A lampada do corpo!

Depois que os pais do Gui foram embora, tiramos o dia para descansar, porque como eles sempre vem com pouco tempo e tem uma disposicao de uma crianca, sempre quando eles vao embora precisamos de uns dias para nos recuperar. O Gui não demorou em inventar um passeio para um lago maravilhoso, que para chegar ate la levariamos 6 horas a cavalo ou 8 horas a pe. Podiamos escolher! Como no dia seguinte ameacou uma tempestade, consegui convence-lo de irmos no outro dia e eu aproveitaria para descansar mais um pouco e passear pela bela cidadezinha.

Caminho para nossa home stay!

Yurte desmontado em cima.

No, no dia seguinte o tempo colaborou e seguimos entao para o Kol-ukok Lake. Mais ou menos na quarta hora em cima do cavalo, o tempo comecou ameacar uma grande tempestade, e eu dava so umas olhadinhas de canto para o Gui. Passado alguns minutos, comecou a chover gelado, muito gelado e esse gelado se tornou neve. A minha mao estava a ponto de rachar no meio e eu não tinha luvas. Respirei fundo e pensei: “que bela oportunidade de me tornar mais resistente fisicamente as adversidades climaticas e de me tornar mais resignada as situacoes adversas’, pois no comeco da viagem eu choraria de raiva. Alem de ser uma excelente oportunidade para imaginar como deveria ser as longas viagens a cavalo dos antigos. Congelei cada celula do meu corpo com um semblante e uma sensacao de paz sem igual. Minha alma se mantinha serena e eu regojizava.

 

A tempestade.

O comeco do lago!

Anoitecendo, frio!

O lago visto no dia seguinte!

Depois de quase uma hora a tempestade parou, um leve sol se abriu e comecamos a avistar o yurte onde ficariamos. Quase umas duas horas depois chegamos! Eu estava congelada e não teria o banho quente para esquentar. Desfiz minha mochila e coloquei todas as roupas que eu tinha. A familia nos recebeu com cha quente e pao. A comida no Kirguistao ‘e muuito ruim, ela funciona na maior parte das vezes apenas para sacia-lo, mas não tem prazer. O que tambem para mim estava sendo uma experiencia rica. Aprender a não ser tao escrava do prazer, aproveitando cada oportunidade que o mundo te oferece.A noite foi muito dificil para dormir, alem do frio que mantinha meu corpo contraido, senti muitas dores nas pernas das horas em cima do cavalo.

Eu adorei o Kirguistao, mas a infra-estrutura sem banheiro pegou. Ou as possibilidades de chegar no lugar a pe ou a cavalo tambem nao sao das mais confortaveis. Eu imaginava um bangalo bem charmoso com uma lareira, tomando chocolate quente e olhando para a paisagem. O Gui queria me matar quando eu dizia isso, falava que so do jeito autentico que era, poderiamos saber como eles vivem. Ele tinha razao, mas mesmo assim eu gostaria de ter a opcao do bangalo quentinho e o banho.

Nosso yurte!

Nesse dia conhecemos um japones que estava viajando sozinho há tres anos, ele trabalhou por 10 anos seguidos numa empresa como supervisor de engenharia quimica, ate sair para viajar. Nos contou que no Japao as férias anuais são de 15 dias, mas quando voce usa esses 15 dias todos, voce decai no conceito do seu chefe. Entao um japones minimamente responsavel folga sete dias. Não ganham para isso nem banco de horas e nem hora-extra, com excessao das grandes empresas. O horario de saida ‘e cinco ou seis da tarde, mas ‘e natural se voce ‘e minimamente responsavel, sair as dez horas da noite. Ele brincou dizendo: “no Myamar a religiao das pessoas ‘e o budismo, no Iran o islamismo e no Japao o trabalho.” Dentre os cinco paises que ele mais gostou, o Brasil est’a no ranking. Achou as pessoas muito bacanas, gostou muito da musica e dos lugares. Concluiu uma coisa simples e sabia, após os tres anos de viagem: “viajar ‘e receber – voce so recebe, recebe, recebe; e trabalhar ‘e dar, voce so da, da e da.” E completou: “ quando eu voltar de viagem, quero dar tudo o que recebi”. O japones tem um senso de comunidade admiravel, herdado do Mestre Confucio, como confirmou o Koichi.

