Vida de ashram!

Pra quem nao sabe direito o que ‘e um ashram, vale uma breve explicacao. Ashram ‘e um lugar sagrado para os hindus, morada de algum Guru/Swami vivo ou falecido. Geralmente funciona por doacao e oferece um programa de yoga, meditacao e estudos vedicos durante boa parte do ano. Os funcionarios que ajudam a manter o ashram, na sua maioria trabalham praticamente de graca, apenas para ter a oportunidade de morar na casa de seu Guru.

Alguns buscam um ashram somente para fazer um programa de yoga e meditacao para conhecer; outros simplesmente para ficar no ashram e fazer seu proprio retiro espiritual; e outros ainda vao para conhecer o Guru.

No Pool Chatti Ashram haviam passado por la quatro grandes Swamis, pois o ashram completava quase 130 anos, O mais importante deles, tinha seu corpo enterrado ali e sua alma protegia o lugar (isso tambem ‘e bastante comum nos ashrams). A diferenca entre um Guru e um swami ‘e o desenvolvimento espiritual, o Swami est’a acima do Guru.

Portao para natureza!

O grande diferencial do Pool Chatti na verdade nao eram seus mestres vivos, apesar de hoje contar com mais dois Swamis, mas a area verde ao redor e a atmosfera do lugar. Ao contrario da maioria dos ashrams de Rishikesh, este ficava a 6km da barulhenta Laxmanjula e era cercado por uma natureza tal que calava as mentes mais exitadas. O sagrado Ganges passava em frente, formando diversas prainhas isoladas a escolher ao longo do rio, recheadas de pedras enormes, alem de cachoeiras.

Caminhada diaria!

A comida do ashram (obviamente vegetariana) era baseada na medicina ayurvedica, pois os Swamis que ali moraram eram doutores em ayurveda. A comida era simples e saborosa, mas a escolha dos alimentos dava prazer em comer. Cada um recebia uma bandeja que era de sua responsabildiade ate o ulitmo dia. Sentia o meu corpo gritando: “ obrigada Bianca, podia ser sempre assim!” A minha pele parecia uma seda, meu intestino funcionava maravilhosamente, meu estomago estava leve, apos as refeicoes nao me sentia fadigada e a minha mente estava serena e silenciosa. E mesmo comendo muito bem, perdi peso.

Refeicoes!

Lembro da minha sensacao ao chegar quando largamos as mochilas no fim de tarde do dia 13/abril. O Pool Chatti era absolutamente silencioso, no maximo conseguiamos ouvir o barulho do Ganges, era formado por um conjunto tres predinhos baixinhos, onde no centro de todos ficava o Templo e um lugar para os pombos. Eles tinham 3 cachorrros encontrados na rua que cuidavam e se alimentavam tambem das comidas ayurvedas, e um lugar especial para os pombos dormirem a noite. Duas familias de indianos que nao tinham onde morar, tambem ficavam la.

Area interna!

Templo!

Fomos recebidas pela indiana que coordena o ashram e sua assistente. Marlinda veio para fazer seu proprio retiro e eu, num primeiro momento, fazer o programa de yoga, meditacao e estudos vedicos e depois seguir sozinha. O programa comecava no dia seguinte as 15:00h. Com a chave do meu quarto em maos, fui conhecer o lugar que passaria dias. Era um quarto simples, limpo e aconchegante, com banheiro fora. Pensava: “meu Deus, finalmente um lugar para digerir a viagem.”

Os meus companheiros de jornada comecavam a chegar. Meus vizinhos de andar eram um ingles bem bacana, ateu e que ambiguamente buscava meditacao, yoga e paz. Do lado esquerdo uma americana que mais parecia uma boneca quando comecava a falar (era como se fosse ligada a pilha e tudo saia com a mesma voz e trejeitos) tb ateia, veio para fazer o programa e dar uma alongada, como disse. No mais, o restante do meu grupo era mais ou menos, no sentido de que nenhum deles sabia direito o que estava fazendo ali ou tinha uma busca espiritual que os movia, a maior parte queria dar uma alongada nos musculos, infelizmente. Com excessao de uma canadense que causou certo frisson, pois ela nao gostou da assistente americana.

