Sociedades cristas e Cristianismo!

Pra quem acompanha este blog, deve perceber que sempre estou falando de religioes, ao mesmo tempo que falo da viagem propriamente dita. Isso ocorre, tanto por um interesse pessoal, mas tambem pelo fato de que viajar no Oriente naturalmente te coloca diante deste tema o tempo todo. Religioes e tradicoes ‘e o que mais voce ve quando vem para estes paises.

Quando voce olha para as sociedade hindus, budistas e muculmanas voce encontra muitos devotos; conforme os lugares, voce sente que as pessoas respiram religiao. Mas quando voce olha para as sociedades cristas, principalmente as mais desenvolvidas, modernas e os grandes centros, a atmosfera ‘e bem diferente. Nestes, tanto a religiao quanto as tradicoes, se perderam e sao sinonimo de imbecilizacao segui-las. Nos paises desenvolvidos da Europa, por exemplo, voce encontra muito mais ateus do que em qualquer outro lugar.

Depois principalmente do periodo renascentista no Ocidente, quando o homem estava bastante cansado de receber os conhecimentos apenas Revelados por Deus e motivado por buscar algum valor para ele (como se homem e Deus fossem duas coisas distintas), o homem passou a se tornar a “medida de todas as coisas” e se ver separado de Deus, mudando a maneira que percebe a si mesmo.

A igreja catolica, que era veiculo da revelacao divina, passa a ser questionada por Lutero dizendo que nao deveria haver ninguem entre Deus e o homem e propondo que cada individuo interpretasse as escrituras por si mesmo. A igreja perde o poder. Muito mais tarde vem Nietzsche e anuncia em tom de ironia e critica “ matamos Deus”.

E a coisa descambou de vez… Depois uma sucessao de outros casos, como Marx apregoando o comunismo e assim por diante. Como o homem passa a ser a medida de todas as coisas, ele precisa se sentir inteiramente livre, entao Deus se tornou um obstaculo. Entre a vontade de Deus e a minha, fico com quem? Com a minha. Baseado nessa crenca tao enraizada, tudo virou uma coisa sem pe e nem cabeca e nao somos mais capazes de discernir.

Nao existe mais certo e errado, existe o certo e errado Para Mim, o certo e errado Para Voce. No ashram tinha discussoes com os meu colegas de coisas basicas. Essa coisa do “homem ‘e a medida de todas coisas” parece uma epidemia, que torna tudo tao contaminado, que voce nao consegue mais ter uma discussao produtiva com ninguem. Um dia, apos um banho no ganges, comecamos a falar sobre isso e tentei mostrar que nao era bem assim. Entao perguntei: e essa pedra que esta aqui no chao, ‘e uma pedra ou nao? E a resposta foi unamime: “depende de quem esta olhando. Para mim pode ser uma pedra para voce nao!” Eu disse: Pimba!!!! O homem ‘e a medida de todas as coisas!! Eu esbravejava empolgada com a discussao idiota fruto do ponto que o homem chegou e dizia: “ Isso ‘e uma pedra!!! Pega, sinta!!! ‘E uma pedra e tem uma funcao de pedra tanto na natureza como na vida do homem! Se voce quer usa-la como oculos, como comida, como chapeu, vai ser impossivel. Mas se voce quiser contruir uma casa, usar como um banco, usar para tentar se proteger de um assaltante, etc, ela esta dentro de sua funcionalidade de pedra.” As pessoas ficaram me olhando tipo sem entender muito o porque daquilo, outros entenderam e a discussao acabou. Esses se interessaram em querer entender aonde eu estava tendo acesso a esse conhecimento novo. Eu falei: novo? Isso ‘e mais antigo do que nossos avos…

Bom, mas para que eu estou falando tudo isso? Para poder entrar no Cristianismo, na religiao mais presente no Ocidente. O cristianismo perdeu lugar com a globalizacao e acesso a informacao as religioes orientais. O ocidente descobriu o hinduismo e o budismo. E hoje sobraram poucos cristaos verdadeiros. As pessoas que tinham uma busca maior pelo divino foram para o Oriente e hoje seguem, em partes, estas religioes. Porque em partes? Porque o homem ocidental, o nosso homem, normalmente nao segue nada inteiro, so o que nao faz ele ter muitas renuncias, por isso, temos muita gente fazendo uma boa salada. Continuaram “ cristaos” os hipocritas, que vao a igreja todo domingo, fazem uma caridade ou outra no final do ano, mas suas acoes nao tem nada a ver com os ensinamentos de Cristo. Sobrou e aumentou a populacao de igrejas evangelicas, onde algumas brincam com o dinheiro do povo. Na verdade, hoje os pobres e os doentes ‘e que buscam mais o divino, alguem com um senso de privacao maior. A causa do Lutero, que eu nao tenho nada contra as razoes que levaram ele a se rebelar, mas junto com todo o oba oba moderno, hoje todos podem interpretar a palavra de Deus, ate a igreja Bola de Neve. E entre voce ser um drogado ou um “fanatico”, melhor o segundo.

