Paquistao Com Emocao!

Apesar da paz do lugar, e da beleza das pessoas somada a uma cultura tao intocada, dois dias depois tivemos que sair as pressas do Kalash Valley. Ainda de manha, o Gui chegou rindo de nervoso no quarto dizendo que tinha que me dar uma noticia. Como sabia que ali nao tinha telefone, me toquei na hora que era uma noticia paquistanesa. Talibans do Afeganistao haviam atacado a fronteira do Paquistao ao sul do vale Kalash. No total 56 pessoas morreram, entre talibans e militares paquistaneses. Como estavamos há 30 kilometros da fronteira e pelo vale não havia muita seguranca caso os talibans decidissem entrar por alguma montanha, pediram para voltarmos a Chitral, onde tinham uma forte base militar. Conforme as noticias, o interesse nao era entrar no pa’is, mas sim atacar a fronteira. De qualquer forma, nossa escolta disse que deveriamos voltar imediatamente para Chitral.

Brincandeira de crianca.

Voltamos parte do caminho a pe, pois não passava nenhum carro, ate que finalmente passou uma caminhonete e nos deu uma carona ate uma cidade proxima, onde poderiamos pegar um onibus ate Chitral. No total estavamos em seis turistas, nos quatro e mais dois japoneses, alem dos dois policiais, que pareciam não serem capazes de matar uma mosca.

No meio do caminho, um pouco nervosos com a situacao, um senhor sai detras de uma curva fazendo sinal desesperado para pararmos o carro, eu arregalei o olho assustada e pensei: “caramba, est’a vindo os talibans!” Nisso, as pedras do morro comecam a explodir, e eu entao olhei para o Joao que estava do meu lado e me desesperei. Pensei: “fo… !” Apos uns minutos, o tal Senhor acena dizendo algo do tipo: “podem vir agora!” Era so porque a estrada estava sendo arrumada e assim que explodiram um pedacinho do morro, fizeram sinal para a gente passar, ja que as pedras tinham quase tomado conta do estreito espaco entre precipicio e montanha. Eu nao respirava, estava branca, congelada, tremendo, mas não era nada… so conserto de estrada.

Chegamos em Chitral mortos de fome e fomos procurar um hotel mais confortavel para ficarmos. Achei um bem melhor por 100 rupais a mais, um pouco mais de um dolar. Como o hotel nao tinha restaurante, e ja tinha passado da hora do almoco e alem de tudo era Ramadam, pedimos se nos mesmos podiamos cozinhar, usando o espaco deles. O dono concordou. Ele estava faminto tambem, falou que era muito dificil seguir o Ramadam, que ele ficava irritado, nervoso, mas que ja estava quase terminando o mes Sagrado.

Entao, resolvemos nos dividir. O Gui ficou responsavel por ir ate a policia, primeiro para se apresentar junto com a escolta, mostrando que todos nos estavamos bem e tambem para se informar do ocorrido; depois ele iria ate o o escritorio do correio para ver se conseguiriamos pegar um aviao teco teco do correio que tres vezes por semana saia de Chitral ate Slamabad. Enquanto isso, eu e o Jony ficamos responsaveis por fazer a comida. Resolvi fazer o meu prato tipico: macarronada. As escoltas se separaram, um deles foi com o Gui e outro comigo e o Jony. O Marco teve de ficar no quarto, ou melhor, no banheiro, por um problema tecnico rsrsrs de viagem.

Seguimos com nosso guarda-costas, enquanto eu comprava os ingredientes, pedi ao Jony para providenciar o frango. Nisso o Joao voltou e me disse: “vem ver o acougue!” Quando olhei, num lugar caindo aos pedacos, com uma sensacao novamente de tunel do tempo, varias gaiolas com pequenos futuros galos. Apontamos qual nos queriamos, e o senhor matou e depenou na nossa frente, quando pegamos o saco, o frango ainda estava quente. Nunca tinha comido carne tao fresca!

Eu e Jony nas compras (vejam minha roupa de paquistanesa).

