Vale das Sombras!

Apos completar os meus 30 anos, achei que todas as minhas dores que passaram a me atormentar pouco antes do dia 22, cessariam como num passe de magica e eu estaria pronta para completar 31 no dia seguinte. Mas nao, no dia seguinte e nos demais que se sucederam, a dor so aumentava e eu brigava com meus sentimentos. E nao adiantava, eles nao me respeitavam!

Ate que resolvi escuta-los mais profundamente e parar de dar respostas simples e curtas, tratando-os como retardados. E entrei num periodo tenebroso, que trocando desabafos com uma amiga muito sabia e inteligente do Brasil, ela me disse: “eu sei o que ‘e isso, ‘e como se voce estivesse passando pelo Vale das Sombras (ela ‘e sempre muito criativa e certeira para dar nomes as coisas da alma). ‘E horrivel, mas depois tudo se reverte em muita coragem!” Fiquei impressionada como ela tinha descrevido tao bem o lugar por onde eu andava e em seguida, pensei: “ tomara mesmo que se reverta em muita coragem!”

Assim fiquei por alguns dias, passeando pelo Vale das Sombras e deixando uma parte de mim morrer. Parece que com os 30 e depois dessa viagem, a minha ilusao com a vida foi embora! E junto, uma parte minha bem importante!

Quando a gente viaja, a gente se acostuma a ver o mundo que vive (nossa casa, nossa familia, nossos amigos, nosso trabalho, nossa rotina…) de fora. ‘E como se a nossa vida ficasse suspensa por todo o tempo da viagem e voce tivesse todo o tempo do mundo para observa-la. E passada a fase mais mundana, de se achar super corajoso por ter escolhido viver isso e de ate se sentir um pouco mais que os outros, porque afinal voce foi capaz de fazer esta escolha… Uma sensacao bem parecida com aquela quando viajamos para outro pais, e quando voltamos, olhamos para as pessoas ao nosso redor e pensamos: “nossa, voces nao sabem o que eu vivi nesse periodo e voces continuam aqui, iguais!” Atire a primeira pedra quem nunca sentiu isso!

Estes foram os meus primeiros sentimentos ainda na Africa. Mas pouco antes da passageira volta ao Brasil, comecei a achar isso pequeno demais para tudo o que eu podia apreender do que foi vivido. E me dei conta de outra coisa, bem mais profunda e dura: a Finitude da vida! E isso ficou no meu coracao por todo o periodo no Brasil! Olhava para as pessoas que amo tentando guardar o rosto delas, as palavras delas, guardar o momento com elas. Por alguns momentos, olhava para elas como se ja tivesse morrido!

Quando voltei para a segunda etapa da viagem, esses sentimentos da finitude da vida comecaram a pipocar novamente. Mas eu consegui distrai-los e deixa-los em stand by por dias e meses, ate chegar perto dos malditos e reveladores 30 anos!

Foi quando entrei no Vale das Sombras, como descreve minha sabia amiga! E por la caminhei, sozinha, por dias. Comecei a olhar para a morte de perto e de frente. Comecei a olhar para a minha propria morte! Porque ca entre nos, olhar para a morte dos outros ‘e facil, para dos nossos familiares e amigos ‘e medonho, mas para nossa propria morte eu nem sei descrever o que ‘e!

Me olhava no espelho e pensava: “esse ‘e meu corpo, entao? E que um dia vai acabar!”; olhava para o Gui e pensava: “ esse ‘e meu marido entao, que um dia tambem vai acabar!”; olhava para minha vida no Brasil e pensava: “aquela ‘e a minha vida entao, com aquelas pessoas, que um dia vai acabar!” E assim fui vivendo os dias cinzentos do meu ser e passando por novas cidades no Myamar…

Imaginem o quanto eu me sentia empolgada com esses pensamentos e sentimentos dentro de mim para acompanhar o Gui? Eu queria que os lugares fossem todos explodidos, um a um e bem devagar! E como poderia ficar compartilhando esses sentimentos com o Gui? Mas como sabia que se ficasse so com eles a coisa poderia ficar ainda mais pesada e funebre, tirava forcas de la, de la mesmo, para conhecer os lugares que n’os estavamos visitando.