E assim falar hoje em dia que voce ‘e cristao para um ocidental ‘e meio fora de contexto. Eu brinco dizendo, que se eu voltar para o Brasil rezando com a biblia embaixo do braco, estou fora. Mas se eu voltar meditando com os livros sagrados do Buda, eu sou espiritualizada. Como se os cristaos nao meditassem. Caramba, ate que ponto chegamos!

O Jaison, meu amigo ingles, quando voltamos conversando de Rishikesh ate Delli, me contou que passou um mes num mosteiro na Tailandia e que um monge disse para ele: “porque todos voces vem para ca buscar religiao, voces tem um Deus tao bonito nos seus paises! Quando voce voltar para o teu pais, experimenta ir na igreja!”

Pois ‘e, olhando para essas sociedades “ cristas”, ou seja, para o ocidente, quem tem alguma aspiracao espiritual, hoje nao tem mais moticao para entrar na igreja. Por um lado, porque confundem sociedade crista com cristao. Confundem as aberracoes da idade media com cristianismo. Confundem costumes e valores locais, como do Imperio Romano, com o que ‘e ser cristao. Por outro, porque as igrejas ficaram muito restritas a ensinar somente as leis e mandamentos tornando a mensagem seca.

Cristo deixou bem claro quem sao os cristaos. “ Por isto conhecereis quem sao os meus discipulos, por vos amar-des uns aos outros como eu vous amei.” Ele da a chave para voce saber quem ‘e e quem nao ‘e cristao. Cristaos não são os individuos que fazem parte da sociedade crista, nem todos os padres, papas e pastores, mas os santos (canonizados ou nao) e os cristaos exemplares!

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Na Terra do Povo Eleito!

Quando chegamos na Jordania, apos quase tres meses de India e cinco meses de Sudeste Asiatico, pudemos perceber rapidamente a diferenca dos dois grandes ramos religiosos – ariano e semitico e a sensacao foi de voltar para casa.

Os arianos que habitavam o subcontinente indiano quando os Vedas foram revelados criaram o hinduismo; bem mais tarde veio o budismo. Os principios e o objetivo de ambos sao os mesmos, chegar a iluminacao. Um caminho sempre igual, da busca de um homem por acessar integralmente sua natureza divina. E quando voce esta na India consegue ver isso muito claro, as fotos expostas em qualquer estabelecimento comercial de um Guru que atingiu a iluminacao. Nos templos budistas ‘e a mesma coisa, sao estatuas e mais estatuas de monges iluminados lado a lado com Buda.

Nao existe a adoracao por uma figura unica, quando voce ‘e um iluminado voce se torna como qualquer um dos deuses que houveram. Voce partilha da natureza divina ou budica, mesmo nao se tornando o proprio Deus e governando o universo. Por isso Sai Baba e Ama, por exemplo, sao alguns dos deuses vivos que os indianos e ocidentais adoram hoje em dia.

A Ama ‘e capaz de ficar mais de 24h abracando a multidao de fieis que vem ate seu ashram para receber o seu abraco curativo ou seu amor. As pessoas que conheci que ficaram no ashram dela relatam que tentaram acompanhar o circuito de abracos da Ama, mas nao conseguiram, precisaram parar para ir no banheiro ao longo do dia, almocar e a noite dormir. Mas Ama nao sente as mesmas necessidades humanas que as nossas! Os deuses normalmente nao precisam dormir, coisa de 2h por dia ‘e suficiente para estarem prontos para a proxima, quando dormem. E isso ‘e relatado nos livros, as necessidades de descanso e comida sao para nos mortais. E isso nao ‘e piada nao, vao para India que voces poderao ver com seus proprios olhos!

Mas quando voce chega no territorio das religioes semiticas a atmosfera ‘e outra. Existe uma relacao diferente com Deus, uma preocupacao com a conduta, com o certo e o errado, nao “apenas” o foco em tornar-se um Iluminado. Noe teve tres filhos, dentre eles Sem, Abrahao foi descendente de Sem,  Abrahao teve primeiro dois filhos Isaac e Ismael,  deles surgiram duas racas:  os judeus e os arabes.

Cidade velha – Jerusalem!