Quando ainda estava buscando qual ashram ficar na India, amigos me recomendaram alguns Gurus vivos, como o Sai Baba ou a Ama, por exemplo, mas nenhum deles me tocava. Sentia atracao pelo Maharish e alem dele ninguem mais. Foi quando recebi uma otima recomendacao de um ashram orientado para Jnanas-Yogas (tipo de pessoa que se une a Deus atraves do conhecimento, da filosofia perene, do estudo) com um grande Swami vivo, mas seis meses antes da data que gostaria ja estava lotado para ve-lo. Fim das contas, contei com o destino, pois sabia que seria encaminhada de uma maneira ou outra para o ashram que precisava. E foi a melhor coisa que fiz, pois quando chegou a epoca de ir eu nao queria mais conhecer nenhum Guru/Swami, pois havia encontrado o meu (*conto mais tarde). O Pool Chatti entao surgiu de ultima hora atraves da Marlinda e como ela havia estado la era uma referencia forte. E como aquelas obras dos nossos anjos guardioes, o lugar foi perfeito para mim.

A rotina do programa era bastante intensa. As 5:30h tocava o sino (do templo que havia dentro do ashram) nos acordando; 06:00h comecavamos a meditar; 06:50h nos dirigiamos para o patio para limpeza do nariz para os exercicios de respiracao (colocavamos uma especie de mini-regador com a quantidade de um copo cheio de agua quentinha numa narina para que a agua escorresse pela outra e trocavamos); 07:00h comecavam os exercicios de respitacao (pranayama) e yoga ate as 09:00h quando tomavamos nosso cafe da manha; 10:15h era hora de carma (acao) yoga onde limpavamos nossos banheiros, quarto, colhiamos alface na horta para o almoco; 10:30h comecava a caminhada contemplativa ate 12:30h almoco; as 15:00h leitura e discussao com a professora de yoga que vivia no ashram e sua assistente; 16:00h yoga novamente ate 17:30h, quando tinhamos tempo livre ate as 19:00h, horario da reza em frente ao templo e 19:45h jantar; 20:30h mais uma meditacao, antes do horario de dormir; 21:00h todos deviam se encaminhar para seus quartos.

A hora que mais gostava era a hora da reza. Os swamis comecavam a purificar o templo por dentro, com agua e incenso, e todos as pessoas que estavam la, fosse hospedes ou nao, tocavam os sinos ininterruptamente, eram varios, os cachorros comecavam a uivar ate os swamis comecarem a rezar. Apos todos nos sentavamos numa roda, pegavamos os chocalhos e tambores para comecar a rezar. Recebiamos um papel para acompanhar. E todos cantavam/rezavam juntos enquanto os sol se punha. Esse momento para mim era magico! Para todos que estavam la, acredito.

Eles recomendavam nao falar durante o programa, somente das 13:00 as 16:00h. Como a Marlinda estava la e passaria somente uma semana, o tempo certinho do programa, e depois nao sabia quando a veria de novo, fiz a escolha consciente de falar somente a noite com Marlinda para aproveitar sua presenca, nos demais periodos me mantinha em silencio e nao sentia falta nenhuma de falar. Na verdade, nao sentia vontade nem de falar a noite, mas queria estar com a Marlinda. Meu grupo quase nao ficava quieto, falavam o tempo todo, ate nas refeicoes que era terminantemente proibido. Depois do jantar eu e Marlinda conversavamos no terraco vendo as estrelas exitadas com as nossas descobertas espirituais, ela estava chegando a mesma conclusao que eu (* conto mais tarde).

Todos os dias, no horario livre depois da segunda yoga do dia, corria para me banhar no Ganges. A temperatura era mais ou menos 16 graus, ou seja, um freezer. Todo mundo pulava e saia correndo. Eu demorava longos 20 minutos para entrar e depois de submersa, ficava quase uma hora ali, sentindo a perfeicao da fisica atuando, tornando profundamente confortavel a temperatura do meu corpo. Dali seguia para um pequeno rio em frente, ja bem mais quente, parecendo que eu tinha saido da piscina para sauna. Me secava sobre uma grande pedra com os olhos fechados curtindo o silencio, sentindo a energia notavel da pedra e a atmosfera indescritivelmente Sagrada do lugar.

Do lado do Ganges!

O rio quente e o Ganges!

Ao fim do setimo dia, o programa acabou e a Marlinda foi embora. O programa foi ok, nada demais, mas suficiente para o que eu precisava – me organizar e centrar. Mas tudo foi muito “armado” no bom sentido, pois nem a indiana nem a americana me tocaram, nao aprendi quase nada com nenhuma das duas, na verdade gostei do xerox entregue para as aulas de leitura e discussao, mas so. O grupo apesar de legal, tambem nao houve ninguem que me identificasse. E nesse sentido acho que foi tudo armado, porque nao havia nada que me estimulasse nas pessoas, o que geralmente acontece comigo, pois gosto muito de me relacionar, gosto do outro, e isso fazia com que eu me voltasse mais ainda para mim e nao tivesse nem uma influencia externa na minha caminhada ali no Pool Chatti.

