Autoconhecimento!

Hoje em dia o termo autoconhecimento aparece tantas vezes e, tantas de forma indevida, que eu tenho a sensacao que nao sei direito o que as pessoas estao falando. Quando resolvi viajar, por exemplo, eu tambem nao sabia do que estava falando quando incluia o autoconhecimento como uma das minhas razoes para sair viajar.

Lembro que o principal motivo para minha decisao na epoca em largar carreira, conforto e apostar simplesmente no viajar, sabendo que nesse meio tempo muita gente ia prosperar, enquanto eu estaria apenas viajando, era porque queria compreender o mundo, entender o sentido da vida e conhecer um pouco mais de mim. Mas em relacao a esse ultimo motivo, eu ja tinha feito terapia suficiente para saber coisas suficientes de mim, e por mais que eu descobrisse coisas novas, o que encomodava o meu coracao estava para alem de mim.  Eu queria compreender fora de mim, no meu entorno e talvez com essa perspectiva me localizar e vir a saber de fato algo mais profundo a respeito de mim mesmo.

Viajando eu descobri que autoconhecimento nao ‘e saber “listar” suas qualidades e defeitos; “perdoar” os pais;  aceitar que o mundo nao foi feito para voce; nem saber quais foram as coisas que te influenciaram emocionalmente ‘a ser quem ‘e, etc, etc, etc. Isso ‘e uma fracao do autoconhecimento, uma fracao muito importante, realmente necessaria, mas uma fracao.

Autoconhecimento nessa viagem foi descobrir meu lugar no mundo, e meu lugar para alem do mundo. Quando eu falo lugar, ‘e num sentido metaforico. E isso so foi possivel olhando para o mundo e olhando para o seu Criador, que ‘e o que faco desde que essa viagem comecou. Hoje me interesso muito menos por mim, pelos meus desejos e vontades, meus prazeres e mimos, meus defeitos e qualidades, e com minha imagem. Mesmo que muitas vezes eu possa esquecer disso e me surprender agindo como uma profana novamente.

Descobri que o problema fundamental da vida est’a para alem de todas essas coisas, inclusive das minhas vontades e do meu consentimento. E parei de reclamar… e conheco muito mais de mim.

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A lampada do corpo!

Depois que os pais do Gui foram embora, tiramos o dia para descansar, porque como eles sempre vem com pouco tempo e tem uma disposicao de uma crianca, sempre quando eles vao embora precisamos de uns dias para nos recuperar. O Gui não demorou em inventar um passeio para um lago maravilhoso, que para chegar ate la levariamos 6 horas a cavalo ou 8 horas a pe. Podiamos escolher! Como no dia seguinte ameacou uma tempestade, consegui convence-lo de irmos no outro dia e eu aproveitaria para descansar mais um pouco e passear pela bela cidadezinha.

Caminho para nossa home stay!

Yurte desmontado em cima.

No, no dia seguinte o tempo colaborou e seguimos entao para o Kol-ukok Lake. Mais ou menos na quarta hora em cima do cavalo, o tempo comecou ameacar uma grande tempestade, e eu dava so umas olhadinhas de canto para o Gui. Passado alguns minutos, comecou a chover gelado, muito gelado e esse gelado se tornou neve. A minha mao estava a ponto de rachar no meio e eu não tinha luvas. Respirei fundo e pensei: “que bela oportunidade de me tornar mais resistente fisicamente as adversidades climaticas e de me tornar mais resignada as situacoes adversas’, pois no comeco da viagem eu choraria de raiva. Alem de ser uma excelente oportunidade para imaginar como deveria ser as longas viagens a cavalo dos antigos. Congelei cada celula do meu corpo com um semblante e uma sensacao de paz sem igual. Minha alma se mantinha serena e eu regojizava.

 

A tempestade.

O comeco do lago!

Anoitecendo, frio!

O lago visto no dia seguinte!