Eu achei tao sabia a conclusao dele que quis dividir. Nos dois casos penso que voce da e recebe, senão voce não aguenta. Mas quando voce viaja o que se sobressai ‘e definitivamente o receber: voce conhece pessoas, lugares e culturas novas, e tudo isso amplia absurdamente a sua visao de mundo, e ainda sobra umas faiscas para ampliar tambem sua visao de si mesmo. Essas faiscas podem se tornar labaredas se a viagem for longa, quanto mais tempo na estrada mais a fogueira cresce; porque quando voce faz uma viagem longa voce inclui a nota de se afastar por um longo tempo daquela “vida ativa”, e o retorno dessa experiencia ‘e inenarravel.

Em contrapartida o que voce precisa dar em troca ‘e muito pequeno! Quando voce esta na casa dos outros, normalmente eles querem te servir; em viagem acontece o mesmo, voce esta no territorio dos outros, e para os religiosos voce sempre deve receber bem ao estrangeiro. Como a maior parte dos paises que passamos eram super religiosos, sempre nos sentimos maximamente bem recebidos.

Já quando voce trabalha, a via ‘e diferente. Voce da muito mais de si, seja para a empresa, para o mercado, para o chefe. Quando voce trabalha numa coisa que voce entende como realmente valida, ou que pelo menos voce goste muito, o receber ‘e infinitamente maior, mas ainda assim, trabalho ‘e muita doacao, nem que seja de energia. Por isso gostei tanto quando o Koichi disse que ele tem a intencao de dar o que recebeu. E nao gosto quando encontro viajantes que querem passar a vida inteira viajando, fugindo da rotina, porque  acredito que um homem digno precisa gerar essa troca.

Eu agradeco a Deus sempre que me lembro por poder fazer essas viagens. Me sinto tao distante daquela Bianca que morava no Brasil ate julho de 2009, que quase não consigo me reconhecer naquela figura. Parece que essa viagem me desintoxicou, de muito do que eu estava intoxicada e nem sabia. Abencoadas as pessoas que tem uma oportunidade como essa, de tao cedo poder ter essa “parada no caminho” para pensar profundamente na vida, seja atraves de uma viagem ou não, e com isso poder mudar o rumo que vinham tomando…  Nao ‘e por nada que agora “criaram” o tal ano sabatico, como um nome para explicar ao mundo essa saida.

Nos tempos em que vivemos, onde o individuo nao ‘e mais capaz de experimentar algumas horas sozinho, sem automaticamente ligar a televisao, abrir um livro, a geladeira, o computador ou pegar no telefone, so um ano sabatico mesmo para a pessoa ter uma nocao da miseria que somos sozinhos. Dizem os Santos que somene apos um longo periodo sozinho, um homem pode se transformar num monstro ou num anjo. Nao existe coisa mais real do que isso.

Numa citacao de Jesus Ele diz: “ (…) O teu olho ‘e a lampada do corpo. Se teu olho ‘e são, todo o corpo sera bem iluminado; se, porem, estiver em mau estado, o teu corpo estara em trevas(…) Lucas, 11-34″. Sinto que o principal ganho desta viagem, foram as mudancas que aconteceram nos meus olhos.

Voltando mais 6 horas.

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6 comentários em “A lampada do corpo!

  1. Nossa Bibi!! Obrigada!!
    Tanta coisa passou na minha cabeça enquanto eu lia esse seu artigo. A gente entra nessa roda viva da vida e nem sente o mundo a nossa volta… quando paramos para prestar atenção estamos novamente lá…. valorizando coisas sem a menor importâcia, gastando nossa energia com situações, aparentes problemas e pessoas que nenhum calor trazem para nossa alma… Viajar é mesmo um rémedio maravilhoso para a vida, abre a nossa cabeça para pensarmos diferente, para sentirmos coisas que nunca nos permitimos sentir, como as suas mãos congelando….. e o melhor de tudo, nos ensina a amar o que antes achávamos que não tinha a menor importância. Precisamos olhar mais pela janela!!
    Adorei esse, mudou meu dia!
    Beijoooo

  2. Dias atrás, estive pensando sobre o que Kiochi disse. Todo ser humano precisa dar algo em troca da comida que come (caso não plante a própria), da casa que vive (caso não a tenha construído), da roupa que veste (casa não a tenha confeccionado) etc e tal. Na minha opinião, não existe outra moeda de troca que não o trabalho (seja ele qual for) para tudo isso que é essencial para nossas vidas.

    Também sou contra o pensamento do eterno Wanderlust. Acho que viajar não é pra sempre. São momentos que buscamos evolução pessoal para dar continuidade às trocas e as fazê-las de modo mais justo e coerente.

  3. Filha ja li tantas vezes este post e cada vez mais reflito sobre os momentos que vc viveu e os valores que damos para coisas que nao tem a menor importancia qto mais valor algum… te amo e sinto saudades muitas saudades filha…

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