A beleza das obras Sacras!

Chegamos a Jalgaon e logo fizemos amigos, fechamos um taxi para as ruinas de Ajanta e Eloara. Tratavam-se de 3 tibetanos exilados na India, um casal e uma amiga. Quando seguimos viagem, nosso amigo comecou a recitar seus mantras ate chegarmos em Ajanta 1,5h depois. Era emocionante de ver!

Ajanta ‘e muito bonita, sao uma sequencia de templos budistas cravados na pedra, mas ainda mais bonito era ver a devocao do amigo tibetano frente as esculturas de Buda. O calor estava super forte, mas nao diminuia nossa exitacao frente a beleza das obras.

Quando chegamos em Elora apos o almoco, nossa expectativa era ainda maior, porque diziam que nem se comparava a Ajanta. Mas surpreendeu, foi muito alem do que esperavamos. A harmonia dos templos, agora tambem hindus e janeistas, os desenhos na parede e a perfeicao dos deuses esculpidos na pedra, eram chocantes. Eu e o Gui nao conseguiamos falar uma palavra um para o outro. E nosso amigo estava completamente emocionado por estar ali.

No final, caminho de volta para o hotel, ja de noite, o tibetano devoto nos disse que fomos abencoados por Buda, portanto seriamos muito felizes, haviamos estado frente a frente a lugares sagradissemos de pereguinacao budista. Voltamos sorrindo e curtindo a paisagem, escutando a musica indiana que tocava no toca fita do motorista embalados ao som dos mantras recitados ininterruptamente pelo tibetano. Ate chegarmos  no hotel e eu comecar a sentir umas coceiras insuportaveis nos bracos que durante a noite se tornaram bolas e parecia que meus bracos estavam borbulhando por dentro. Peguei uma alergia da comida e me cocei por tres dias ininterruptos ate chegar ao Rajastao.

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Purificacao!

Os dias no ashram do Ramana foram bastante intensos. Apesar de tranquilos do ponto de vista da nossa rotina que basicamente consistia em participar dos pujas e descansar no ashram, o contato com os ensinamentos de Mararish foram aos poucos mexendo comigo.

Conhecemos um casal russo que mora em Nova Yorque ja ha muitos anos que foram otimas companhias para gente durante todo periodo que estivemos la. Eles sao praticantes de sufismo e levam uma vida de certa aspiracao espiritual que me encantou encontra-los e poder partilhar desses assuntos. Conhecemos sempre mochileiros muito legais, sao sempre boas experiencias em geral, mas sao raros os que eu posso conversar sobre isso. A Marinda holandesa foi uma delas, pois tambem escolheu essa viagem de um ano pelo mundo em partes por essa razao. A Silvia, alema, apesar de nao ter vindo viajar por isso, foi uma pessoa que pude partilhar bastante em Myamar sobre meus pensamentos a respeito do que estava descobrindo e que me ouviu como poucos e aproveitou para ela. Enfim, tudo para dizer que foi bom encontrar os russos e poder conversar sobre essa aspiracao.

Um dia resolvemos juntos participar de um ritual de troca de energia, onde tinha uma professora que havia aprendido o tal ritual com um casal hindu, que ensina que atraves da troca de energia positiva entre as pessoas podemos melhorar o mundo (assassinando um pouco teoricamente o sentido daquele ritual, pois a tal professora nao explicou bem). Mas fomos para conhecer! Eu gostei da experiencia, mas achei a explicacao da professora muito vazia e pobre para poder ver valor naquilo. Primeiro porque nao acredito que podemos melhorar o mundo de forma definitiva, segundo porque nao acho que o mundo ‘e mal, acho que ‘e bom e mal, pois todos os valores do mundo carregam sempre dois aspectos ambiguos, terceiro porque nao acho que ‘e nosso papel.  Entao para mim, ja na largada a experiencia nao era minha cara.

A tal professora disse que apos o ritual alguns sentimentos fortes poderiam vir a tona e que era para gente nao julga-los, simplesmente deixar vir. E veio. Nao sei se pelo ritual ou porque eu ja estava ha tempos para explodir internamente e chegou o terremoto. Faziam varios dias que estava cansada fisicamente da rotina da viagem, de me mudar, de fazer a mala, de conhecer novos lugares, alem de internamente estar atravessando mudancas permanentes ao mesmo tempo que conhecia um novo lugar. E estava faltando espaco para trabalhar com duas coisas tao contrarias, o processo de digerir e de ingerir.

No dia seguinte depois do templo explodi, gritava de cansaco e nao queria mais sair do lugar, queria ficar no ashram parada por meses. O russo tambem concidentemente ou nao teve um acesso forte apos o ritual. Eu e o Gui conversamos bastante e tentamos encontrar um caminho que fosse bom para os dois, afinal essa viagem ‘e nossa  e a minha explosao serviu para enxergar melhor os meus limites e tambem para nos reorganizarmos. Mas precisavamos seguir, pois queria chegar ate meados de abril em Rishikesh, onde finalmente ficaria no ashram que tinha reservado.

Seguimos entao para Hampi, uma cidade cercada por ruinas sagradas de tirar o folego. Alugamos uma moto e fomos conhecer o lugar. Final do dia cheguei no hotel me sentindo fraca, havia comido algo que me fez mal e acabei passando 5 dias internada no quarto do hotel. Podia tomar remedio, mas nao sentia vontade, queria que meu corpo fizesse o processo por si mesmo. Sabia que no fundo aquilo era porque eu precisava parar quieta e nao so ter um acesso de choro e ficar por isso mesmo.

Passei 5 dias lendo os tres livros do Ramana e as reacoes que sentia eram muito fortes. Meditei e rezei todos os dias e sentia meu corpo e mente se reorganizando, uma sensacao de limpeza e purificacao.  Minha mente ao final dos cinco dias estava quietinha, quase nao tinha coragem mais de falar, tamanha era a harmonia que sentia, corpo-mente-alma todo mundo falando a mesm lingua, pelo menos ate Ajanta e Elora.

A caminho de Ramana Maharish!

De Tanjore seguimos para Tirunavamalai. Estava em duvida se encararia a viagem ate la, pois mudariamos bastante nossa rota e nao seria nem um pouco confortavel, pois a cidadezinha ficava um pouco no meio da nada. Mas a minha motivacao era enorme, pois la fica o ashram de Ramana Maharish, um santo hindu que morreu ao final dos anos 40 e que atingiu a iluminacao muito cedo, perto dos 20 anos e compartilhou sua experencia de uma forma muito objetiva com todos.

Minha curiosidade por Ramana iniciou quando ainda estava em Curitiba um pouco antes de sair para viajar e no centro onde faco yoga havia um cartaz na porta, com uma foto do Mararish escrita: “ Quem sou eu?”. Um indiano, devoto dele estaria em Curitiba para falar um pouco de seus ensinamentos ao redor desta pergunta central que aflige todos os que tem uma busca espiritual latente. Seria um final de semana de bate-papo e eu paguei o curso e de ultima hora nao consegui ir, pois estava atolada de trabalho para entregar na segunda-feira, o meu ultimo prazo. Aquilo ficou no meu coracao e pensei um dia ainda volto a pensar no Ramana… Mais tarde, escutando as aulas de hinduismo, meu professor citou ele como uma figura serissima e respeitada, inclusive dentre a bibliografia recomendada sobre hinduismo estao os ensinamentos de Sri Ramana Mararish.

Entao la fomos nos. Pegamos o onibus em Tanjore ate uma cidadezinha ha duas horas dali, onde havia outro onibus que seguia direto para Tirunavamalai. Quando chegamos na rodoviaria local me recordei da Africa. Era um lugar decadente, sujo, recheado por vacas e suas necessidades espalhadas por todos os cantos e ventos de mosca que quase te derrubavam. Como nao tinha nem um estrangeiro no lugar, fomos atracao de circo. Todo mundo nos olhava e todos queria nos conhecer. “ Which country?” E nao havia onibus direto como tinham nos falado, teriamos fazer nova conexao numa outra cidade que sim seguia para Tirunavamalai. Esperamos mais uma hora e chegou o nosso onibus podrasso 2.

Com as comidas na mao recem compradas pelo Gui, a caminho do onibus que estava ja saindo, ele literalmente chuta seu pe sobre uma bosta de vaca recem feita. Ele estava de chinelo! Com o onibus saindo, o jeito foi arrancar os jornais que enrolavam nossas samussas para limpar o pe e jogar com cuidado a agua que tinhamos para beber durante a viagem. Fomos com o pe do Gui meio fedendo ate a proxima cidade ha 3 horas dali.