Depois de quase uma hora a tempestade parou, um leve sol se abriu e comecamos a avistar o yurte onde ficariamos. Quase umas duas horas depois chegamos! Eu estava congelada e não teria o banho quente para esquentar. Desfiz minha mochila e coloquei todas as roupas que eu tinha. A familia nos recebeu com cha quente e pao. A comida no Kirguistao ‘e muuito ruim, ela funciona na maior parte das vezes apenas para sacia-lo, mas não tem prazer. O que tambem para mim estava sendo uma experiencia rica. Aprender a não ser tao escrava do prazer, aproveitando cada oportunidade que o mundo te oferece.A noite foi muito dificil para dormir, alem do frio que mantinha meu corpo contraido, senti muitas dores nas pernas das horas em cima do cavalo.

Eu adorei o Kirguistao, mas a infra-estrutura sem banheiro pegou. Ou as possibilidades de chegar no lugar a pe ou a cavalo tambem nao sao das mais confortaveis. Eu imaginava um bangalo bem charmoso com uma lareira, tomando chocolate quente e olhando para a paisagem. O Gui queria me matar quando eu dizia isso, falava que so do jeito autentico que era, poderiamos saber como eles vivem. Ele tinha razao, mas mesmo assim eu gostaria de ter a opcao do bangalo quentinho e o banho.

Nosso yurte!

Nesse dia conhecemos um japones que estava viajando sozinho há tres anos, ele trabalhou por 10 anos seguidos numa empresa como supervisor de engenharia quimica, ate sair para viajar. Nos contou que no Japao as férias anuais são de 15 dias, mas quando voce usa esses 15 dias todos, voce decai no conceito do seu chefe. Entao um japones minimamente responsavel folga sete dias. Não ganham para isso nem banco de horas e nem hora-extra, com excessao das grandes empresas. O horario de saida ‘e cinco ou seis da tarde, mas ‘e natural se voce ‘e minimamente responsavel, sair as dez horas da noite. Ele brincou dizendo: “no Myamar a religiao das pessoas ‘e o budismo, no Iran o islamismo e no Japao o trabalho.” Dentre os cinco paises que ele mais gostou, o Brasil est’a no ranking. Achou as pessoas muito bacanas, gostou muito da musica e dos lugares. Concluiu uma coisa simples e sabia, após os tres anos de viagem: “viajar ‘e receber – voce so recebe, recebe, recebe; e trabalhar ‘e dar, voce so da, da e da.” E completou: “ quando eu voltar de viagem, quero dar tudo o que recebi”. O japones tem um senso de comunidade admiravel, herdado do Mestre Confucio, como confirmou o Koichi.

Eu achei tao sabia a conclusao dele que quis dividir. Nos dois casos penso que voce da e recebe, senão voce não aguenta. Mas quando voce viaja o que se sobressai ‘e definitivamente o receber: voce conhece pessoas, lugares e culturas novas, e tudo isso amplia absurdamente a sua visao de mundo, e ainda sobra umas faiscas para ampliar tambem sua visao de si mesmo. Essas faiscas podem se tornar labaredas se a viagem for longa, quanto mais tempo na estrada mais a fogueira cresce; porque quando voce faz uma viagem longa voce inclui a nota de se afastar por um longo tempo daquela “vida ativa”, e o retorno dessa experiencia ‘e inenarravel.

Em contrapartida o que voce precisa dar em troca ‘e muito pequeno! Quando voce esta na casa dos outros, normalmente eles querem te servir; em viagem acontece o mesmo, voce esta no territorio dos outros, e para os religiosos voce sempre deve receber bem ao estrangeiro. Como a maior parte dos paises que passamos eram super religiosos, sempre nos sentimos maximamente bem recebidos.

Já quando voce trabalha, a via ‘e diferente. Voce da muito mais de si, seja para a empresa, para o mercado, para o chefe. Quando voce trabalha numa coisa que voce entende como realmente valida, ou que pelo menos voce goste muito, o receber ‘e infinitamente maior, mas ainda assim, trabalho ‘e muita doacao, nem que seja de energia. Por isso gostei tanto quando o Koichi disse que ele tem a intencao de dar o que recebeu. E nao gosto quando encontro viajantes que querem passar a vida inteira viajando, fugindo da rotina, porque  acredito que um homem digno precisa gerar essa troca.

