Vida de ashram!

Pra quem nao sabe direito o que ‘e um ashram, vale uma breve explicacao. Ashram ‘e um lugar sagrado para os hindus, morada de algum Guru/Swami vivo ou falecido. Geralmente funciona por doacao e oferece um programa de yoga, meditacao e estudos vedicos durante boa parte do ano. Os funcionarios que ajudam a manter o ashram, na sua maioria trabalham praticamente de graca, apenas para ter a oportunidade de morar na casa de seu Guru.

Alguns buscam um ashram somente para fazer um programa de yoga e meditacao para conhecer; outros simplesmente para ficar no ashram e fazer seu proprio retiro espiritual; e outros ainda vao para conhecer o Guru.

No Pool Chatti Ashram haviam passado por la quatro grandes Swamis, pois o ashram completava quase 130 anos, O mais importante deles, tinha seu corpo enterrado ali e sua alma protegia o lugar (isso tambem ‘e bastante comum nos ashrams). A diferenca entre um Guru e um swami ‘e o desenvolvimento espiritual, o Swami est’a acima do Guru.

Portao para natureza!

O grande diferencial do Pool Chatti na verdade nao eram seus mestres vivos, apesar de hoje contar com mais dois Swamis, mas a area verde ao redor e a atmosfera do lugar. Ao contrario da maioria dos ashrams de Rishikesh, este ficava a 6km da barulhenta Laxmanjula e era cercado por uma natureza tal que calava as mentes mais exitadas. O sagrado Ganges passava em frente, formando diversas prainhas isoladas a escolher ao longo do rio, recheadas de pedras enormes, alem de cachoeiras.

Caminhada diaria!

A comida do ashram (obviamente vegetariana) era baseada na medicina ayurvedica, pois os Swamis que ali moraram eram doutores em ayurveda. A comida era simples e saborosa, mas a escolha dos alimentos dava prazer em comer. Cada um recebia uma bandeja que era de sua responsabildiade ate o ulitmo dia. Sentia o meu corpo gritando: “ obrigada Bianca, podia ser sempre assim!” A minha pele parecia uma seda, meu intestino funcionava maravilhosamente, meu estomago estava leve, apos as refeicoes nao me sentia fadigada e a minha mente estava serena e silenciosa. E mesmo comendo muito bem, perdi peso.

Refeicoes!

Lembro da minha sensacao ao chegar quando largamos as mochilas no fim de tarde do dia 13/abril. O Pool Chatti era absolutamente silencioso, no maximo conseguiamos ouvir o barulho do Ganges, era formado por um conjunto tres predinhos baixinhos, onde no centro de todos ficava o Templo e um lugar para os pombos. Eles tinham 3 cachorrros encontrados na rua que cuidavam e se alimentavam tambem das comidas ayurvedas, e um lugar especial para os pombos dormirem a noite. Duas familias de indianos que nao tinham onde morar, tambem ficavam la.

Area interna!

Templo!

Fomos recebidas pela indiana que coordena o ashram e sua assistente. Marlinda veio para fazer seu proprio retiro e eu, num primeiro momento, fazer o programa de yoga, meditacao e estudos vedicos e depois seguir sozinha. O programa comecava no dia seguinte as 15:00h. Com a chave do meu quarto em maos, fui conhecer o lugar que passaria dias. Era um quarto simples, limpo e aconchegante, com banheiro fora. Pensava: “meu Deus, finalmente um lugar para digerir a viagem.”

Os meus companheiros de jornada comecavam a chegar. Meus vizinhos de andar eram um ingles bem bacana, ateu e que ambiguamente buscava meditacao, yoga e paz. Do lado esquerdo uma americana que mais parecia uma boneca quando comecava a falar (era como se fosse ligada a pilha e tudo saia com a mesma voz e trejeitos) tb ateia, veio para fazer o programa e dar uma alongada, como disse. No mais, o restante do meu grupo era mais ou menos, no sentido de que nenhum deles sabia direito o que estava fazendo ali ou tinha uma busca espiritual que os movia, a maior parte queria dar uma alongada nos musculos, infelizmente. Com excessao de uma canadense que causou certo frisson, pois ela nao gostou da assistente americana.

Quando ainda estava buscando qual ashram ficar na India, amigos me recomendaram alguns Gurus vivos, como o Sai Baba ou a Ama, por exemplo, mas nenhum deles me tocava. Sentia atracao pelo Maharish e alem dele ninguem mais. Foi quando recebi uma otima recomendacao de um ashram orientado para Jnanas-Yogas (tipo de pessoa que se une a Deus atraves do conhecimento, da filosofia perene, do estudo) com um grande Swami vivo, mas seis meses antes da data que gostaria ja estava lotado para ve-lo. Fim das contas, contei com o destino, pois sabia que seria encaminhada de uma maneira ou outra para o ashram que precisava. E foi a melhor coisa que fiz, pois quando chegou a epoca de ir eu nao queria mais conhecer nenhum Guru/Swami, pois havia encontrado o meu (*conto mais tarde). O Pool Chatti entao surgiu de ultima hora atraves da Marlinda e como ela havia estado la era uma referencia forte. E como aquelas obras dos nossos anjos guardioes, o lugar foi perfeito para mim.

