Volta pra casa!

Voltar para casa nao ‘e facil. Na verdade, ‘e bem dificil. A sua consciencia da vida nao ‘e mais a mesma. Voce nao ‘e mais a mesma, nada ‘e mais o mesmo, mas a vida aqui parece ter vivido outra experiencia, muito distante da sua.

Alguns querem conhecer  de fato o que foi vivido, percebido, refletido e que mudancas gerou; outros, a grande parte, querem so dizer: ” nossa imagino o quanto a  viagem deve ter sido maravilhosa…”  Fico boba do quanto as pessoas sabem: “imagino isso, imagino aquilo, sei bem, posso imaginar…”

No comeco eu me assustei um pouco,  porque gosto muito de compartilhar o que aprendo (algumas amigas minhas, por exemplo, ate hoje nao  sabem quem voltou de viagem), mas com o tempo, fui vendo que nao ‘e por mal. ‘E por pura ignorancia. Algumas vezes intelectual, mas na maior parte, espiritual.

O Significado da viagem nao ‘e o ponto para muitos, mas ja o pratico interessa mais. Gastam-se horas e horas as vezes falando das historias politicas dos paises, sem perguntar o basico: quem de fato sao essas pessoas que voltaram de viagem ai na sua frente…

Uma loucura! Voce se sente sozinho no teu saber e na tua experiencia. No conteudo vivido. Voce enxerga e ninguem enxerga junto. Voce olha a vida ilusoria de aquario, e precisa quase fingir que acredita. Voce fala e o outro na sua frente nao ve. ‘E muito duro.

Depois do choque relacional, a coisa foi melhorando. A seguranca ilusoria de fazer parte de uma sociedade me confortou um pouco. Como ‘e facil viver a realidade quando se pertence a alguma ordem social. Como ‘e facil trabalhar, correr com afazeres, ver amigos, falar e falar. Caramba, como falam. Que excesso de externalizacao do vivido. O fim do dia chega, a noite cai, vem o sabado, que ‘e rapidamente devorado por um almoco mais longo, talvez um cafe no fim da tarde, e sempre varios programas a noite. Domingo vem rapido, mais um almoco demorado, organiza a casa mais ou menos e apura, vai dormir que comecou a semana…

O que mais perguntam ‘e como esta o processo de adaptacao (todos lembram de perguntar isso, mas nao quem voltou)? Pensam que e dif’icil. E nao ‘e. ‘E extremamente facil. ‘E ridiculamente facil. Esquecer tudo o que voce aprendeu, voltar a comer bastante, dormir ate tarde no fim de semana, correr atras do tempo, falar e falar e preocupar-se com o futuro…

Como poderiamos explicar que nao queremos nos adaptar? Que essa realidade nao ‘e realidade. Queria ver as pessoas longe de seus ninhos e grupos, soltas no tempo e no espaco, com tempo para pensar na vida e para Ser, com ninguem para dizer quem elas sao, por meses e meses sem identidade, saltando de um pais para o outro, num outro sistema de pensamento que nada tem a ver com tudo que ‘e familiar, como elas sobreviveriam (do ponto de vista interno). Quando estamos envoltos de tudo o que existe no nosso ninho, esquecemos do comeco, do pra que estamos aqui. E nesse sentido, falo da ilusao.

Aqui parece que nao ha tempo de pensar na vida, as oportunidades precisam ser muito buscadas, e nao ‘e exagero! O relogio e os valores sao diferentes! Como dizem os amantes da energia, ate a energia aqui ‘e diferente.

E o desejo de todos ‘e que voce se enquadre, e ao mesmo tempo que se enquadrar, ha uma cobranca de ” poxa, fizeram uma viagem tao legal, e voltaram iguais”. Ninguem quer saber o quanto mudamos, mas nao querem que parecemos iguais…

Depois de um pouco tonta com toda loucura que ‘e voltar para casa. E toda confusao de expectativa, como dizem todos, porque nao se pode mais esperar nada de ninguem, tudo se resume a palavra expectativa. Eu diria que nao sao expectativas, as vezes nao temos clareza mesmo das pessoas porque nao tivemos experiencias com elas para tanto, e podemos esperar o melhor delas; quando nao vem, nao ‘e porque frustramos a tal da expectativa, mas ‘e porque nao conheciamos o outro suficientemente, e la veio uma  oportunidade.

Passado o susto, a paz tomou conta do meu coracao e pude ver a Bianca que voltou dessa viagem. Agora, aqui na vida de Curitiba. E pude perceber, que estou intacta na “aprendizagem aprendida”, fortalecida e serena. Nunca em toda minha vida, me senti tao serena. Serena porque a viagem me ensinou a seguir  outra ordem, que ‘e tao mais completa, que me da insumo para seguir tambem essa aqui.

Dentro de mim, a beleza da vida se exalta todos os dias na minha frente e cada dia que acordo tenho mais vontade de viver, de amar e de aproveitar da forma mais nobre que eu puder, a grande oportunidade de Ser Humana!

Anúncios