Eu agradeco a Deus sempre que me lembro por poder fazer essas viagens. Me sinto tao distante daquela Bianca que morava no Brasil ate julho de 2009, que quase não consigo me reconhecer naquela figura. Parece que essa viagem me desintoxicou, de muito do que eu estava intoxicada e nem sabia. Abencoadas as pessoas que tem uma oportunidade como essa, de tao cedo poder ter essa “parada no caminho” para pensar profundamente na vida, seja atraves de uma viagem ou não, e com isso poder mudar o rumo que vinham tomando…  Nao ‘e por nada que agora “criaram” o tal ano sabatico, como um nome para explicar ao mundo essa saida.

Nos tempos em que vivemos, onde o individuo nao ‘e mais capaz de experimentar algumas horas sozinho, sem automaticamente ligar a televisao, abrir um livro, a geladeira, o computador ou pegar no telefone, so um ano sabatico mesmo para a pessoa ter uma nocao da miseria que somos sozinhos. Dizem os Santos que somene apos um longo periodo sozinho, um homem pode se transformar num monstro ou num anjo. Nao existe coisa mais real do que isso.

Numa citacao de Jesus Ele diz: “ (…) O teu olho ‘e a lampada do corpo. Se teu olho ‘e são, todo o corpo sera bem iluminado; se, porem, estiver em mau estado, o teu corpo estara em trevas(…) Lucas, 11-34″. Sinto que o principal ganho desta viagem, foram as mudancas que aconteceram nos meus olhos.

Voltando mais 6 horas.

A beleza do Kirguistao!

De Almaty seguimos para Bishikek, capital do Kirguistao. So de passar pela fronteira ja dava para sentir o que vinha pela frente, muita natureza, tranquilidade e montanhas. A primeira visao era de um riozinho, com algumas plantacoes e montanhas com picos nevados. Me deu uma sensacao deliciosa de alivio, pois desde o comeco da viagem so tinhamos passado praticamente por cidades, com excessao de Howrama no Ira e da vila de Nurata no Uzbekistao, o resto foi full time cidades e muito calor. E o Kirguistao ainda prometia ter um clima mais fresco.

Fomos direto para um hotel recomendado no guia, chamado MBA Business Center, uma escola de negocios onde os estudantes e professores de outros lugares tinham um hotel p/ se hospedar, e se sobrasse vaga, os turistas tambem. Os quartos contavam com uma sala e cozinha arejada, escrivaninha para estudar, alem do quarto e banheiro. Era tao espacoso e gostoso que eu poderia morar ali dentro tranquilamente por anos. A recepcionista era uma russa que não falava uma palavra em ingles, e que o tempo todo ligava do seu celular para sua filha para entender as coisas mais elementares que queriamos para traduzir para sua mae. Muito diposta e acolhedora a mulher, mas ela não entendia a linguagem universal da mimica.

Saimos para conhecer a capital do Kirguistao com uma expectativa baixissima, pois diziam que a beleza do pais estava nos arredores. Mas Bishikek surpreendeu, era ampla, arborizada, super calma e facil de se localizar. Basicamente tinha uma avenida principal com aqueles canteiros no meio, algumas pracas do governo e museu e o resto eram restaurantes deliciosos, italianos, ocidentais em geral e locais. Eu me esbaldei indo no primeiro dia num italiano recomendado. A salada e o macarrao estavam de chorar, eu comi bem devagar para demorar o maximo possivel para engolir cada garfada.

As varias pracas dos sovieticos.

No dia seguinte chegaram as nossas primeiras visitas do Brasil – os pais do Gui. Eles sempre vem nos ver em alguma etapa da viagem, ate porque viajar para eles definitivamente ‘e uma rotina, eles sempre estao vindo de algum lugar ou planejando a proxima viagem, nos encontrar no Kirguistao, na Tanzania, em Israel ou na Tailandia nao ‘e nada demais. A unica novidade ‘e que em funcao do Mestre Gui, eles conheceram novos continentes, a Asia e a Africa. E eles adoraram!

