Laos – Chegada ou Roubada?

Da gostosa Thailandia, pegamos uma van para o Laos. Tinhamos muita expectativa em conhecer o pais, pois ouvimos falar muito bem do povo e dos lugares. Fizemos uma parada na fronteira para dormir e no dia seguinte pegamos o famoso passeio de barco pelo lindo rio que corta todo o Laos, com destino a Luang Prabang. Sao dois dias de passeio, com uma parada para dormir no meio do caminho. Degustamos os deliciosos sanduiches de rua, tao comuns no Laos, produto da forte influencia de sua colonizacao francesa. Aproveitamos para garantir  um hotel para quando decessemos no meio do nada, nao fosse aquele sufoco, coisa que nunca fizemos.

Fim das contas, ao final do primeiro dia eles nos largam na beira do lago e nao disseram nada. Entendemos que estavamos perto do hotel. Acompanhamos os demais turistas, subindo por dunas  com nossas pesadas mochilas, ninguem se dispos a pagar o preco injusto que eles estavam cobrando para nos levar em um pequeno barco ate o suposto hotel. Tinha gente de idade carregando suas malas “so pra nao dar dinheiro pra bandido”. Com muita discussao de preco fomos atochados numa caminhonete que nos levaria ate o hotel. Somavamos 23 pessoas na cacamba! Quando descemos com as malas por outras dunas achando que estavamos chegando no hotel, estavamos de novo em frente ao rio. Eu nao entendi! Foi quando nos avisaram que teriamos que dormir por la mesmo, pois o rio estava muito raso e nao podiamos seguir. O arsenal ja estava preparado com barraquinhas de comidas diversas e cerveja, ou seja, eles ja sabiam que nos ficariamos ali e ainda nos orientaram a pagar o hotel, uma verdadeira roubada! Eu esbravejava ate comprrender que nao tinha saida e relaxar. Os demais turistas nao falavam nada, simplesmente aceitaram e os mais novos se sentiam no proprio woodstock. Dormimos sobre lonas, numa noite fria, uns 200 turistas lado a lado. Gente de 20 ate 80 anos.

Nos nunca tinhamos ouvido falar disso, outros turistas ja, disseram que nao ‘e incomum as vezes o barco nao seguir e todos passarem a noite no sereno. Mas nos estavamos com sorte, pois as vezes os locais nao contam com isso e os turistas acabam dormindo sem lonas e sem barraquinhas de comida. Inacreditavel!! Por sorte tinha comprado meu tapetinho de yoga dois dias antes e deu para isolar o frio. Como nosso saco de dormir ficou em Phi Phi numa correria de troca de barco, tinhamos apenas os cobertores da Tan dada pela mae do Gui e, claro, nossas jaquetas.

Noite fria, mas uma oportnidade interessante para mim. Minha unica experiencia parecida foi um acampamento de um dia quando eu tinha oito anos no super Country Club de Chapeco. Deu para imaginativamente ter uma amostra de como ‘e dormir na rua, de como ‘e passar frio por nao ter teto, de como o sereno molha e como a gente sempre se adapta. Nao ficamos doentes, nem fiquei com dor no corpo, nadinha nadinha. Essa viagem so tem aumentado minha resistencia, minha saude que ja era boa, agora ‘e de aco. Escovei os dentes no rio, fiz xixi na areia, lavei as maos e rosto no rio pela manha para acordar. Bacana!

Muito cedo pegamos o barco para continuar a jornada e pedimos ao motorista para parar no hotel que haviamos pago. Nos e mais alguns turistas desceram para pegar seu dinheiro de volta. O dono do hotel foi super agressivo e disse que se quisessemos dormir la uma noite tudo bem, mas que nao dariam o dinheiro de volta. Discussao e mais discussao, o Gui disse que se eles nao tinham dinheiro entao pegariam mercadorias do freezer (ap’os quase sairem na mao). No final das contas, acabaram dando 5 garrafas de cervejas para cada turista que havia comprado. A ideia da cerveja foi do Gui por ser o artigo mais caro. Bem ao modo brasileiro, trocamos algumas cervejas no barco por gostosos pratos de comida feitos na hora. Os turistas adoraram! Um tentou copiar, mas o moco disse: “agora chega de troca, nao trocamos mais nada por hj!”

