Na terra dos Uzbeks

Depois do susto das malas, fomos ate o ponto dos share taxis para seguirmos ate a fronteira com o Uzbekistao. Felizmente, pela primeira vez, o motorista resolveu ligar o ar condicionado e deu para passar tres horas dentro do carro sem aquela sensacao de tortura dos quarenta e tantos graus que fazia la fora.

Quando chegamos na fronteira era hora do almoco dos funcionarios e apesar de termos escapado do calor ate ali, agora tinhamos que esperar embaixo de uma pequena sombra de um trailler ate o fim do horario de almoco. Acho que estava batendo uns 44 graus! Na fronteira, mais calendarios do presidente fazendo pose, mostrando todos os seus dotes atleticos enquanto a populacao nao tem o que comer e, pronto, estavamos fora do Turkomenistao. Mas ate chegar na imigracao do Uzbekistao tinhamos que atravessar por aquelas terras de ninguem, quase 1km a pe no sol escaldante e a mochila nas costas.

Cruzado para o lado do Uzbekistao, após uma loooonga burocracia, mais um taxi ate Bukara, já quase cinco horas da tarde, e o sol não aliviava. Ao desembarcar aquela deliciosa surpresa, a cidade era linda, cheia de escolas islamicas para todos os lados – as famosas Madrashas, e um lago artificial no meio da praca. Antes mesmo que nos empolgassemos com o lugar, fomos procurar um hotel para não tardarmos o glorioso momento de tirar aquelas roupas suadas, nos jogarmos embaixo do chuveiro gelado, e comermos! Achamos um hotel baratinho, limpo, com um quarto bem gostoso, banheira e ar condicionado. Esses momentos para mim não tem preco, são um dos que mais valorizo na viagem. Voce sofre no calor, nas fronterias, e chega no hotel para tomar um banho! Uma sencacao impar.

Bukara!

As vezes fico impressionada pensando como depois de todo esse tempo de viagem perdi toda a minha frescura. Já topo quase qualquer coisa, já não reclamo mais do sol, dos perrengues, dos hoteis, eu olho para a situacao e vejo ela com uma naturalidade tremenda, pois sei que ela ‘e parte do tipo de viagem que fazemos. E aproveito todas elas para crescer em paciencia, auto-controle, auto-dominio, resignacao e em perseveranca. As vezes sinto vontade de largar a mala no meio do caminho e gritar, chorar, dizer: “to com calor, não aguento mais! Qual ‘e a forma mais cara para me livrar dessa situacao e alguem fazer todo esse processo por mim?” Mas daí logo eu digo para mim mesma: “menos Bianca, isso nao ‘e o mais importante.” E passa!

No hotel conhecemos um casal de israelenses muito legal. Eram recem-casados e a viagem funcionava tambem como lua de mel. Ela cuidava de cabras numa fazenda e ele tinha acabado de sair do exercito, depois de cinco anos. Os dois eram religiosos. Ele, ao acabar o colegio, foi para um Centro de Estudos do Torah (os cinco primeiros livros do Velho Testamento) por um ano, para se preparar psicologicamente para os proximos tres anos que teria no exercito. Esse ‘e o costume. Como o centro era perto da praia, ele aproveitava para surfar e não ia as aulas do Torah. Depois de quase tres meses surfando comecou a se sentir entediado e resolveu conhecer o centro de estudos e se apaixonou pela espiritualidade judaica. Seguiu para o exercito depois e acabou prorrogando seu periodo por mais dois anos. Ao sair conheceu a Ruth, sua esposa e, agora estavam viajando pela Asia Central, ate voltar para casa. A Ruth voltara para as cabras; ele ainda não sabe se fara psicologia, ou algo do genero. Ela comeca as seis da manha e termina as quatro da tarde, vai de bicicleta trabalhar e eles moram nos assentamentos judaicos na Cisjordania, há poucos minutos de Jerusalem. Dizem que a vida deles ‘e muito gostosa, fora do centro das cidades. Conversamos muito sobre varias coisas e combinamos de tentar no encontrar no Kirguistao.

