A caminho de Ramana Maharish!

De Tanjore seguimos para Tirunavamalai. Estava em duvida se encararia a viagem ate la, pois mudariamos bastante nossa rota e nao seria nem um pouco confortavel, pois a cidadezinha ficava um pouco no meio da nada. Mas a minha motivacao era enorme, pois la fica o ashram de Ramana Maharish, um santo hindu que morreu ao final dos anos 40 e que atingiu a iluminacao muito cedo, perto dos 20 anos e compartilhou sua experencia de uma forma muito objetiva com todos.

Minha curiosidade por Ramana iniciou quando ainda estava em Curitiba um pouco antes de sair para viajar e no centro onde faco yoga havia um cartaz na porta, com uma foto do Mararish escrita: “ Quem sou eu?”. Um indiano, devoto dele estaria em Curitiba para falar um pouco de seus ensinamentos ao redor desta pergunta central que aflige todos os que tem uma busca espiritual latente. Seria um final de semana de bate-papo e eu paguei o curso e de ultima hora nao consegui ir, pois estava atolada de trabalho para entregar na segunda-feira, o meu ultimo prazo. Aquilo ficou no meu coracao e pensei um dia ainda volto a pensar no Ramana… Mais tarde, escutando as aulas de hinduismo, meu professor citou ele como uma figura serissima e respeitada, inclusive dentre a bibliografia recomendada sobre hinduismo estao os ensinamentos de Sri Ramana Mararish.

Entao la fomos nos. Pegamos o onibus em Tanjore ate uma cidadezinha ha duas horas dali, onde havia outro onibus que seguia direto para Tirunavamalai. Quando chegamos na rodoviaria local me recordei da Africa. Era um lugar decadente, sujo, recheado por vacas e suas necessidades espalhadas por todos os cantos e ventos de mosca que quase te derrubavam. Como nao tinha nem um estrangeiro no lugar, fomos atracao de circo. Todo mundo nos olhava e todos queria nos conhecer. “ Which country?” E nao havia onibus direto como tinham nos falado, teriamos fazer nova conexao numa outra cidade que sim seguia para Tirunavamalai. Esperamos mais uma hora e chegou o nosso onibus podrasso 2.

Com as comidas na mao recem compradas pelo Gui, a caminho do onibus que estava ja saindo, ele literalmente chuta seu pe sobre uma bosta de vaca recem feita. Ele estava de chinelo! Com o onibus saindo, o jeito foi arrancar os jornais que enrolavam nossas samussas para limpar o pe e jogar com cuidado a agua que tinhamos para beber durante a viagem. Fomos com o pe do Gui meio fedendo ate a proxima cidade ha 3 horas dali.

Faco questao de compartilhar essa experiencia surreal para contar que essas sao coisas que so “ o Oriente faz para voce”. Voce passa por situacoes desumanas em termos de conforto, limpeza, organizacao em alguns momentos da viagem, que voce nunca mais vai esquecer na vida. Uma viagem pode acabar com sua cara cheia de terra de tanta poeira como na Africa ou pisar na ditucuja na India e quase se desequilibrar na sua caminhada pelas rajadas de moscas. *Sugiro lerem esses post da Africa, ‘e bem engracado, tem as fotos (esta no tambemsai do blog do Gui).

Quando chegamos na proxima cidade ja estava anoitecendo e achamos melhor dormir por la mesmo para seguirmos no outro dia. So achamos um hotel meia sola, fedidinho, daqueles para esquecer que um dia voce dormiu. No final da manha finalmente chegamos em Tirunablablabla. Tentamos ver se haviam quartos vagos no ashram do Ramana, mas estava lotado, entao fomos para um hotel/ashram recomendado por eles, que funciona por doacao. O lugar era simples, mas muito limpo e com quartos espacosos. Mas as tres refeicoes inclusas eram de chorar. Sem gosto, bem bandejao. Foi bom para perder alguns quilos que ha anos fazia dietas que nao alcancavam estas gorduras. Fiquei enxuta!

Passamos cinco dias em Tirunablablabla, e nossa rotina era ir todo dia no ashram, participar do pujas ao longo do dia, as cerimonias sagradas dos brahmanes. Pra quem nao sabe, cerimonias hindus sao sempre regadas com muito incenso, mantras e rezas longas, em geral lindissimas, com ritmos, batuques e tudo mais, para eles o canto e ritmo promovido pelas rezas eleva ao contado com Deus.

Ashram

Bom, mas quem foi Sri Ramana Mararish?