Luang Prabang ‘e simplesmente lindo, com todo aquele charme frances. Como o Laos fazia parte dos da Indochina, eles tambem foram colonizados. Uma cidadezinha cortada pelo rio, cheia de hoteis, casaroes antigos e cafeterias charmosissimas, muita panceca doce e sanduiche de rua. Passamos os dias caminhando, nao tivemos vontade de conhecer cavernas nem a cachoeira ali ao lado, so contemplar, comer panqueca, tomar capuccino e curtir. Gracas o fato de estarmos viajando por tanto tempo, nao precisamos mais ter aquelas rotinas puxadas que normalmetne os turistas se impoem, pelo pouco tempo que tem. Nos podemos as vezes, simplesmente estar nos lugares!

Luang Prabang!

 

Os deliciosos sanduiches de rua!

De la seguimos para Vang Vieng uma cidadezinha nas montanhas maravilhosas, que tambem ‘e cortada pelo rio. Ja tinhamos ouvido falar que muitos turistas vao para la para “pirar o cabecao” e olha, se eu ja vi um lugar maluco nessa vida, esse ganhou todos os premios.

Na chegada vi muitos jovens turistas enfaixados, alguns ate com gessos, mas a maioria com os pes e bracos enfaixados e riscados de caneta pelo corpo. Nao entendi muito, mas pensei que o lugar devia ter bastante escalada nas tais montanhas. Bom, no dia seguinte eu e o Gui alugamos o tal pneu para descermos o rio, a super atracao da cidade. Ao chegarmos com todos os turistas no lugar onde comecava o passeio, entendemos o que era a loucura que as pessoas se referiam.

Pegando a boia!

Imaginem: no comeco do rio tem tipo um deck (como se fosse uma arquibancada) onde ficam todos os turistas largados e bebados, um pintando o outro de caneta ou simplesmente pixando, alguns homens ate vestidos de mulheres, vendo as pessoas descerem o rio de boia. Ao lado, tem uma especie de balanco sobre um trampolim onde os turistas se balancam no ar e se jogam na agua. Imaginem que a maioria esta fazendo isso bebado.

A loucura!

Bom, ai voce comeca a descer com sua boia e a cada 5 metros tem um bar com um monte de turista, que foram puxados pelos garcons para beber. Eles te jogam uma corda com uma garrafa da agua na ponta e te puxam. E essa ‘e a diversao, descer, ser puxado, parar para beber, voltar para a boia, descer, ser puxado e assim por diante. Como algumas partes do lago tem pedras, se voce nao estiver abem tento e lucido, se esfola todo. Por isso as pessoas enfaixadas na rua!

 

Para nos ja foi uma verdadeira loucura estar num lugar como esse, sem seguranca nenhuma e ninguem nem ai para isso. Mas somos brasileiros! Agora o que deve ser viver essa realidade para os europeus, que vivem cobertos de regras em seus paises organizados? 

De noite tem festa, voce pode escolher uisque com energetico/refri, mas tudo vem num balde tamanho medio (daqueles para crianca brincar na areia). ‘E uma bebedeira generalizada, todo mundo louco. No primeiro balde estavamos rindo a toa, achando que era muito mais coca-cola do que qualquer outra coisa, mas a partir do segundo a coisa foi comecando a ficar feia e acabamos, junto com nossos amigos suecos que fizemos no minuto anterior, quase dancando ate o chao no palco montado para os mais empolgados e claro, enfaixados!

Night da galera haha!!

Nos bares tambem tem no cardapio para escolher se voce quer maconha, cha de cogumelo ou opio. Assim, na cara dura e os turistas quando sao pegos, so pagam uma fianca e sao liberados. O povo praticamente nao usa drogas, fazem isso para os turistas, mas hoje as autoridades ja reclamam que tem influenciado os locais no uso dos entorpecentes. Entao na noite voce nao ve somente bebados, mais gente dancando no ar, falando sozinho e por ai vai.

Nas ruas, principalmente no final da tarde voce enxerga aquele aglomero de turistas esfolados bebados rasgados voltando para seus hoteis apos terem passado o dia no rio. Parece trash contando e nao deixa de ser, mas a coisa ‘e feita de um jeito tao espontaneo e com tanta curticao, que ‘e divertido de ver. As pessoas realmente se soltam para curtir ao maximo suas loucuras em Vang Vieng e conseguem.

E o lugar 'e um paraiso!

Da louca Van Vieng fomos para capital Vietane para pegarmos o voo para Malasia. Linda, charmosa e tambem muito aconchegante. Aproveitei para visitar o salao de beleza que me produziu uma grande alergia. Passei a noite me cocando e no outro dia comecei a inchar. Quando dormimos em Kuala Lumpur para pegarmos o voo no outro dia para India, acordei com as maos gigantes e os olhos enormes. Como quando a gente esta viajando sempre acha que essas coisas podem ser uma desgraca, corri para farmacia, pois ja tinhamos que seguir para o aeroporto e comprei um antiestaminico.