Bukara apesar do calor escaldante, era uma cidade muito agradavel e bela. A beleza das madrashas eram estonteantes, mas depois de ter passado pelo Ira, o impacto já não era tao grande, pois a arquitetura era muito parecida. Nas ruas muitos turistas, restaurantes e lojinhas. Mas a sensacao era de museu a ceu aberto, não como a praca Imam Russein em Isfahan, onde aquela mesquita que voce tira fotos ‘e a mesquita mais frequentada da cidade. Faltava vida!

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Um País fechado!

De Mashhad seguimos para fronteira do Turkomenistao. Os Turkmen sao turcos assim como os da turquia, parentes bem proximos. Nosso primeiro pais da Asia Central, uma das regioes principais da nossa viagem pela Rota da Seda. A tal rota, que ia da Turquia ate a China/India (ou vice-versa), ligava o oriente ao ocidente numa das principais rotas comerciais da antiguidade. Os produtos variavam desde tecidos como a seda ate especiarias da India. Ha 700 anos atras Marco Polo explorou muito bem essa rota, quando decidiu se aventurar com seu pai e tio comerciante ate a China, para se reencontrar com o Kublai Kan (rei mongol descendente de Gengis Kan). O Kan havia solicitado para seu pai, levar estudiosos da religiao crista, ja que no seu reinado todos os credos poderiam ser representados. Ha quem questione se ele realmente fez essa viagem narrada no seu livro, mas no seu leito de morte, com o padre dando a ultima chance para ele se arrepender “de suas mentiras” no ritual da Uncao dos Enfermos, Marco Polo disse: ” Nao contei nem a metade do que vi”. Nos identificamos em varias das passagens do seu livro, quando ele relatava com detalhes cada lugar que passou, alguns pareciam intactos ate hoje, sentimos que ate nos poderiamos contar os mesmos relatos.

A chegada na fronteira nao foi facil. Primeiro pegamos um onibus podrasso, num calor infernal, com janelas  que nao abriam. Eu nem pensei duas vezes, joguei nossa garrafa de agua de 1,5l na cabeca para refrescar. Duas horas depois ja estava seca, pois tivemos que esperar do lado de fora da fronteira, embaixo de um toldo, batendo quase 45 graus, porque era hora do almoco.

A chegada no  Turkomenistao por Ashgabat foi impactante. Eu sabia que tratava-se de uma ditadura forte e de um pais pobre no meio do deserto, mas o que vi na chegada era um mini Las Vegas. Predios brancos imponentes para todos os lados, a maioria do governo e vazios, ninguem parecia trabalhar la dentro. Na sequencia mais predios brancos, agora apartamentos de luxo, construidos pelo governo, para seus  funcionarios de auto padrao poderem comprar. Ajuda de 50% paga pelo governo e o resto financiado, por um preco amigavel, por volta de 300 mil dolares…  resultado: estao todos vazios. Os predios foram contruidos as custas da retirada dos moradores de suas proprias casas sem indenizacao alguma.

Chegada em Ashgabat!

Os predios vazios!

 

Chafarizes e pracas arborizadas, com aguas jorrando para todos os lados e luzes coloridas. Ate uma imitacao da Blue Mosque de Istambul tem por la.  Nas ruas placas de proibido buzinar, muito silencio, poucas pessoas circulando, e militares em cada quadra. Mulheres com roupas tipicas muito elegantes. Voce tinha medo de tirar uma foto, de olhar de mais para o mesmo lado.  As pessoas nao sorriam, se mantiam serias, fechadas, cuidando ou melhor se protegendo no seu silencio.

Pracas e mulheres tipicas!

 

Mais pracas!

Blue Mosque!

 

Mini-Vegas!

