Um Povo sem patria!

Logo quando largamos as malas no trem ficamos sabendo que nao tinha vagao de restaurante, como estava anunciado na internet. Corremos entao comprar comida, pois seriam 30 horas de viagem. Sorte que deu para fazer um pe de meia. O vagao contava com banheiros impecaveis e ainda chuveiro. Obvio que fui a unica a tomar banho.

A viagem de trem foi espetacular. A paisagem la de fora era emocionante. Por mim ficaria mais 30 horas naquele trem, de tao lindo que era olhar para fora. Passamos por vilarejos maravilhosos, com poucas casas, uma mesquita e uma escola. As vezes tinhamos visuais duplos de uma janela do trem para outra, de um lado meio deserto, do outro tudo verde com montanhas com neve no topo. De chorar de tao lindo. Tive aqueles momentos emocionantes de profunda felicidade, de pensar que eu nao gostaria que um milimetro da minha vida fosse mudada e que eu estava exatamente aonde e como gostaria de estar…

As cinco da manha chegamos em Diabarkir no Curdistao Turco e fomos procurar hotel. Depois de descansarmos, fomos conhecer a cidade. As ruas cheias de mercados de rua, mulheres com suas burcas dos pes a cabeca e homens tomando chay em frente a mesquita. Alem de outros jogando domino no parque e o visual do rio tigre ao sul da cidade. Aquele visual intocado, de quem ainda sabe o que ‘e tradicao. Logo a ficha veio: a viagem comecou!!! ‘E incrivel como fiquei viciada nos lugares intocados, que enquanto nao chego neles, nao me sinto viajando ainda. Parece mais lazer.

Depois de pouco tempo caminhando e sendo abordada por muitos com Welcome to Diabarkir, conhecemos uma menina de uns 12 anos, junto com suas amigas, que nos convidou para ir ate sua casa. Entramos num labirinto de casas residenciais ate chegar na casa dela. Tapetes no chao, sapato para fora, nada de sofa, so umas almofadas na parede e uma televisao. Para nosso padrao uma casa vazia, sem moveis, para eles uma casa normal. Num canto da sala ficam alguns cobertores e as vezes colchonetes, para se estender no tapete na hora de dormir. Normalmente as casas tem poucos quartos, porque costumam dormir juntos na sala.

O papo comecou entao com a familia da menina e logo nos ofereceram chai, queijo e pao. Ficamos comendo e mimicando. A menina arranhava um ingles. Fim das contas a familia era bem heterogenea: a mae muculmana fervorosa de rezar 5 vezes por dia, como manda o figurino; o marido se dizia marxista e ateu; a filha dizia nao ser nenhuma coisa nem outra, mas ia a igreja aos domingos junto com as amigas, so porque achava legal; e o filho tambem era marxista.

Na parte de cima da casa uma sala de aula. A menina ensinava Kurdo para os kurdos que ja tinham perdido a lingua. E um quadro na sala da guerrilha PPK, mostrando o filho que morreu na guerra entre o PPK e o governo turco, pela independencia dos Kurdos na Turquia.

Uma historia triste, ja que o Kurdistao ja foi uma regiao autonoma na epoca do Imperio Persa, mas apos a primeira guerra e o fim do Imperio Otomano, os ingleses e franceses passaram a tomar contar e dividiram a regiao em quatro pedacos para os recem criados paises: Turquia, Siria, Iran e Iraque. Mas ‘e um povo so, com uma so lingua e tradicao. Na Turquia somente nos ultimos anos eles passaram a ter direito de falar sua lingua e de ter seus costumes. Nesta familia, por exemplo, os pais foram presos durante quatro anos porque a filha ensinava kurdo.

Ao final do encontro, saimos com presentes e o pedido para que a gente voltasse no outro dia. Se contar com o convite de dormir na casa deles e tirar muitas fotos, inclusive com os vizinhos. Nos somos tao diferentes para eles, quanto eles são para nos.

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2 comentários em “Um Povo sem patria!

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