Enquanto as religioes arianas buscaram perceber qual ‘e a semelhanca entre o homem e Deus, e qual o caminho para se chegar a essa natureza divina; os semiticos queriam saber quem era Deus, quais eram suas leis e suas preferencias. Por isso, as tres grandes religieos semiticas (judaismo, cristianismo e islamismo), a grosso modo, parecem um conjunto de mandamentos e regras do que voce deve fazer e do que nao deve fazer para ter uma amizade com Deus como diriam os Judeus; para ter o amor de Deus como diriam os cristaos ou por gratidao a Deus como diriam os muculmanos.

Nao sei se para voces, mas os judeus sempre me causaram muita curiosidade. Porque eles foram tao perseguidos ao longo da historia? Porque eles sao um povo tao separado dos demais? Porque eles sao tao unidos entre eles? Porque eles sao, a primeira vista, tao fechados nas suas relacoes? Porque eles devem casar somente entre si?

O Judaismo comecou a partir de uma amizade entre um homem e Deus. Inicialmente de Abrahao e sua familia, depois de um povo e uma nacao. O Tora sao os cinco primeiros livros do velho testamento que consistem numa serie de meios para preservar uma amizade com Deus. A saber, o judaismo possui 613 leis.

Mas o que ‘e um judeu afinal? ‘E um povo separado de toda a humanida, porque Deus os separou. Na biblia Deus diz mais ou menos assim: “ Oh Israel, farei de ti uma luz para as nacoes. Voces estao aqui, as nacoes estao ali. Com esta nacao aqui, vou mostrar para o mundo o que ‘e um povo inteiro viver centrado numa relacao pessoal com Deus.” Por isso o termo “Povo Eleito”.

Mas com o passar dos seculos, essas leis somaram-se com novas regras, fazendo com que a relacionamento se tornasse mais distante, enfatizando mais as regras e rituais, do que a propria relacao com Deus. E foi isso que eu e o Gui percebemos em nosso rico jantar na casa de alguns judeus ortodoxos que contarei logo adinte.

Quando ainda estava na India, fiz amizade no ashram com um judeu que vivia em Tel Aviv e contei que estavamos indo para Terra Prometida e acabamos falando do termo “povo eleito”. Ele me contou que alguns judeus do tipo “senso comum”, sentem-se superiores por serem o povo eleito, mas os mais religiosos, que verdadeiramente estudam o Tora, se veem muito mais responsaveis e desafiados justamente por isso. O Gui tambem conheceu uma judia em Amstar, que contou que sua familia se sente superior a todas as nacoes.

Bom, mas papo vem papo vai, ele me recomendou fazer counchsurfing em Israel, especialmente em Jerusalem, pois disse que de fora nao conseguiriamos compreender a realidade que ‘e ser um judeu, confirmando o que ja planejavamos. Fizemos contato com uma familia ortodoxa que acabou nos convidando para passar o Shabbat com eles (dia sagrado).

Abrindo um parenteses, na Jordania jantamos com alguns judeus seculares (termo usado para se referirem, a grosso modo, aos judeus que seguem as tradicoes mas nao a religiao). Numa linguagem mais facil, os ditos modernos, temos seculares por todos os lados hoje em dia, principalmente no ocidente. E eles deram o seu ponto de vista. Disseram que nao gostam de ter que servir ao exercito e nem de participar das guerras. Sao obrigados a lutar por uma nacao separada das outras em nome de uma religiao/historia/povo.  Nao querem lutar por algo que nao criaram e s’o querem viver em paz.

Bom, mas a historia ‘e bem diferente quando voce senta para conversar com os ortodoxos, ou seja, os que seguem o judaismo. Eles dizem: “ Deus nos separou como nacao!” E contam inumeras historias, desde quando foram punidos por Deus e tiveram que ficar 40 anos no deserto ate todas as recompensas por ser o povo eleito. Se sentem muito mais responsabilizados e desafiados. Quando sofrem, acham que estao sendo testados por Deus. Aceitam os sofrimentos como prova de sua fidelidade a Deus. Dizem que ser o povo eleito, o peso do bom e do mal ‘e muito mais forte: “ quando ‘e bom ‘e muuuuito bom, mas quando ‘e ruim ‘e muuuito ruim”.

O jantar!!

Chegamos por volta das oito da noite, horario combinado na casa de Natanael. Fomos recebidos por sua esposa americana, ambos judeus-americanos que vieram para Jerusalem ha 34 anos atras. Sua esposa era super esquisita. Mal nos deu a mao para cumprimentar-nos, quase uns10 minutos depois que tinhamos chegado e apontou para o sofa entupido de pelo de cachorro para sentarmos. A casa cheirava mofo e cachorro, era cheia de quinquilharias, livros e objetos velhos empilhados uns sobre os outros. Quando estavamos forcosamente tentando nos sentir a vontade chega Natanael com seus dois cachorros, um grande e outro pequeno. Natanael nao era esquisito como a esposa, ele era completamente louco. Seu pescoco era torto e seu olhar era como se ele estivesse permanentemnete em estado de susto, nos olhava meio de perfil e de canto de olho, parecendo que tinha um torcicolo constante. Ele falava sem parar, quase nao respirava.

