da morte na cabeca e chegou a conclusao que nao adiantaria pedir ajuda, que era o tipo de pergunta que ele teria que responder por si mesmo. Juntou todo o dinheiro que ficava numa lata de acucar na cozinha e foi ate a estacao de trem e pediu uma passagem que o levasse o mais longe possivel. Chegou em Trunavamalai, onde avistou o Monte Arunashala, que sem saber, era o monte onde Shiva se transformou numa coluna de fogo que desta nasceu a planta rudraxa que todos os yogis e afins usam no pescoco. Subiu no pe do monte, encontrou uma caverna/templo e la se sentou em posicao de meditacao. Passado um mes e pouco, um homem que cuidava do templo encontrou Ramana em posicao de lotus completamente sem consciencia do corpo, com a boca recheada por formigas. Pensou: “’e um santo!” E comecou a cuidar dele, limpando, dando uma comida bem liquida aos poucos na boca e Ramana continuou la sem se mexer. Uns meses depois, ele disperta, ve um monte de gente dormindo ao redor dele, acha muito movimentado e vai para outro templo mais acima. O homem encontra ele novamente e continua cuidando e os fieis ja sao em numero maior esperando o dia dele acordar. Alguns meses depois, ele disperta de modo definitivo e pede p/ ler os Vedas, o livro sagrado do hinduismo e poucos dias depois chama alguns brahamanes para contar o que compreendeu. Todos ficaram chocados, ele havia compreendido os Vedas numa sentada e ainda muito mais que os proprios brahmanes. Depois disso Ramana fica mais um periodo sem falar com ninguem se comunicando apenas pela escrita ate passar a dar seus ensinamentos a todos. Teve problemas fisicos bem serios pelo periodo que ficou sem se mover na posicao de lotus, e demorou quase tres anos para estar com o corpo em pleno movimento. Com menos de 20 anos de idade ele era um iluminado!

Monte Arunalashala

Bom, a historia de Ramana ja mostra o quanto ele ‘e especial, um santo, pois foi muito intenso e rapido seu processo, uma intervencao divina muito clara. Ele diz que foi o poder de Arunalashala. Comprei tres livros do Ramana no ashram e ‘e impressionante a objetividade dele e a clareza frente a Deus. Nao tem como contar aqui todos os seus ensinamentos, mas pra quem se interessa segue o principal:

Deus ‘e como um ima, a sua presenca ‘e que faz tudo se mover e o mundo continuar existindo, funcionando bem ou mal. Querer controlar a vida ‘e como entrar num trem em movimento com a mala na cabeca!

Iluminacao ‘e libertacao, ‘e a ausencia completa de dualidade, ‘e partilhar da natureza pura de todas as coisas, ‘e partilhar da natureza de Deus. Tanto que durante toda sua vida no ashram, ele nao tinha um quarto para ele, dormia num sofa no meio do templo, no mesmo lugar onde recebia os fies. Pois dizia que essa coisa eu-voces ‘e ilusao, ‘e tudo uma coisa so, ‘e tudo Deus em diferentes manifestacoes.

Mas o principal, que mais gostei, ‘e que ele fala que existem somente dois caminhos para se chegar a iluminacao ou para estar de verdade num caminho espiritual. Se formos ver ele fez a mesma coisa que Buda, so pegou direto o atalho do quem sou eu, enquanto Buda comecou pela questao do sofrimento. Um dos caminhos ‘e o da meditacao, centrado na pergunta quem sou eu, procurando manter-se consciente de que tudo o que vem na sua cabeca: pensamentos, desejos, lembrancas, medos, etc, sao desgastes do suposto eu com o nao-eu, testemunhadas pela mente. Atraves da pratica regular de meditacao voce vai silenciando sua mente e deixando de ser so produto dela, ou seja, deixando de ser voce separado do mundo (eu e nao-eu), para acessar a esse eu puro, que ‘e a sua natureza divina. Ou, o outro caminho, ‘e a devocao, voce reproduzir o comportamento de Deus (de acordo o Deus da sua religiao) e ao copiar voce vai deixando aos poucos de ser voce, isso tambem silencia sua mente e ego e; nesse processo voce chega a iluminacao. ‘E o caminho dos santos cristaos, por exemplo.

Ele nao recomenda que as pessoas abandonem o mundo para meditar, diz que cada um tem seu caminho e sua indentidade espiritual (sua missao) que so pode ser acessada e compreendida por um destes dois processos. Portanto voce nao tem como saber, antes de estar nesse caminho, se isso ‘e para voce. So dentro dele e com os avancos voce podera compreender esta verdadeira identidade.

