Na Terra do Povo Eleito!

Quando chegamos na Jordania, apos quase tres meses de India e cinco meses de Sudeste Asiatico, pudemos perceber rapidamente a diferenca dos dois grandes ramos religiosos – ariano e semitico e a sensacao foi de voltar para casa.

Os arianos que habitavam o subcontinente indiano quando os Vedas foram revelados criaram o hinduismo; bem mais tarde veio o budismo. Os principios e o objetivo de ambos sao os mesmos, chegar a iluminacao. Um caminho sempre igual, da busca de um homem por acessar integralmente sua natureza divina. E quando voce esta na India consegue ver isso muito claro, as fotos expostas em qualquer estabelecimento comercial de um Guru que atingiu a iluminacao. Nos templos budistas ‘e a mesma coisa, sao estatuas e mais estatuas de monges iluminados lado a lado com Buda.

Nao existe a adoracao por uma figura unica, quando voce ‘e um iluminado voce se torna como qualquer um dos deuses que houveram. Voce partilha da natureza divina ou budica, mesmo nao se tornando o proprio Deus e governando o universo. Por isso Sai Baba e Ama, por exemplo, sao alguns dos deuses vivos que os indianos e ocidentais adoram hoje em dia.

A Ama ‘e capaz de ficar mais de 24h abracando a multidao de fieis que vem ate seu ashram para receber o seu abraco curativo ou seu amor. As pessoas que conheci que ficaram no ashram dela relatam que tentaram acompanhar o circuito de abracos da Ama, mas nao conseguiram, precisaram parar para ir no banheiro ao longo do dia, almocar e a noite dormir. Mas Ama nao sente as mesmas necessidades humanas que as nossas! Os deuses normalmente nao precisam dormir, coisa de 2h por dia ‘e suficiente para estarem prontos para a proxima, quando dormem. E isso ‘e relatado nos livros, as necessidades de descanso e comida sao para nos mortais. E isso nao ‘e piada nao, vao para India que voces poderao ver com seus proprios olhos!

Mas quando voce chega no territorio das religioes semiticas a atmosfera ‘e outra. Existe uma relacao diferente com Deus, uma preocupacao com a conduta, com o certo e o errado, nao “apenas” o foco em tornar-se um Iluminado. Noe teve tres filhos, dentre eles Sem, Abrahao foi descendente de Sem,  Abrahao teve primeiro dois filhos Isaac e Ismael,  deles surgiram duas racas:  os judeus e os arabes.

Cidade velha – Jerusalem!

Enquanto as religioes arianas buscaram perceber qual ‘e a semelhanca entre o homem e Deus, e qual o caminho para se chegar a essa natureza divina; os semiticos queriam saber quem era Deus, quais eram suas leis e suas preferencias. Por isso, as tres grandes religieos semiticas (judaismo, cristianismo e islamismo), a grosso modo, parecem um conjunto de mandamentos e regras do que voce deve fazer e do que nao deve fazer para ter uma amizade com Deus como diriam os Judeus; para ter o amor de Deus como diriam os cristaos ou por gratidao a Deus como diriam os muculmanos.

Nao sei se para voces, mas os judeus sempre me causaram muita curiosidade. Porque eles foram tao perseguidos ao longo da historia? Porque eles sao um povo tao separado dos demais? Porque eles sao tao unidos entre eles? Porque eles sao, a primeira vista, tao fechados nas suas relacoes? Porque eles devem casar somente entre si?

O Judaismo comecou a partir de uma amizade entre um homem e Deus. Inicialmente de Abrahao e sua familia, depois de um povo e uma nacao. O Tora sao os cinco primeiros livros do velho testamento que consistem numa serie de meios para preservar uma amizade com Deus. A saber, o judaismo possui 613 leis.

Mas o que ‘e um judeu afinal? ‘E um povo separado de toda a humanida, porque Deus os separou. Na biblia Deus diz mais ou menos assim: “ Oh Israel, farei de ti uma luz para as nacoes. Voces estao aqui, as nacoes estao ali. Com esta nacao aqui, vou mostrar para o mundo o que ‘e um povo inteiro viver centrado numa relacao pessoal com Deus.” Por isso o termo “Povo Eleito”.