Faco questao de compartilhar essa experiencia surreal para contar que essas sao coisas que so “ o Oriente faz para voce”. Voce passa por situacoes desumanas em termos de conforto, limpeza, organizacao em alguns momentos da viagem, que voce nunca mais vai esquecer na vida. Uma viagem pode acabar com sua cara cheia de terra de tanta poeira como na Africa ou pisar na ditucuja na India e quase se desequilibrar na sua caminhada pelas rajadas de moscas. *Sugiro lerem esses post da Africa, ‘e bem engracado, tem as fotos (esta no tambemsai do blog do Gui).

Quando chegamos na proxima cidade ja estava anoitecendo e achamos melhor dormir por la mesmo para seguirmos no outro dia. So achamos um hotel meia sola, fedidinho, daqueles para esquecer que um dia voce dormiu. No final da manha finalmente chegamos em Tirunablablabla. Tentamos ver se haviam quartos vagos no ashram do Ramana, mas estava lotado, entao fomos para um hotel/ashram recomendado por eles, que funciona por doacao. O lugar era simples, mas muito limpo e com quartos espacosos. Mas as tres refeicoes inclusas eram de chorar. Sem gosto, bem bandejao. Foi bom para perder alguns quilos que ha anos fazia dietas que nao alcancavam estas gorduras. Fiquei enxuta!

Passamos cinco dias em Tirunablablabla, e nossa rotina era ir todo dia no ashram, participar do pujas ao longo do dia, as cerimonias sagradas dos brahmanes. Pra quem nao sabe, cerimonias hindus sao sempre regadas com muito incenso, mantras e rezas longas, em geral lindissimas, com ritmos, batuques e tudo mais, para eles o canto e ritmo promovido pelas rezas eleva ao contado com Deus.

Ashram

Bom, mas quem foi Sri Ramana Mararish?

Ramana nasceu em Mandurai, era filho de uma familia brahmane que nunca falou de Deus, muito pelo contrario, so falavam em dinheiro. Maharish era um garoto normal, ate o dia em que recebe a visita de um tio monge mendigante, quando tinha uns 10 ou 12 anos, que dispertou nele muita curiosidade em querer compreender porque o tio vivia daquele jeito. O tio conta que havia uma maldicao feita contra a familia deles ha muitos seculos atras, onde em todas as geracoes sempre haveria um filho monge mendigante ou um esquisofrenico e o tio preferiu se tornar logo monge para garantir. Ramana ficou muito tocado com a historia e ficou pensando nisso por meses, pois nao queria nem ser monge mendigante nem esquisofrenico. Por um periodo longo deixou a historia de lado e um belo dia, quando tinha 16 anos, chegou em casa e nao havia ninguem. Subiu no seu quarto que ficava no sotao e veio repentinamente de uma forma muito forte a ideia da morte e ele sentiu um medo avassalador. Entao pensou: “O que ‘e morrer?” E deitou sobre o chao do quarto dele em posicao de morto e tentou devagar e de forma bem consciente simular para si mesmo sua morte. “E se eu nao escutasse mais? E se eu nao sentisse mais?…” E foi desligando todas as funcoes do seu corpo uma a uma, bem devagar, ate prender bem forte a respiracao e conseguir desligar toda as sensacoes do seu corpo. Mas nao conseguiu desligar o EU que falava dentro dele, e se deu conta de que o EU teria que ser desligado por um outro! Entao se perguntou: “Quem sou eu?; Quem ‘e esse eu?” Como ele nao tinha a resposta, ele comecou a frequentar o templo e rezar muito para descobrir, ficou 2 ou 3 meses fazendo isso, com a ideia da morte na cabeca e chegou a conclusao que nao adiantaria pedir ajuda, que era o tipo de pergunta que ele teria que responder por si mesmo. Juntou todo o dinheiro que ficava numa lata de acucar na cozinha e foi ate a estacao de trem e pediu uma passagem que o levasse o mais longe possivel. Chegou em Trunavamalai, onde avistou o Monte Arunashala, que sem saber, era o monte onde Shiva se transformou numa coluna de fogo que desta nasceu a planta rudraxa que todos os yogis e afins usam no pescoco. Subiu no pe do monte, encontrou uma caverna/templo e la se sentou em posicao de meditacao. Passado um mes e pouco, um homem que cuidava do templo encontrou Ramana em posicao de lotus completamente sem consciencia do corpo, com a boca recheada por formigas. Pensou: “’e um santo!” E comecou a cuidar dele, limpando, dando uma comida bem liquida aos poucos na boca e Ramana continuou la sem se mexer. Uns meses depois, ele disperta, ve um monte de gente dormindo ao redor dele, acha muito movimentado e vai para outro templo mais acima. O homem encontra ele novamente e continua cuidando e os fieis ja sao em numero maior esperando o dia dele acordar. Alguns meses depois, ele disperta de modo definitivo e pede p/ ler os Vedas, o livro sagrado do hinduismo e poucos dias depois chama alguns brahamanes para contar o que compreendeu. Todos ficaram chocados, ele havia compreendido os Vedas numa sentada e ainda muito mais que os proprios brahmanes. Depois disso Ramana fica mais um periodo sem falar com ninguem se comunicando apenas pela escrita ate passar a dar seus ensinamentos a todos. Teve problemas fisicos bem serios pelo periodo que ficou sem se mover na posicao de lotus, e demorou quase tres anos para estar com o corpo em pleno movimento. Com menos de 20 anos de idade ele era um iluminado!

Monte Arunalashala

Bom, a historia de Ramana ja mostra o quanto ele ‘e especial, um santo, pois foi muito intenso e rapido seu processo, uma intervencao divina muito clara. Ele diz que foi o poder de Arunalashala. Comprei tres livros do Ramana no ashram e ‘e impressionante a objetividade dele e a clareza frente a Deus. Nao tem como contar aqui todos os seus ensinamentos, mas pra quem se interessa segue o principal:

Deus ‘e como um ima, a sua presenca ‘e que faz tudo se mover e o mundo continuar existindo, funcionando bem ou mal. Querer controlar a vida ‘e como entrar num trem em movimento com a mala na cabeca!

Iluminacao ‘e libertacao, ‘e a ausencia completa de dualidade, ‘e partilhar da natureza pura de todas as coisas, ‘e partilhar da natureza de Deus. Tanto que durante toda sua vida no ashram, ele nao tinha um quarto para ele, dormia num sofa no meio do templo, no mesmo lugar onde recebia os fies. Pois dizia que essa coisa eu-voces ‘e ilusao, ‘e tudo uma coisa so, ‘e tudo Deus em diferentes manifestacoes.

Mas o principal, que mais gostei, ‘e que ele fala que existem somente dois caminhos para se chegar a iluminacao ou para estar de verdade num caminho espiritual. Se formos ver ele fez a mesma coisa que Buda, so pegou direto o atalho do quem sou eu, enquanto Buda comecou pela questao do sofrimento. Um dos caminhos ‘e o da meditacao, centrado na pergunta quem sou eu, procurando manter-se consciente de que tudo o que vem na sua cabeca: pensamentos, desejos, lembrancas, medos, etc, sao desgastes do suposto eu com o nao-eu, testemunhadas pela mente. Atraves da pratica regular de meditacao voce vai silenciando sua mente e deixando de ser so produto dela, ou seja, deixando de ser voce separado do mundo (eu e nao-eu), para acessar a esse eu puro, que ‘e a sua natureza divina. Ou, o outro caminho, ‘e a devocao, voce reproduzir o comportamento de Deus (de acordo o Deus da sua religiao) e ao copiar voce vai deixando aos poucos de ser voce, isso tambem silencia sua mente e ego e; nesse processo voce chega a iluminacao. ‘E o caminho dos santos cristaos, por exemplo.

Ele nao recomenda que as pessoas abandonem o mundo para meditar, diz que cada um tem seu caminho e sua indentidade espiritual (sua missao) que so pode ser acessada e compreendida por um destes dois processos. Portanto voce nao tem como saber, antes de estar nesse caminho, se isso ‘e para voce. So dentro dele e com os avancos voce podera compreender esta verdadeira identidade.

O processo que nos normalmente fazemos, que ‘e pegar um pouco de cada lugar, de acordo com o nosso “senso critico”, continua dando poder ao nosso ego, ao nosso pseudo eu e no fim das contas voce tem um pseudo suposto-eu melhorado.

Fala que todos que possuem uma aspiracao espiritual devem seguir sua vida normal num desses dois caminhos, procurando nao se identificar com o eu e nao-eu (familia, trabalho, etc). Achar que a verdade est’a em maya. Maya ‘e tudo que passa pelos 5 sentidos… e sao todas aparencias do Deus original, conceito hindu. Vivemos num mundo maya! Nao se identificar nao significa nao amar, nao partilhar, mas saber que no fim das contas, tudo isso um dia acaba e nesse sentido ‘e uma ilusao! Por isso devemos regar, cuidar daquilo que nao acabara, que ‘e nossa alma, como diz meu professor, a alma ‘e o Deus que reside dentro de nos. Os hindus com uma forte busca espiritual costumam, quando seus filhos ja estao casados, e ja tambem tem filhos, abandonar a familia e se dedicar somente a vida espiritual.