Enquanto eu estava sentada no sofa deixando o Gui ver todos os quadros da casa com o Natanael na sua jugular contando a historia de sua familia desde 1800, chegou um outro casal convidado. Estes eram super normais e simpaticos. Comecamos a conversar, ele queria saber um pouco do Brasil. Enquanto tentava contar, o cachorro menor idiota tentava ter relacoes comigo atraves do meu braco. A minha roupa cuidadosamente separada para o jantar estava abarrotada de pelos e a minha rinite, que ha muito tempo nao se manisfestava, estava enlouquecida, eu so espirrava. Esperava que os malucos donos da casa tirassem aquele cachorro infeliz do meu lado e prendessem ele la fora, mas nao. Eu empurrava o cachorro e ele voltava ao meu braco. Assim foi ate a hora do jantar, quando nos levaram a um comodo separado, ainda mais mofado e umido. La fecharam a porta de vidro que separava a “sala de jantar” dos demais ambientes, mas enfiaram os infelizes dos cachorros juntos.

Como era Shabbat, eles iniciariam os seus rituais para podermos jantar. Como havia o casal anfitriao, o casal normal e mais um outro senhor convidado, eles teriam ali, tres rituais judaicos diferentes. Todos vinham da orientacao de Deus de que antes de comer devem lavar as maos e rezar, mas a forma que cada um fazia isso e a reza escolhida dependia do ramo judaico proveniente. Judeus europeus? Etiopes…? Como falei antes, os costumes comecam a se multiplicar.

Entao o anfitriao trouxe uma bacia com agua e uma toalha, lavou suas maos e rezou alto. Como ele ‘e descendente de espanhois e portugueses, tambem rezou em espanhol. J’a o casal convidado, na sua tradicao recomenda-se seguir o ritual do anfitriao, entao fizeram o mesmo. O senhor, ja de outra tradicao, lavou a mao numa bacia separada e rezou em voz baixa. Tudo isso ao mesmo tempo. Era muito estranho de ver. Voce consegue perceber que sao povos que viveram por anos em paises diferentes e se juntaram recentemente para viver numa mesma terra. Para eles, terem sua nacao ‘e algo muito novo e a sensacao ‘e que voce esta no meio de um quebra-cabeca humano. Eles confirmam.

Os judeus ortodoxos nas ruas andam com chapeus e ternos preto, os cabelos das extremidades nunca sao cortados (onde fica a costeleta), preso a camisa branca usam uma especie de cordoes compridos brancos que vao balancando enquanto caminham. Perguntamos a eles sobre a roupa, o cabelo e os cordoes e eles nos explicaram. Tudo esta escrito no Tora. Voce nao deve nunca raspar o cavanhaque; as mulheres devem cobrir os cabelos, por isso as judias andam sempre com lencoes ou raspam o cabelo e usam pirucas; e os tais cordoes existem para que cada vez que voce olhar lembrar-se dos mandamentos de Deus.

Os ternos!

Os judeus do jantar, nao usavam o terno com o chapeu, mas usavam os cordoes e nao raspavam o costeleta. As esposas usavam uma boina para esconder o cabelo. Foi possivel perceber com a experiencia o quanto os rituais acabam se tornando muito exteriores. As vezes parecem nao ter muita consciencia do que estao fazendo, a relacao parece mais automatizada com Deus. No muro das lamentacoes pudemos observar varios tipos de judeus, incluindo ultra-ortodoxos, estes parecem mais como misticos, voce consegue ver uma conexao muito mais ‘intima com Deus!

O jantar, no fim das contas, foi riquissimo em todos os sentidos. Nao conseguimos em nenhum segundo sequer nos sentir confortaveis, pois a ultima coisa que eles foram foi acolhedores. Falavam sem parar, sempre com pontos de vistas opostos, e nao tinham o menor receio de mostrar suas diferencas entre si. Quando o anfitriao comecava a falar demais coisas que os outros nao concordavam, os homens convidados diziam imperativamente: “ essa ‘e a sua opiniao, nao a nossa!!!”, como ele nem dava bola e continuava falando sem parar, eles completavam: “ cala a boca, para de falar um pouco”. Ate o cachorro quando latia eles gritavam: “SHUT UP!!” As mulheres nem respiravam, so serviam a comida e pareciam alheias a conversa. A atmosfera era tao louca e tensa que eu e o Gui nao lembramos de tirar uma foto.