Mas com o passar dos seculos, essas leis somaram-se com novas regras, fazendo com que a relacionamento se tornasse mais distante, enfatizando mais as regras e rituais, do que a propria relacao com Deus. E foi isso que eu e o Gui percebemos em nosso rico jantar na casa de alguns judeus ortodoxos que contarei logo adinte.

Quando ainda estava na India, fiz amizade no ashram com um judeu que vivia em Tel Aviv e contei que estavamos indo para Terra Prometida e acabamos falando do termo “povo eleito”. Ele me contou que alguns judeus do tipo “senso comum”, sentem-se superiores por serem o povo eleito, mas os mais religiosos, que verdadeiramente estudam o Tora, se veem muito mais responsaveis e desafiados justamente por isso. O Gui tambem conheceu uma judia em Amstar, que contou que sua familia se sente superior a todas as nacoes.

Bom, mas papo vem papo vai, ele me recomendou fazer counchsurfing em Israel, especialmente em Jerusalem, pois disse que de fora nao conseguiriamos compreender a realidade que ‘e ser um judeu, confirmando o que ja planejavamos. Fizemos contato com uma familia ortodoxa que acabou nos convidando para passar o Shabbat com eles (dia sagrado).

Abrindo um parenteses, na Jordania jantamos com alguns judeus seculares (termo usado para se referirem, a grosso modo, aos judeus que seguem as tradicoes mas nao a religiao). Numa linguagem mais facil, os ditos modernos, temos seculares por todos os lados hoje em dia, principalmente no ocidente. E eles deram o seu ponto de vista. Disseram que nao gostam de ter que servir ao exercito e nem de participar das guerras. Sao obrigados a lutar por uma nacao separada das outras em nome de uma religiao/historia/povo.  Nao querem lutar por algo que nao criaram e s’o querem viver em paz.

Bom, mas a historia ‘e bem diferente quando voce senta para conversar com os ortodoxos, ou seja, os que seguem o judaismo. Eles dizem: “ Deus nos separou como nacao!” E contam inumeras historias, desde quando foram punidos por Deus e tiveram que ficar 40 anos no deserto ate todas as recompensas por ser o povo eleito. Se sentem muito mais responsabilizados e desafiados. Quando sofrem, acham que estao sendo testados por Deus. Aceitam os sofrimentos como prova de sua fidelidade a Deus. Dizem que ser o povo eleito, o peso do bom e do mal ‘e muito mais forte: “ quando ‘e bom ‘e muuuuito bom, mas quando ‘e ruim ‘e muuuito ruim”.

O jantar!!

Chegamos por volta das oito da noite, horario combinado na casa de Natanael. Fomos recebidos por sua esposa americana, ambos judeus-americanos que vieram para Jerusalem ha 34 anos atras. Sua esposa era super esquisita. Mal nos deu a mao para cumprimentar-nos, quase uns10 minutos depois que tinhamos chegado e apontou para o sofa entupido de pelo de cachorro para sentarmos. A casa cheirava mofo e cachorro, era cheia de quinquilharias, livros e objetos velhos empilhados uns sobre os outros. Quando estavamos forcosamente tentando nos sentir a vontade chega Natanael com seus dois cachorros, um grande e outro pequeno. Natanael nao era esquisito como a esposa, ele era completamente louco. Seu pescoco era torto e seu olhar era como se ele estivesse permanentemnete em estado de susto, nos olhava meio de perfil e de canto de olho, parecendo que tinha um torcicolo constante. Ele falava sem parar, quase nao respirava.

Enquanto eu estava sentada no sofa deixando o Gui ver todos os quadros da casa com o Natanael na sua jugular contando a historia de sua familia desde 1800, chegou um outro casal convidado. Estes eram super normais e simpaticos. Comecamos a conversar, ele queria saber um pouco do Brasil. Enquanto tentava contar, o cachorro menor idiota tentava ter relacoes comigo atraves do meu braco. A minha roupa cuidadosamente separada para o jantar estava abarrotada de pelos e a minha rinite, que ha muito tempo nao se manisfestava, estava enlouquecida, eu so espirrava. Esperava que os malucos donos da casa tirassem aquele cachorro infeliz do meu lado e prendessem ele la fora, mas nao. Eu empurrava o cachorro e ele voltava ao meu braco. Assim foi ate a hora do jantar, quando nos levaram a um comodo separado, ainda mais mofado e umido. La fecharam a porta de vidro que separava a “sala de jantar” dos demais ambientes, mas enfiaram os infelizes dos cachorros juntos.