Voltamos ao hotel, e mais um desafio, conseguir fazer a comida naquela cozinha suja, cheia de panelas engorduradas, sem detergente, nem esponja de louca, e muito menos colheres e afins para mexer. Com muito custo, consegui fazer uma macarronada gostosa, na companhia do Marco. Quando o Gui chegou vi que ele estava animado, e ja imaginei: nao tinha voo para Slamabad. E foi batata, teriamos que ir de onibus. Eu, Marco e Jony estavamos preocupados, porque passariamos por varias cidades nao tao tranquilas do Paquistao, ate agora estavamos sempre no meio do nada, em alguma vila nas montanhas, e agora passariamos por regioes mais perigosas, meio terra sem lei. Mas nao tinha opcao.

Dormimos entao em Chitral, onde as pessoas so falavam e lamentavam o ocorrido, e no dia seguinte pegamos um onibus de 14 horas ate a capital Islamabad. A escolta ficou com a gente ate o onibus partir e fez seu trabalho ate o fim, inclusive ficou do lado de fora nos abanando como se fossem familiares, enquanto nos da janela como bons brasileiros falavamos: “muito obrigado, valeu por tudo, vamos manter contato.”

Logo nos primeiros minutos, vimos que nosso motorista parecia direto de um filme: tinha uma barba comprida sem bigode ao modelo do Profeta Mohamed, um chapeuzinho branco e verde significando que ele era bem religioso e um livro falando do fim do mundo sobre o painel. Novamente uma estrada super segura, do lado direito montanha gingantesca e do esquerdo precipicio e entre eles apenas uma estrada de chao esburacada e bem estreita, com carros vindo nas duas direcoes, alem de carrocas de vez em quando, caminhoes e burros. Para completar, nosso motorista corria como se estivesse numa reta, numa pista bem larga e acostamento.

Umas tres horas depois, um carro de policia parou nosso onibus no meio da estrada, entrou e documento de todos. O “tenente” nos avisou que para nossa seguranca n’os seriamos escoltados ate proximo a Islamabad. Disse tambem ao motorista, que não deveria entrar mais nenhum passageiro ate perto o fim da viagem. O motorista ficou preocupado, pois sem passageiros não entraria dinheiro. E nos ficamos mais preocupados ainda. Nisso peco para ir ao banheiro, descem cinco homens mais o tenente, entram no banheiro antes, olham, voltam e dizem: pode entrar, esperamos a senhora aqui. Eu so pensava: “onde que a gente foi parar? So espero que isso tudo termine bem.”

Fim das contas, fomos escoltados ate perto de Islamabad, a cada final de um distrito mudava a escolta policial, no total foram sete ou oito. Dentro do onibus, dois locais fumavam haxixe enquanto a policia seguia nos escoltando. O motorista falava do fim do mundo de acordo com os muculmanos, era pro-taliban, e tinha varias teorias da conspiracao quanto aos americanos, judeus e Jerusalem. O Gui se divertia conversando com ele. Ate que uma hora ele falou: “ali do outro lado est’a cheio de talibans.” O Gui olhou e disse: “ali do outro da fronteira que fica aqui perto?” Ele respondeu: “nao, do outro lado desse rio aqui”, apontando para um rio seco que beirava nossa estrada…

O motorista!

Escolta.

Enquanto isso, o Marco e o Jony davam muita rizada com a emocao de um passageiro que contava nunca ter feiro uma viagem tao diferente, que no Paquistao so gente muito importante do governo era escoltada, e que ele estava adorando tudo aquilo. Quando atravessamos as cidades, a policia ligava a cirene para abrirem alas ao nosso onibus. Foi a viagem mais louca que já vivi em toda minha vida!!! Me sentia o presidente da republica, tirando o onibus, ‘e claro!

As pequenas cidades que passavamos eram uma volta ainda maior ao tunel do tempo: mulheres de burca, comercios decadentes, caos total de carros, cabras, carrocas, tudo ao mesmo tempo. Homens com barbas longas, turbantes, e muita sensacao de que estavamos no meio de um filme “faroeste paquistanes”. Essa acho que ‘e a comparacao mais proxima.