Conforme os escritos do Vedanta o “ nosso corpo ‘e como um vaso, parece que o que tem dentro ‘e separado do que tem fora, mas na verdade ‘e so uma ilusao, meditando voce consegue quebrar o vaso e ver que tudo ‘e a mesma coisa!

Casamento arranjado ou por amor?

De Mandurai seguimos para Tanjore, uma outra cidade de um templo ainda mais maravilhoso e patrimonio da Unesco. Fomos ate a rodoviaria decadente local e pegamos um onibus podrasso com uma televisao que nao combinava em nada com o ambiente. Sete horas depois chegamos em Tanjore. Instalados, fomos para o templo. Um choque a obra, simplesmente maravilhosa, toda de pedra e cor de mel que da uma beleza inigualavel. Como o templo ficava bem no comeco da cidade, longe do centro, era arejado, silencioso e com uma gostosa atmosfera de paz que abencoava o lugar.

Aproveitamos entao para participar do ritual junto aos fieis e receber a bencao de Shiva, para conhecer como funciona. Como Shiva ‘e o destruidor eles usam sempre o fogo para representa-lo nos templos. As pessoas formam uma fila para recebe-lo e no altar o brahamane cuidador do templo segura uma pequena labareda de fogo, onde os devotos encostam como se tivessem pegando o fogo para eles e passam sobre a cabeca descendo ate o coracao. Depois o brahmane faz o terceiro olho na testa de cada um em cor vermelha, que ‘e a cor de Shiva. Os mais devotos, usam na testa as tres listras horizontais vermelhas que representam Shiva. Parenteses: quando voce segue vishnu, sao geralmente tres listras verticais e brancas, pois ele ‘e o protetor e mantenedor, lembram?

Gui e o Bramane

Apos o ritual, fomos sentar no gramado do templo para apreciar o fim de tarde. Em poucos segundos estavamos rodeados por indianos nos bombardeando de perguntas, querendo nos conhecer, tirar fotos com a gente e tudo mais. Eles sao muito legais e principalmente curiosos!

Bate papo

Acabei logo engatando uma conversa interessantissima sobre os casamentos na India. Eram duas jovens mulheres, recem casadas, acompanhadas da mae de uma delas. O papo comecou, pois elas se interessaram em saber se eu e o Gui eramos namorados e falamos que eramos casados, mostramos a alianca (la eles usam a alianca no pescoco preso no colar). O fato de sermos casados para eles da todo um respeito diferente e eles ficam alegres de saber que existem jovens ocidentais casados, pois a maioria dos estrangeiros que vem para ca contam que moram junto, e isso ‘e simplesmente uma aberracao aos olhos hindus e ja explico melhor por que.

Nos perguntaram entao se o casamento era arranjado ou por amor. Na India mais de 90% dos casamentos sao arranjados, independente da classe social, pois se as castas sao importantes para sua nocao de identidade e do que voce pode oferecer ao mundo (um brahmane pode oferecer sabedoria, um shatria pode oferecer justica e assim por diante), ‘e natural que como consequencia os casamentos sejam arranjados. Eles simplesmente seguem o mesmo modelo. Vao buscar uma pessoa para se casar que seja da sua casta, da sua religiao, que sao suas principais tradicoes e valores. Nao ter essa preocupacao significa correr o risco de perder sua identidade, valores e tradicoes nessa relacao.

E o trabalho ‘e arduo e demorado, pois arranjar um casamento envolve tempo e dedicacao. A India comporta mais de 100 linguas locais, e o Indi que ‘e a lingua oficial, mas somente 20% da populacao fala como segunda lingua. Essa ‘e primeira barreira, achar um marido que fala sua lingua! Depois se ‘e da mesma religiao e casta; se o sujeito segue o hinduismo, por exemplo, ele devera optar por ser um shivaita ou vishnuita. Entao nao basta ter a mesma religiao, tem que seguir o mesmo Deus principal. O pais tem uma diversidade religiosa imensa: muculmanos, sikhs (que sao uma derivao do hinduismo), janeistas (que o fundador foi contemporaneo de Buda), budistas e cristaos (em menor quantidade), sem falar do zorastrismo, mas este sao realmente num numero pequeno. E por fim, tem que cruzar o mapa astral e ter a aprovacao do guru para ver se a relacao dara certo.

No caso dessas mocas, por exemplo, elas estavam contando a trabalheira para arranjar o marido. Primeiro sao os pais que vao buscar na vila ou regiao onde moram, buscam as boas familias de referencia e ‘e claro a mesma casta e religiao, se falarem a mesma lingua melhor ainda. Depois apresentam o futuro casal um ao outro rapidamente e se eles se gostarem vai o mapa astral para o guru cruzar e dizer se funcionariam juntos, se a relacao seria saudavel para ambos.

Em muitos casos, a noiva so conhece o noivo no dia do casamento, esse costume ‘e mais presente nos casamentos arranjados entre os muculmanos. Quando a moca casa ela passa a morar na casa da sogra com o marido e a ser cuidada por ela.

No caso das duas mocas (mae, filha e cunhada), a filha ainda nao era casada. A cunhada se apaixonou pelo futuro marido, mas ela era muculmana e ele hindu. Como eram da mesma casta e as familias se conheciam, com muito esforco dos dois e muita conversa com os pais, ela se converteu ao hinduismo. Mas esses casos sao excessoes, geralmente diferencas religiosas sao impasses irremediaveis. No caso dos casamentos por amor, como esse, nao adianta mais o guru fazer o mapa astral, pois o casal ja esta apaixonado e o que pode ser visto no mapa acabara por influenciar, entao nao tem mais validade. O mapa deve ser feito quando o amor ainda nao existe.

Dai as meninas me perguntaram: e no seu pais, o que voces precisam ver para poder casar? Quantas religioes voces tem? E linguas? E castas? Disse entao que nao tinhamos nada, que a maioria esmagadora era crista e ainda uma maioria tb esmagadora era catolica, e que so tinhamos uma lingua e nenhuma casta e que ainda podiamos escolher e apresentarmos para nossos pais. Elas falaram: nossa que paraiso, que facil que ‘e casar no seu pais! E eu pensei comigo: “ ‘e verdade, nunca tinha me dado conta disso. E a gente ainda reclama rsrsrs!”

Aqui vale fazer uma relacao com a nossa forma de lidar com casamento. Em nossos paises livres, somos embalados pela maxima “os opostos se atraem”, mas ca entre nos, a gente sabe que nao ‘e bem assim. Se fosse, nao haveriam tantos divorcios. E nao falo de problemas de egos, porque isso apesar de causar muito divorcio no ocidente, ainda sao so egos que nao sabem o que estao fazendo, mas falo da crenca por tras desta nocao de liberdade tao presente.

A crenca de que nao precisamos de nada, alem de nos mesmos para fazer escolhas, pois somos nosso proprio senhor e guardiao. Tradicoes e religiao ou qualquer coisa que nao va de encontro com o que queremos so atrapalham essa liberdade… Acreditamos que precisamos fazer o que o nosso coracao manda e duvido que muitas dessas pessoas sabem quando ‘e a voz do coracao que esta falando… Fico eu pensando se a gente sabe mesmo o que quer e se somos tao poderosos e onipotentes assim. Esta foi uma das minhas grandes sacadas observando como vivem as pessoas no Oriente.

Os hindus dizem que todo o ser humano precisa de 4 coisas fundamentais na vida para ser verdadeiramente humano e feliz: alimentacao; estetica (no sentido de que nao gostamos de comer qualquer coisa, precisa ter algum sabor, nao gostamos de morar em qualquer canto, precisa ter algum conforto….); lei e religiao (Deus)! Sera que boa parte do ocidente se esqueceu da ultima? E sera que estamos confundindo religiao e tradicao com lei e por isso tanto pavor? E sera que para aqueles que ainda buscam Deus nao estao buscando um Deus que se adapte ao que eles sao? Esta parte me agrada no Budismo, aquela ali no hinduimo, aquele pedacinho ali no sufismo, junta todo o quebra cabeca e no final voce tem quem? Voce mesmo!

Costumes, Religiao, Cores e Temperos!

Contado um pouco da historia e da religiao, vamos agora a parte vivencial, como ‘e estar na India. Viajar na India sem duvida nao ‘e uma viagem comum, eu diria que nao ‘e uma viagem, ‘e uma experiencia, um mergulho, na terra e no ceu, ao mesmo tempo. A India provoca sentimentos intensos em tudo o que ela te apresenta. Para mim, ate a India, os paises da Africa tinham sido os que tinha gostado mais, nao pelos paises em si, apesar de belissimos, mas pela experiencia que a Africa promove. Hoje acrescentaria a India ao lado da Africa. Enquanto a Africa representa a terra no seu sentido mais profundo, a India representa o ceu.