O processo que nos normalmente fazemos, que ‘e pegar um pouco de cada lugar, de acordo com o nosso “senso critico”, continua dando poder ao nosso ego, ao nosso pseudo eu e no fim das contas voce tem um pseudo suposto-eu melhorado.

Fala que todos que possuem uma aspiracao espiritual devem seguir sua vida normal num desses dois caminhos, procurando nao se identificar com o eu e nao-eu (familia, trabalho, etc). Achar que a verdade est’a em maya. Maya ‘e tudo que passa pelos 5 sentidos… e sao todas aparencias do Deus original, conceito hindu. Vivemos num mundo maya! Nao se identificar nao significa nao amar, nao partilhar, mas saber que no fim das contas, tudo isso um dia acaba e nesse sentido ‘e uma ilusao! Por isso devemos regar, cuidar daquilo que nao acabara, que ‘e nossa alma, como diz meu professor, a alma ‘e o Deus que reside dentro de nos. Os hindus com uma forte busca espiritual costumam, quando seus filhos ja estao casados, e ja tambem tem filhos, abandonar a familia e se dedicar somente a vida espiritual.

Conforme os escritos do Vedanta o “ nosso corpo ‘e como um vaso, parece que o que tem dentro ‘e separado do que tem fora, mas na verdade ‘e so uma ilusao, meditando voce consegue quebrar o vaso e ver que tudo ‘e a mesma coisa!

De Mandurai seguimos para Tanjore, uma outra cidade de um templo ainda mais maravilhoso e patrimonio da Unesco. Fomos ate a rodoviaria decadente local e pegamos um onibus podrasso com uma televisao que nao combinava em nada com o ambiente. Sete horas depois chegamos em Tanjore. Instalados, fomos para o templo. Um choque a obra, simplesmente maravilhosa, toda de pedra e cor de mel que da uma beleza inigualavel. Como o templo ficava bem no comeco da cidade, longe do centro, era arejado, silencioso e com uma gostosa atmosfera de paz que abencoava o lugar.

Aproveitamos entao para participar do ritual junto aos fieis e receber a bencao de Shiva, para conhecer como funciona. Como Shiva ‘e o destruidor eles usam sempre o fogo para representa-lo nos templos. As pessoas formam uma fila para recebe-lo e no altar o brahamane cuidador do templo segura uma pequena labareda de fogo, onde os devotos encostam como se tivessem pegando o fogo para eles e passam sobre a cabeca descendo ate o coracao. Depois o brahmane faz o terceiro olho na testa de cada um em cor vermelha, que ‘e a cor de Shiva. Os mais devotos, usam na testa as tres listras horizontais vermelhas que representam Shiva. Parenteses: quando voce segue vishnu, sao geralmente tres listras verticais e brancas, pois ele ‘e o protetor e mantenedor, lembram?

Gui e o Bramane

Apos o ritual, fomos sentar no gramado do templo para apreciar o fim de tarde. Em poucos segundos estavamos rodeados por indianos nos bombardeando de perguntas, querendo nos conhecer, tirar fotos com a gente e tudo mais. Eles sao muito legais e principalmente curiosos!

Bate papo

Acabei logo engatando uma conversa interessantissima sobre os casamentos na India. Eram duas jovens mulheres, recem casadas, acompanhadas da mae de uma delas. O papo comecou, pois elas se interessaram em saber se eu e o Gui eramos namorados e falamos que eramos casados, mostramos a alianca (la eles usam a alianca no pescoco preso no colar). O fato de sermos casados para eles da todo um respeito diferente e eles ficam alegres de saber que existem jovens ocidentais casados, pois a maioria dos estrangeiros que vem para ca contam que moram junto, e isso ‘e simplesmente uma aberracao aos olhos hindus e ja explico melhor por que.

Nos perguntaram entao se o casamento era arranjado ou por amor. Na India mais de 90% dos casamentos sao arranjados, independente da classe social, pois se as castas sao importantes para sua nocao de identidade e do que voce pode oferecer ao mundo (um brahmane pode oferecer sabedoria, um shatria pode oferecer justica e assim por diante), ‘e natural que como consequencia os casamentos sejam arranjados. Eles simplesmente seguem o mesmo modelo. Vao buscar uma pessoa para se casar que seja da sua casta, da sua religiao, que sao suas principais tradicoes e valores. Nao ter essa preocupacao significa correr o risco de perder sua identidade, valores e tradicoes nessa relacao.