A comida foi servida em cinco etapas. A primeira era uma sopa gelada de iogurte com menta e pao com humus. Achei que seria so aquilo e reclamei para o Gui: “ nao acredito, estou morrendo de fome e vou ter que comer essa sopa gelada”. Fim das contas, ja sem apetite, veio a proxima, depois a outra, mais outra, e finalmente a sobremesa. Mordi a lingua!

Muro das Lamentacoes!

Navolta nos acompanou ate bem perto do nosso hotel com seus cachorros. Eram quase duas da manha. Num determinado momento falou: ” acho que daqui voces vao, ne?!” Quando fomos virar e dizer: ” sim, obrigado!”  E agradecer o jantar, ele ja estava quase do outro lado da rua. Pensamos “sera que fizemos alguma coisa errada”. No dia seguinte ele colocou no counchsurfing que gostou muito da gente e seus convidados tambem. Nos mandou mais emails querendo fazer mais programas…

Welcome to Jordan!

Quando alugamos um carro com tres japoneses que tambem estavam rodando o mundo em Madagascar, uma das viagens que eles mais gostaram foi o Oriente Medio. Ainda na Africa, nos nao tinhamos planos de ir para la, pensavamos em fazer China ou Rota da Seda, mas passamos a ficar com bastante vontade. A decisao veio dias antes de nos separarmos para eu ir para o ashram. Eu nao aguentava mais as toneladas de pessoas nas ruas da India e as buzinas incessantes. Entao, resolvemos que depois do ashram a gente nao iria para as montanhas na Kashimira, fazeriamos o Oriente Medio. A decisao foi certeira, pois o calor da India so aumentava e eu adoraria ficar la por mais longos meses, mas desde que ficasse no ashram… Entao, tinhamos que ir…

Quando desembarcamos no aeroporto ja de cara ouvimos o “Welcome to Jordan!” na imigracao. Pegamos um onibus para cidade silencioso, limpo e confortavel. Nas ruas quase nao havia ninguem comparado a India. Os carros nao buzinavam e no lugar das milhares de cores presentes na India, a Jordania tinha todas as suas casas em cor pastel, constru’idas sobre o deserto. Dava ate paz  olhar! As ruas eram limpas, sem vacas, sem cocos, sem moscas e sem cheiro de combustivel queimado. So eu sei o valor que aquilo tinha para mim! O calor nao era sufocante e o vento era frio. Quando desciamos do onibus, nao vinham 25 motoristas de autorickshas nos oferecendo o melhor preco para onde pretendiamos de ir, apenas dois ou tres calmos taxistas perguntando se precisavamos de ajuda. Falamos que estavamos indo para Petra e que gostariamos de pegar outro onibus para la, eles nao insistiram nos azucrinando dizendo que poderiam fazer um preco melhor que o onibus e bla bla bla. Simplesmente nos mostraram onde era o tal onibus e la fomos nos. Simples assim!

Cenario!

Eu nao acreditava! Nao conseguia falar porque o silencio da Jordania estava tao bom, que minha voz podia atrapalhar. Como ‘e bom estar na India, o pais mais exotico do mundo, mas como tb ‘e bom deixar a India!

Quando chegamos em Wadi Musa, onde est’a Petra fomos procurar hotel para ficar. No segundo que estavamos conhecendo o Gui tentou chorar um desconto com o recepcionista e disse: “mas aqui no Lonely Planet diz que o preco ‘e $ e voces estao cobrando o dobro.”  Eu num momento profundamente aquariano, bem distante da terra aterrizo, olho para o Gui e digo: “ mas Gui nao lembra que teu Lonely Planet ‘e de 2006?” Fim da negociacao, quase perdi o marido e fomos procurar outro hotel… Acabamos achando um bem gostosinho e fizemos as pazes, pois como disse o Gui: “ o pior ‘e que eu sei que vc nao faz essas coisas por mal!”

Dia seguinte fomos bem cedo para Petra. Como estava em ritmo ashram, acordava seis e meia da manha feliz da vida. O Gui estava me amando. Petra ‘e irresisitivel. Alem das atracoes principais, aos arredores voce pode subir em canions para apreciar a paisagem da antiga cidade dos beduinos. Mas o  passeio ‘e exaustivo por causa do calor. Por isso, no dia seguinte, o Gui foi bem cedo e eu fui somente a tarde. Aproveitei para meditar e fazer yoga no terraco. O clima de Wadi Musa era bem gostoso, a noite fazia frio de colocar cobertor (que saudades que estavamos de usar um cobertor). As pessoas muito animadas nas ruas, sempre dispostas a ajudar.

Corredor de entrada de Petra!

Monasterio!

Vista panoramica!

Arredores de Petra!

Cartao Postal!