O que mais me vinha na cabeca era: mas que sentido tem a vida se um dia eu vou morrer? E se as pessoas que eu amo tambem vao? E ainda, que eu nao sei quando eu e, nem eles vao morrer? E mais: e depois, eu vou para onde? Para o “ceu”? So porque eu nao matei ninguem, eu mereco o “ceu”? Acho um saco as pessoas que simplesmente acham coisas sem base nenhuma! Nenhuma religiao no mundo diz, que simplesmente se voce nao matar ninguem ou nao ser um psicopata voce vai para o “ceu”. Todas falam que tem que se esforcar mais, bem mais do que nos esforcamos normalmente! E hoje religiao virou superfluo, e espiritualidade virou “algo que as pessoas nem sabem o que tao compreendendo”, leem um livro budista e ja se acham espiritualizadas, meditam uma vez por mes, e se sentem quase iluminadas, entao para mim sou parceira dos hindus que no periodo do Kali Yuga (o atual, chamada idade ruim) muito poucos se salvam, vai todo mundo pro inferno. ‘E o que faz mais sentido pra mim quando olho ao redor.

E entao, num primeiro momento, tudo o que eu estava fazendo da minha vida nao fazia mais sentido algum levando em consideracao a perspectiva da morte. Enquanto vida estava show de bola, mas enquanto vida finita, tinha um caminho a ser trilhado!

Muitas ideias foram seriamente pensadas, sobre como viver uma vida que TAMBEM me preparasse para a morte e para a unica coisa que de fato vou ter depois: a alma! Porque ca entre nos, o que a gente leva dessa vida nao ‘e a vida que a gente leva, ‘e a alma! Nossa alma ‘e imaterial, como ela morre com o corpo material? Simplesmente ‘e logico.

Com toda essa questao mexendo profundamente comigo e paralelamente estudando o CD de religiao do filosofo Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, fui encontrando algumas respostas, uma das principais no hinduismo. Resultado de profunda meditacao de sabios hindus num acesso a Deus em 2500 AC. Destas palavras foram escritos os Vedas, o livro sagrado dos hindus (como a Biblia para nos).

Deus diz para os sabios que todos os seres tem um Dharma. Dharma significa alicerce, o fundamento do ser na realidade! Cada ser tem um, uma ordem intrinseca que o apoia na realidade. Na medida em que ele se distancia deste Dharma, ele perde sua identidade propria, sua ordem, seu alicerce e passa a ser objeto de outros seres, ou seja, ‘e determinado pelo ambiente, por tudo o que nao ‘e ele. Pois o Dharma ‘e a unica coisa que torna voce Voce. Nao confundemos Dharma com o sentido pobre de identidade, vai muito mais alem.

Para cada individuo concreto ha um caminho concreto, o Dharma, e voce nao escolhe o seu Dharma, precisa descobri-lo. Resumindo: o dharma ‘e o que voce veio fazer aqui, sua missao, sua vocacao no sentido mais profundo! Se voce encontrar seu Dharma e realiza-lo, voce cumpriu sua missao. A realizacao do Dharma ‘e equivalente ao sentido Cristao de Salvacao, voce se salvou!

Isso ‘e a essencia do Hinduismo, que ‘e a religiao do Sanatanadharma, sanatana significaa eterno e dharma lei ou ordem intrinseca. ‘E uma lei anterior a voce! Ao contrario das religioes semiticas, que tentaram compreender Deus, os hindus tentaram primeiro compreender o homem, por isso que muitas pessoas hoje em dia conseguem encontrar muitas respostas na India. Isso ‘e a essencia do hinduismo, contada de uma forma absurdamente resumida, tem toda a base da antropovisao hindu por tras. Mas chegando na India, conto mais.

Bom, depois de tudo isso, conclui que tem sentido viver, desde que esse sentido venha antes de voce e nao termine com voce! Essa consciencia me fez despertar para muitas coisas dentro e fora. O contato com a morte me fez querer reajustar a caminhada e deu um sentido que jamais havia tocado antes. Agora compreendo porque o Dalai Lama dizia: “as pessoas vivem como se nunca fossem morrer!” Eu vivia asssim. E ignorava a Rainha das Verdades da vida humana.

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por tambemsai Postado em Myanmar

3 comentários em “Vale das Sombras!

  1. Filha querida
    sem palavras, mas com profundo respeito, li vc e senti vc em suas buscas internas.
    A morte, lemra Bibi, segundo seu irmão Silvinho
    “… é uma mudança e a resistencia a ela, é fruto da ignorância…”Realmente ignora-se como é o depoi…
    Senti a vibração dele na cabeça enquanto escrevi…
    Amo voce e sei da importancia destas suas inquietudes…fique bem que estamos pensando muito em vc…

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