E o trabalho ‘e arduo e demorado, pois arranjar um casamento envolve tempo e dedicacao. A India comporta mais de 100 linguas locais, e o Indi que ‘e a lingua oficial, mas somente 20% da populacao fala como segunda lingua. Essa ‘e primeira barreira, achar um marido que fala sua lingua! Depois se ‘e da mesma religiao e casta; se o sujeito segue o hinduismo, por exemplo, ele devera optar por ser um shivaita ou vishnuita. Entao nao basta ter a mesma religiao, tem que seguir o mesmo Deus principal. O pais tem uma diversidade religiosa imensa: muculmanos, sikhs (que sao uma derivao do hinduismo), janeistas (que o fundador foi contemporaneo de Buda), budistas e cristaos (em menor quantidade), sem falar do zorastrismo, mas este sao realmente num numero pequeno. E por fim, tem que cruzar o mapa astral e ter a aprovacao do guru para ver se a relacao dara certo.

No caso dessas mocas, por exemplo, elas estavam contando a trabalheira para arranjar o marido. Primeiro sao os pais que vao buscar na vila ou regiao onde moram, buscam as boas familias de referencia e ‘e claro a mesma casta e religiao, se falarem a mesma lingua melhor ainda. Depois apresentam o futuro casal um ao outro rapidamente e se eles se gostarem vai o mapa astral para o guru cruzar e dizer se funcionariam juntos, se a relacao seria saudavel para ambos.

Em muitos casos, a noiva so conhece o noivo no dia do casamento, esse costume ‘e mais presente nos casamentos arranjados entre os muculmanos. Quando a moca casa ela passa a morar na casa da sogra com o marido e a ser cuidada por ela.

No caso das duas mocas (mae, filha e cunhada), a filha ainda nao era casada. A cunhada se apaixonou pelo futuro marido, mas ela era muculmana e ele hindu. Como eram da mesma casta e as familias se conheciam, com muito esforco dos dois e muita conversa com os pais, ela se converteu ao hinduismo. Mas esses casos sao excessoes, geralmente diferencas religiosas sao impasses irremediaveis. No caso dos casamentos por amor, como esse, nao adianta mais o guru fazer o mapa astral, pois o casal ja esta apaixonado e o que pode ser visto no mapa acabara por influenciar, entao nao tem mais validade. O mapa deve ser feito quando o amor ainda nao existe.

Dai as meninas me perguntaram: e no seu pais, o que voces precisam ver para poder casar? Quantas religioes voces tem? E linguas? E castas? Disse entao que nao tinhamos nada, que a maioria esmagadora era crista e ainda uma maioria tb esmagadora era catolica, e que so tinhamos uma lingua e nenhuma casta e que ainda podiamos escolher e apresentarmos para nossos pais. Elas falaram: nossa que paraiso, que facil que ‘e casar no seu pais! E eu pensei comigo: “ ‘e verdade, nunca tinha me dado conta disso. E a gente ainda reclama rsrsrs!”

Aqui vale fazer uma relacao com a nossa forma de lidar com casamento. Em nossos paises livres, somos embalados pela maxima “os opostos se atraem”, mas ca entre nos, a gente sabe que nao ‘e bem assim. Se fosse, nao haveriam tantos divorcios. E nao falo de problemas de egos, porque isso apesar de causar muito divorcio no ocidente, ainda sao so egos que nao sabem o que estao fazendo, mas falo da crenca por tras desta nocao de liberdade tao presente.

A crenca de que nao precisamos de nada, alem de nos mesmos para fazer escolhas, pois somos nosso proprio senhor e guardiao. Tradicoes e religiao ou qualquer coisa que nao va de encontro com o que queremos so atrapalham essa liberdade… Acreditamos que precisamos fazer o que o nosso coracao manda e duvido que muitas dessas pessoas sabem quando ‘e a voz do coracao que esta falando… Fico eu pensando se a gente sabe mesmo o que quer e se somos tao poderosos e onipotentes assim. Esta foi uma das minhas grandes sacadas observando como vivem as pessoas no Oriente.