Como era Shabbat, eles iniciariam os seus rituais para podermos jantar. Como havia o casal anfitriao, o casal normal e mais um outro senhor convidado, eles teriam ali, tres rituais judaicos diferentes. Todos vinham da orientacao de Deus de que antes de comer devem lavar as maos e rezar, mas a forma que cada um fazia isso e a reza escolhida dependia do ramo judaico proveniente. Judeus europeus? Etiopes…? Como falei antes, os costumes comecam a se multiplicar.

Entao o anfitriao trouxe uma bacia com agua e uma toalha, lavou suas maos e rezou alto. Como ele ‘e descendente de espanhois e portugueses, tambem rezou em espanhol. J’a o casal convidado, na sua tradicao recomenda-se seguir o ritual do anfitriao, entao fizeram o mesmo. O senhor, ja de outra tradicao, lavou a mao numa bacia separada e rezou em voz baixa. Tudo isso ao mesmo tempo. Era muito estranho de ver. Voce consegue perceber que sao povos que viveram por anos em paises diferentes e se juntaram recentemente para viver numa mesma terra. Para eles, terem sua nacao ‘e algo muito novo e a sensacao ‘e que voce esta no meio de um quebra-cabeca humano. Eles confirmam.

Os judeus ortodoxos nas ruas andam com chapeus e ternos preto, os cabelos das extremidades nunca sao cortados (onde fica a costeleta), preso a camisa branca usam uma especie de cordoes compridos brancos que vao balancando enquanto caminham. Perguntamos a eles sobre a roupa, o cabelo e os cordoes e eles nos explicaram. Tudo esta escrito no Tora. Voce nao deve nunca raspar o cavanhaque; as mulheres devem cobrir os cabelos, por isso as judias andam sempre com lencoes ou raspam o cabelo e usam pirucas; e os tais cordoes existem para que cada vez que voce olhar lembrar-se dos mandamentos de Deus.

Os ternos!

Os judeus do jantar, nao usavam o terno com o chapeu, mas usavam os cordoes e nao raspavam o costeleta. As esposas usavam uma boina para esconder o cabelo. Foi possivel perceber com a experiencia o quanto os rituais acabam se tornando muito exteriores. As vezes parecem nao ter muita consciencia do que estao fazendo, a relacao parece mais automatizada com Deus. No muro das lamentacoes pudemos observar varios tipos de judeus, incluindo ultra-ortodoxos, estes parecem mais como misticos, voce consegue ver uma conexao muito mais ‘intima com Deus!

O jantar, no fim das contas, foi riquissimo em todos os sentidos. Nao conseguimos em nenhum segundo sequer nos sentir confortaveis, pois a ultima coisa que eles foram foi acolhedores. Falavam sem parar, sempre com pontos de vistas opostos, e nao tinham o menor receio de mostrar suas diferencas entre si. Quando o anfitriao comecava a falar demais coisas que os outros nao concordavam, os homens convidados diziam imperativamente: “ essa ‘e a sua opiniao, nao a nossa!!!”, como ele nem dava bola e continuava falando sem parar, eles completavam: “ cala a boca, para de falar um pouco”. Ate o cachorro quando latia eles gritavam: “SHUT UP!!” As mulheres nem respiravam, so serviam a comida e pareciam alheias a conversa. A atmosfera era tao louca e tensa que eu e o Gui nao lembramos de tirar uma foto.

A comida foi servida em cinco etapas. A primeira era uma sopa gelada de iogurte com menta e pao com humus. Achei que seria so aquilo e reclamei para o Gui: “ nao acredito, estou morrendo de fome e vou ter que comer essa sopa gelada”. Fim das contas, ja sem apetite, veio a proxima, depois a outra, mais outra, e finalmente a sobremesa. Mordi a lingua!

Muro das Lamentacoes!