De la seguimos para Wadi Run, no deserto e passamos uma noite acampando. A beleza do lugar era de chorar. No final da tarde tudo ficava laranjando e aquele silencio do deserto ecoava. Preferimos nao ir de camelo, fomos de jipe. Camelo ‘e uma otima experiencia para se ter por 15 minutos.

A beleza de Wadi Run!

Voltamos para cidade rumo a Dana, um lindo vilarejo no meio do nada. Como nao encontramos onibus que ia direto para la, ficamos na estrada pedindo carona sobre um sol escaldante. Meia hora depois um bom homem parou. O motorista era simpatico, me ofereceu um cigarro e fui fumando um malboro com ele. Nos nao falavamos arabe e ele nao falava ingles, entao a conversa foi muito mais dedutiva do que qualquer outra coisa. Quase uma hora depois, ele nos deixa numa outra cidade que teria onibus para Dana. Um querido senhor que vendia esfirras para as lanchonetes locais, nos deu uma carona ate a estacao de onibus. Nos levou ate a porta do oninbus e ainda nos deu mais quatro esfirras de lambuja. Tudo isso a custo zero! Os arabes sao realmente muito hospitaleiros.

Na boleia...

Finalmente chegamos a Dana e o lugar era um paraiso. Cercado por canions maravilhosos e uma natureza estonteante. Muitas flores. Fomos passear pelas montanhas e encontramos uma pedra bem no alto que dava para ver tudo. Ficamos por la, apreciando a beleza do lugar e ouvindo o barulho das mesquitas chamando os muculmanos para rezar. A primeira coisa que me marcou quando cheguei na Africa em Dar Es  Salan foi o barulho das mesquitas. Como independente do lugar do mundo que for, o chamado ‘e  sempre em arabe, da mesma forma que o Corao, o chamado se torna algo bem familiar e cada vez que eu escuto volto la para o dia que aterrizei na Tansania para comecar essa viagem.

Passamos quatro dias largados em Dana curtindo o lugar. Num dos passeios um grupo escolar de meninas, todas por volta do 15 anos, faziam um piquinique embaixo da arvore com suas professoras. Quando passamos, elas gritavam histericas querendo nos conhecer. Nos encheram de perguntas, ficaram super exitadas quando souberam que nos eramos casados, pediram se a gente se amava e o quanto. Gritavam sem parar ao mesmo tempo envergonhadas de estarem com a gente e alegres. Parecia que eramos de outro planeta. E acho que eramos mesmo para elas. Tao bonito ainda ver meninas de 15 anos como meninas. Super injenuas, cheias de sonhos, esperando o principe encantado. Os meus trinta anos ficaram bastante em evidencia para mim na presenca delas.

Vila Medieval!

Passeio pelo vale!

De Dana seguimos para Ama, capital, para atravessarmos a fronteira para Terra Santa, estavamos muito empolgados! Jordania foi meu primeiro pais arabe e me sentia realmente saindo do mundo ariano para o semitico…

* As fotos ficam para a boa internet.

Pessoas!

Conhecer pessoas sempre foi uma das minhas grandes paixoes. Ao contrario de alguns, as pessoas de forma geral nao me irritam ou perturbam, nao roubam o meu tempo e nao me cansam. Sempre me alegro ao dividir alguma coisa com alguem ou simplesmente em ter o prazer de ouvi-las falar da vida e de si.

Durante os dias do ashram, tive a oportunidade de conhecer belas pessoas e dividir com elas momentos que estarao sempre comigo e nas minhas mais doces memorias da viagem.

Nao vou esquecer das longas conversas com a Marlinda no terraco, fumando escondido, olhando para as estrelas, e dividindo a alegria de ter viajado durante quase um ano pelo mundo. Das trocas sobre nossas descobertas espirituais; de falar da nova vida que se abriu pela experiencia da viagem; da volta para casa e de todo o significado que esta viagem proporcionou para cada uma.

Nao vou esquecer da suica que passeava todos os dias com seu cachorro de rua que havia adotado na Tailandia, ela estava sozinha no ashram ha dois meses. Ela era leve, firme e honesta. Tinha uma ligacao forte com a natureza, percebia mudancas sutis nas arvores e plantas, sem ser babona, era orientada por sua intuicao e sensacao das coisas. Ela passava paz e fortaleza. Tivemos momentos muito especiais, principalmente um dia que resolvemos tomar um lanche no Freedom Cafe, um lugar delicioso de frente para o Ganges e fomos de moto balancando as trancas pelo longo caminho ate a cidade.