A India ‘e a alma do mundo como muitos dizem. O unico problema ‘e que voce nao caminha pelos jardins do Eden, caminha no meio de fezes de vacas, lixos, buzinas incessantes e muita, mais muita gente. Mas mesmo assim, o ceu esta ali, regendo tudo e no meio do caos absoluto, as pessoas se mantem meio “intactas” a toda loucura ao seu redor, ancoradas por sua fe. Mesmo que os gurus e os sadhus ja nao sejam mais como antigamente, mesmo que voce escute algum indiano dizer que hoje se compra o guru que le o mapa astral para este dizer que aquele casamento almejado sera bom, a fe e Deus estao presente na maior parte e regendo a sinfonia da India. E isso ‘e uma coisa que toca muito quem conhece o pais.

Detalhando um pouco mais o caos. O transito ‘e totalmente caotico, nas rodovias, a maioria como as nossas, vai e vem, as pessoas ultrapassam umas as outras e quem esta vindo do outro lado, tranquilamente vai para o acostamento, como se o acostamento fosse estrada e nao acostamento. Quem esta ultrapassando, ‘e ultrapassado por outro carro e sucessivamente, enquanto que o outro que esta vindo do outro lado, se joga para o acostamento e continua sua jornada. No meio da rodovia voce encontra carros, caminhoes, onibus, carrocas, vacas, bicicletas, tudo ao mesmo tempo. As buzinas nao sao usadas para chamar atencao frente a um possivel acidente, elas sao utilizadas ininterruptamente, a todo instante, todo segundo, por todos os motivos, ou pela falta de motivos tambem. Depois de quase dois meses de India, quando buzinam para mim nas ruas por nada, eu ja estou xingando o motorista, coisa que nao combina comigo, mas a India provoca todo o tipo de emocao, incluindo stress, raiva, cansaco, furia, etc.

As pessoas sao uma piada. Se voce pede informacao para alguem na rua, em poucos segundos juntam-se uns 10 indianos para escutar o que voce quer e todos querem ajudar. Se voce passa, eles perguntam: “ Where are you from?” e etc, eles sempre querem saber de voce, falar com voce, te conhecer. Nos trens sempre puxam papo, te oferecem comida sem parar, em pouco tempo tem uma plateia escutando a conversa e querendo fazer parte, trocam telefones, e-mails, voce se sente numa grande familia. Eles sao muito calorosos e generosos. E as fotos? Sempre querem tirar fotos com voce tambem. Eles nos estranham assim como nos estranhamos eles. E o curioso, ‘e que perto dos ocidentais, eles parecem ingenuos. Por exemplo, quando eles querem olhar para voce, eles param e olham fixamente sem parar, sem disfarcar. Nao so os homens, pelo fato de admirarem a beleza branca, mas as mulheres tambem. Alguns lugares do norte, eles tentam passar a mao nas mulheres que estiverem caminhando sozinhas ou com roupas justas, para a realidade deles, e se a mulher xingar ou qualquer outro ocidental que estiver junto xingar, gritar, eles abaixam a cabeca e saem meio correndo, envergonhados do seu descontrole frente ao corpo “nu” para eles. Comigo nao aconteceu, porque sempre estava com o Gui e fazia questao de caminhar na frente do Gui, mas aconteceu com algumas turistas que viajam sozinhas. Eles nao sao acostumados com poucas roupas (regata, shorts, etc), como na maioria dos paises ditos orientais, e quando vem as mulheres ocidentais, ficam bobos, literalmente. Para caminhar pelas ruas da India, no calor que pegamos de em media 37 a 45 graus, o ideal ‘e usar calcas que passam do joelho e largas e camisetas bem soltas que tapem os ombros, se voce quiser ter paz. E todas as turistas adotam o estilo indiano, por respeito e precaucao. Banho de mar ou rio? De roupa! Nunca de biquine, somente nas prais bem turisticas voce pode ficar a vontade.

E a comida? Uma delicia! Sao temperos e mais temperos, pimenta e mais pimenta, mas tudo uma delicia, em cada regiao que voce passa a comida ‘e diferente, pratos novos para descobrir, nao tem como enjoar. Eu particulamente, enjoei muito mais dos sucesssivos nasi ou mie gorengs da Indonesia ou dos phad thays da Tailandia, do que das comidas indianas. E a facilidade para se tornar vegetariano ‘e uma coisa incrivel. Nao precisa fazer muito esforco. As opcoes nao se esgotam. As roupas das mulheres embelezam o pais. O colorido e os brilhos, aderecos como brincos nos pes, narizes, colares e pulseras enriquecem ainda mais o conjunto. Nao tem muito como voce olhar para uma indiana e distinguir, como podemos nos nossos paises, se esta mulher tem mais condicoes de compra do que aquela (pelo menos para o nosso olhar), todos os vestidos sao, sem excessao, lindos e unicos, parecem nao se repetir. Os homens no Sul andam de sarong e camisa branca como muitos outros paises do Oriente e no Norte voce ve mais calcas do tipo feitas no alfaiate. As cores estao presentes em tudo, nas casas, nas ruas, nos restaurantes, nos proprios elefantes pintados e enfeitados. As vacas passeam tranquilamente, e os carros param para aguarda-las atravessar de um lado ao outro. Junto com os cheiros dos temperos, tem cheiros de bosta de vaca e de lixo. Mas em geral, os cheiros nao sao fortes.

Resolvemos comecar a viagem por Cochin no Sul, pois dizem que o Sul ‘e muito mais calmo que o Norte. Ficamos na cidade de Fort Cochin e foi perfeito. Eu me sentia na India, mas sem aquele tumulto que todo mundo conta, aquela consciencia constante de que estou num pais de 1,1 bilhao de pessoas, num espaco geografico menor que do Brasil. Deu para se impressionar, sem chocar! Voltamos de onibus do aeroporto com um casal de suicos e acabamos por passar alguns dias com eles. Bem gente boas. No primeiro dia passeamos pelas ruas para conhecer o lugar, a igreja de Sao Francisco, o bairro judeu, as redes de pesca chinesas e as casas coloniais portuguesas. As igrejas sao belissimas, eu particularmente gostei muito da igreja de Santa Maria, inclusive ao lado tem um convento e colegio, muito bom ver todas aquelas meninas indianas uniformizadas estudando num convento, seguindo uma religiao que para nos ‘e tao familiar. A maior parte dos cristaos do pais estao nos estados de Kerala e Goa.

O meu professor conta que quando Sao Franciso Xavier chegou no Sul para pregar o Cristianismo, que naquela ‘epoca era matar ou morrer, foi chamado pelos Brahmanes para uma reuniao, pois eles gostariam de entender o que era e quais eram os principios da tal religiao. Apos 3 dias reunidos, os Brahmanes disseram: “ Pode continuar pregando, isso ‘e Sanatanadharma!” Sao Francisco saiu impressionado como aquilo era possivel. Deixamos Fort Cochin felizes. Eu com uma otima impressao da India e o Gui fascinado, dizendo que nao parecia India. Eu pensava: “ o que sera que me aguarda mais pra frente….”

Seguimos com nossos amigos suicos para Aleepei, onde ficam os famosos canais da regiao. Acabamos por decidir alugar um barco e fazer o passeio completo, de um dia e uma noite, e nao apenas pegar uma simples canoa para dar uma “voltinha”. A decisao foi otima, pois o lugar era maravilhoso. Alem de uma delicia, sair do calor umido insuportavel que fazia, para ficarmos no barco-casa, no meio dos canais, curtindo o visual, a natureza e passando por pequenas vilas ao longo do caminho. Mulheres lavando roupa no rio, homens tomando banho e por ai vai. Muito bom ficar largado no barco so comtemplando o visual e as pessoas. As refeicoes eram saborosissimas e comemos bastante. Aproveitei no fim do dia para cortar o cabelo do Gui, que ja estava uma mistura de menudo com surfista e Ze Galinha. Nunca tinha cortado um cabelo, mas adorei, e o resultado ficou bom, confiram. A noite apos o jantar vimos um filme muito engracado, sobre uma despedida de solteiro em Las Vegas, nao lembro o nome, aquela que os cara esquecem tudo, aparece o Mike Tyson, historia manjadissima, mas recomendo, choramos de rir.

Antes

Depois!

Dia seguinte fomos para Varkala, uma praia ao sul de Allepei. Tivemos que esperar um monte na rodoviaria suja local ate chegar o onibus de linha, tipo nossa “lotacao”, quando chegamos la, acabados de calor, no cansaco acabamos escolhendo mal o hotel, e ficamos num hotel muito bom, mas muito perto do centro e longe da parte mochileira, que era bem mais astral e longe do centro. Aproveitamos para tomar banho de mar todo dia e apreciar a diferenca nos dois lados da praia. De um lado, era o sitio turistico, onde os indianos nao podiam se aproximar. Nesse espaco ficavam os turistas a vontade de sunga e biquines, ate top less, e do outro, era a parte onde podia estar tanto os turistas quanto os indianos. No comeco achamos uma sacanagem com os indianos ter guarda no meio da praia impedindo-os de passar para o lado de la, mas depois fomos entendendo, eles ficavam encarando, tirando foto das turistas de biquines enlouquecidos, enquanto do lado meio indiano meio turistico, as indianas se refrescavam de sari no mar, ate com os lencos no pescoco elas entravam. Coitados, da para entender!