Matamos a saudades num hotel com piscina e cafe da manha impecavel. O Clau sempre tem o dom de escolher os melhores hoteis de viagem, e deu para tirar ferias dos hoteis budget. Apesar de que o Uzbequistao tinha arrasado na categoria, por 10 dolares cada um ficavamos em hoteis com banheira e ar condicionado.

Depois de conversarmos um monte fomos jantar num restaurante gostoso e se preparar para no dia seguinte seguirmos viagem pelas montanhas e vilas do Kirguistao. Nossa primeira parada foi numa cidadezinha chamada Karakol, muito bonitinha, com casas tipicas; uma igreja ortodoxa linda; uma mesquita com cara de chinesa construida pelos dugans (filho de pai arabe com mae chinesa, resultado na etnia dugans, eles sao muculmanos com costumes chineses), e os varios blocos de predios sovieticos que eu particularmente adoro. Eles tentam fazer um modelo padrao igualando todos e voce ve na sacadas das casas as diferencas humanas que sao impossiveis de  reprimir. Cada sacada de uma cor, uma sacada de madeira, outra de ferro, outra de papelao e assim por diante.

A linda igreja ortodoxa de madeira.

 

Os blocos sovieticos.

Onibus local.

 

Mesquita Dungan!

O pais ‘e ideal para quem gosta de beleza natural, montanhas e tranquilidade. Como o Kirguistao não tem um turismo tao conhecido, apesar do potencial absurdo, ‘e muito tranquilo ser turista por la. Voce caminha tranquilamente pelas ruas, os precos não são super faturados e não tem gente o tempo todo querendo te oferecer coisas. Noventa e dois porcento do pais sao montanhas e voce sente isso para cada lado que olha. As estradas, os vilarejos, os yurtes espalhados por tudo tornam o visual inexplicavelmente lindo. Alem das montanhas t^em varios lagos azuis, pequenos e grandes, vales belissimos, pastagens de verao, os tais jaloos, algumas com tapetes de flores. Lindo, lindo, lindo!

Como a populacao ‘e bem pobre na maior parte do pais, voce ve muuuuitos pastores com suas ovelhas, gados e seus yurtes, ‘e natural ter que parar o carro na estrada para esperar as ovelhas ou os burricos passarem.

Dormimos algumas noites nos yurtes em lugares diferentes. Estava preocupada se os pais do Gui iam se acostumar com a “moradia”, mas me deram um banho, os anos viajando acampando tornaram eles super descolados. Algumas tecnicas que eu uso quando pego hoteis sujos para eles ‘e super natural, a Monica forra o travesseiro com uma manta, usa a canga como entre lencol, e no final nao ha contato nenhum com o material estranho do lugar.

Nosso primeiro acampamento nos yurtes foi num belissimo vale, com montanhas enormes com picos nevados e um rio que atravessava em frente, obrigando voce dormir com aquele barulho delicioso de fundo. A segunda foi num outro vale absurdo, com campos de flores, mais picos nevados e hot spring natural, no home stay do sujerrimo Valentine, dono da casa, pela sua aparencia ele devia tomar dois banhos por mes. Entre a casa dele super suja e uma casinha la fora tambem suja que ele construiu, achamos melhor pegar a de fora. Como nao tinha banheiro, tudo era feito ao ar livre, no meio das flores. O Gui buscava agua no rio para escovarmos os dentes e quando iamos ao toalete, avisavamos para ninguem sair la fora. Um dia vi que o Gui e o Clau se assustaram com alguma coisa dentro da casa, e disfarcaram. Depois o Gui me contou que tinha um rato la dentro e que eles nao conseguiram tirar, o ratinho dormiu com a gente. Deixamos para contar para a Monica no ultimo dia, mas ela nem reagiu, deu uma risadinha como se tivessemos contado que tinhamos matado uma barata, tamanha a experiencia deles na estrada…

 

Os yurtes!