Quando a Marlinda se foi eu me calei de vez. Aproveitei para fazer minha propria pratica, tomar banhos e mais banhos no Ganges, e caminhar sem pretencao ate achar um lugar bonito a margem do rio para sentar e contemplar a vida, a natureza, as transformacoes que a viagem estava me propondo. O silencio foi tao profundo na minha alma, que cheguei a questionar se deveria um dia ir embora dali. E o que tinha na vida fora do ashram que me fazia voltar? A Lalita, a indiana, foi questionada pelos alunos porque ela estava ha 21 anos no ashram e nunca tinha saido dali, nao tinha familia, etc. Ela respondeu: “eu sou casada com Deus!”

 

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Do Rajastao para Rishikesh!

O Rajastao ‘e um estado ao noroeste da India que contem uma cultura muito forte. Grande parte da nossa imaginacao sobre o pais sae dali. Entre as mulheres estao os saris coloridissimos e argolas largas no nariz; com os homens seus turbantes de cores vibrantes que identificam casta, religiao, alem de diversas outras tradicoes, que pertencem. As cores variam entre branco, rosa-pink, amarelo florecente, laranjado e colorido. O mesmo ocorre com os saris.

No Rajastao passamos por Udaipur, cidade com um lindo lago no centro juntamente com o imponente Palacio do Maraja. Passamos varios dias largados nos cafes e curtindo a beleza do lago nos finais de tarde no terraco de um gostoso restaurante.

Palacio do maraja!

Vista do restaurante!

Udaipur

De la seguimos para Jodpur, a cidade azul aos arredores de um imponente forte e de mais outro palacio de um maraja. Sujeira, buzinas e vacas faziam parte do cenario. O calor estava perto dos 40 graus e eu nao aguentava mais a bagunca da India. Comemoramos nosso aniversario de casamento ao mesmo tempo que comemoramos a Pascoa. Haviamos resolvido seguir a quarentena, entao no dia 04 aproveitei para degustar meu primeiro pedaco de carne e tomar uma cerveja. O Gui preferiu manter-se sem carne e alcool ate sairmos da India.

Vista para o Forte

Palacio de outro maraja!

Quer comprar saris?

Jodpur - cidade azul!

No Forte!

Assistimos um filme maravilhoso de bollywood no cinema e deu ate para chorar. Como os filmes sao longos, depois de uma hora e meia tem intervalo e deu para aproveitar e espichar as pernas. Quero tentar baixar o filme pela internet quando voltar ao Brasil e ver de novo. Uma historia de amor daquelas dos tempos de nosso avos. Achei muito bonito ver como os indianos tem ainda um coracao ingenuo e pouco moderno, pena que alguns filmes de bollywood ja estao se contaminando e a nova geracao de jovens indianos estao ficando bem mais ocidentalizados.

Historia de amor!

De Jodpur resolvemos encarar Jaisalmer, a cidade ao lado do deserto Thar, mesmo sabendo do calor infernal que fazia. Foi uma otima decisao. Pois conseguimos encontrar um hotel baratissimo com piscina para passarmos o dia na agua e emendarmos um passeio no deserto. Conhecemos um casal portugues que estava fazendo a India de moto (que inveja!), foram nossas companhias por alguns dias. Conversavamos ao modo bem latino, dando para matar a saudades de casa, eles eram muito legais. Como nunca tinha estado no deserto e nem andado de camelo, estava curiosa de como seria a experiencia. Um casal ingles bem sem graca nos acompanhou.

O passeio de camelo foi ultra desconfortavel como todo mundo dizia, nao consigo entender porque os camelos andam daquele jeito tao insuportavel, podia ser tao legal! Como um cavalo, por exemplo, mas nao, dependendo das horas de passeio, voce pode passar alguns dias lembrando do camelo. Como estava num dia muito bom comigo, procurei me entregar ao ritmo do camelo e consegui ate meditar em alguns periodos.