Nao vou esquecer da italiana, tao doce e carinhosa, que na sua busca incansavel por compreender seu vazio, um dia ficou tao doente, que nao conseguiu levantar da cama, nem comer, nem abrir os olhos. Nestes dias sozinha, ela teve um grande contato com os seres divinos e dali em diante, resolveu cuidar de si. Foi para India passar 15 dias no ashram do Sai Baba e acabou morando no ashram por tres anos. La acabou se casando numa cerimonia hindu com um italiano e agora se preparava para voltar ‘a Roma. Nao vou esquecer de nos duas, sentadas sobre uma grande pedra, de frente para o Ganges, falando sobre o que de verdade importa nessa vida.

Nao vou esquecer da neo zelandeza de 26 anos, que tinha concluido a faculdade e estava viajando pelo mundo antes de comecar a trabalhar.  Ela tinha uma grande duvida se necessariamente precisaria entrar no sistema ou poderia ja comecar sua vida num trailler trabalhando com coisas bastante alternativas. Ela tinha uma linda humildade e muita vontade de descobrir a Verdade das coisas e se dirigir para o caminho certo. Uma bela garota!

Nao vou esquecer tambem, que dias antes de me encontrar com o Gui, estava tentando ver como iria para Delli e de ultima hora surgiu um ingles, que estava indo de taxi sozinho e me convidou para ir junto. Ele tinha quarenta e poucos anos, havia sido casado durante 20, tem duas filhas e fazia 3 meses que tinha se separado. Sua ultima viagem, havia sido uma volta ao mundo de combe com um amigo, durante dois anos, pouco antes de conhecer sua esposa. Durante os ultimos 20 anos, ele so fez uma viagem para uma cidade a uma hora de sua casa e trabalhou como um condenado. A vida passou! E como obra do destino eles se separaram e na semana seguinte ele foi para India pensar na vida. Comecou por longas semanas de meditacao num lindo monasterio na Tailandia. Seus tres meses estavam acabando e ao chegar em Delli, no dia seguinte, ele voltaria para casa. Que grande mundanca e que belo momento a vida estava proporcionando para ele. Falamos sem parar um segundo durante o caminho ate Delli, foi uma das pessoas mais genias que conheci durante toda a viagem.

Nao vou esquecer do Daniel, um ingles filho de mae viciada em cocaina, neto de um prisioneiro do Auchevitz. Era meu vizinho de quarto e quando falava parecia o Joao Pequeno do Cidade de Deus. Era traficante de drogas e usuario de cocaina em Londres, quando descobriu a yoga. Hoje seu objetivo ‘e nada mais do que se tornar um yogue e iluminado. Para isso faz varias horas de yoga por dia, cuida da alimentacao, jejua quase diariamente ate a noite, oferece toda sua comida a Deus e segue todas aquelas recomendacoes de yoga para limpeza do corpo. Como tinha que dividir banheiro com ele, sempre esperava muito, ate ele limpar seu nariz com um tubo, depois enfiar metros de pano no estomago para deixar tudo bem limpinho. Um dia, apos o jantar, alguns turistas perguntaram porque ele era tao maluco, se referindo ao jeito Joao Pequeno de falar e ele comecou a despencar a historia da  familia dele. Desde seus tres anos de idade sua mae ‘e dependente de heroina. Foi criado praticamente na rua. Hoje le Bagavaghita diariamente. Quando ele acabou de falar, as pessoas ficaram em silencio e eu disse olhando bem para ele: voce ‘e uma grande pessoa. Parabens! Acho que ninguem nunca tinha dito isso. Ele encheu os olhos de lagrimas, e sempre passava pelo meu quarto com doces cumprimentos…

Gostaria de oferecer um brinde a essas pessoas Marlinda, Nicola, Kyara, Nicci, Jaison e Daniel, e a todas as outras que conhecemos na viagem e que nao estao relatadas aqui!

* As fotos desse post vem qdo encontrarmos uma boa internet.

por tambemsai Postado em India

Vida de Ashram II!

Ao final dos 10 dias, o Gui chegou e aproveitou o ashram comigo durante mais quatro dias. Ele adorou! Aproveitamos para matar a saudades e passear na natureza. Quando chegou a hora de ir embora, pois haviamos comprado nossa passagem para a Jordania (nosso proximo destino ‘e fazer o Oriente Medio) nao queria ir embora de jeito nenhum.

Caminho de volta para o ashram ao final das meditacoes!

Fim de tarde!

Fim das contas, decidimos mudar a passagem e o Gui foi para as montanhas e eu voltei para o ashram, pois precisavamos fazer algumas coisas praticas em Rishikesh. A principio duvidei da minha decisao pois estava perto daqueles dias femininos e fiquei me culpando por ter dado todo o trabalho para o Gui de mudar a passagem, que nao foi uma jornada facil. Quando os dias chegaram, relaxei e pude entender porque aquele chamado era tao forte para voltar.

