Curdistao Iraniano

Depois de passarmos pelo Curdistao Turco, Curdistao Iraquiano, chegamos no Curdistao Iraniano. Pelo que observamos e escutamos, ‘e o melhor dos “Curdistaos” para viver. Aqui eles podem falar sua lingua sem perseguicoes e não tem um governo psicopata como no Iraque que quer acabar com sua etnia. Podem simplesmente ter uma vida tranquila de um povo humilde de montanha.

No entanto, a coisa também não foi tao facil para eles. Apesar de estarem numa regiao bastante isolada nas montanhas, acabaram ficando no meio do conflito durante a guerra Ira e Iraque, que durou quase 10 anos e, por isso, tambem tiveram de fugir de suas casas pelas montanhas sem olhar para tras, so com a roupa do corpo. Muitas pessoas se perderam de suas familias durante o trajeto. Outras tantas, na hora do desespero e luta pela vida, tinham que seguir separadas, deixando que nao conseguisse mais caminhar para tras. Sao varias historias, desde familias inteiras dizimadas, ate pais que encontraram um de seus filhos vivos depois de 10 ou 20 anos e outros que conseguiram se manter junto do inicio ao fim e depois puderam voltar para casa.

Atravessamos a fronteira Iraque-Ira ate Marivan, e tivemos a sorte de dividir mais um taxi com um Iraniano, que da mesma forma que o anterior, não sossegou ate nos ver instalados num hotel. Quando chegamos na cidade, ele deveria seguir para Sarandaj, há cerca de duas horas dali, mas atrasou sua viagem tentando explicar para o taxista o hotel que queriamos ficar, mas como estava lotado, desceu conosco em cada um dos demais para ver se ficariamos bem instalados. Era fim de semana e vespera de feriado, portanto a cidade estava lotada. Marivan tem um lago muito bonito, e ‘e destino de descanso para muitos iranianos. Rodamos com nosso amigo quase duas horas procurando hotel e so havia uma opcao disponivel: o segundo pior hotel da cidade. Era um quarto grande, com cama de casal, tapetes furados com cigarro, vidro do banheiro quebrado e banheiro oriental (buraco no chao). O hotel era mais do que decadente e parecia sujo, mas não era, era velho mesmo e mal cuidado.

Nos despedimos do nosso amigo, que nos deixou seu endereco e convidou para ficarmos na casa dele quando passassemos por Isfahan – rota turistica e onde ele morava. Trocamos de roupa, ali comecava a vestimenta obrigatoria para mulheres: calca e blusa larga de manga comprida, que não marquem o corpo, a blusa deve cobrir quadril quase ate o joelho e veu na cabeca. Me arrumei e fomos ate a praca da pequena cidade do lago bonito nas margens da montanha. Na praca, muitos kurdos com sua roupa tipica jogando dama. Era fim de tarde, e todos na praca nos olhavam e vinham perguntar se precisavamos de alguma coisa, se estavamos bem no Ira, se podiam nos ajudar de alguma forma. Agradeciamos e explicavamos que estavamos num “bom hotel” e que so queriamos ficar ali. Dali um pouco, comeca o barulho ensurdecedor da mesquita, e muitos saem para rezar.  Aproveitamos para procurar um restaurante para comer.

Achamos um bem ajeitado, e como não conseguiamos nos comunicar, fomos ate a cozinha do restaurante apontar para as comidas que queriamos. Comemos um delicioso carneiro com arroz e saladas, e como sempre, um chay para digestao. Aqui o chay deles não ‘e com leite como na India, mas ‘e uma obsessao como la, tomam o dia inteiro, o tempo todo. E quase como nosso cafezinho, mas ainda somos moderados no café perto deles. Voce esta sentado na praca tem um senhor passsando vendendo chay. O moco que engraxa sapatos tem um chay do lado, e assim por diante. Tudo ‘e motivo para parar um pouco e tomar um chay.

Dia seguinte fomos ate o lago e ficamos olhando o estilo de vida das pessoas. Haviam alguns grupos de amigos cantando um para o outro (o que me chamou bastante atencao), criancas brincando, familias inteiras tomando chay e alguns homens nadando. As mulheres nada, so no pedalinho que tinha ali do lado com todo arsenal de roupas. Eu estava louca pra tomar banho no lago, mas não podia, tinha que ficar coberta so olhando. Que calor!  Como não podiamos nadar, resolvemos ir ate um parque ao lado para ficar embaixo das arvores.  Logo vimos que estavamos circundados por piquiniques de todos os lados e uma familia já nos convidava para tomar chay. Depois, comecaram a chegar seus amigos e eles foram nos apresentando para cada um. Quem arranhava ingles ali era rei, a maior parte das conversas eram por mimica. Cada vez que tentavamos ir embora, eles diziam que era para esperarmos a comida. Ali mesmo cozinharam frango e arroz. Enquanto a comida não ficava pronta, eles comecaram a dancar suas dancas tipicas, que vem se repetindo de geracao para geracao há muitos e muitos anos. De repente, comecou uma chuva forte e fomos todos para os carros, os cozinheiros tiveram que dar um jeito de continuar preparando a comida.