Final de tarde chegou, o calor foi embora e fomos encontrar um lugar para dormir. A noite o guia fez uma comida bem gostosa e jantamos ao redor da fogueira. O sol estava estrelado e o silencio do deserto era fascinante. Para mim o deserto proporciona (nas horas de pouco calor)  um contato com Deus e  uma astmosfera sagrada que poucos lugares possuem. O silencio, o cenario todo igual, a distancia da areia e do ceu reduzida (pelo menos parece…) dao uma sensacao de que se existe um simbolo do purgatorio na terra, acho que ‘e o deserto. A sensacao ‘e de que so existe voce e Deus, cara a cara, prontos para dialogar. Amei!

Seguimos para Jairpur, somente para nao irmos direto para Delli, enfrentando muitas horas de trem. Conhecemos um local construido por mais um maraja com varios aparelhos de medicao astrologica. Ele adorava astrologia e os aparelhos eram capazes de dizer a hora do dia com precisao. Aproveitei para tirar foto do Grande Signo do Zodiaco.  Descansamos, passeamos, e a noite embarcamos para Haridwar, ao lado de Rishikesh, unica forma de chegar ate la. Estava muito empolgada, pois encontraria minha amiga Marlinda holandesa que estava me esperando e depois seguiria finalmente para o ashram que praticamente desde que comecei a viajem sonhava.

Jairpur - aparelhos de medicao astrologica.

Cena comum!

A chegada em Haridwar foi horrivel. A viagem que seria de 10 horas, foi de 15 e nos estavamos na ultima poltrona do onibus, quase nem mexia rsrs… Pegamos um transito infernal para entrar na cidade pois estava tendo o Kumba Mela, um festival importantissimo para os indianos, que ocorre a cada 4 anos, mas a cada 12, ‘e sagradissimo. Nos chegamos no dos 12 anos! Haviam 15 milhoes de pessoas na cidade, voces conseguem imaginar o que ‘e isso numa cidade minuscula? Por favor, parem um segundo e tentem. Eu nao conseguia ate ver com meus proprios olhos.

Chegada em Haridwar!

Nas ruas de Rishikesh!

Ponte para o ashram!

Yogis!

Sol, acampamentos para todos os lados e mar de pessoas compunham o cenario. Depois de muitas horas conseguimos uma bicicleta que nos levasse ate a estacao de onibus para Rishikesh a 30 min dali. Desembarcamos so depois de 4 h. Na chegada pilhas de pessoas tentavam descer do onibus e outras pilhas subir, resultado? Briga, acabei tendo que sair pela janela do motorista para nao levar um soco. Relembrando, nos saimos de Jairpur nove da noite e sete horas tambem da noite estavamos descendo em Rishikesh. Eu queria gritar e explodir pelo menos 800 milhoes de indianos, eu queria explodir todos os autorikshas, eu queria desaparecer com todas aquelas pessoas e queimar todas as buzinas dos carros numa grande fogueira… Me controlava para nao parecer uma louca varrida e comecar a gritar descontroladamente. Estava com fome (tinhamos tido uma parada para comer as sete da manha), cansada, suada, suja, fedida, grudenta e muito irritada. Acabamos num quarto de hotel luxuoso ao nosso padrao, com ar condicionado e edredon macio, sala de estar e banheira. Aos poucos fui voltando ao normal, principalmente depois de comer um pratao de chicken curry com gosto de comida de mae.

No dia seguinte combinamos de encontrar a Marlinda, saimos caminhando ate o Freedom Cafe, mas como nao sabiamos direito onde era e os indianos nunca admitem nao saber uma informacao, nos mandaram para outro lado. Fim das contas, olhei para o Gui e disse: “vou voltar para o hotel, manda um abraco para Marlinda!” Nao conseguia mais caminhar por aquelas ruas entupidas de pessoas, buzinas e autorikshas barulhentos, exalando gasolina queimada.

Grande Marlinda!

Acabei num lugar de massagem ao lado do hotel me informando sobre os horarios-precos e engatei uma conversa com uma inglesa, que tambem estava tentando ver como funcionava. Nao me lembro o que ela me perguntou, mas comecei a chorar dizendo: “ nao aguento mais a India!”  Ela foi muito legal e acabou me acompanhando novamente no meu chicken curry no hotel. Depois se juntou a nos, um casal (ela argentina e ele polones) e eu e a argentina engatamos uma longa discussao, pois ela era ateia e dizia que gostava de Buda porque ele tambem era ateu. Essa ‘e a pior ignorancia que um ignorante pode dizer. Buda nunca disse que depois do silencio da mente nao havia nada, ele so nao chamou de Deus, mas deixou bem claro que havia uma coisa belissima logo apos e que era a natureza de todas as coisas vivas… Bom, discussao vai e vem, meus olhos sao tapados e advinhem quem era? A Marlinda!!! O Gui continuou o bate papo com o casal enquanto eu e a Marlinda falavamos sem parar. Ela que tambem estava fazendo uma viagem de um ano, e queria viajar pelo resto da vida, muito mais ate do que eu, enfrentou os mesmos sintomas de stress absoluto na India e pensou seriamente em voltar para casa. Foi so no ashram em Rishikesh que ela se recuperou, mas ao sair se deparou com os milhares de devotos do KumbaMella e perdeu toda paz adquirida. Resultado? Estava voltando para o ashram junto comigo. Me preparava para me despedir do Gui, pois dia seguinte seguiria com Marlinda. Era a primeira vez dentro da viagem que eu e o Gui nos separariamos. Como estava ainda bem estressada, nao sabia direito mais porque estava fazendo aquilo, mas sabia que tinha que ir!

