Frio na barriga!

Dia 30 de marco, eu e o Gui, embarcamos para mais uma etapa da viagem. A principio, ela tinha como fim, setembro do ano passado, quando voltamos. Mas no dia que compramos a passagem, ainda la na Bulgaria o meu coracao apertou e do Gui entao… acho que nao passava um fio de cabelo.

Eu estava cansada da rotina da viagem, ja estava ha 13 meses na estrada, e sentia falta de ficar no mesmo lugar, e tambem de estar perto de casa. Fisicamente estava cansada e nao tinha mais a mesma disposicao para conhecer lugares novos e nem para caminhar nas ruas. Queria ficar parada, queria sombra, queria comer peito de peru da sadia e salada da chacara todos os dias no almoco, comer frutas escolhidas nas prateleiras da cozinha, queria abrir a geladeira e escolher coisas gostosas, queria ir no mercado, queria comer empadao de frango com palmito do Lucca Cafe, queria lavar a louca, enfim, queria parar um pouco.

Os dias foram passando e cada vez que chegava mais perto da data da volta, mais nao queriamos voltar. Ate que disse para o Gui, no intimo de meu espirito aquariano ” mas porque mesmo que nao podemos voltar a viajar, logo depois que voltarmos?”. Ele me olhou, como uma crianca olharia quando voce oferece uma bala, e disse: “serio, podemos voltar a viajar, voce quer?”

Pronto, estava decidido, nos voltariamos para rever a familia, os amigos e matar a saudades de ficar em casa. Descansar e se tivesse oportunidade, trabalhar. Aconteceu tudo isso, trabalhamos, deu tempo ate de descobrir novas formas de trabalho, mais adequadas ao jeito de cada um.

E agora, estamos perto da nova partida! No comeco, quando o Gui comprou a passagem, ainda em janeiro, me deu uma preguica enorme. Pensei: ” mas porque mesmo tenho que voltar a viajar?  Ta bom, para aprender e me tornar um ser humano melhor, para ficar mais perto de Deus…”  Bom, nem precisava continuar o falatorio interno, a preguica podia vir, que eu a ignorava. Os motivos eram muito justos e elevados, que meu corpo nao tinha espaco para se queixar. Hierarquicamente, meu corpo deve obedecer ao meu espirito, e nao ao contrario.

Passado os dias, a viagem comecou naturalmente a me alegrar. Vinha uma felicidade absurda, inesperadamente, no meio do dia, quando eu pensava: ” caramba, to indo viajar de novo…” Aquele frio na barriga, aquela felicidade, de quem ja sabe para onde esta indo e o que vai encontrar. ” Aprendizagem, aprendizagem, aprendizagem…” e tudo coisa, para aprender dentro.  Existe algo melhor que isso?

Quando estava indo embora do ashram la na India, estava muito triste, inconsolada, conversando com a Kiara, no alto de  uma pedra na beira do Ganges. E Kiara tinha autoridade moral para me dar conselhos. Ela foi para passar 15 dias no asharam do Sai Baba e acabou ficando por tres anos e estava naqueles dias,se despedindo da India e se preparando para voltar pela primeira vez  ‘a Roma, depois desse longo periodo. Ela disse entao para mim: mas o que te angustia tanto Bianca em sair daqui?” Imediatamente minha angustia ficou clara, e eu respondi: ” tenho medo de voltar a ficar longe de Deus”. Ela riu e com muita docura e carinho me abracou e disse: ” Bianca, Deus esta em todos os lugares e inclusive dentro de ti.”

Me deu uma alegria imensa e uma alivio ouvir aquilo naquele  momento, apesar de  ja saber disso, eu estava esquecendo justamente naquela hora. E dai veio o desafio, eu conseguiria levar Deus (ou sendo mais precisa, um pouco do ceu) comigo no resto da viagem e, depois para o Brasil?

Sim, consegui traze-lo. Ele veio junto e esta junto. O desafio ‘e maior, bem maior, muito mais facil a vida de ashram e muito digna, louvavel. A vida ideal e que eu teria escolhido, se nao fosse casada e apaixonada pelo meu marido. Mas Deus pode vir com a gente e a gente pode ir ate Deus tambem no Ocidente, em casa, no meio da familia, dos amigos e do trabalho.

E mesmo depois de tantos meses, quando fecho os olhos, aquele palco do silencio e da beleza ecoa do intimo do meu ser e eu me elevo e falo em silencio “Obrigada, obrigada, obrigada!”.

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por tambemsai Postado em Brasil