Chegada dos Manos!

De Koshkor seguimos no dia seguinte para Narin, uma cidadezinha muito bonitinha, que ficava perto de mais um vale bonito, para mais uma passeio a cavalo, e que tinha um Caravansarai. Da para perceber que no Kirguistao os programas são sempre mais ou menos parecidos: natureza, montanhas, yurtes, cavalos ou trekkings, escaladas e por ai vai.

Caravansarai.

Acabamos não podendo fazer o passeio, pois nosso cavalo fugiu durante a madrugada e no fim das contas so fizemos uma bela caminhada. O Caravansarai estava bem conservado por fora, conseguindo nos dar uma boa ideia de como eram os hoteis da epoca da rota da seda.

Aproveitamos o lugar, mas o que mais gostei no fim das contas foi a cidadezinha de Narin, já que adoro cidadezinhas. Elas sempre mostram como as pessoas vivem, os costumes do povo e o dia a dia. Tivemos a sorte de nos hospedarmos pela CBT em mais uma simpatica home stay. Foi o lugar que mais gostamos em relacao a limpeza e comida. A comida simples do Kirguistao ‘e muito ruim, não  sei como são os bons restaurantes de comida local, mas “o feijao com arroz deles ‘e de matar”. No geral ‘e sopa de repolho com carneiro duro e gorduroso, um dedao de oleo cobrindo a sopa, deixando ela alaranjada, e plov, arroz com pedacinhos de cenoura e carneiro do mesmo tipo.

Nessa casa, pela primeira vez comemos arroz com carneiro e molho de tomate, e apesar do carneiro estar uma pedra, o molho de tomate estava uma delicia. Foi a melhor comida local do Kirghistao.  Saimos para caminhar pelas ruas e bem perto da nossa home stay, estava tendo um aniversario infantil e a cena era muito familiar, os homens do lado de fora conversando, as mulheres correndo com os filhos, chapeuzinhos na cabeca para todos, tudo muito parecido.

A pacifica cidadezinha de Narin era um encanto. Ganhamos um grande suco de frutas numa padaria, quando um senhor simpatico ao comprar pao viu que eramos turistas, e quis nos presentear, pegando na prateleira um suco pronto de pessego de uns 3 litros. Agradecemos um monte e ele sorridente se despediu voltando para casa. O suco era delicioso, deu para dar férias a dupla: agua e coca-cola. Acho tao bonito esse jeito das pessoas quererem tratar o estrangeiro, que ‘e sempre uma licao cada vez que acontece.

No Brasil já comecamos a hospedar estrangeiros pelo couchsurfing e temos tido experiencias legais e outras nem tanto. Exige doacao de tempo, energia e desorganiza sua programacao, mas depois de tanto tempo no oriente se a gente não aprender a se doar muito mais pelo outro, na minha opiniao, acho que deveriamos ir a m…

A pacata Narin.

A noite jantamos na casa com quatro hospedes locais, que bebiam muita vodka e contavam historias, e demos algumas rizadas e conversamos bastante sobre varios assuntos interessantes. Um deles, no auge da sua melancolia provocada pela vodka comecou a “lembrar dos bons tempos do comunismo”. Disse que antes eles não tinham dinheiro e podiam comprar, e agora eles tem dinheiro, mas nao podem comprar. Contou que os Kirguis eram um povo nomade e rural, viviam na sua maioria como pastores e que os russos desenvolveram bastante sua condicao de vida. Todo mundo tinha saude, educacao e moradia, so não podiam enriquecer, e depois que eles sairam os Kirguis ficaram meio perdidos, e ainda não aprenderam como gerenciar a vida capitalista.

Faz bastante sentido se tratando de um povo simples, acostumado apenas com o pastoreio. Investigando um pouco mais, vi que aquele que falava adorava seguranca, trabalhava há 17 anos na Unesco e queria uma vida mansa e pacata. Ele disse: “eu so quero meu salario no final do mês e dar estabilidade para minha familia.”  Alem de nunca ir a mesquita. Entao para ele o comunismo parecia ideal.