O Rajastao ‘e um estado ao noroeste da India que contem uma cultura muito forte. Grande parte da nossa imaginacao sobre o pais sae dali. Entre as mulheres estao os saris coloridissimos e argolas largas no nariz; com os homens seus turbantes de cores vibrantes que identificam casta, religiao, alem de diversas outras tradicoes, que pertencem. As cores variam entre branco, rosa-pink, amarelo florecente, laranjado e colorido. O mesmo ocorre com os saris.

No Rajastao passamos por Udaipur, cidade com um lindo lago no centro juntamente com o imponente Palacio do Maraja. Passamos varios dias largados nos cafes e curtindo a beleza do lago nos finais de tarde no terraco de um gostoso restaurante.

De la seguimos para Jodpur, a cidade azul aos arredores de um imponente forte e de mais outro palacio de um maraja. Sujeira, buzinas e vacas faziam parte do cenario. O calor estava perto dos 40 graus e eu nao aguentava mais a bagunca da India. Comemoramos nosso aniversario de casamento ao mesmo tempo que comemoramos a Pascoa. Haviamos resolvido seguir a quarentena, entao no dia 04 aproveitei para degustar meu primeiro pedaco de carne e tomar uma cerveja. O Gui preferiu manter-se sem carne e alcool ate sairmos da India.

Assistimos um filme maravilhoso de bollywood no cinema e deu ate para chorar. Como os filmes sao longos, depois de uma hora e meia tem intervalo e deu para aproveitar e espichar as pernas. Quero tentar baixar o filme pela internet quando voltar ao Brasil e ver de novo. Uma historia de amor daquelas dos tempos de nosso avos. Achei muito bonito ver como os indianos tem ainda um coracao ingenuo e pouco moderno, pena que alguns filmes de bollywood ja estao se contaminando e a nova geracao de jovens indianos estao ficando bem mais ocidentalizados.

De Jodpur resolvemos encarar Jaisalmer, a cidade ao lado do deserto Thar, mesmo sabendo do calor infernal que fazia. Foi uma otima decisao. Pois conseguimos encontrar um hotel baratissimo com piscina para passarmos o dia na agua e emendarmos um passeio no deserto. Conhecemos um casal portugues que estava fazendo a India de moto (que inveja!), foram nossas companhias por alguns dias. Conversavamos ao modo bem latino, dando para matar a saudades de casa, eles eram muito legais. Como nunca tinha estado no deserto e nem andado de camelo, estava curiosa de como seria a experiencia. Um casal ingles bem sem graca nos acompanhou.

O passeio de camelo foi ultra desconfortavel como todo mundo dizia, nao consigo entender porque os camelos andam daquele jeito tao insuportavel, podia ser tao legal! Como um cavalo, por exemplo, mas nao, dependendo das horas de passeio, voce pode passar alguns dias lembrando do camelo. Como estava num dia muito bom comigo, procurei me entregar ao ritmo do camelo e consegui ate meditar em alguns periodos.

Final de tarde chegou, o calor foi embora e fomos encontrar um lugar para dormir. A noite o guia fez uma comida bem gostosa e jantamos ao redor da fogueira. O sol estava estrelado e o silencio do deserto era fascinante. Para mim o deserto proporciona (nas horas de pouco calor)  um contato com Deus e  uma astmosfera sagrada que poucos lugares possuem. O silencio, o cenario todo igual, a distancia da areia e do ceu reduzida (pelo menos parece…) dao uma sensacao de que se existe um simbolo do purgatorio na terra, acho que ‘e o deserto. A sensacao ‘e de que so existe voce e Deus, cara a cara, prontos para dialogar. Amei!