Lado B

Varkala!

De la seguimos para Mandurai, uma cidade sem nada para ver, mas com um belissimo templo hindu. Foi minha primeira viagem de trem e gostei bastante. Esperava que os trens fossem piores, pois li um livro de um brasileiro que escreve ate bastante livros de viagem chamado Expresso p/ India, que so metia pau em tudo, cada detalhe que ele contava da India era como se ele estivesse caminhando pelo inferno. E como ele viajou muito de trem, falava muito mal dos trens. Eu adorei. Nao sao novos, mas nao sao tao decadentes como ele dizia. Acho que esses caras escrevem assim so para ficar mais sensacionalista, para vender mais livro, so pode ser. Durante a espera, ficamos conversando com uma simpatica familia indiana, que aproveitou para pintar minha testa, um risco vertical saindo do meio da cabeca, em vermelho, querendo dizer que sou casada e o terceiro olho logo abaixo. Demais!

Esperando o trem!

Sobre o trem  aqui vale um parentes para o chai, o cha deles que tem por todos os cantos. Quando fecho os olhos e lembro dos trens, me vem o som dos vendedores gritando: chai, chai, chai, chai, chai… Imagina nesse calor de quase 45 graus, voce tomar cha quentissimo? ‘E isso que ocorre aqui, nao tem nada gelado, e para refrescar tomamos chai. E acostuma e parece ate que refresca no fim das contas. A fisica ‘e capaz de explicar isso. Os chais sao deliciosos e de temperos diferentes, chais de canela, de cravo, de capin limao e por ai vai. Eles fazem com leite, sem uma gota de agua, e aquecem o leite junto com os temperos na panela, fica muito bom. E qualquer lugarzinho de beira de estrada e lugarzinho pe sujo como diz o Gui, tem um chai para voce.

Eu e Cristine nos preparando p/ dormir!

A chegada em Mandurai foi chata, pois os hoteis eram caros e os mais em conta eram terriveis, entao gastamos um tempo, em plena madrugada ate achar algo melhor. O calor estava insuportavel, nao dava quase para ficar no quarto durante o dia. A escolha pela barulhenta e suja Mandurai valeu a pena pelo templo maravilhoso. Confiram! Triste foi, em pleno calor, ter que andar por todo o templo gigantesco de pes descalcos e ainda sairmos do lado errado. O Gui teve que ir pulando buscar nossos sapatos bem longe dali, enquanto eu aguardava descalca conversando com uma indiana…

As paredes dos templos!

Os Brahmanes que cuidam dos templos!

Templo shivaita e o touro venerado!

Pelas ruas!

O que dizer da India?

Fiquei alguns dias pensando por onde comecar a falar da India de modo que voces pudessem se sentir bem familiarizados e perdessem aquela sensacao comum quando pensamos na India, como um lugar de costumes meio descabidos, onde tudo parece nao fazer muito sentido e que talvez por isso as pessoas sintam tanta curiosidade de ir ate la. Mas depois de eu ler alguns livros sobre a historia do pais, do povo e estudar sua religiao antes de chegar aqui, a India passou a ter sentido para mim e ‘e sobre esta India com sentido que quero comecar a falar, pois tem muita coisa para dizer da India…

Quando os europeus chegaram ao subcontinente indiano a regiao era dominada por reinos hindus e muculmanos que disputavam o poder entre si ha custa de muito sangue. Com a conquista da independencia no final dos anos 40 se dividiu primeiramente em India, onde ficou a maioria hindu, e Pakistao para os muculmanos. Disputas politicas continuaram a existir no leste da India, ate que no inicio da decada de 70, houve uma nova divisao formando Bangladeshi, tambem de maioria muculmana. Apos a conquista dos povos em terem seus proprios territorios e com isso garantir a sobrevivencia de suas tradicoes religiosas, a India finalmente pode ser India!! E apesar do numero de muculmanos ainda ser maior que a populacao do Brasil, nao ha como pensar e compreender o pais, sem antes compreender o hinduismo e sua marca na populacao. Entao pretendo contar um pouquinho da religiao, das castas e do momento que a India vive neste sentido religioso e espiritual.

Da mesma maneira que o Judaismo fala dos descendentes de Abrahao e Jacob (filho de Abrahao) – os judeus, o hinduismo fala dos hindus. Para fazer parte do hinduismo, voce precisa fazer parte da comunidade vedica, voce precisa ser hindu, porque a religiao deles nao fala de um “estado de ser” como o cristianismo, mas de um valor que ‘e trazido hereditariamente e que propoe organizar a sociedade, o famoso sistema de castas. A religiao hindu comecou a partir dos Vedas, o livro sagrado. A principal questao do hindu foi compreender quem ‘e o homem, por isso toda a religiao esta baseada no estudo de sua Antropovisao, que fala do que o homem ‘e e nao do que ele deveria ser. Nesse estudo aprofundado (e umas das coisas mais lindas que tive acesso nessa viagem) explica grande parte da cultura hindu, pois ela fala do homem e a conclusao principal, se ‘e que posso dizer assim, ‘e que todo homem possue uma ordem intrinseca que o apoia na realidade, que eles chamam de dharma e ‘e essa ordem que os sacerdotes hindus vao dizer que ‘e a religiao deles.

Arquitetura dos templos hindus. Poucos deuses?

Os vedas se afirmar como uma colecao de aplicacoes dessa ordem intrinseca que esta no anandamaia (a camada mais pura do homem). O hindu vai nomear a religiao dele como Sanatanadharma. Sanatana significa eterno e dharma lei. Segundo os hindus, cada ser tem um dharma, que vem anterior ao proprio ser e voce nao escolhe, mas precisa descobri-lo na caminhada da vida. Eles acreditam que Deus faz pessoas diferentes e caminhos diferentes para cada um chegar ate ele, por isso dizem que para cada individuo concreto ha um caminho concreto, o dharma e na medida em que voce se distancia do ser dharma perde sua identidade e passa a ser objeto de outros seres. E o hinduismo serve para traduzir o dharma do ser humano. Falando de uma forma mais “pratica”, cada homem possui uma identidade e uma missao, portanto uma vocacao. E ‘e em razao desta que o homem se realiza verdadeiramente e cumpre seu papel como ser humano.

Os vedas propoem que para manter uma religiao assim ‘e necessario “somente” duas coisas: o sistema de castas e que qualquer outra religao que queira entrar no pais somente os brahmanes (a casta mais nobre) podem aprovar. Por isso o hinduismo anexa diversas religioes, pois considera manifestacoes de Sanatanadharma. Assim a grande abertura do Induismo com os crencas e ritus de seus fieis, que para nos podem parecer costumes descabidos, para eles, o que importa ‘e levam a realizacao do dharma.

Os brahmanes que cuidam dos templos!

O hinduismo contempla tambem tres Deuses principais: Brahma – o Criador, Vishnu – o Mantenedor e Shiva – o destruidor/regenerador. Cada um expressa um dos aspectos de Deus. Cada fiel deve adorar sempre um aspecto do Deus  e mais um que tenha um papel de padroeiro para nos. Dos principais o mais reverenciado ‘e o Shiva e dos “padroeiros” ‘e o Ganesh, filho de Shiva (aquele com cabeca de elefante). A veneracao com as vacas acontece pois o touro ‘e o transporte de Shiva.

O touro de Shiva, venerado dentro dos templos!

Do que fala o sistema de castas? Tem um pensador suico chamado Frithjof Schuon que resume muito bem quando diz: “se existem a diversidade de qualificacoes humanas e a hereditariedade, o sistema de castas ‘e possivel e legitimo”. E ‘e disso que fala os vedas, que o sistema de castas se baseia na natureza das qualificacoes humanas e que neste sentido, ele pode ser aproveitado para toda humanidade.

O sistema fala de 4 castas principais e varias subdivisoes entre elas. Vou citar bem superficialmente as principais: existem os Brahmanes que sao o tipo puramente intelectual, contemplativo, sacerdotal, onde o que importa ‘e o Transcendente; em seguida existem os Kshatriyas que tem sua forca no carater, sao os grandes guerreiros e os martires (que podemos ver ao longo de toda historia do mundo), onde o que importa ‘e o ato, que determina e modifica as coisas; em seguida vem os Vaishyas que ‘e o homem material, ‘e a riqueza, a seguranca e a prosperidade que importa, sao os ditos comerciantes; e por ultimo vem o Shudra que ‘e qualificado para os trabalhos manuais, o trabalhador bracal, onde o que importa sao as satisfacoes vitais basicas, e tem como grande valor a fidelidade. Por ultimo vem os parias ou intocaveis, os sem castas, que sao os ordenados a fazer o que os outros rejeitam, pois eles sentem prazer na transgressao.