Já quando voce fala com outros, seja pelo amor a religiao, ou seja pelo espirito empreendedor, eles preferem muito mais a derrota do Stalin do que  qualquer outra coisa. No Kirguistao isso ‘e uma pouco diferente, comparado as opinioes das pessoas do leste europeu, la so encontramos pessoas idosas com saudades do comunismo. Já aqui, encontramos mais pessoas que gostavam independente da faixa etaria, talvez pela simplicidade do pais quando os russos chegaram e, a pobreza quando deixaram…

No dia seguinte seguimos para Bishikek, pois estava para chegar os meus irmaos, nossa segunda visita. Eu estava muito feliz e apreensiva, feliz por saber que eles poderiam entender um pouco o que eu e o Gui estavamos fazendo ha tanto tempo, e tudo o que uma viagem como essa poderia trazer a eles e, apreensiva se eles iriam se adaptar aos “desafios”. Ate agora todas as nossas visitas não experimentaram como nos viajamos, sempre quando eles chegam, por uma questao ate de respeito haha, alteramos completamente o nivel da viagem em termos de conforto, ritmo e programas. Mas os Manos como eram jovens, não precisariam ser poupados de nada, e estavam dispostos a seguir o nosso ritmo. Eu pensava: “uma coisa ‘e a ideia, outra ‘e a realidade, vamos ver!” Quantas vezes na vida nossas ideias se mostram tao diferentes da realidade experimentada ou imaginada, não ‘e?!

Na madrugada de sexta-feira eles chegaram e foi aquela emocao, fazia quatro meses que não nos viamos. Escolhemos um quarto simples e aconchegante, o mesmo hotel da russa. Os olhos deles brilhavam quando viram o quarto. Deixamos eles descansarem umas duas horinhas para não se perderem depois com o fuso e saimos para tomar um café. Já comecamos a sacanea-los comprando umas bebidas de ruas muito tipicas aqui, que eles logo cuspiram no chao, sendo que uma delas eu e o Gui somos apaixonados e eles não entendem. ‘E uma especie de iogurte natural aguado, salgado e com gas, ‘e muito bom. ‘E chamado de ayran na Turquia, de bla bla bla no Iran, de Lassi salgado na India, de não sei o que no Kirguistao, etc, tem por todo Oriente.

Passeamos pela gostosa Bishikek, eles tambem adoraram o clima da cidade. A noite saimos para comer no Olives, um delicioso restaurante que descobrimos, os donos são um casal jovem de namorados e suuuuper simpaticos, que nos tratavam como reis. A comida ‘e toda ocidental, entao dei umas boas férias para as sopas de repolho e oleo. Eles queriam experimentar a comida local, falei: “ aproveitem Bishikek, que depois voces terao muito tempo para comer sopa de repolho e carneiro”. Eles me ouviram!

No dia seguinte fomos ate o bazar principal, onde teriamos que encontrar um carro para nos levar ate Arselambob. Eles experimentaram a guerra dos motoristas tentando nos oferecer a melhor carro e preco, acabamos fechando com um cara quando vimos a qualidade do carro, que deu uma volta na quadra e nos colocou em outro haha, a sorte que era melhor. Atrasou duas horas para sairmos, pois um dos passageiros estava saindo do dentista (acreditam???) e chegou cuspindo sangue, era verdade mesmo. Deixamos o moco sem dente em casa e pegamos sua esposa e filho, esperamos ela fazer as malas, deixamos seu marido em outra casa, paramos num posto de gasolina, o motorista colocou oleo, gasolina, calibrou os pneus e daí, finalmente fomos.

Essa coisa do senso de servico, da pontualidade que temos no Ocidente, do recibo, do pegar o dinheiro de volta caso voce não goste do servico, nada disso funciona aqui, tudo funciona no fio do bigode, e com muito atraso, de um modo muito caseiro. O Jony e o Cuxo não acreditavam, estavam se divertindo com a (des)organizacao do evento. Depois de quase 12 horas de uma paisagem chocante, muito calor e quentes discussoes familiares, chegamos em Arselambob.

Pela estrada....

Um representante da CBT veio nos receber e já nos levou para uma home stay. A casa era otima, tinha uma vista privilegiada, mas o banheiro era sinistro, sujerrimo e oriental (no chao). Os Manos já falaram na hora: “ ah mas não vamos usar esse banheiro nem a pau.” Falei: “esperem a coisa apertar para o lado de voces para ver se voces não abrem uma excessao, vamos ficar dois ou tres dias aqui”. Não deu outra, no ultimo dia o grande chamado veio de madrugada, e eles tiveram que se adaptar ao banheiro em plenas tres da manha hahaha. Muito engracado era eles discutirem qual era a melhor tecnica para se segurar na tal nova posicao.

Home stay!

Centro de Arselambob!

Muculmanos jogando xadres nas casas de cha!

De manha fechamos um passeio a cavalo que passaria por uma grande cachoeira (ate ai nada de novidade para um brasileiro), depois por alguns vales lindos, dormiriamos nas montanhas a 3.500m de altitude, e voltariamos pelo meio de uma floresta de nozes.