O unico jornal local ‘e do governo, portanto nao ha nenhuma liberdade de imprensa. O antigo ditador morreu com 3 bilhoes na sua conta pessoal, espalhou suas estatuas de ouro pelas pracas da cidade, se confundiu com Deus escrevendo o livro da alma, que se cada Turkmen lesse 100 vezes ganharia o paraiso. O livro era exigido nas escolas e ate para passar em teste de auto escola.  Hoje o generoso ditador encontrasse no inferno, aproveitando seus dias eternos de agustia e tristeza. Uma pena! O ditador atual parece que ‘e farinha do mesmo saco. Outdoors dele espalhados pela cidade de maos dadas com criancinhas e calendarios dele espalhados por tudo, dele praticando polo, tiro ao alvo, caminhadas, etc, um verdadeiro nobre!

O antigo ditador!

A populacao se mantem silenciosa, nao diz nada, pouco fala, com excessao de algumas adolescentes nas pracas se jogando agua dos chafarises, o que mais vi foi apenas cara de “nao estou vendo nada”.

Ficamos num hotel confortavel e aproveitamos alguns cafes na cidade. Alem de irmos para um mercado que ficava nos suburbios da cidade, que antes era bem tipico, mas o tal governo concretou tudo, pintou de branco, organizou, perdendo todo o charme. La se vende desde os lencos floridos estonteantes das mulheres, eletrodomesticos, ate camelos.

Provando lencos!

 

As tipicas senhorinhas turkmen!

 

Moradia para os nao ligados ao governo!

 

E o ex-presidente morre com 3 bilhoes na conta!

De Ashgabat seguimos para Meri, onde buscamos um share taxi. O motorista era um doente, corria enlouquecidamente e nao abria as janelas do carro em funcao do calor insuportavel la fora, mas tambem nao ligava o ar condicionado para economizar. Nossos dois companheiros do taxi comunitario aproveitavam ainda para fumar. Um inferno, foram quase quatro horas assim. Eu sentia que estavamos voando, mas olhava no ponteiro e mostrava 80 km/h, mas nao era km/h, era milhas,  o que significava quase 150 km, se soubesse teria pedido para parar, mas no final deu tudo certo.

Em Meri descansamos da viagem infernal num bom hotel e no outro dia pegamos um taxi para a fronteira do Uzbequistao. Quando o Gui colocou as malas, o infeliz saiu correndo com todas as nossas coisas, o Gui tentou dar um de heroi correndo atras do carro, e eu fiquei chocada olhando para o carro indo sem ter a genial ideia de anotar a placa. Como no Turkomenistao todo mundo ‘e taxi, nao tem essa de ligar para central. Eu e o Gui nao acreditavamos, a gente tremia de nervoso. O moco do hotel disse que sem placa seria muito dificil localizar o carro e nos nem sabiamos o modelo, apenas que era azul marinho.

Uns dez minutos depois, o maluco volta, e diz: “vamos!” O Gui arrancou as malas do carro e xingou o cara. Nao entendemos o que aconteceu ate agora, se ele se arrependeu, ou se viu que as bagagens de mao, onde tinha o dinheiro ficaram com a gente, ou o que. O moco do hotel, para apaziguar a situacao, disse que ele devia ter problemas mentais. Nao acreditamos! Sei que foi um sufoco, mas um presente e uma mensagem clara para nos dois: ” se liguem!” Foi isso que entendi que queriam nos dizer!

As outras belas cidades persas!

De Isfahan seguimos para Shiras, cidade onde fica o mausoleu de dois dos grandes poetas persas: Saadi e Hafes. Hafes falava de amor e influenciou muito Goethe. Saadi de sabedoria, conhecimento. Os outros grandes sao o Ferdosi que falava da cultura persa e Molavi, que alem de poeta, era um grande sufi e mistico, que falava do caminho espiritual.

Jardins do mausoleu do Hafes!

Local onde Hafes est'a interrado!