A rotina do programa era bastante intensa. As 5:30h tocava o sino (do templo que havia dentro do ashram) nos acordando; 06:00h comecavamos a meditar; 06:50h nos dirigiamos para o patio para limpeza do nariz para os exercicios de respiracao (colocavamos uma especie de mini-regador com a quantidade de um copo cheio de agua quentinha numa narina para que a agua escorresse pela outra e trocavamos); 07:00h comecavam os exercicios de respitacao (pranayama) e yoga ate as 09:00h quando tomavamos nosso cafe da manha; 10:15h era hora de carma (acao) yoga onde limpavamos nossos banheiros, quarto, colhiamos alface na horta para o almoco; 10:30h comecava a caminhada contemplativa ate 12:30h almoco; as 15:00h leitura e discussao com a professora de yoga que vivia no ashram e sua assistente; 16:00h yoga novamente ate 17:30h, quando tinhamos tempo livre ate as 19:00h, horario da reza em frente ao templo e 19:45h jantar; 20:30h mais uma meditacao, antes do horario de dormir; 21:00h todos deviam se encaminhar para seus quartos.

A hora que mais gostava era a hora da reza. Os swamis comecavam a purificar o templo por dentro, com agua e incenso, e todos as pessoas que estavam la, fosse hospedes ou nao, tocavam os sinos ininterruptamente, eram varios, os cachorros comecavam a uivar ate os swamis comecarem a rezar. Apos todos nos sentavamos numa roda, pegavamos os chocalhos e tambores para comecar a rezar. Recebiamos um papel para acompanhar. E todos cantavam/rezavam juntos enquanto os sol se punha. Esse momento para mim era magico! Para todos que estavam la, acredito.

Eles recomendavam nao falar durante o programa, somente das 13:00 as 16:00h. Como a Marlinda estava la e passaria somente uma semana, o tempo certinho do programa, e depois nao sabia quando a veria de novo, fiz a escolha consciente de falar somente a noite com Marlinda para aproveitar sua presenca, nos demais periodos me mantinha em silencio e nao sentia falta nenhuma de falar. Na verdade, nao sentia vontade nem de falar a noite, mas queria estar com a Marlinda. Meu grupo quase nao ficava quieto, falavam o tempo todo, ate nas refeicoes que era terminantemente proibido. Depois do jantar eu e Marlinda conversavamos no terraco vendo as estrelas exitadas com as nossas descobertas espirituais, ela estava chegando a mesma conclusao que eu (* conto mais tarde).

Todos os dias, no horario livre depois da segunda yoga do dia, corria para me banhar no Ganges. A temperatura era mais ou menos 16 graus, ou seja, um freezer. Todo mundo pulava e saia correndo. Eu demorava longos 20 minutos para entrar e depois de submersa, ficava quase uma hora ali, sentindo a perfeicao da fisica atuando, tornando profundamente confortavel a temperatura do meu corpo. Dali seguia para um pequeno rio em frente, ja bem mais quente, parecendo que eu tinha saido da piscina para sauna. Me secava sobre uma grande pedra com os olhos fechados curtindo o silencio, sentindo a energia notavel da pedra e a atmosfera indescritivelmente Sagrada do lugar.

Do lado do Ganges!

O rio quente e o Ganges!

Ao fim do setimo dia, o programa acabou e a Marlinda foi embora. O programa foi ok, nada demais, mas suficiente para o que eu precisava – me organizar e centrar. Mas tudo foi muito “armado” no bom sentido, pois nem a indiana nem a americana me tocaram, nao aprendi quase nada com nenhuma das duas, na verdade gostei do xerox entregue para as aulas de leitura e discussao, mas so. O grupo apesar de legal, tambem nao houve ninguem que me identificasse. E nesse sentido acho que foi tudo armado, porque nao havia nada que me estimulasse nas pessoas, o que geralmente acontece comigo, pois gosto muito de me relacionar, gosto do outro, e isso fazia com que eu me voltasse mais ainda para mim e nao tivesse nem uma influencia externa na minha caminhada ali no Pool Chatti.

Quando a Marlinda se foi eu me calei de vez. Aproveitei para fazer minha propria pratica, tomar banhos e mais banhos no Ganges, e caminhar sem pretencao ate achar um lugar bonito a margem do rio para sentar e contemplar a vida, a natureza, as transformacoes que a viagem estava me propondo. O silencio foi tao profundo na minha alma, que cheguei a questionar se deveria um dia ir embora dali. E o que tinha na vida fora do ashram que me fazia voltar? A Lalita, a indiana, foi questionada pelos alunos porque ela estava ha 21 anos no ashram e nunca tinha saido dali, nao tinha familia, etc. Ela respondeu: “eu sou casada com Deus!”

 

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7 comentários em “Vida de ashram!

  1. Bibi, querida neta? e irmã?…
    Ah, como chorei de emoçao ? “partilhamento”,? sentimento de irmandade – nao sei. ^Tãão
    lindo o que voce escreveu sobre tua vivencia no ashram… confesso que senti uma humana e vulgar inveja – nossa…
    Com imenso apreço envio – – – inclinando-me reverente, a saudação “Deus em mim sauda Deus em ti!”
    Ah, não vieste por acaso fazer parte de nossa familia…
    Iris

    • Oi Iris, irma!

      Vc nao imagina como amei seu email. Tao sensivel e sincero. Verdadeiro, profundo…
      Sei o quanto voce me compreende, pois somos irmas na busca! Obrigada de verdade!
      Deus em mim, tambem sauda Deus em ti!
      Um beijo mto carinhoso.

      Bibi

  2. Bibi
    Emudeci lendo, e os batimentos cardiacos aceleraram, pergunto: Como ser assim tao simplesmente humana, buscando o divino…?
    Sinto que voce ja encontrou Deus,Bibi. Conversa com ele ha muitos anos…Só não percebia. Agora percebe e identifica-se.
    Te amo e amo ser sua mãe…
    Continue seguindo seu coração e consultando “rapidametne o intelecto”, hehe

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