A pequena vila atras da montanha.

Do Vale Hunza seguimos para Gilgit, a primeira cidade relativamente grande que passariamos do Paquistao. E Gilgit surpreendeu. Tinha um comercio e vida local muito tipica, e um cenario tambem de volta no tempo, como se estivessemos mais ou menos há uns 500 anos atras.

Centro de Gilgit!

Numa tarde fui ao correio tentar enviar umas coisas para o Brasil, e eles me mandaram primeiro ir ate a loja de tecidos e depois ao costureiro que embalaria a caixa que eu pretendia enviar. Eles não tem, assim como na India, o conceito de caixas prontas de papelao que nos temos, entao o procedimento ‘e bem artesanal. Chegando no “atelie”, uma cena me chamou atencao, tinha um jovem tomando banho de roupa na frente da loja atraves de um cano que saia de cima do predio, bem no meio da rua. Entrei na loja, e dois minutos depois, o tal jovem entrou, ele na verdade trabalhava ali, era um dos cinco costureiros do atelie, e tinha parado no meio do “expediente” para se ensopar de agua devido ao calor que fazia. O dono nos atendeu super bem, costurou o pano ao redor da caixa e não aceitou que pagassemos, pois eramos estrangeiros em seu pais e como dizem os muculmanos, assim como os indianos: “Guests are God!”

So um adendo, para gente nao sair por ai falando “nossa que lindo, o Oriente ‘e o maximo, eles falam que guests are God”. Jesus tambem diz o mesmo na Biblia, quando fala algo assim: “quando veres um faminto, um doente, um estrangeiro, etc, etc, saiba que sou eu revestido deles.” Desta citacao sai tambem o conceito de esmola, hoje tao banida pela apelo ao “nao vagabundismo” e a ideia de melhorar o mundo dando um rumo eficaz a vida do mendigo. Resumindo, “evoluimos” e lemos muito pouco o livro Sagrado na nossa religiao.

De Gilgit seguimos de van ate Skardu, por precipicios assustadores, que me fizeram rezar boa parte da viagem. Numa das paradas, pedi ao motorista para ir mais devagar. Como sempre, ao longo do caminho, muitos locais passaram mal, e como era Ramadam, nao tinham nem um gole de agua para tomar depois de colocar tudo para fora. Skardu fez parte durante muitos anos do Imperio Tibetano e ainda possue diversas estatuas de Buda esculpidas na pedra espalhadas na regiao.

Nosso transporte.

Paradas.

Apos providenciarmos transporte, comida, barracas, sacos de dormir e nos divertirmos comprando ingredientes para as refeicoes nos mercados de rua, estavamos prontos para subir ate o planalto Deosai que fica a 4000 m de altitude. La acampamos num frio suportavel e num ceu muito estrelado. Nosso companheiro Coichi, o japones (lembram dele?), continuava nos acompanhando. A noite, num bate papo com o motorista do jipe, ele desabafou comigo que estava muito triste, pois sua familia tinha lhe prometido para uma mulher que nao amava. Contou que namorava escondido ha quase dois anos, e nao sabia o que fazer, pois sua mae nao cedia em desistir da ideia dele casar com a tal moca. Me deu uma pena, mas nao tinha muito o que fazer, eu nao ia ficar falando de livre arbitrio para ele, porque nao fazia o menor sentido naquele contexto, a unica coisa que disse foi “peca para Alah que aconteca o melhor para voce, e lembre que algumas vezes o melhor para nos e para Deus, sao diferentes.”

Enquanto eu providenciava a comida para o acampamento, o Gui fazia amizade com os locais no mercado. Conseguem distinguir quem 'e quem?

No caminho para o acampamento.

Acampamento.

Deosai plains.

Mais.

De manha seguimos para o nosso principal destino, a Vila de Tarashim. No caminho passamos por paisagens, vilas, casas isoladas no meio da vegetacao, plantacoes, cachoeiras… que olha fazia muito tempo que eu nao via um cenario tao tao lindo. Essas regioes da karakoran sao inexplicavelmente belas, voce fica sem folego.

Vilas no caminho.

Tarashim!

Dormimos em Tarashim a luz de velas, depois de um delicioso jantar, para variar frango karai, a comida tipica da regiao, que ‘e de se lambuzar de tao bom. Na manha seguinte acordamos cedo para uma caminhada ate a montanha Nanga Parbat com mais de 8000 m, passando pela Vila de Rupal. Como a montanha ‘e o maior paredao de um acampamento base ate o topo, eu pensava que o passeio ia ser meio sem graca, do tipo anda anda ate chegar na montanha, tira umas fotos e vai embora. Mas o Pakistao mais um vez, impressionou!!! O passeio foi simplesmente o mais lindo de toda a viagem. Se eu fosse escolher o melhor passeio desde o comeco da viagem, levando em consideracao beleza natural e cultura, eu diria: Rupal.

No caminho voce passava por vilas tipicas com suas casas de barro, infinitas plantacoes dos mais variados alimentos, paisagens de montanhas absurdas com pico nevado, muito verde e um ceu mais que azul. Como o ceu estava absolutamente limpo, sem nenhuma nuvenzinha, o tom das plantacoes com era meio alaranjado e brilhante. Lindo, lindo, lindo!!