 

Um dia na rua, passou um menino pobrezinho oferencendo alguns papeis, pedi para o Payam e a Sumi o que era, pensei em algo como jogo do bixo, mas nao, voce fazia um pedido e pagava para retirar um poema que te ajudasse a refletir sobre o teu pedido. Eu achei genial! Depois de ver na festa moderna, os amigos da Nana rescitando poemas com seus instrumentos um para o outro, a Sumi rescitando para mim na sua casa, mais o menino pobrezinho vendendo nas ruas, ficou claro para mim que assim como no Brasil sabemos de cor o nome dos principais jogadores de futebol, os iranianos sempre sabem de cor  alguns dos poemas dos seus poetas preferidos. Quando voce fala com eles, ‘e comum te contarem qual dos poetas ‘e seu preferido, como a gente falar eu sou muito mais Romario do que o Fenomeno… Em geral os iranianos sao muito orgulhosos de sua historia, de seus costumes e de sua tradicao. Nunca gostam de ser confundidos com seus vizinhos arabes, os qual consideram poucos refinados, Sempre enfatizam: “somos persas!”.

Em Shirras as pessoas nao eram tao simpaticas e sorridentes como no resto do Iran, talvez porque la tenha o maior numero de turistas por metro quadrado. Mas mesmo assim, tivemos boas experiencias. Jardins floridos, belas mesquitas, um caravan sarai (antiga hospedagem para as caravanas da rota da seda) no meio do labirinto dos mercados, e a tao comentada Persepolis, capital persa que foi destruida pelos gregos.

Persepolis!

 

Outras ruinas persas!

 

Antigos caravan sarais, hoje comercio local!

Em Yazd, uma cidade que fica bem no meio do deserto no Iran, fiquei nervosa, nunca passei tanto calor na vida, Quer dizer, acho que no deserto da India tambem foi assim. A cidade era bege, cor de areia, parecia que tudo era feito de areia, o que dava um charme especial. Depois das sete da noite voce conseguia caminhar nas ruas com a temperatura batendo so uns 35 graus.

Yazd!

La, conhecemos algumas torres do silencio e um templo zoroastra. O zoroastrismo era a religiao dos persas, antes de chegaram os muculmanos. Hoje existem poucos devotos do zoroastrismo no Ira. Junto com os cristaos, sao tratados como minorias e reclamam do pouco privilegio que tem frente aos muculmanos. O zoroastrismo, a primeira religiao monoteista do mundo, foi esquecida e aniquilada depois da entrada do isla. As torres do silencio eram usadas para deixar os corpos do devotos, pois conforme as crencas, nao se pode enterrar o corpo, pois contaminaria a terra, entao os corpos nao sao deixados ao ar livre para os abutres comerem. Hoje basicamente voce encontra alguns zoroastras na India, Iran e alguns gatos pingados na Inglaterra.

Templo Zoroastra!

Torre do Silencio!

 

Nas ruas de Yazd!

Em Yazd ficamos no hotel Silk Road, ponto de encontro dos viajante do Iran e Asia Central. Alem de reencontrarmos o Stu e a Merlanda, fizemos novos amigos e nos divertimos nos bate papos sem fim no jardim interno do hotel, enquanto esperavamos o sol se acalmar. Pena que nao lembramos de tirar um foto! O hotel contava com um cardapio delicioso, tinha uma boa selecao de comida iraniana, ocidental, e indiana. Eu me esbaldei. Alem de um quarto confortavel e um bom ar condicionado natural (aqui eles tem torre de captacao de ar para ventilacao). Deu para praticar yoga no terraco bem cedinho, vendo a cidade bege, antes que o sol ficasse forte. Perto do hotel ficava uma das mesquitas principais da cidade e tambem a cidade velha. Pensamos em ir para um oasis no deserto, mas o calor era tanto que desisti, preferi ficar conversando no jardim do Silk Road ate nossa ultima cidade no Ira: Mashhad!

De Yazd ate Mashhad eram doze horas dentro de um onibus confortavel. No caminho, paramos duas vezes no meio do nada, e nao entendia o que estavamos fazendo ali – nao havia nenhum banheiro ou lanchonete. As pessoas desciam, estendiam tapetes no chao e rezavam. Da pra acreditar? Mashaad ‘e a cidade mais sagrada do Iran. Como os muculmanos shiitas rezam tres vezes por dia (diferente dos sunitas que rezam cinco), duas delas foram no onibus. A ultima reza da noite e a primeira da manha antes do sol nascer.