O primeiro vale!

Ainda no primeiro, num passeio a cavalo!

Um local, saindo do yurte para ir a cidade!

Por fim, ficamos em mais uma cidadezinha linda com um mercado de animais interessantissimo, para nos prepararmos para ir ate um lago no meio dos jaloos, as tais pastagens de verao. Nesse dia pegamos um frio forte a noite, mas gracas ao fogao a esterco que tinha dentro do yurte conseguimos sobreviver. Os yurtes, com excessao do primeiro, não tinham banho. Os passeios a cavalo se tornaram rotina. De Koshkor nos despedimos deles com saudades, eles seguiram para Bishikek, depois passariam uns poucos dias no Uzbequistao e finalizariam na Costa Amalfitana. Ao final de 30 dias voltariam ao Brasil…

Tipica kirgui!

Mercado de animais!

Nossos companheiros de estrada!

Segundo vale!

Casas tipicas das cidadezinhas!

O lago azul no meio dos jaloos!

Os yurtes!

Aproveitamos para descansar da nossa proxima visita, teriamos oito dias ate a chegada dos meus irmaos. Nao sei o que aconteceu nessa viagem, ‘e normal as pessoas falarem para gente “ talvez encontraremos voces em tal etapa”, mas tirando os pais do Gui, o resto normalmente ‘e sempre lenda. Claro, sem contar com o memoravel fim de ano com toda sua fam’ilia na Tailandia. E os dias em Israel com a minha mae. Mas definitivamente, os que garantidamente sempre vem, são os pais do Gui. Dessa vez todo mundo resolveu levar a serio, depois do Clau e da Monica chegariam os meus irmaos, e assim que eles fosssem, uma graaaande amiga minha passaria 16 dias com gente.

Na Terra dos Kazaks!

Da terra dos Uzbecs, seguimos para a terra dos Kazaks. Não tinhamos muita expectativa em conhecer o pais, pois tudo o que ele tinha de melhor para ser visto, os paises vizinhos tinham de sobra. O Uzbekistao ‘e a terra das madraxas, o Kirguistao das montanhas, o Turkomenistao da ditadura, e o Kazakistao? Sabiamos apenas de um parque nacional perto da cidade da fronteira com o Uzbequistao, portanto por onde iamos chegar, e Almaty que ‘e uma cidade super moderna e o orgulho dos jovens Kazaks. Ficamos dois dias em Shimikent, num hotel dentro de um shopping, uma experiencia diferente dormir num shopping (meio esquisito, mas uma sensacao forte de seguranca por outro lado). Aproveitamos para conhecer a cidade, comer uma comida mais ocidental e entender como chegariamos no tal parque nacional.

Antes de ir ao parque, fomos conhecer o Turquistao, uma cidade sagrada para os Kazacs há duas horas dali. Na antiguidade o Turquistao compreendia toda regiao da Asia Central, onde ficavam o turcos e seus descendentes, os uzbekz, kazacs, kirguis, turkomens e tagics. Visitamos o pequeno complexo de mesquitas e mausoleu do grande Mestre Sufi Iyasaui do sec 13, que influenciou enormemente o famoso Molavi e serviu de centro de peregrinacao durante muito tempo para todos os paises muculmanos da Asia Central. Tivemos a sorte de encontrar um guia do museu que nos explicou muito bem da cultura dos Kazacs, por meio da grande influencia do Mestre Sufi na formacao do pensamento deles. Antes do Iyasaui chegar e pregar o islamismo, os kazacs eram um povo nomade e pagao. Como o mestre sabia falar a linguagem do povo e portanto procurava ensinar de forma simples, muitos Kazacs foram convertidos antes dos russos chegarem e já contavam com uma grande devocao por seculos. Mas durante o periodo da Uniao Sovietica foram proibidos de praticar, ler livros e ir a mesquita. Muitas foram destruidas e outras transformadas para outro fim.

Mausoleu!