A sociedade hindu esta sub-divida basicamente nessas 4 castas principais, e mesmo que voce nao faca parte do hinduismo, por exemplo, voce seja um cristao indiano, voce ‘e hindu e portanto pertence a algumas dessas castas. O objetivo religioso das castas ‘e ordenar a sociedade para facilitar o caminho de seu dharma. ‘E um aspecto importante da identidade.

Sei que fica complicado para nos ocidentais entendermos e nao criticarmos o sistema de castas, por diversas razoes: primeiro o sentido de identidade para nos nao ‘e uma preocupacao comum, nos preocupamos muito mais em sermos eficientes e uteis do que em saber de fato quem somos; outro ponto que para nos o livre arbitrio, a liberdade de ir e vir, ‘e muito mais importante onde a casta “limitaria”; outro ponto ainda ‘e que subestimamos a hereditariedade porque ela quase nao funciona mais hoje em dia no nosso mundo ocidental; depois temos ainda o aspecto social que para nos ‘e discriminatorio e por ultimo, para quem olha para o aspecto religioso, temos um ensinamento muito marcado “ diante de Deus todos somos iguais”. E isso ‘e interessante citar, pois nesse ponto, para as pessoas altamente espirituais que possam surgir das outras castas, o sistema de castas tambem se neutraliza, como o caso de Nandamar que foi um santo paria.

Algumas grandes personalidades e santos hindus eram contra o “sistema”, nunca ao sentido e significado, das castas, como Buda por exemplo. Alguns destes, como Ramana Maharish, que dizia que o sistema era bom, mas nao funcionava mais na India, quem nascia numa familia Brahmane ja nao ‘e mais brahamane, quem nascia Paria ja nao ‘e mais paria e etc. Inclusive ele que foi um grande santo hindu, nasceu numa familia Brahmane e conta que nunca ouviu falar nos Vedas em casa, apenas em dinheiro.

Em decorrencia de varias questoes a hereditariedade nao esta mais funcionando como antigamente e isso fica de certa forma claro quando visitamos a India. Por seculos e seculos aquela familia que comecou brahmane continuara sendo brahmane, mas nao necessariamente os valores brahmanicos estarao presentes nos membros da familia. Estamos numa epoca de superpopulacao e de valores modernos e nesse sentido o mundo respira essa realidade e nao seria diferente na India. Quando falo de valores modernos, falo do culto a materia (ao dinheiro) e ao racionalismo cientifico. A India tem vivido os mesmos valores que nos. Gosto de uma parte onde o Shuon diz que o mundo vive uma epoca meio vaishya meio shudra e ao meu ver, ‘e isso mesmo.

Nesse cenario, encontramos muitos sadhus (que sao os monges daqui), pessoas que resolveram abandonar o mundo para viver somente de doacoes e de busca por iluminacao, que nao sao serios. Grande parte dos sadhus infelizmente hoje sao assim. Passam pelos turistas pedindo dinheiro ou se oferecendo para tirar fotos em troca de algumas rupias. O mesmo ocorre com os gurus (guru num sentido preciso na India ‘e alguem que atingiu a iluminacao), que aqui sao considerados semi-deuses, onde multidoes e multidoes seguem seus ensinamentos e sao falsos gurus. Esses dias tinha uma reportagem em um jornal local, de um guru super famoso que pregava o celibato estava envolvido com uma atriz de bollywood. O mesmo ocorre nos ashrams, locais que originalmente eram a casa de algum guru e as pessoas iam para praticar yoga, meditacao e participar dos pujas (cerimonias sagradas de purificacao) e hoje sao puramente comerciais. Existem poucos ainda que se mantem serios, vivendo de doacoes dos seguidores e ajudando a comunidade.

Como disse sabiamente um local para mim: “cuidado com os gurus e os ashrams, hoje essas pessoas so querem saber de dinheiro, nao ‘e mais como antigamente. Ai ele completou: “ eles tem milhares de seguidores, uma parte sao os nossos locais que vivem de estomago vazio e  em busca de milagres, e a outra parte, sao os seguidores ocidentais, que tem o estomago cheio, mas a cabeca e o coracao vazio”!!

Os fieis no templo em ritual!

As Quatro Nobres Verdades de Buda!

Para quem esta acompanhando o blog sabe que estamos agora na India. Como o pais ‘e riquissimo em todos os sentidos, esta dando trabalho preparar e compilar os textos para postar e voces poderem desfrutar com a gente. Enquanto isso, resolvi resgatar o post das “ 4 Nobres Verdades de Buda” e incluir nele o caminho para atingir a Iluminacacao, para que voces possam compreender melhor e junto comigo, migrar de religiao e de cultura – do Budismo para o Hinduismo.

As Quatro Nobres Verdades de Buda!

Contando novamente um pouquinho da historia de Buda ja comentada em post anterior…

Quando Buda nasceu, astrologos disseram ao sei pai que Buda teria um destino unico e especial. Se ele amasse o mundo, se tornaria um monarca e unificaria todos os reinos hindus, mas se por acaso nao amasse, seria um grande lider espiritual. Como o pai de Buda era um rei, pensou: “prefiro que ele seja um grande monarca, entao nao vamos da-lo nenhum desgosto”.

E Buda foi criado num ambiente de felicidade artificialmente construido. Nao eram permitidos velhos, doentes, pessoas de mau temperamento, ma indole e com vicios.  No seu primeiro ano de vida foi construido uma cidade so para ele. Quando ele atingiu a adolescencia, o pai o presenteou com tres palacios com 40 mil dancarinas.

Mas como Buda gostava muito de fazer exercicios, tornando-se habil em luta, tiro e cavalgadas, quando foi ficando mais velho quis cavalgar mais longe do castelo, mas o pai, naturalmente, nao o deixava. Entao, um dia, apos muita insistencia o pai permitiu, e como garantia, pediu para o exercito do castelo ir na frente afastando tudo o que poderia ser ruim, para que Buda passasse sem perceber.

No caminho, de longe Buda avistou um velho e perguntou ao guarda do castelo: “ O que ‘e aquilo?”  O guarda respondeu: “Aquilo ‘e um velho, ‘e a velhice!  E Buda perguntou: “ E alguns escapam da velhice?”  “Sim!”, respondeu o guarda.

Mais para frente Buda avistou um doente e perguntou ao guarda do castelo: “ O que ‘e aquilo?”  O guarda respondeu: “Aquilo ‘e um doente, ‘e a doenca!  E Buda perguntou: “ E alguns escapam da doenca?”  “Sim!”, respondeu o guarda.

Ainda no caminho Buda avistou um cadaver e perguntou ao guarda do castelo: “ O que ‘e aquilo?”  O guarda respondeu: “Aquilo ‘e um cadaver, ‘e a morte!  E Buda perguntou: “ E alguns escapam da morte?”  “Nao!”, respondeu o guarda, “ ninguem escapa da morte”.

Em seguida Buda de longe avista um monge mendigante e pergunta ao guarda do castelo: “ O que ‘e aquilo?”  O guarda responde: “Aquilo ‘e um monge, ‘e alguem que abandonou o mundo!

No caminho de volta, Buda ficou pensando seriamente: “se eu posso escapar da doenca, da velhice, mas nao da morte, qual o sentido de todos esses prazeres?” E pouco tempo depois, ele foge do palacio e conhece praticantes de rajayoga (exercicios que preparam o sujeito para o controle e dominio do corpo) que ensinam alguns exercicios e ele se torna mestre em todos os metodos: ficar enterrado tantos dias, ficar sem comer tanto tempo, etc.

Mas Buda continuava com suas inquietudes em relacao a vida e pensando: “ se existe a velhice, a doenca e a morte, a existencia tem um problema, porque todos estao sujeitos ao sofrimento! E decide parar com as praticas, ao perceber que so livravam do sofrimento fisico, para ir atras da resposta a sua pergunta. E sai para meditar isolado sobre a questao do sofrimento e dias e meses depois acorda e se torna o Buda.

E vai procurar os ex-colegas de rajayoga para dizer que compreendeu o problema do sofrimento e em quatro etapas. Este constitui ‘e o postulado fundamental do Budismo: As Quatro  Nobres Verdades. O unico ponto que todos os ramos budistas concordam.

Primeira Nobre Verdade: A verdade do sofrimento!

Todos os seres sofrem! Mas existe uma “anestesia mental” que alivia esse sofrimento. Uma especie de expectativa passiva do sofrimento, que de algum modo livrara o sujeito, como um “ vai passar, dias melhores virao!”. E Buda percebe que nao consegue fundamentar essa expectativa: vai passar como? E diz que ela ‘e a maior inimiga espiritual do homem. Isso serve para pensar: eu tenho que trabalhar para resolver esse problema e cessar esse sofrimento!!