Nas ruas de Mashhad!

 

Os famosos tapetes persas!

Quando chegamos em Mashhad fomos ate a casa de um conchsurfer que o Gui estava se comunicando a tempo pela internet desde que chegamos no Ira. Como o celular dele estava fora de area, seguimos direto para sua casa pelo endereco que tinha nos dado. Ao chegar la, no outro lado da cidade, nao havia ninguem no lugar, na verdade era o endereco de um dos escritorios que ele trabalhava. Como tinhamos mais um endereco, o da casa da mae, estavamos pensando se iamos ou nao ate la, quando um iraniano chamado Reza, que estava dentro da clinica veterinaria que o Gui parou para pedir informacao, percebeu que estavamos procurando alguem e se ofereceu para nos ajudar. Passado alguns minutos, ele disse: “eu acho que consigo encontrar o lugar, venham comigo, podem dispensar o taxi de voces…” Seguiu conosco ate a casa da mae do conchsurfer, que disse que ele estava trabalhando e so voltaria a noite, resolvemos entao ir para um hotel. O Reza nos levou. No total ele ficou quase duas horas com a gente dentro do seu carro, rodando num transito desgracado, ate nos deixar no nosso hotel. Reza tinha uns 45 anos, era empresario, pai de duas filhas, e estava perto do horario de almoco quando nos encontrou. Nao sabemos que compromissos ele precisou adiar para estar com a gente aquelas duas horas, mas pelo numero de ligacoes que ele recebeu no celular, nao foram poucas, ele era dono de uma construtora.

Sera que esse exemplo da para compreender ate onde vai a hospitalidade e gentileza iraniana? Sera que da para perceber que isso nao ‘e uma simples ajuda, implica tambem em algum sacrificio pessoal? ‘E claro que, depois de um mes de convivio com os iranianos deu para perceber que essa hospitalidade e bondade era uma mistura de uma formula magica: cultura persa + religiao. Os persas sabem receber e o povo ‘e religioso de fato. A estatura espiritual dos iranianos se destaca de muitos lugares por onde passei. ‘E claro que nos despedimos do Reza com convites pra jantar com a sua familia! Reza por aqui ‘e um nome comum. Ja que os shiitas acreditam nos 12 Imans, que seguem a linha de sangue do Profeta Maome, assim detem o conhecimento. Funciona como os nossos apostolos no Cristinianismo e nao sao poucos os Joaos e Paulos, etc, no Brasil.No dia seguinte, fomos conhecer o centro dos Shiitas, um complexo de mesquitas, capelas, museus e maosoleos que ficavam no coracao da cidade. Milhares e milhares de perguinos circulavam por ali. Alem de ser ponto de encontro dos devotos de Mashhad no final da tarde. Tive que comprar um shador e me cobrir dos pes a cabeca para entrar. Passeamos pela imensidao do lugar, vimos pessoas rezando em todos os cantos, alguns lugares so podiam entrar homens e outros mulheres. Numa dessas, eu tive que me separar do Gui e nos perdemos. Depois de quase um hora, ja estava desistindo de procurar, resolvi voltar para o hotel, e de la ligar para o celular do Gui. Mas como tinhamos que andar sem sapatos, e o Gui estava segurando os meus, tive que voltar de meia. Parei para pensar algumas vezes se devia fazer isso, mas nao aguentava mais procurar, e resolvi voltar de meias mesmo. Nas ruas as pessoas olhavam para os meus pes e cochichavam. Cheguei no hotel, contei tudo a recepcionista, que ate aquela altura ja era uma amiga, que ligou para o Gui e o celular estava fora de area, para ajudar mais ainda. Enfim, voltamos eu e a recepcionista para o Imam Reza Complex, quando cruzamos com o Gui no meio do caminho, branco de tao assustado. Ele nao achava que eu conseguiria voltar para o hotel sozinha, ja que tinhamos acabado de chegar na cidade e muito menos de meias. Mas deu tudo certo, apesar do cansaco e das rizadas que demos depois da situacao.