Os hindus dizem que todo o ser humano precisa de 4 coisas fundamentais na vida para ser verdadeiramente humano e feliz: alimentacao; estetica (no sentido de que nao gostamos de comer qualquer coisa, precisa ter algum sabor, nao gostamos de morar em qualquer canto, precisa ter algum conforto….); lei e religiao (Deus)! Sera que boa parte do ocidente se esqueceu da ultima? E sera que estamos confundindo religiao e tradicao com lei e por isso tanto pavor? E sera que para aqueles que ainda buscam Deus nao estao buscando um Deus que se adapte ao que eles sao? Esta parte me agrada no Budismo, aquela ali no hinduimo, aquele pedacinho ali no sufismo, junta todo o quebra cabeca e no final voce tem quem? Voce mesmo!

Contado um pouco da historia e da religiao, vamos agora a parte vivencial, como ‘e estar na India. Viajar na India sem duvida nao ‘e uma viagem comum, eu diria que nao ‘e uma viagem, ‘e uma experiencia, um mergulho, na terra e no ceu, ao mesmo tempo. A India provoca sentimentos intensos em tudo o que ela te apresenta. Para mim, ate a India, os paises da Africa tinham sido os que tinha gostado mais, nao pelos paises em si, apesar de belissimos, mas pela experiencia que a Africa promove. Hoje acrescentaria a India ao lado da Africa. Enquanto a Africa representa a terra no seu sentido mais profundo, a India representa o ceu.

A India ‘e a alma do mundo como muitos dizem. O unico problema ‘e que voce nao caminha pelos jardins do Eden, caminha no meio de fezes de vacas, lixos, buzinas incessantes e muita, mais muita gente. Mas mesmo assim, o ceu esta ali, regendo tudo e no meio do caos absoluto, as pessoas se mantem meio “intactas” a toda loucura ao seu redor, ancoradas por sua fe. Mesmo que os gurus e os sadhus ja nao sejam mais como antigamente, mesmo que voce escute algum indiano dizer que hoje se compra o guru que le o mapa astral para este dizer que aquele casamento almejado sera bom, a fe e Deus estao presente na maior parte e regendo a sinfonia da India. E isso ‘e uma coisa que toca muito quem conhece o pais.

Detalhando um pouco mais o caos. O transito ‘e totalmente caotico, nas rodovias, a maioria como as nossas, vai e vem, as pessoas ultrapassam umas as outras e quem esta vindo do outro lado, tranquilamente vai para o acostamento, como se o acostamento fosse estrada e nao acostamento. Quem esta ultrapassando, ‘e ultrapassado por outro carro e sucessivamente, enquanto que o outro que esta vindo do outro lado, se joga para o acostamento e continua sua jornada. No meio da rodovia voce encontra carros, caminhoes, onibus, carrocas, vacas, bicicletas, tudo ao mesmo tempo. As buzinas nao sao usadas para chamar atencao frente a um possivel acidente, elas sao utilizadas ininterruptamente, a todo instante, todo segundo, por todos os motivos, ou pela falta de motivos tambem. Depois de quase dois meses de India, quando buzinam para mim nas ruas por nada, eu ja estou xingando o motorista, coisa que nao combina comigo, mas a India provoca todo o tipo de emocao, incluindo stress, raiva, cansaco, furia, etc.

As pessoas sao uma piada. Se voce pede informacao para alguem na rua, em poucos segundos juntam-se uns 10 indianos para escutar o que voce quer e todos querem ajudar. Se voce passa, eles perguntam: “ Where are you from?” e etc, eles sempre querem saber de voce, falar com voce, te conhecer. Nos trens sempre puxam papo, te oferecem comida sem parar, em pouco tempo tem uma plateia escutando a conversa e querendo fazer parte, trocam telefones, e-mails, voce se sente numa grande familia. Eles sao muito calorosos e generosos. E as fotos? Sempre querem tirar fotos com voce tambem. Eles nos estranham assim como nos estranhamos eles. E o curioso, ‘e que perto dos ocidentais, eles parecem ingenuos. Por exemplo, quando eles querem olhar para voce, eles param e olham fixamente sem parar, sem disfarcar. Nao so os homens, pelo fato de admirarem a beleza branca, mas as mulheres tambem. Alguns lugares do norte, eles tentam passar a mao nas mulheres que estiverem caminhando sozinhas ou com roupas justas, para a realidade deles, e se a mulher xingar ou qualquer outro ocidental que estiver junto xingar, gritar, eles abaixam a cabeca e saem meio correndo, envergonhados do seu descontrole frente ao corpo “nu” para eles. Comigo nao aconteceu, porque sempre estava com o Gui e fazia questao de caminhar na frente do Gui, mas aconteceu com algumas turistas que viajam sozinhas. Eles nao sao acostumados com poucas roupas (regata, shorts, etc), como na maioria dos paises ditos orientais, e quando vem as mulheres ocidentais, ficam bobos, literalmente. Para caminhar pelas ruas da India, no calor que pegamos de em media 37 a 45 graus, o ideal ‘e usar calcas que passam do joelho e largas e camisetas bem soltas que tapem os ombros, se voce quiser ter paz. E todas as turistas adotam o estilo indiano, por respeito e precaucao. Banho de mar ou rio? De roupa! Nunca de biquine, somente nas prais bem turisticas voce pode ficar a vontade.