Assim que a comida ficou pronta, entraram no carro e fomos ate a casa deles. Um engarrafamento enorme para entrar na cidade porque todos resolveram voltar no mesmo horario, e nosso amigo ia furando fila, fazendo manobras e manobras, que no Brasil com certeza ele teria arranjado uma bela briga. Por aqui nada, nem uma buzinada ele levou. Os iranianos sao muito educados um com o outro. ‘E impressionante. A casa era super tipica, bem como mostra no filme iraniano “Filhos do Paraiso” (recomendo assistirem), sala grande, sem moveis, apenas uma tv, com seus tapetes persas rsrsrs belissimos no chao e algumas almofadas encostadas na parede. Ao lado, um quarto com o armario da familia, e uns colchoes finos para serem abertos na hora de dormir. Dentro da casa o chuveiro e fora o banheiro. Normalmente nas casas mais simples e tradicionais, ‘e sempre assim, casa vazia, so com os tapetes e banheiro e chuveiro separados.  Jantamos o nosso repetitivo kebab de frango com arroz e cebola crua e para beber o famoso iogurte deles, que  pode ser comprado ou feito em casa. Uma mistura de iogurte com bastante agua, folha de menta e sal. Esse era feito com leite de cabra. Um gosto super esquisito, mas refrescante e excelente para o estomago. As mulheres resolveram fantasiar eu o Gui com as roupas curdas.

Depois do jantar,  nos levaram na internet, porque falamos que precisavamos dar noticias as nossas familias. Na verdade não queriamos que eles nos levassem, so queriamos ir embora e na internet, pois já eram quase dez horas da noite.  Eles rodaram a cidade procurando uma internet aberta, esperaram nos mandarmos emails avisando que estavamos bem (a internet no Ira ‘e muito lenta, bloqueada para muitos sites), pagaram e nos deixaram na porta de casa. Na despedida, a dona de casa tirou seu anel da mao e me deu de presente, disse que era para eu ter uma recordacao dela. Comecavamos a experiementar a tao famosa hospitalidade iraniana (por aqui ainda so kurda), que tanto tinhamos ouvido falar. Impressionante e comovente!!!

 

Familia toda!

Danca curda!

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9 comentários em “Curdistao Iraniano

  1. Que queridos e hospitaleiros…os iranianos…
    Nossa …Como podemos aprender com esta cultura sobre relacionamento e simpatia mesmo sem uma linguagem ou idioma comum! bjs

  2. Oi Bibi, tenho me deliciado com os post ou textos não sei, consigo viajar, viz até propagando pra minha cunhado do seu blog ela gosta muito de história e fico cuper curiosa. Amiga tudo de bom e que vocÊ sempre tenha a sorte de encontrar lugares bem limpinhos pra durmir rsrs, bejus e saudades!

    • Nossa Beli quanto tempo!!! Tava morrendo de saudades!!! Que bom que voce reapareceu. Espero que tua cunhada aproveite a viagem com a gente. Qdo for pra Chaps, temos muuuuuuito que conversar, vai ser uma delicia te reencontrar.

      beijos amiga

  3. Oi, eu sou Paulo, muito legal ver que vocês visitaram o Curdistâo iraquiano, estou trabalhando aqui há 6 semanas, estive em Erbil, belíssima cidade, agora estou perto da Turquia, trabalho no setor de petróleo. A cultura deles é muito bonita, a história deles é emocionante e se você fala que é brasileiro eles enlouquecem ehehehehe tá sendo uma experiência e tanto trabalhar aqui. Parabéns pela viagem de vocês.
    Eu também tive o mesmo problema em ir na citatel ehehehhe, mas eu mostrei uma foto e eles falaram “Kalah 5000 dinars” ehehhehe

    • Oi Paulo, que bacana que você está aí e podendo conviver com a cultura curda de perto. Nós gostamos muito da experiencia, estar no Iraque é uma coisa que nos deixou apreensivos, e no fim surpreendeu positivamente. Entao, voce quase nao conseguiu chegar no centro como nós, que demais!!
      Quando voltar ao Brasil nos procure para contar como foi a experiencia. Abraços

      Bianca

  4. Olá, meu nome é Andrea, parabéns pelas aventuras!! Já visitei alguns países mas nada parecido com as suas viagens, fiquei encantada com as histórias e cultura de todos eles.
    Estou indo para a Turquia pela segunda vez e me interessei em conhecer o Curdistão. Por favor, será que poderiam me dizer como foi a entrada no Curdistão?
    Vocês entraram pela Turquia, mas precisaram do visto no passaporte, ou foi direto na fronteira?
    Obrigada pela atenção.
    abraços e sempre boa viagem..

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