La, como acabamos tendo um tempo de sobra, aproveitei para ir ao medico de aeroporto (nem sabia que tinha). Fim das contas, fui levada de ambulancia para o outro aeroporto ali proximo para uma consulta, pois naquele so tinha um enfermeiro. Nao era nada, apenas uma alergia, final da tarde ja estava super bem. Deu para passear de ambulancia entre os aeroportos, o Gui fazer um video e darmos rizada!

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Novas ferias da viagem!

Voltamos para Yangon  para pegarmos o voo para Bangkok. Ao descermos no aeroporto foi como se tivessemos voltado para o futuro, tamanha era a diferenca.  Essa sensacao eu gosto muito, o quanto uma viagem de aviao pode te levar para mundos tao distintos!

Precisavamos passar uns dias na Tailandia para conseguir o visto para India, nosso proximo destino depois do Laos. Escolhemos organizar o visto pela tranquila Chiang May do que por Bangkok como a maioria dos turistas. Ainda no aeroporto, encontramos o Vicente, nosso amigo e socio da Pati irma do Gui e aproveitamos para almocar juntos, conversar bastante e matar a saudades. Deu tempo ainda de enviar com todo cuidado alguns poucos presentinhos para o Brasil. Como o Vicente ‘e uma pessoa super educada (educada no sentido completo da palavra), achamos melhor ir com calma.

A escolha por Chiang May foi muito boa, pois o consulado de la ‘e bem menos concorrido e conseguimos nosso visto em 7 dias. Durante esse periodo, aproveitamos para ficar numa cidadezinha nas montanhas chamada Pai. Lugarzinho delicioso, daqueles para ficar largado e esquecer de ir embora.  Bem estruturado e turistico, mas sem perder o charme!

O Gui aproveitou para treinar muay thai todos os dias e eu para fazer yoga. A rotina era muito agradavel: acordavamos, o Gui seguia para seu treino, eu para Yoga e final do dia nos encontravamos para jantar. A professora, a doce Budh, era muito boa. Apesar de nao entender uma virgula do que ela falava (o sotaque do seu ingles era terrivel) enquanto estava nos orientando, dava para sentir que ela nao era uma professora comum de yoga, ela tinha toda uma coerencia no seu jeito de ser que a tornava bastante especial. Cheguei a fazer uma aula particular com ela e ir mais a fundo. Aproveitei para comprar meu tapetinho de yoga para fazer minhas proprias aulas.

Meu heroi!

Minha teacher!

Feliz com a plenitude dada pela Yoga, aproveitei para fazer curso de massagem e culinaria thai. O de massagem foi uma super enganacao, milhoes de exercicios para se aprender em 5 horas, divididos em dois dias. Fico cada vez mais indignada como as pessoas banalizam a passagem do conhecimento. Como eu poderia aprender em dois dias? E como eu fui tao imbecil de aceitar a proposta de aprender em dois dias? Os orientadores, normalmente, dao tudo mastigado, tipo receita de bolo, porque ninguem  quer dispor de esforco para o saber e nem para construi-lo, ai da nisso, as pessoas criam essas cursos ridiculos e a gente faz. Ja o curso de culinaria foi super legal, deu para captar mais, mas tambem no mesmo caminho da banalizacao do conhecimento.

Curso de massagem!

Curso de Culinaria!

Antes de dormir: cha de gengibre!

Na volta a Chiang May para buscar o visto, presenciamos uma cena interessante. Um europeu que vive ha 30 anos na India e que saiu do pais para fazer nao sei o que e nao estava conseguindo voltar, esbravejava que queria voltar para casa. Fisicamente ele ja era uma lembranca de um ocidental, mas sua reacao ainda era de um ocidental tentando se desenvolver espiritualmente. Enquanto aguardava o consul para conversar pessoalmente com ele (sua exigencia), meditava no sofa sobre seu corpo magro. Uma mulher acompanhada do marido, que tinham cara de turista de primeira viagem, olhava para o europeu-indiano chocada e aproveitava para rir da cara dele enquanto ele estava com seus olhos fechados meditando. Ela era muito inconveniente e sem nocao! Quando o consul o chamou, ele abriu os olhos de sua pacifica meditacao e voltou a gritar. Quanta incoerencia, pensei eu…

Passamos mais dois dias largados nos organizando para ida ao Laos, nosso ultimo pais do sudeste asiatico. A Tailandia foi umas ferias recuperadoras. Falo ferias porque a Tailandia nao ‘e um destino  dificil como muitos pensam, ‘e facil, estruturado e simples. Infinitamente mais facil do que viajar no Brasil. Qualquer pessoa pode seguir da Disney para a Terra dos Livres sem problemas. Curtimos as ferinhas de Chiang Mai com suas comidinhas imperdiveis, impecavelmente limpas e baratissimas, iluminadas pelo ano novo chines.