No dia do passeio, o nosso guia e dono do hotel tinha passado a noite em claro, pois era um dia especial do Ramadan, em que eles ficam de vigilia rezando a noite toda, somado ao fato dele vir de um jejum, era mesmo assim um sorriso em pessoa. Uma disposicao impressionante. Nos sentimos uns m… perto dele, pois estavamos todos cansados da viagem do dia anterior, e por termos acordado tao cedo.

Ao longo do caminho, um tiozinho veio nos dar as boas vindas e, de forma muito acolhedora colheu umas batatas e uns rabanetes da plantacao e nos deu para levarmos na nossa caminhada caso tivessemos fome. Nos convidou para na volta passarmos para tomar um chay na sua casa. Foi um momento emocionante. Caminhei com aquilo no coracao, encantada com a simplicidade e simpatia dos moradores.

Finalmente chegamos ate a tal montanha, depois de sete horas de caminhada, e a visao era im-pres-si-o-nan-te. De torcer o pescoco para ver o topo, mas com todo um cenario norte, sul, leste e oeste maravilhoso, a montanha era so mais uma coisa incrivel no meio daquele lugar encantado…

A montanha!

Paramos entao para descansar, comer e curtir o astral do lugar. Quando comecamos a voltar, avistamos o tiozinho nos chamando para tomar o chay, ele ja estava nos esperando com um lanche da tarde. Como nem todo mundo queria parar por causa do horario, já que tinhamos umas cinco horas pela frente e ia anoitecer, tivemos que lamentavelmente agradecer, mas ele nao se contentou: veio correndo com uma bandeja cheia de batatas descascadas, subiu em cima do muro na posicao “banheiro oriental” com seus la 70 anos e ficou conversando com a gente ate comermos boa parte da bandeja. Conversamos um pouco, mais que agradecemos, e seguimos a caminhada. Ele tinha ficado cozinhando as batatas no fogo ate nos passarmos de novo. Seriamos recebidos com chay e batatas. Nao ‘e de matar? Simplesmente fantastico!!

Um pouco mais a diante, passamos no meio de umas casas no meio de grandes plantacoes, e quando vejo, mulheres com seus chales coloridos saem do meio da plantacao e comecam a conversar comigo. Os meninos se distanciaram, pois elas so conversam com mulheres e não gostavam de ser fotografadas. Me deram sua “ foice” e perguntaram se eu queria experimentar cortar a plantacao junto com elas, falei que sim, e la fui eu… Trabalho duro! Logo em seguida devolvi a foice dando risadas, com cara de “ok, já cortei! Posso ser amiga de voces agora?” Elas comecaram a me perguntar varias coisas: da onde eu era (obvio que não sabiam onde era o Brasil), se eu era casada, quantos anos tinha, meu nome, se tinha filhos, etc, etc. O repertorio mais ou menos de sempre. E depois já sorridentes e sentindo-se mais a vontade, tipo eu tinha passado no teste para ser amiga delas, me disseram: “sing a song!” Sorri, falei que tinha vergonha, elas insistiram e eu nao exitei. Comecei a cantar Garota de Ipanema para elas, uma das unicas cancoes que sem cantar bem certinho do inicio ao fim, sem inventar palavras. Elas adoraram e comecaram a cantar para mim tambem musicas paquistanesas. Ficamos cantando umas para as outras, enquanto o Gui discretamente tirava fotos, e eu nem percebia.

Elas não queriam que eu fosse embora e nem eu queria continuar caminhando, mas estava todo mundo me esperando. Quando derrepente foi saindo uma multidao de mulheres debaixo das plantacoes, se agrupando ao redor de nos para cantar. Foi tao tao tao tao emocionante… que os meninos nem se importavam de esperar um pouco mais. Eu me controlava para nao chorar na frente delas e elas nao entenderem.

Eu era a de lenco florido.

Fiquei babando naquela vila, naquela vida em comunidade, naquele lugar magico, sem energia eletrica, com uma vida tao perto da natureza e tao devota. Quando fui embora, uma multidao de criancas me seguia dando tchau, era uma gritaria. Demorei algum tempo para voltar a falar e me recuperar do momento que vivi.

As criancas.

Durante a volta, nosso guia, que continuava tao disposto quanto no inicio da manha, ia parando de tempos em tempos para cumprimentar os homens da vila, que eram muito curiosos e acolhedores com a gente. Uma hora ele tambem parou para pegar gelo. O mais impressionante foi de onde: do glacial. Uma cena surpreendente, pegar o gelo raspando a montanha…

Parada para cumprimentar os amigos!

Pegando gelo!

Chegamos exaustos no “hotel”, e no meio daquela vila recebemos um coca-cola gelada!!! Ele fez um jantar delicioso, e enquanto preparava, aproveitei para tomar um banho de balde pelando. No quarto, a luz de velas, dormimos emocionados pelo dia inesquecivel que tivemos. La não tinha energia eletrica em nenhum horario do dia, e deveria nunca ter, pois o lugar era realmente magico!

A tchurma: Jony, Guia, Gui, Marco e Coichi.

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