Os Kazacs se orgulham muito de terem aprendido o islamismo atraves do mestre sufi, pois não se tornaram fundamentalistas, como alguns extremistas islamicos. Como o Sufi tem o papel correspondente ao do monge nas outras religioes, o enfoque ‘e na vida espiritual muito mais do que nos mandamentos. Mas isso não significa que os mandamentos não devam ser seguidos, e os ritos praticados e nem que os proprios Sufis não os sigam, mas apenas mostra um olhar que transcende a lei, depois do fiel ja te-la compreendido bem e pratica-la. Infelizmente depois da URSS, e talvez por terem aprendido o islamismo por esse olhar, e nao souberam talvez aproveitar a beleza da coisa, hoje os kazacs se orgulham bastante de serem muculmanos, mas acabaram suavizando demais a mensagem do mestre, deixando uma coisa tao superficial, que por mais que eles queiram voce não ve a mesma devocao que voce ve em outros paises muculmanos. Os devotos acabam pegando as partes mais interessantes dos discursos para eles e se mantem meio preguicosos quanto as praticas. Tipo “Ramadan ‘e importante, mas tem que ser feito sempre, não so durante trinta dias, ‘e uma atitude interna…”, lindo discurso, mas daí acabam por não fazer nem durante os 30 dias e nem no resto do ano. Todos bebem tambem e muito. Nao ha aquele senso de caridade tao forte, eles nao tratam “o estrangeiro como um enviado de Deus”. ‘E tipo o nosso “ catolico nao praticante”. Não sei, mas esse discurso não me convence mais. No fim das contas o Sufi acaba sendo mais um quadro na parede e o islamismo não faz parte de verdade da vida da populacao, pelo menos nao da maioria.

Bom, do Turquistao seguimos para o parque nacional, que surpreendeu bastante, era realmente belissimo, mas sabiamos que o vizinho Kirguistao era imbativel e que provavelmente aquilo seria so uma amostra. Passamos dois dias juntos com a natureza, tomando banho de rio e passeando aos arredores. La, aproveitamos para dormir pela primeira vez num yurt, aquelas barracas redondas estilo mongol, e a experiencia foi legal, como elas tem um teto alto e realmente são bem fechadas, voce se sente muito mais confortavel do que numa barraca. Do parque pegamos um trem para Almaty, e tivemos o azar de pegar mais um trem com o ar condicionado estragado, e a nossa cabine ainda ficava na saida de emergencia, entao nao podiamos nem abrir a janela. Fiquei nervosa de tanto calor que passei. Eram quase sete da noite e batia quase 40 graus la fora. E se formava um ar quente sem circulacao dentro do trem que parecia que faltaria ar.

Maravillhoso!

Picos nevados de fundo!

Almaty realmente impressionou, era bonita, arborizada, com varias pracas com chafarizes e estatuas dos comunistas para todos os lados e predios sovieticos, bem parecidos com os vizinhos que passaram pela mao do Stalin. Cheio de casas noturnas, barzinhos, etc. Aproveitamos para irmos num café daqueles para se sentir em casa e poder pedir machiatto, shakes e tudo mais. Os jovens super a vontade, como se estivessemos na Europa, shorts, regata, casais novos de maos dadas, e tudo mais. Foi a primeira vez tambem que conseguimos publicar nossas fotos no blog desde o Iran. Visitamos uma igreja ortodoxa belissima e mais uma vez eu fiquei impressionada com as igrejas ortodoxas. O simbolismo e as pinturas e retratos presentes são muito tocantes e os devotos beijam varias e varias vezes a Virgem Maria, Jesus, os apostolos e saem sem virar de costas fazendo pelo menos tres vezes o sinal da cruz. Apesar da devocao, o pais tem uma religiosidade bem fraca, os russos que vivem la são os cristaos, e os kazacs são os muculmanos, mas bem mais discretos, de vez em quando voce ve algum devoto rezando pelas ruas. Não ouvimos chamadas das mesquitas tambem, o que ‘e raro em um pais com muculmanos.