Mas compreende que os todos os sofrimentos cessam, mas antes deles cessarem, aparecem outros.  Os sofrimentos sao partes intrinsecas da vida tal como a conhecemos. Doh’a ‘e traducao de sofrimento que significa originalmente “o desencaixar do tubo de uma roda em relacao ao seu centro.” Quando as carrocas estao andando e o raio desencaixava, por exemplo, ‘e o doha. Sofrimento ‘e primeiro o desencontro/desarmonia com o meio e segundo, com as diversas partes do individuo. Este desencaixe ‘e que provoca o sofrimento.

Segunda Nobre Verdade: A verdade das causas do sofrimento!

Porque a dor ‘e um sofrimento? Porque ela nao encaixa com voce, com o sujeito e o objeto da sensacao (voce e o outro, voce e o meio).  E o que o sujeito faz com isso? Deseja um encontro ideal! Quando voce encontra essa desarmonia, a mente imediatamente concebe uma relacao possivel e harmonica, e a deseja.

A causa do sofrimento ‘e o desejo. Aqui desejo nao tem o sentido comum. Ele usa a palavra desejo para o desejo de Realizacao Pessoal. Por isso, ele concebe um modelo ideal que nao causaria esse sofrimento e dai ele muda o mundo fora para que se adeque ao sujeito. O desejo de ordenar os objetos da percepcao a uma ordem do sujeito de percepcao! O desejo de recriar o mundo a sua imagem e semelhanca.

E ‘e possivel fazer isso? Buda pensou: eu nao sei! Pois eu nao sei quem ‘e esse EU que quer reordenar as coisas, preciso estuda-lo.  E percebeu que o EU faz isso porque ele gosta mais dele do que do mundo. Voce ‘e apegado a voce, mas nao ‘e tao apegado ao mundo. Voce NAO pode se imaginar de diversas maneiras, so de algumas. Buda entao comeca a investigar o EU e chega a terceira nobre verdade.

Terceira Nobre Verdade:  A verdade sobre sua verdadeira natureza!

O eu nao corresponde a nenhum objeto real. Quem ‘e o EU? O que voce chama de eu ‘e um conjunto  de relacoes com um nao-eu (o outro, o meio, tudo sao nao-eus).

Todas as coisas que definem voce ‘e uma relacao com um conjunto de objetos. Eu sou filho de fulano, eu sou esposa de ciclano, etc. Tudo o que compoe a ideia de eu, esta em relacao com algum objeto especifico que ‘e um nao eu. E so existe o eu porque existe os nao-eus e uma mente capaz de percebe-los.  E dai Buda se pergunta: e o que ‘e essa mente? E percebe: essa mente nao tem caracteristica de um EU! A mente nao ‘e nenhum deles. Ela ‘e so um testemunho destas relacoes entre o eu e o nao-eu.

Abrindo um parenteses:

O Budista fala de mente no sentido de intelecto, que significa a consciencia da captacao de uma realidade, nao como parte nao material do organismo, como no ocidente. O intelecto ‘e a consciencia do ser.

 

Entao Buda pensa: eu quero testemunhar a mente/ intelecto, para responder finalmente o que ‘e o EU. E compreende a terceira Nobre Verdade.

Buda percebe que seria como um jogo de espelho. Ele teria que criar um instrumento para que a sua mente se voltasse para ela mesma. O unico jeito seria silenciando a mente para ver o que restava. E percebeu: a mente da mente ‘e o fundamento ultimo da realidade, isso ‘e o real!

A verdadeira natureza da mente ‘e infinita, sabia, passiva no sentido de nao haver perturbacoes, pois ‘e ausente de dualidade, nao ha dois. ‘E iluminada. Ela ‘e a verdadeira natureza de todos os seres. Buda deu todas as caracteristicas do que a gente atribui a Deus. E fechou, dizendo que a sensacao do sofrimento ‘e possivel porque a sua causa ‘e a ignorancia em relacao a verdadeira natureza do ser!

Apos essa meditacao a respeito do sofrimento que Buda ao acordar e ser questionado por sabios sobre quem ele era, respondeu: “Eu sou Buda, eu sou desperto!”

Apos isso Buda se tornou O Iluminado e passou a ensinar a Quarta Nobre Verdade. O caminho para atingir a iluminacao, para se tornar Buda. O unico jeito do individuo se livrar dos ciclos de reencarnacoes, que para um budista conscio de sua doutrina sabe o quanto as reencarnacoes nao sao nada boas quanto parece para os ocidentais. Porque a logica ‘e simples, se voce foi bom, voce nao volta, voce fica la em “cima”.

Do caminho octoplus ‘e que foram criadas varias adaptacoes para que o sujeito, caso nao consiga atingir a iluminacao, possa concluir esse processo no “ceu” e sem precisar retornar. Dessas adaptacoes ‘e que surgiram os diversos ramos de Budismo existentes e que alguns, inclusive, se contradizem.

Quarta Nobre Verdade: O caminho para sessar o sofrimento.

O nobre Caminho Octoplus para que voce atinja a ilumincacao…

1- Visao Correta:

Voce precisa ter uma clareza intelectual suficiente para compreender a doutrina da iluminacao. Isso significa que voce precisa entender o conceito de: iluminacao; de ignorancia fundamental; das tres nobres verdades anteriores; do eu e do nao eu.

2- Intencao correta:

Uma vez que voce compreendeu a doutrina – o que ‘e a iluminacao, entao voce precisa intensionar, querer a ilumincacao.

3- Linguagem correta:

Uma vez que voce quer a iluminacao, voce precisara frente aos obstaculos da iluminacao,  reexpressar para voce mesmo constantemente a doutrina para nao se desviar.

4- Conduta Correta:

Voce precisa enquanto isso nao violar 5 preceitos.

Nao matar, nao roubar, nao mentir, nao ser incasto, nao ingerir substancias inebriantes ou bebidas.

5- Ocupacao Correta:

Buscar uma ocupacao, objetivamente e subjetivamente, que nao seja contraria a iluminacao, ter uma ocupacao que te ajude na caminhada e que nao exija que voce deixe de seguir alguns dos preceitos.

6- Esforco Correto:

Sempre fazer muitas acoes que visam exclusivamente a iluminacao.

7- Atencao Correta:

Sua atencao geralmente se volta para as relacoes com os objetos e agora tem que se voltar apenas para a testemunha dessas relacoes – a mente. A unica maneira de sessar o sofrimento ‘e voce acessar a sua verdadeira natureza, ou seja, chegar a Iluminacao.

8- Concentracao Correta: Alcancar um estado correto de atencao a esse testemunho da mente e persegui-lo.

Onde ficam as pessoas mas?

Buda nao classifica as pessoas em boas e mas. Ele classifica em tres: boas, mas e excelentes! As boas nao fazem o mal, mas fazem uso apenas dos instrumentos (objetos) da vida e nao conseguem ser nada fora a estes instrumentos, que sao finitos. As excelentes conseguem! E o mal ‘e quando o sujeito esta fora de sua ordem intrinseca, de seu alicerce, distante de sua verdadeira natureza. Os budistas possui a mesma visao de homem do Hindu.

* Essas palavras foram tiradas das aulas gravadas do site www.luizgonzagadecarvalho.com.br, no estudo de Religioes Comparadas, aulas de Budismo; das visitas aos templos e das informacoes disponiveis nestes.

Quem sao os mochileiros?

Achei que seria legal contar um pouco quem sao e como pensam os mochileiros de forma geral…

Bom, primeira coisa ‘e que mochileiro nao gosta de ser confundido com  turista comum. O que ‘e um turista comum? Geralmente alguem que gosta de conforto, de praticidade, de programas previamente definidos (suportados por uma agencia de turismo), e que em suas viagens convive com turista. Ja o mochileiro gosta de viajar de forma independente, sem muitos planos e, alterando os poucos que tem. Prefere conviver com os locais e na medida do possivel compreender ao maximo como eles vivem e o que pensam.

O mochileiro quase sempre sabe aonde esta e prefere usar os transportes locais. O turista comum, muitas vezes nao sabe direito aonde esta e prefere os onibus que pulam de atracao em atracao.  Independente do dinheiro que tem para gastar na viagem, o mochileiro busca gastar o menos possivel, ja que conforto definitivamente nao ‘e a maior necessidade. Para ele o mais importante sao as experiencias vividas nos lugares visitados, do que os pontos turisticos.

Da onde eles sao? Os mochileiros na sua maioria sao Europeus (liderados por alemaes, franceses e ingleses), alem de Canadenses, Israelenses e Australianos. Na Africa, com excessao das maiores atracoes, encontramos muitos poucos mochileiros. Ja no sudeste asiatico ‘e impressionante! Tem mochileiros, assim como todos os tipos de turistas, em todos os cantos. Por ser um destino barato e super preparado para o turismo, voce consegue, se quiser, fazer novas amizades todos os dias.