Seguimos para Jairpur, somente para nao irmos direto para Delli, enfrentando muitas horas de trem. Descansamos, passeamos, e a noite embarcamos para Haridwar, ao lado de Rishikesh, unica forma de chegar ate la. Estava muito empolgada, pois encontraria minha amiga Marlinda holandesa que estava me esperando e depois seguiria finalmente para o ashram que praticamente desde que comecei a viajem sonhava.

A chegada em Haridwar foi horrivel. A viagem que seria de 10 horas, foi de 15 e nos estavamos na ultima poltrona do onibus, quase nem mexia rsrs… Pegamos um transito infernal para entrar na cidade pois estava tendo o Kumba Mela, um festival importantissimo para os indianos, que ocorre a cada 4 anos, mas a cada 12, ‘e sagradissimo. Nos chegamos no dos 12 anos! Haviam 15 milhoes de pessoas na cidade, voces conseguem imaginar o que ‘e isso numa cidade minuscula? Por favor, parem um segundo e tentem. Eu nao conseguia ate ver com meus proprios olhos.

Sol, acampamentos para todos os lados e mar de pessoas compunham o cenario. Depois de muitas horas conseguimos uma bicicleta que nos levasse ate a estacao de onibus para Rishikesh a 30 min dali. Desembarcamos so depois de 4 h. Na chegada pilhas de pessoas tentavam descer do onibus e outras pilhas subir, resultado? Briga, acabei tendo que sair pela janela do motorista para nao levar um soco. Relembrando, nos saimos de Jairpur nove da noite e sete horas tambem da noite estavamos descendo em Rishikesh. Eu queria gritar e explodir pelo menos 800 milhoes de indianos, eu queria explodir todos os autorikshas, eu queria desaparecer com todas aquelas pessoas e queimar todas as buzinas dos carros numa grande fogueira… Me controlava para nao parecer uma louca varrida e comecar a gritar descontroladamente. Estava com fome (tinhamos tido uma parada para comer as sete da manha), cansada, suada, suja, fedida, grudenta e muito irritada. Acabamos num quarto de hotel luxuoso ao nosso padrao, com ar condicionado e edredon macio, sala de estar e banheira. Aos poucos fui voltando ao normal, principalmente depois de comer um pratao de chicken curry com gosto de comida de mae.

No dia seguinte combinamos de encontrar a Marlinda, saimos caminhando ate o Freedom Cafe, mas como nao sabiamos direito onde era e os indianos nunca admitem nao saber uma informacao, nos mandaram para outro lado. Fim das contas, olhei para o Gui e disse: “vou voltar para o hotel, manda um abraco para Marlinda!” Nao conseguia mais caminhar por aquelas ruas entupidas de pessoas, buzinas e autorikshas barulhentos, exalando gasolina queimada.

Acabei num lugar de massagem ao lado do hotel me informando sobre os horarios-precos e engatei uma conversa com uma inglesa, que tambem estava tentando ver como funcionava. Nao me lembro o que ela me perguntou, mas comecei a chorar dizendo: “ nao aguento mais a India!”  Ela foi muito legal e acabou me acompanhando novamente no meu chicken curry no hotel. Depois se juntou a nos, um casal (ela argentina e ele polones) e eu e a argentina engatamos uma longa discussao, pois ela era ateia e dizia que gostava de Buda porque ele tambem era ateu. Essa ‘e a pior ignorancia que um ignorante pode dizer. Buda nunca disse que depois do silencio da mente nao havia nada, ele so nao chamou de Deus, mas deixou bem claro que havia uma coisa belissima logo apos e que era a natureza de todas as coisas vivas… Bom, discussao vai e vem, meus olhos sao tapados e advinhem quem era? A Marlinda!!! O Gui continuou o bate papo com o casal enquanto eu e a Marlinda falavamos sem parar. Ela que tambem estava fazendo uma viagem de um ano, e queria viajar pelo resto da vida, muito mais ate do que eu, enfrentou os mesmos sintomas de stress absoluto na India e pensou seriamente em voltar para casa. Foi so no ashram em Rishikesh que ela se recuperou, mas ao sair se deparou com os milhares de devotos do KumbaMella e perdeu toda paz adquirida. Resultado? Estava voltando para o ashram junto comigo. Me preparava para me despedir do Gui, pois dia seguinte seguiria com Marlinda. Era a primeira vez dentro da viagem que eu e o Gui nos separariamos. Como estava ainda bem estressada, nao sabia direito mais porque estava fazendo aquilo, mas sabia que tinha que ir!