O trem!

A linda igreja!

Nas escolas e universidades se aprende tudo em russo, a lingua oficial ‘e o russo, conhecemos alguns kazaks que so falavam russo, pois quando se aprende o kazak, se ‘e aprendido, ‘e em casa. Depois de quase 10 dias deixamos o Kazaquistao com um sentimento de que valeu a pena ter conhecido, pois os kazaks eram bem bacanas, e o pais apesar de não ter grandes atracoes, merece ser visitado. Mas realmente não há nada no pais que marque voce, nem as madraxas, nem as pessoas, nem as montanhas. Almaty foi uma cidade que surpreendeu, apesar de moderna, era bem gostosa de estar, calma. Os kazaks são simpaticos, mas tem ainda aquele jeitao mais seco da Asia Central, parece que os russos deixaram sua marca no povo. Nada de sorrisos para ca e para la e vontade de te conhecer, mas depois de quebrado a primeira barreira, ficam bem mais soltos e prestativos, achamos os mais simpaticos dentre os vizinhos.

O País das Madrashas!

De Bukara, seguimos para Kiva, uma cidadezinha no meio do nada com uma cidade velha murada muito bonitinha, que acabou de ser restaurada e reconstruida. Turisticamente, tudo acontecia dentro da cidade murada. Kiva, assim como Bukara e Samarkand, foi um dos grande centros de ensinamentos islamicos do mundo, isso ‘e bem facil de reparar pelo numero de madrashas nesses lugares, so em Kiva tinham mais de 60. Encontramos um bom hotel dentro dos muros cercados e aproveitavamos para conhecer o lugar nos primeiros horarios da manha e depois das sete da noite, pois o sol era ainda mais monstruoso que o de Bukara.

De Kiva fomos para Tashkent, a capital do Uzbekistao, num trem de 23 horas, e com o ar condicionado estragado. O calor era enlouquedor, mas a minha pratica do auto-controle, paciencia e resignacao não me fazia nem levantar os olhos para cima. Aproveitei para molhar uma toalha e ficar com ela sobre o pescoco, e me passando a cada 10 minutos. Hoje sinto que a minha habilidade não vem so do tempo de viagem, mas simplesmente porque no fundo da minha alma sempre existe aquela certeza: “mas esse não ‘e o problema fundamental da vida”.

Kiva

Kiva

Kiva vista de cima.

Quando chegamos em Tashkent o Gui resolveu seguir direto para o consulado da China para darmos entrada no nosso visto e eu, apesar de so pensar no momento glorioso do banho, resolvi ser uma boa esposa e suportar mais algumas horas de suor por ele. Em duas horas estavamos pegando o taxi para a guest house com tudo encaminhado, se não fosse o motorista não achar de jeito nenhum o lugar. Quase uma hora depois conseguimos encontrar a tal guest-house, que estava no mesmo local, mas a rua tinha mudado de nome… Em funcao do meu companheirismo, ficamos no melhor quarto e aproveitei para tomar um banho delicioso e passar calmamente meu hidratante.

A Gulnara Guest House foi um dos pontos altos do Uzbekistao ao meu ver. Cheia de turistas, um mais legal que o outro, conversas deliciosas, e a noticia de que todos estavam indo para o mesmo lado e vindo do mesmo lugar. Os donos da casa tinham que pedir gentilmente para irmos dormir, mas mesmo assim, ficavamos conversando baixinho por horas. Como podiamos cozinhar ali, aproveitamos para tirar férias dos shashiliks de carne (espetinho) com arroz e fizemos nossa propria comida. Alem de reestabelcer nossa pobre flora intestinal que estava deploravel, em funcao da infecao intestinal coletiva que abalou todos os turistas que passaram por Bukara. Na cozinha, so se viam pessoas cozinhando batata e arroz.