Tive algumas meditacoes inexplicaveis. Um dia, quando acordei numa chuva forte, fazia nao sei quantos meses que nao sentia o cheiro da chuva e nem o prazer de te-la, levantei da cama e fui meditar, num lugar bem especial no ashram de frente para o Ganges. Eram quase seis da manha. Duas horas depois quando abri os olhos, tudo silenciou, nao havia sequer uma coisa dual no meu ser, tudo era harmonia, eu, o chao, a chuva, as plantas, o ganges, o ashram, todos eram uma coisa so e nao havia separacao de nada. Nao havia eu e nao-eu, como explica Buda. E eu chorava! Chorava em ter aqueles minutos contemplando a magia e os misterios da Revelacao. Aqueles longos minutos que fiquei sentindo aquela absoluta harmonia, esta tao registrado em mim, que depois daquele dia, parei de duvidar de muita coisa e a confiar na sinfonia que rege o mundo.

Sobre uma pedra, no dia seguinte frente ao Ganges, quando estava rezando por um longo tempo, fui tomada por uma sensacao absurda de amor, de bencao e de acolhimento. Senti, pela primeira vez na vida, de forma clara, a presenca dos anjos que me acompanham. Estava rezando Santo Anjo!

Durante todo o percurso dessa viagem, queria entender o que era a falta que ainda sentia e que ja nao era mais daqui. Ja nao era mais um insight de terapia que buscava, nem compreender mais minha psique, nem entender mais porque as vezes os mesmos comportamentos surgem novamente, nao sentia mais falta de respostas para a minha psicologia e nem vontade de entender nada nesse sentido. Queria entender o que era aquela pergunta que havia no meu coracao desde pequena, quem sou eu e para onde vou, que tomava formas diferentes….

Quando a Andrea, minha amiga querida, me entregou um CD de Religios Comparadas antes mesmo de eu viajar, peguei aquele CD como se tivesse recebido um presente para estudar alguma coisa, mas nada demais. Queria mesmo era entender um pouco mais do sentido das religios, mas uma coisa bem assim sem pretensao e sem grandes interesses.

As aulas comecavam na propria ordem da Revelacao. As primeiras aulas foram de Hinduismo, depois de Budismo, depois Judaismo, Cristianismo, Islamismo, Confucionismo, Taoismo e Tradicoes Indigenas. Em cada religiao, meu professor era de uma imparcialidade admiravel. Quando ele fala do hinduismo, ele ‘e um hindu, quando fala do Budismo, ‘e um budista e assim por diante…. Bom, ouvindo essas aulas ao longo da viagem e estando ao mesmo tempo em frente a estas religioes, convivendo com pessoas de cada uma delas… na Africa, nos paises que passamos boa parte era muculmana, no sudeste asiatico obviamente budista e na India hindu.

E nessa caminhada percebi que nao precisava mais de novas abordagens espirituais como toda hora surgem na nossa frente, nem de livros de auto-ajuda, nem de “ OSegredo”, nem de psicologia, nem de retiros malucos, nem de nada…. eu queria entender o basico e ter uma visao mais inteira do mundo, nao varios pedacos, queria conseguir conectar religiao com historia com sociedades com o homem. Eu nao queria mais tirar o que me interessava de todos os conselhos de ser melhor, nem de meditar por meditar… Eu queria Deus, essa era a minha falta! E eu fui descobrir nessa viagem, olhando para esses povos, com dinheiro ou sem dinheiro, firmes no seu amor e na sua fe, que era isso que eu precisava.

Eu nunca tinha sentido a fe. Eu nunca consegui acreditar em algo que nao entendia. E nesse sentido as aulas foram perfeitas para mim, pois eu pude comecar a entender Deus, religiao e o homem atraves do estudo; atraves, primeiramente, do intelecto, que ‘e mais meu jeito de aprender.

Hoje descobri minha falta: eu nao tinha nenhuma relacao com Deus. Advinha quem ‘e o Guru que descobri que mais fala de mim? Jesus Cristo. Que grande ironia do destino. Precisei viajar o mundo para voltar as origen

Pra pensar:

Este chamado que ouvimos rumo a um tipo de vida, esta voz ou grito imperativo que se eleva de nosso intimo mais radical, ‘e a vocacao. Na vocacao ‘e proposto ao homem, nao imposto, o que ele deve fazer. E a vida adquire, por isso, o carater da realizacao de um imperativo. Est’a em nossas maos querer ou nao realiza-lo, ser fieis ou infieis ‘a nossa vocacao. Mas est’a, quer dizer, aquilo que verdadeiramente devemos fazer, nao est’a em nossas maos. Chega at’e nos inexoravelmente proposto. Eis porque toda a vida humana tem uma missao.

Ortega y Gasset

Encontro!