Ramana nasceu em Mandurai, era filho de uma familia brahmane que nunca falou de Deus, muito pelo contrario, so falavam em dinheiro. Maharish era um garoto normal, ate o dia em que recebe a visita de um tio monge mendigante, quando tinha uns 10 ou 12 anos, que dispertou nele muita curiosidade em querer compreender porque o tio vivia daquele jeito. O tio conta que havia uma maldicao feita contra a familia deles ha muitos seculos atras, onde em todas as geracoes sempre haveria um filho monge mendigante ou um esquisofrenico e o tio preferiu se tornar logo monge para garantir. Ramana ficou muito tocado com a historia e ficou pensando nisso por meses, pois nao queria nem ser monge mendigante nem esquisofrenico. Por um periodo longo deixou a historia de lado e um belo dia, quando tinha 16 anos, chegou em casa e nao havia ninguem. Subiu no seu quarto que ficava no sotao e veio repentinamente de uma forma muito forte a ideia da morte e ele sentiu um medo avassalador. Entao pensou: “O que ‘e morrer?” E deitou sobre o chao do quarto dele em posicao de morto e tentou devagar e de forma bem consciente simular para si mesmo sua morte. “E se eu nao escutasse mais? E se eu nao sentisse mais?…” E foi desligando todas as funcoes do seu corpo uma a uma, bem devagar, ate prender bem forte a respiracao e conseguir desligar toda as sensacoes do seu corpo. Mas nao conseguiu desligar o EU que falava dentro dele, e se deu conta de que o EU teria que ser desligado por um outro! Entao se perguntou: “Quem sou eu?; Quem ‘e esse eu?” Como ele nao tinha a resposta, ele comecou a frequentar o templo e rezar muito para descobrir, ficou 2 ou 3 meses fazendo isso, com a ideia da morte na cabeca e chegou a conclusao que nao adiantaria pedir ajuda, que era o tipo de pergunta que ele teria que responder por si mesmo. Juntou todo o dinheiro que ficava numa lata de acucar na cozinha e foi ate a estacao de trem e pediu uma passagem que o levasse o mais longe possivel. Chegou em Trunavamalai, onde avistou o Monte Arunashala, que sem saber, era o monte onde Shiva se transformou numa coluna de fogo que desta nasceu a planta rudraxa que todos os yogis e afins usam no pescoco. Subiu no pe do monte, encontrou uma caverna/templo e la se sentou em posicao de meditacao. Passado um mes e pouco, um homem que cuidava do templo encontrou Ramana em posicao de lotus completamente sem consciencia do corpo, com a boca recheada por formigas. Pensou: “’e um santo!” E comecou a cuidar dele, limpando, dando uma comida bem liquida aos poucos na boca e Ramana continuou la sem se mexer. Uns meses depois, ele disperta, ve um monte de gente dormindo ao redor dele, acha muito movimentado e vai para outro templo mais acima. O homem encontra ele novamente e continua cuidando e os fieis ja sao em numero maior esperando o dia dele acordar. Alguns meses depois, ele disperta de modo definitivo e pede p/ ler os Vedas, o livro sagrado do hinduismo e poucos dias depois chama alguns brahamanes para contar o que compreendeu. Todos ficaram chocados, ele havia compreendido os Vedas numa sentada e ainda muito mais que os proprios brahmanes. Depois disso Ramana fica mais um periodo sem falar com ninguem se comunicando apenas pela escrita ate passar a dar seus ensinamentos a todos. Teve problemas fisicos bem serios pelo periodo que ficou sem se mover na posicao de lotus, e demorou quase tres anos para estar com o corpo em pleno movimento. Com menos de 20 anos de idade ele era um iluminado!

Monte Arunalashala

Bom, a historia de Ramana ja mostra o quanto ele ‘e especial, um santo, pois foi muito intenso e rapido seu processo, uma intervencao divina muito clara. Ele diz que foi o poder de Arunalashala. Comprei tres livros do Ramana no ashram e ‘e impressionante a objetividade dele e a clareza frente a Deus. Nao tem como contar aqui todos os seus ensinamentos, mas pra quem se interessa segue o principal:

Deus ‘e como um ima, a sua presenca ‘e que faz tudo se mover e o mundo continuar existindo, funcionando bem ou mal. Querer controlar a vida ‘e como entrar num trem em movimento com a mala na cabeca!