Ferinhas de tudo nas ruas de CMai!

Devocao, pureza e isolamento!

O Myanmar ‘e um pais que mexe com voce. Existe uma atmosfera diferente no ar, muito peculiar. ‘E como se por um periodo voce entrasse no tunel do tempo, num outro mundo e por la ficasse durante toda a estada no pais.

Na antiga capital Yangon, por onde chegamos, era possivel perceber essa atmosfera desde os primeiros contatos com a cidade. Os muitos monges pelas ruas vivendo de doacao da pobre e isolada populacao. Shwedagone Pagoda, o templo mais sagrado do Myanmar ‘e um negocio impressionante. Voce chega final de tarde, e vai curtindo o entardecer naquele lugar magico, circundado por templos e estupas douradas, recebendo milhares de pessoas por dia, a fim de meditar, de orar e de fazer oferendas para seus mestres. ‘E um lugar sagrado e emocionante. Ha um resgate muito grande do amor e devocao a Deus, que ja nao vemos tanto no ocidente.

Emocionante de ver...

O povo ‘e uma raridade, para nos entrou no ranking de um dos povos mais puros, doces e generosos que conhecemos ao longo da viagem. Mas tambem os mais isolados. Eles vivem uma vida completamente controlada por seu ditador, que limita o conhecimento e acesso a informacoes para o povo. A sensacao que d’a ‘e que eles sabem que vivem num mundo isolado, e que la fora muitas coisas devem acontecer, mas que desconhecem. Ate a educacao hoje ‘e controlada, estao baixando a qualidade de ensino do povo e aumentando a dos militares. O povo vai ficando cada vez mais ignorante e pobre, a merce da tirania de seu governante. O mais curioso ‘e que ate o ditador tirano ‘e fiel a astrologia. Muitas decisoes importantissimas do governo, sao antes consultadas com seu astrologo, ate a moeda do pais o ja foi trocado em funcao de seus conselhos.

As locais me pintando com suas maquiagens tipicas.

Futebol entre os pequenos novicos!

O destino mais visitado de Myanmar, a explendorosa Bagan, uma cidade meio vilarejo, circundada pelas mais de 4. 400 ruinas, templos e estupas, feitas pelo rei Anawrahta no sec XI, que unificou o pais e introduziu o budismo theravada – a mais popular ramificacao do Budismo, pos seu reinado a falir por ter investido todo o dinheiro na construcao das ruinas. Bagan definitivamente ‘e para mim a obra humana mais linda que ja vi. O conjunto ‘e assustadoramente perfeito. Uma regiao totalmente plana e seca, cheia de templos e estupas. ‘E possivel subir por dentro dos templos para apreciar o lugar e assistir ao fabuloso por do sol. Incrivel, sem palavras para o lugar! La encontramos nossa companheira de viagem Marlinda, que fez um pouco da Indonesia com a gente. Uma pessoa muito querida e deliciosa companhia. Consegue ser a minha amigona e ao mesmo tempo a brother do Gui. Fizemos dois dias de passeio juntos e saimos para jantar todas as noites.

Bagan!

Um pouco da visao de cima dos templos!

Jantar com Marlinda!

O querido guardiao de um dos templos!

No ultimo dia, para me despedir de Bagan, como havia acabado minhas aulas de hinduismo, queria ouvir a primeira aula de Budismo em cima de um dos templos que conhecemos. Escolhemos o mais legal e la ficamos, eu e Gui, escutar a aula das Quatro Nobres Verdades de Buda. A aula mais linda que ja tinha escutado, realmente magnifica. Fiquei muito feliz, ao ver que Buda comecou o seu desenvolvimento espiritual a partir da constatacao da morte e tirei meu ultimo receio que tinha em ser ridicula, por estar passando por uma puta crise existencial porque havia me dado conta que ia morrer!

por tambemsai Postado em Myanmar