Complexo Imam Reza!

 

No dia seguinte saimos com a familia do Reza para jantar e tambem fomos resolver os problemas do visto do Turkomenistao. A familia do Reza era muito legal, apesar de nao falar uma palavra em ingles. Fizemos um pinquineinque e fomos conhecer o maosoleo do Ferdosi, o poeta preferido do Reza.

Reza e o Gui no mausoleu do Ferdosi!

Outra coisa que chama atencao no Iran foi o transito enlouquecido. Nao existe a tal da “preferencial”, a preferencial ‘e preferencial para todos. Mas em nome da simpatia, do taruf e da educacao persa, que deveria ser modelo para todos os colegios no mundo, eles nao se xingam, nao gritam, nada. Tambem nao usam buzina. Dao finos e mais finos nos outros motoristas, olham um para o outro, sorriem, e continuam. Um dia vimos um acidente, um carro capotado no meio da rua, os envolvidos com a ajuda de alguns curiosos, simplesmente viraram o carro de “cabeca” para cima de novo e tiraram do meio da rua, acho que ainda nao chegou aquela coisa de esperar a policia chegar sem mexer um centimetro.

Transito em Mashhad!

Repetimos mais uma saida com ele no nosso ultimo dia e ele nos levou a parte cool da cidade. Nao dava pra imaginar que aquela area ficava em Mashhad. Como estavamos num hotel de centro e perto do complexo, so viamos pessoas mega conservadoras nas ruas e ele nos levou na Batel Soho da cidade. Cheio de barzinhos, que ficam abertos ate meia noite, e claro nao vendiam bebidas alcoolicas, mulheres arrumadesimas com suas calcas jeans e lencos na cabeca so tapando o rabo de cavalo, com blusas compridas mas no maior estilo, quase parecendo que nao era por causa da lei, mas a roupa que usariam normalmente. Meninos bombados fazendo cara de mal e lojas internacionais mega descoladas. Jantamos numa pizzaria e eles nos presenteou, como era de se esperar do Ira (afinal nao conhecemos ninguem que nao nos deu um presente) com um livro dos poemas do Fersosi, e como a celebre frase: “uma recordacao pra voce lembrar da gente”.

Voltei para casa super triste quando me dei conta de que aquele era o ultimo dia no Iran. Na verdade estava de luto desde os ultimos tres dias. Quando entrei no hotel, me ataquei a chorar copiosamente, me lembrando dos momentos vividos no Ira e principalmente dos momentos memoraveis com as pessoas que tivemos a “sorte” de cruzar no caminho. As melhores experiencias de viagem que tive com pessoas foi sem duvida no Iran, varias vezes tinha que disfarcar e chorar pelos atos de bondade que os iraniaos tinham com a gente.

Quando ainda estavamos na pizaria escrevi uma cartinha para o Reza entregar a familia dele, ja que eles nao puderam vir nesse dia, porque a irma de sua esposa tinha acabado de chegar no aeroporto direto da Turquia. Quando ele viu eu escrevendo se emocionou e agradeceu muito. Os iraniamos se emocionam facil, pelo que percebi. E sem alcool. E ‘e uma emocao diferente, ‘e uma emocao religiosa, ‘e uma emocao de amor ao proximo. O coracao deles ‘e muito grudado com o corpo. Nos despedimos do Reza na frente do hotel e eu ja estava com um no na garganta. Liguei para Sumi, Payam e Nana para me despedir tambem. Foi uma choradeira dos dois lados.

Deixei o Ira com uma sensacao maravilhosa de contentamento e saudosismo, um dos paises mais fantasticos que ja conheci, um dos lugares que mais me senti feliz em estar, um lugar diferente, um lugar realmente especial! Fui embora com orgulho do Ser Humano! Fui embora apaixonada pelos persas. Fui embora com o coracao apertado. Parabens Ira e muito muito obrigada!