Nas cidades, pena que nao da pra ver direito.

Ao longo do caminho, como era Ramadan, nao houve parada para comer, para o nosso desespero, pois eram 14 horas de viagem, mas para nossa sorte, eles pararam muitas vezes para rezar, e nisso a gente conseguiu comer alguma coisa. Nunca vou esquecer do suco de goiaba de caixinha do Paquistao.

No fim da tarde, o sol se pos, ja com quase 12 horas de viagem, tivemos a nossa primeira parada oficial, quando eles desceram para fazer sua primeira refeicao do dia. Uma fila de onibus e carros se formou, as pessoas desciam, estendiam um pano grande e comiam sobre o asfalto: frutas, agua, e chay. Generosamente, nos convidaram para comer com eles, agradecemos e dissemos que queriamos que nao faltasse nem um pedaco de fruta para eles depois daquele longo dia. Em seguida rezaram e continuaram a viagem.

Primeira refeicao do dia.

Essa cena de nos parados no meio da estrada com o sol se pondo, as pessoas comendo sobre o tapete no chao e depois rezando, nunca saira da minha memoria. Foi uma das cenas mais marcantes para mim de toda a viagem. Absolutamente diferente e especial! Fiquei pensando naquele mundo deles tao diferente do nosso…

Filas de carro estavam se formando para quebrar o jejum.

Quando nosso motorista voltou a dirigir, ele pareceu cansado e falou para o seu ajudante que sentava ao lado, para ele dirigir. Estavamos há uns 60km/h quando nosso motorista troca de lugar com o ajudante com o onibus em movimento. Eu olhei para o Gui e os meus irmaos e todo mundo estava chocado. Eles perceberam e olharam pra tras vendo nossas caras de assustados, e deram muita rizada dos turistas. Se fosse um europeu ali teria enfartado, a sorte ‘e que vindo do Brasil nem tudo assusta tanto. O dia tinha sido realmente intenso e nos sentiamos numa terra sem lei… Ou talvez na terra dos Paks mesmo. So para titulo de informacao Paks quer dizer puros.

Chegamos em Islamabad as dez horas da noite, exaustos e cansados. Olhavamos um para o outro e riamos de nervoso do que tinha sucedido ao longo daquela viagem. Acho que isso ‘e uma das coisas que mais gosto de estar no Oriente, que de certa forma vicia, nem um dia de viagem ‘e previsivel ou monotono, sempre tem uma surpresa, uma emocao, um momento inesquecivel, seja porque a vida que eles levam ‘e muito diferente da nossa, seja porque voce tem a chance de viver um pouco a vida deles, de fazer parte de um mundo tao diferente do teu, de experimentar um aquario completamente surreal e de se dar conta de quao absurdamente belo e variado ‘e o mundo que Deus criou.

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3 comentários em “Paquistao Com Emocao!

  1. Ainda bem que li agora dia 5/12/2011…e vcs ja em casa…recordo a Bibi contando por telefone mas não abarquei o que realmente havia acontecido até me contarem pessoalmente e agora ler.
    Impressiona o que passaram em terras tão distantes, não por acaso “falei” tanto com Deus. Eu orava de joelhos como cristãos, orava sentada balançando o corpo pra frente e pra trás como judeus além de ajoelhar e debruçar sobre o corpo como muçulmanos…
    Meu “radar psicológico” que é a sensibilidade, segundo Raumsol, captava perigo e eu estava em alerta geral convocando o cósmico para protege-los. Fui atendida e sei que fui ouvida sim…
    Uma prece de mãe num suplicio se lança no cosmico e é captada…
    Pedi e recebi, eles voltaram vivos e unidos por mais uma vivencia única no Paquistao.
    Grata Deus, grata mestres cosmicos da fraternidade branca…grata espiritos de luz especialemente Cristo.
    Ah que bom a fé consciente!!!

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