E a comida? Uma delicia! Sao temperos e mais temperos, pimenta e mais pimenta, mas tudo uma delicia, em cada regiao que voce passa a comida ‘e diferente, pratos novos para descobrir, nao tem como enjoar. Eu particulamente, enjoei muito mais dos sucesssivos nasi ou mie gorengs da Indonesia ou dos phad thays da Tailandia, do que das comidas indianas. E a facilidade para se tornar vegetariano ‘e uma coisa incrivel. Nao precisa fazer muito esforco. As opcoes nao se esgotam. As roupas das mulheres embelezam o pais. O colorido e os brilhos, aderecos como brincos nos pes, narizes, colares e pulseras enriquecem ainda mais o conjunto. Nao tem muito como voce olhar para uma indiana e distinguir, como podemos nos nossos paises, se esta mulher tem mais condicoes de compra do que aquela (pelo menos para o nosso olhar), todos os vestidos sao, sem excessao, lindos e unicos, parecem nao se repetir. Os homens no Sul andam de sarong e camisa branca como muitos outros paises do Oriente e no Norte voce ve mais calcas do tipo feitas no alfaiate. As cores estao presentes em tudo, nas casas, nas ruas, nos restaurantes, nos proprios elefantes pintados e enfeitados. As vacas passeam tranquilamente, e os carros param para aguarda-las atravessar de um lado ao outro. Junto com os cheiros dos temperos, tem cheiros de bosta de vaca e de lixo. Mas em geral, os cheiros nao sao fortes.

Resolvemos comecar a viagem por Cochin no Sul, pois dizem que o Sul ‘e muito mais calmo que o Norte. Ficamos na cidade de Fort Cochin e foi perfeito. Eu me sentia na India, mas sem aquele tumulto que todo mundo conta, aquela consciencia constante de que estou num pais de 1,1 bilhao de pessoas, num espaco geografico menor que do Brasil. Deu para se impressionar, sem chocar! Voltamos de onibus do aeroporto com um casal de suicos e acabamos por passar alguns dias com eles. Bem gente boas. No primeiro dia passeamos pelas ruas para conhecer o lugar, a igreja de Sao Francisco, o bairro judeu, as redes de pesca chinesas e as casas coloniais portuguesas. As igrejas sao belissimas, eu particularmente gostei muito da igreja de Santa Maria, inclusive ao lado tem um convento e colegio, muito bom ver todas aquelas meninas indianas uniformizadas estudando num convento, seguindo uma religiao que para nos ‘e tao familiar. A maior parte dos cristaos do pais estao nos estados de Kerala e Goa.

O meu professor conta que quando Sao Franciso Xavier chegou no Sul para pregar o Cristianismo, que naquela ‘epoca era matar ou morrer, foi chamado pelos Brahmanes para uma reuniao, pois eles gostariam de entender o que era e quais eram os principios da tal religiao. Apos 3 dias reunidos, os Brahmanes disseram: “ Pode continuar pregando, isso ‘e Sanatanadharma!” Sao Francisco saiu impressionado como aquilo era possivel. Deixamos Fort Cochin felizes. Eu com uma otima impressao da India e o Gui fascinado, dizendo que nao parecia India. Eu pensava: “ o que sera que me aguarda mais pra frente….”