O passeio foi magico e aproveitamos muito. O cavalo encomodou um pouco o joelho dos dois, o Marco tem um joelho capenga por causa de uma operacao, e o Joao não sei, sei que os joelhos deles sempre encomodam, por causa da falta de espaco nos transportes, ou a cela apertada, etc. No meio do caminho comecou a chover e a sorte ‘e que estavamos chegando aonde iriamos dormir. Os organizadores tinham uma casinha de barro onde faziam a comida e dormiam, e nos aproveitamos para ficar ali ate passar a chuva e montarmos as barracas. Essa seria a minha primeira experiencia numa barraca de verdade, so tinha ficado numa quando era crianca, e apesar da “rutesa” da outra viagem, dormimos em barraca com cama, e dormimos tambem ao relento na beira do rio e no deserto, mas na barraca, com saco de dormir seria minha primeira vez.

Achei a experiencia possivel, mas acho que a soma de altitude com barraca não ‘e a minha praia. Se for para ficar sob colcao inflavel num caping, sem altitude e mais quente, com chuveiro e area para cozinhar, daí acho que ate ia gostar.

Mano JOny!

Nos divertimos muito com os organizadores do programa, um dos tiozinhos não parava de dancar os sambas brasileiros que transferimos para o seu celular. O Jony torceu o pe na volta pela floresta de nozes, mas depois se recuperou, o passeio foi incrivel e estava muito feliz de viver aquilo com os Manos.

Nos protegendo da chuva!

Nossas barracas.

Um pouco do lugar.

Floresta de nozes!

Descansamos na home stay e dia seguinte seguimos para Osh, uma das ultimas cidades antes da fronteira com a China. A cidade era muito quente e umida e contava com um mercado de rua legalzinho e um parque de diversoes decadenterrimo no meio de um parque. Pareciam os brinquedos dos parques de diversoes que iamos na praia quando eramos criancas. Levei o Manos para um restaurante indicado pela dona do Olives para dar umas férias a comida Kirgui. Eram so quatro dias, mas já dava para sentir que eles estavam encomodados. Depois de descansar em Osh seguimos para Sary Tash, uma vila maravilhosa bem perto da fronteira. La fazia frio e a casa era congelante. O visual de montanhas nevadas circundava o lugar. Aproveitamos para caminhar na pastagem com as montanhas de fundo.

Sary Tash!

Mais vila!

Mais...

Finalmente seguimos para a fronteira, que não foi facil de atravessar. Primeiro tivemos que caminhar a pe por aquelas terras de ninguem ate chegar na fronteira para sair do Kirguistao, depois nos embarcaram numas cabines de caminhoes para chegarmos ate um pequeno controle de passaporte; como a fila de caminhoes era grande, andamos um km de caminhao e seguimos o resto a pe ate o tal controle. De la, mais caminhao, mais uma parte a pe, ate chegarmos a fronteira da China. Os oficiais fussaram o computador do Gui e olharam fotos, para ver se eramos jornalistas, já que estavamos entrando por Kashgar, uma regiao de conflito entre Chineses e Uigurs.

Saindo da fronteira descolamos um motorista que estava indo para Kashagar, ele tinha uma bela hilux, ficamos traquilos. Quando ele parou, e colocou sobre as nossas malas dois toneis de oleo e alguns butijoes de gas, a tranquilidade passou. A caminhonete rebaixou na hora e nos já vimos que a coisa não ia ser moleza, para variar.

No meio do caminho o tiozinho comecou a piscar e parou o carro e pediu para dormir, o Gui se ofereceu para dirigir e seguimos viagem com novo motorista. Uns vinte minutos depois o pneu furou e la desce todos nos para ajudar arrumar. Coitado do Tio, dava para ver que estava virado e como era Ramadan, não comia nem bebia desde as quatro da manha, pelo menos. Resolvido o problema seguimos viagem, o calor era infernal e claro que não se ligava o ac para ecomizar, isso ‘e sempre asssim, ‘e capaz deles dizerem que não esta funcionando.

Antes de entrar na cidade, o tio despachou os oleos e gases numa casa. Depois de quase 8 horas de viagem e com muita emocao, e toda a qualidade impar do servico, chegamos a Kashgar e todas aquelas placas com letras chinesas e arabes para tudo que ‘e lado. Eu vibrei, adoro a sensacao da entrada em novos paises. E como recompensa, o primeiro hotel que fomos ver era otimo e tinha ar condicionado, shampoozinho, condicionador, tv, wi-fi, chinelinho do hotel e toalhas, tudo a um preco camarada. Viva Kashgar!

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Um comentário em “Chegada dos Manos!

  1. Viva voce Bibi !!!
    Viva voce Gui!!!
    Viva vcs Manos!!!
    Que experiencia ….Culturassaaaaaaaaa.
    sem palavras
    saudades filha
    bjinhos

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