Encontramos muitos suicos viajando de bicicleta por meses, alguns casais com mais de 60 anos e outros mais jovens. Conversei muito com a simpatica Rosa Maria de 62 anos, viajando com o marido de 65, ha 7 meses de bike. Ficava pensando como essas pessoas conseguiam viajar de bicicleta nesse calor insuportavel da Asia Central, se para mim passar aquelas fronteiras era uma prova de fogo, eles faziam isso de bicicleta, dormindo na beira da estrada, sem o momento glorioso do banho e tendo ainda que armar a barraca. Um ato de heroismo, me parecia. Mas conforme eles, viajar de bicicleta era bem diferente do que viajar de onibus, voce sentia cada pedacinho da viagem, e a melhor parte não estava em chegar nas cidades e conhecer os melhores lugares, mas estava no “between”, no parar numa vila na beira da estrada e as familias te convidarem para jantar e dormir na casa deles, ou no minimo, acampar no seu quintal. Em poder dormir todo dia junto com a natureza, receber banhos de serotonina, enfim, parecia realmente ter outros momentos gloriosos e uma oportunidade de estar ainda mais perto dos locais.

Um dia aproveitamos para ir ao teatro, ja que nao sabiamos mais  o que fazer em Tashkent. A capital ‘e gostosa, mas entediante.  Apesar de nao termos entendido nada da peca, foi muito bo estar la. Ja que o teatro em Tashkent era um dos principais programas de domingo, algo comum para populacao. Mas o tema da peca era bem simples, sentiamos uma coisa meio ” pao e circo”, ja que os Uzbeks vivem uma grande repreensao politica ha muito tempo. O presidente es’a no pais desde a independencia em 1991, a populacao em geral ‘e muito pobre e os Uzbeks tem muito medo de falar do governo. Talvez  por isso, perto dos iranianos, nao vimos muitos sorrisos nas ruas, eles eram em geral fechados para os primeiros contatos, mas se voce quebrasse a barreira, eram um povo bem acolhedor. Os uzbeks sao um povo turco, e os primeiros descendentes dos mongois a se converter ao islamismo.

Teatro.

Depois de Tashkent fomos ate Samarkand, a cidade mais turistica do Uzbekistao e mais importante da historia da regiao. Prometia ter uma arquitetura belissima. E realmente era verdade. Os monumentos eram os mais imponentes e, apesar da sensacao continuar de museu a ceu aberto, era a cidade mais movimentada, havia uma certa vida local ali, nao somente turistas. Madrashas, mausoleus, e mesquitas estavam espalhadas por todos os lados.

Samarkand

Liiindo!

Impressionante!

Tradicional Uzbek!

Depois de quase 25 dias, resolvemos dar férias as madrashas e ir para uma vila nas montanhas chamada Nurata. Encontramos uma casa de familia bem legal, com um grande quintal cheio de pes de frutas. O lugar era lindo e os arredores tambem. As refeicoes eram inclusas, entao voce so precisava sentar no meio do quintal, onde ficava aquelas mesas de cha e esperar a refeicao vir, de olho para não cair um pessego na sua cabeca.

Um dia tivemos a genial ideia de passearmos de cavalo pelo vale ao redor, como fazia mais de 20 anos que não cavalgava, estava com medo. Quando subi no meu cavalo, ele desparou. Comecei a gritar desesperadamente, mas ninguem me entendia. Gracas ao meu marido shatrya, o Gui veio cavalgando como um legitimo nobre corajoso e se jogou na frente do meu cavalo. Segui o passeio com o meu cavalo amarrado no dele, como seu eu tivesse 10 anos de idade. O passeio foi belissimo, espetacular, senti uma vontade absurda de fechar nosso apartamento e morar numa daquelas casinhas nas montanhas. Mas os cavalos pareciam criancas, não nos deixavam aproveitar muito, o tempo todo queriam brigar um com o outro, alem de brigar com os cavalos ao redor. Tinhamos  que nos impor e mostrar para eles quem ‘e que mandava. Para o Gui, isso não foi um problema, para mim, senti um pouco mais de dificuldade em me fazer respeitar.

A tranquilidade de Nurata!

As criancas de Nurata!

Mesa das refeicoes!

Os briguentos!