Seguimos com nossos amigos suicos para Aleepei, onde ficam os famosos canais da regiao. Acabamos por decidir alugar um barco e fazer o passeio completo, de um dia e uma noite, e nao apenas pegar uma simples canoa para dar uma “voltinha”. A decisao foi otima, pois o lugar era maravilhoso. Alem de uma delicia, sair do calor umido insuportavel que fazia, para ficarmos no barco-casa, no meio dos canais, curtindo o visual, a natureza e passando por pequenas vilas ao longo do caminho. Mulheres lavando roupa no rio, homens tomando banho e por ai vai. Muito bom ficar largado no barco so comtemplando o visual e as pessoas. As refeicoes eram saborosissimas e comemos bastante. Aproveitei no fim do dia para cortar o cabelo do Gui, que ja estava uma mistura de menudo com surfista e Ze Galinha. Nunca tinha cortado um cabelo, mas adorei, e o resultado ficou bom, confiram. A noite apos o jantar vimos um filme muito engracado, sobre uma despedida de solteiro em Las Vegas, nao lembro o nome, aquela que os cara esquecem tudo, aparece o Mike Tyson, historia manjadissima, mas recomendo, choramos de rir.

Antes

Depois!

Dia seguinte fomos para Varkala, uma praia ao sul de Allepei. Tivemos que esperar um monte na rodoviaria suja local ate chegar o onibus de linha, tipo nossa “lotacao”, quando chegamos la, acabados de calor, no cansaco acabamos escolhendo mal o hotel, e ficamos num hotel muito bom, mas muito perto do centro e longe da parte mochileira, que era bem mais astral e longe do centro. Aproveitamos para tomar banho de mar todo dia e apreciar a diferenca nos dois lados da praia. De um lado, era o sitio turistico, onde os indianos nao podiam se aproximar. Nesse espaco ficavam os turistas a vontade de sunga e biquines, ate top less, e do outro, era a parte onde podia estar tanto os turistas quanto os indianos. No comeco achamos uma sacanagem com os indianos ter guarda no meio da praia impedindo-os de passar para o lado de la, mas depois fomos entendendo, eles ficavam encarando, tirando foto das turistas de biquines enlouquecidos, enquanto do lado meio indiano meio turistico, as indianas se refrescavam de sari no mar, ate com os lencos no pescoco elas entravam. Coitados, da para entender!

Lado B

Varkala!

De la seguimos para Mandurai, uma cidade sem nada para ver, mas com um belissimo templo hindu. Foi minha primeira viagem de trem e gostei bastante. Esperava que os trens fossem piores, pois li um livro de um brasileiro que escreve ate bastante livros de viagem chamado Expresso p/ India, que so metia pau em tudo, cada detalhe que ele contava da India era como se ele estivesse caminhando pelo inferno. E como ele viajou muito de trem, falava muito mal dos trens. Eu adorei. Nao sao novos, mas nao sao tao decadentes como ele dizia. Acho que esses caras escrevem assim so para ficar mais sensacionalista, para vender mais livro, so pode ser. Durante a espera, ficamos conversando com uma simpatica familia indiana, que aproveitou para pintar minha testa, um risco vertical saindo do meio da cabeca, em vermelho, querendo dizer que sou casada e o terceiro olho logo abaixo. Demais!

Esperando o trem!

Sobre o trem  aqui vale um parentes para o chai, o cha deles que tem por todos os cantos. Quando fecho os olhos e lembro dos trens, me vem o som dos vendedores gritando: chai, chai, chai, chai, chai… Imagina nesse calor de quase 45 graus, voce tomar cha quentissimo? ‘E isso que ocorre aqui, nao tem nada gelado, e para refrescar tomamos chai. E acostuma e parece ate que refresca no fim das contas. A fisica ‘e capaz de explicar isso. Os chais sao deliciosos e de temperos diferentes, chais de canela, de cravo, de capin limao e por ai vai. Eles fazem com leite, sem uma gota de agua, e aquecem o leite junto com os temperos na panela, fica muito bom. E qualquer lugarzinho de beira de estrada e lugarzinho pe sujo como diz o Gui, tem um chai para voce.

Eu e Cristine nos preparando p/ dormir!

A chegada em Mandurai foi chata, pois os hoteis eram caros e os mais em conta eram terriveis, entao gastamos um tempo, em plena madrugada ate achar algo melhor. O calor estava insuportavel, nao dava quase para ficar no quarto durante o dia. A escolha pela barulhenta e suja Mandurai valeu a pena pelo templo maravilhoso. Confiram! Triste foi, em pleno calor, ter que andar por todo o templo gigantesco de pes descalcos e ainda sairmos do lado errado. O Gui teve que ir pulando buscar nossos sapatos bem longe dali, enquanto eu aguardava descalca conversando com uma indiana…

As paredes dos templos!

Os Brahmanes que cuidam dos templos!

Templo shivaita e o touro venerado!

Pelas ruas!

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