Navolta nos acompanou ate bem perto do nosso hotel com seus cachorros. Eram quase duas da manha. Num determinado momento falou: ” acho que daqui voces vao, ne?!” Quando fomos virar e dizer: ” sim, obrigado!”  E agradecer o jantar, ele ja estava quase do outro lado da rua. Pensamos “sera que fizemos alguma coisa errada”. No dia seguinte ele colocou no counchsurfing que gostou muito da gente e seus convidados tambem. Nos mandou mais emails querendo fazer mais programas…

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8 comentários em “Na Terra do Povo Eleito!

  1. Querida,
    tenho acompanhado todos os posts e suas aventuras internas, mais do que as externas. Qdo voltar teremos muito o que falar sobre isso. Algumas de suas descobertas certamente passaram bem longe do acaso. Algumas coisas aconteceram por aqui que vão na mesma linha dos seus achados pessoais. Coisas mto interessantes…
    Superbeijo.
    P.S. já parei de temer pelo bem estar de vcs, uma vez que passaram incólumes por regiões do mundo onde logo após vcs partirem, algo aconteceu – um desastre natural, uma revolta popular, etc… Parece que estão bem protegidos.Fiquem bem.

    • Oi querida!!!

      Opa gostei muito da noticia, “teremos mto o que conversar….” Fiquei curiosa com as descobertas de voces. Que bom que a sensibilidade de voces faz perceber as aventuras internas e a mudanca de referencial que esta ocorrendo dentro. Adorei! Ah os livros de sufismo, voce ainda quer? Pois estamos indo para Turquia. Me escreve um email com os nomes que ainda faltam.
      Tambem nessas alturas do campeonato ja nao me sinto mais insegura com a viagem, o que mais sentia medo eram dos trens da India, se passamos dessa acho que vai…. haha.
      Beijos saudosos dos jantares na lareira!
      Bibi

  2. Bibi querida,
    Como vc, sempre tive vontade de saber mais sobre a cultura judaica,a viagem permitiu sobrevoar seus valores de forma mais proxima.
    Judeus sempres inquietam e fazem refletir os
    “por ques” das perseguições suas lutas; mas desde pequena ouço falar com preconceitos sobre eles (dinheiristas, avaros) sentia uma certa pena.
    Agora aprendo a observar o peso da história e tradiçoes que carregm nas costas, impurrando-os, expremendo-os,uns contra os outros, mesmo dentro de um espaço que os separa e afasta dos demais!
    Escolheram essa vida e parecem nao saber viver outra. Como nós escolhemos a nossa…
    Ah…Bibi, os pelos dos cachorros ainda estão instalados “ortodoxamente”no vestido preto, hehe

    • Dica maravilhosa,

      Obrigada maezinha. Voce viu de pertinho ne! Pena que nao deu para ir no jantar. Haha lembra nos voltando e contando no meio da madrugada…
      Sabe que os pelos do meu casaco tb estao ate hoje, mesmo depois de lavado.
      Beijao mae

  3. Oi Bibi,
    quanto tempo guria!!! Faz tempo tb que quero mandar um recadinho pra ti contando que a Tatá me passou seu blog e desde então venho acompanhando suas trips… Queria dizer que admiro mto sua disposição e coragem (já cansou de ouvir isso neh?!) e que me identifico demaaaaais contigo e com suas indagações… Vira-e-mexe leio em voz alta para meu maridão e ele ri demais com as semelhanças… O mais legal é que vc me traz mtas respostas, ou pelo menos indícios de direção de pensamento… hehe complexo neh, mas enfim quero te mandar um beijão e mta energia positiva nessa fase ímpar da sua vida!!

    • Oi Marcia!!!

      Quanto tempo mesmo!! Poxa adorei que voce esta acompanhando o blog, nem imaginava. Faz tempo? Sabe que sobre a coragem e disposicao nao foi muitas pessoas que falaram nao. Mas obrigada, pois exige exatamente isso para fazer essa viagem. Olha, fiquei muito feliz em saber que minhas buscas servem para ti, sabe que no fundo eu escrevo muito mais para essas pessoas como voce. Porque as outras devem achar o meu blog meio chatinho, ne?! Principalmente nessa segunda etapa da viagem, que tenho aprendido demais e portanto, falado so desse tipo de coisa, que para mim ‘e o que move essa viagem.
      Agora que escreveu pela primeira vez, vai comentando, eu adorei.
      E entao tb esta com maridao? Que delicia. Continua em Floripa?
      Beijao
      Bibi

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