Vale acrescentar que o mochileiro que foge dos pontos mais turisticos da Africa ‘e bem diferente do mochileiro que viaja pelo Sudeste Asiatico (com excessao de algumas regioes da Indonesia e Myamar). O primeiro precisa ser realmente roots, pois nao vem nada de mao beijada, ja o segundo quase nao precisa pensar, tem agencias por todos os cantos e vans com precos super acessiveis que te levam por tudo. Sem que seja preciso voce pegar dois onibus para chegar ate a rodoviaria local e na chegada, pegar mais outro transporte (a descobrir) para te deixar proximo da regiao de hoteis, que voce precisara conhecer um a um, ate encontrar aquele com o preco e o conforto esperado.

Dentre os mochileiros, voce encontra muitos jovens casais por volta dos 28-35 anos e muitos solteiros de 20 a 25 anos viajando sozinhos e se agrupando a outros durante o caminho. O estilo de se vestir ‘e bastante proporcional ao tempo de viagem! Para os que estao viajando apenas por ferias ou coisa do tipo, gostam bastante de ousar nas roupas, tentando parecer o mais descolado possivel. Ja os que vieram para viagens longas nao tem tanto essa necessidade porque encaram isso como secundario ao objetivo maior da viagem. Quando digo “os de viagem longa” me refiro a pelo menos um ano. Apesar de que, encontramos algumas pessoas que venderam tudo e nao sabem quando vao voltar para casa e que casa.

Vamos ao estilo! O estilo do mochileiro vem muito como produto da necessidade. Quando voce tem apenas uma mochila e poucas opcoes de roupa e ainda nao teve tempo de lava-las, ‘e muito normal que uma coisa voce passe a esquecer na sua vida: a combinacao e harmonia das cores! Isso simplesmente desaparece e dai, meio que sem querer, essa miscelancia de cores e tipos de roupa se transformam magicamente num conjunto muito legal. Os mochileiros de primeira viagem forcam um pouco a barra, fazendo qualquer um notar que o conjunto foi cuidadosamente pensado e nao espontaneo, como deveria ser.

Dois exemplos das necessidades da mochilagem, para mim, mais curiosos: Em Gilli Air na Indonesia, uma europeia por ter esquecido o biquini (ou sei la porque…), mergulhava de calcinha e sutian claros, na maior tranquilidade, seguida de caminhadas no fim da tarde com calcinha e regata. Em lugares frios onde o tal mochileiro nao estava preparado para a temperatura, voce encontra alguns de bermuda e meia de futebol ate o joelho, sandalia e uma camiseta de manga comprida de lycra p/ surf, daquelas coladissimas! E por ai vai… Por exemplo, minha mochilinha de mao foi comida por um pequeno rato na pousada (a pousada era limpissima, mas aconteceu), ao ver o furo, o Gui disse:“nossa, agora tua mochila t’a muito de mochileira haha”! No fim das contas, como a mochilinha ja estava pequena demais, comecei a buscar uma nova, ate que encontramos um mochileiro que estava querendo reduzir o peso de suas coisas e nos deu uma mochilinha, um guarda-chuva e uma capa de mochila. Problema resolvido! A Marlinda, uma amiga nossa de viagem, quando comecou sua jornada levou um tenis altamente velho para seu periodo de mochilagem, duas semanas depois acompanhados de trekking, o tenis se despedacou literalmente, ela disse que nao tinha se tocado de quao velho era o tenis…

Outra coisa,  ‘e que depois de tanta viagem, atraves dos turistas a gente passa a ter alguma ideia da tendencia de moda internacional e uma coisa que me chamou muito atencao foi perceber o quanto no Brasil somos conservadores e uniformizados no estilo de se vestir, nem entrando no universo corte de cabelo. Vendo os turistas, voce resgata algumas modas classicas que voce havia esquecido: para as mulheres, o resgate do cabelo preto azul (nao ‘e como no Brasil, que depois da Gisele Bundchen, a maior parte adotou o cabelo natural ou pintado com cara de natural). Bandana na cabeca; camiseta de rock com colares de caveira; camisa xadres; coletes; chapeus estilo social, boinas; oculos falsificado da ray ban colorido modelo pai, e claro, as Legitimas, que ‘e o cumulo do cool. Quanto mais velhas, com cores desgastadas, amassadas, furadas e surradas forem suas roupas, mais apropriado voce esta, mais cool voce ‘e!

Os cabelos das mochileiras tambem ‘e outro ponto. Como muitas vezes o chuveiro quente nao ‘e uma garantia, ‘e normal ve-las de cabelos presos e oleosos. Para as fazedoras de estilo, o cabelo ‘e usado super baguncado, como se tivessem dormido tres dias seguidos e rolado na cama a noite inteira ininterruptamente. O que acaba fazendo com que o estilo “cuidadosamente feito” seja detectado, ‘e que junto aos cabelos ultra baguncados existem mil camadas de rimel!

Bom, e como a maioria dos mochileiros decidiu viajar? Existem os que terminaram o colegio e resolvem viajar por um periodo antes de comecar a faculdade; assim como os que terminaram a faculdade e decidem viajar antes de entrar no mercado de trabalho. Os israelenses sao um caso a parte, existe quase que uma regra entre eles, viajar por longos periodos apos o servico militar obrigatorio. A saber, homem tres anos e mulher dois anos de servico. Ja os mais velhos, normalmente ja tiveram alguma experiencia de mochilagem na vida e ao descobrirem que ‘e possivel viajar para varios destinos gastando menos de 600 dolares/mes, ao voltar para casa planejam guardar dinheiro para um dia fazer uma viagem longa. Na maior parte das vezes essas pessoas possuem trabalhos de satisfacao exclusivamente financeira e ao se depararam com o mundo magico da mochilagem passam a guardar para viajar, voltar para seu pa’is, trabalhar mais, guardar de novo e viajar indefinidademente. Alguns, mais descolados, ja passam a trabalhar durante a viagem para continuar viajando. Outros, numa tentativa desesperada vendem coisas para estender a viagem. Ate vender a mochila…

Budismo e a despedida do Sudeste Asiatico!

Depois de mais de quatro meses passeando pelo sudeste asiatico, nossos sentimentos eram paradoxais. Felizes por estarmos a caminho da India, mas tristes por deixarmos o povo. Deu tempo sem duvida de enjoar da comida, nunca mais querer ver um nasi-goreng e nem um phad thai na frente, mas deixou saudades.

Nao vou esquecer da imponencia eletronica, da Chinatown e dos mergulhos indescritiveis da Malasia, da organizacao e  cidade modelo de Singapura, da beleza e charme da Indonesia, da persistencia povo do Vietnan, das facilidades, prazeres e praias da Tailandia, da devocao e pureza do povo de Myanmar e  das beleza e loucura do Laos.

Tambem nao vou esquecer do quanto me senti segura no Sudeste Asiatico e o quanto me assusta pensar em voltar para o Brasil e voltar a ter medo de andar nas ruas. Durante toda viagem, desde a Africa, nao tivemos se quer nenhum problema com violencia. E andamos por muitas ruas escuras. Nos paises que passamos na Africa, se alguem tenta te roubar e as pessoas veem, o sujeito ‘e linchado e talvez morto se a policia nao chegar a tempo. No sudeste asiatico, isso nem chega a acontecer, se ocorrer um roubo, vai ser daqueles que voce nem viu e nem sentiu, mas os indices sao ridiculos. Quando conversamos com os turistas, eles sempre dizem que tem muita vontade de visitar o Brasil, mas tem medo. Nos perguntam, meio com vergonha de perguntar, se ‘e violento mesmo? E a gente tem que cuidar para dizer a verdade, mas sem assustar…

O Budismo, religiao esmagadora do sudeste asiatico, com excessao da Indonesia, tambem ficou marcado. Os templos, a devocao, as oferendas tao presentes no dia a dia do povo. Qualquer entrada de hotel tem um altar, em qualquer loja, dentro de qualquer carro e assim por diante.  Deu para aprender muito mais sobre o Budismo, vive-lo mais de perto e perder as ilusoes ocidentais por Buda. Apesar do Budismo nunca ter se proposto como uma religiao, como se pode ver pelas proprias quatro nobres verdades, ‘e possivel  constatar o quanto Buda foi longe, brilhante e preciso em suas percepcoes. E o quanto sua filosofia – levada a cabo, ‘e para poucos! Seguir o caminho octopus ou mesmo suas adaptacoes posteriores ‘e para minoria! Budismo ‘e um caminho para gente que gosta realmente de pensar, de querer compreender as coisas a fundo, que nao tem medo da verdade e que se propoe a abrir mao do que for preciso, por ela!