Iluminacao ‘e libertacao, ‘e a ausencia completa de dualidade, ‘e partilhar da natureza pura de todas as coisas, ‘e partilhar da natureza de Deus. Tanto que durante toda sua vida no ashram, ele nao tinha um quarto para ele, dormia num sofa no meio do templo, no mesmo lugar onde recebia os fies. Pois dizia que essa coisa eu-voces ‘e ilusao, ‘e tudo uma coisa so, ‘e tudo Deus em diferentes manifestacoes.

Mas o principal, que mais gostei, ‘e que ele fala que existem somente dois caminhos para se chegar a iluminacao ou para estar de verdade num caminho espiritual. Se formos ver ele fez a mesma coisa que Buda, so pegou direto o atalho do quem sou eu, enquanto Buda comecou pela questao do sofrimento. Um dos caminhos ‘e o da meditacao, centrado na pergunta quem sou eu, procurando manter-se consciente de que tudo o que vem na sua cabeca: pensamentos, desejos, lembrancas, medos, etc, sao desgastes do suposto eu com o nao-eu, testemunhadas pela mente. Atraves da pratica regular de meditacao voce vai silenciando sua mente e deixando de ser so produto dela, ou seja, deixando de ser voce separado do mundo (eu e nao-eu), para acessar a esse eu puro, que ‘e a sua natureza divina. Ou, o outro caminho, ‘e a devocao, voce reproduzir o comportamento de Deus (de acordo o Deus da sua religiao) e ao copiar voce vai deixando aos poucos de ser voce, isso tambem silencia sua mente e ego e; nesse processo voce chega a iluminacao. ‘E o caminho dos santos cristaos, por exemplo.

Ele nao recomenda que as pessoas abandonem o mundo para meditar, diz que cada um tem seu caminho e sua indentidade espiritual (sua missao) que so pode ser acessada e compreendida por um destes dois processos. Portanto voce nao tem como saber, antes de estar nesse caminho, se isso ‘e para voce. So dentro dele e com os avancos voce podera compreender esta verdadeira identidade.

O processo que nos normalmente fazemos, que ‘e pegar um pouco de cada lugar, de acordo com o nosso “senso critico”, continua dando poder ao nosso ego, ao nosso pseudo eu e no fim das contas voce tem um pseudo suposto-eu melhorado.

Fala que todos que possuem uma aspiracao espiritual devem seguir sua vida normal num desses dois caminhos, procurando nao se identificar com o eu e nao-eu (familia, trabalho, etc). Achar que a verdade est’a em maya. Maya ‘e tudo que passa pelos 5 sentidos… e sao todas aparencias do Deus original, conceito hindu. Vivemos num mundo maya! Nao se identificar nao significa nao amar, nao partilhar, mas saber que no fim das contas, tudo isso um dia acaba e nesse sentido ‘e uma ilusao! Por isso devemos regar, cuidar daquilo que nao acabara, que ‘e nossa alma, como diz meu professor, a alma ‘e o Deus que reside dentro de nos. Os hindus com uma forte busca espiritual costumam, quando seus filhos ja estao casados, e ja tambem tem filhos, abandonar a familia e se dedicar somente a vida espiritual.

Conforme os escritos do Vedanta o “ nosso corpo ‘e como um vaso, parece que o que tem dentro ‘e separado do que tem fora, mas na verdade ‘e so uma ilusao, meditando voce consegue quebrar o vaso e ver que tudo ‘e a mesma coisa!

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7 comentários em “A caminho de Ramana Maharish!

  1. Bibiiiiiiiii….ahhhhhhhh!!!!!!!!!!
    mama mia!! que maravilhoso!!
    “pseudo suposto-eu melhorado”: essa sou eu…ajudaaaaaa!!!!

  2. Bibi estou com saudades, e impressionada com tua performance “Budista”, não ficastes dormente neguinha?
    Aprentestes só meditar ou dançar também queridinha?
    Brincadeirinha amiga, adorei saber que estas se identificando com esta cultura maravilhosa, se tivesse tua idade estaria nesta aventura… (espero que nesta viagem a India venhas “gerando” novidade)
    Precisamos novas gerações na família amiguinha!
    Sabes, estou a caminho de Meia Praia, vou dormir lá e vamos fazer sopa de agnoline para Marco e amigos que chegam hoje!!!
    beijos
    * Marilea manda milhões de bjs esperando logo te ver.

    • Oi querida, que amada que vc ‘e, beijo p/ Marileia tb.
      A perna fica dormente sim, mas depois passa!
      Que legal que vcs continuam acompanhando.
      Obrigada pelo carinho.
      Bibi

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