Dois mundos!

Na volta do show das Fronteiras Paquistão X Índia, demos carona a um casal de franceses que conhemos em Karimabad, ainda no começo da nossa jornada pelo país. Ao longo do trajeto, fomos encontrando os dois diversas vezes, em lugares diferentes, até reencontrá-los na nossa última noite no Paquistao.

Era um casal novo, de vinte e poucos anos, que guardaram dinheiro por uma longa data, ate realizar a sua primeira viagem longa. Eles nunca tinham saído da França antes. Ele era marcineiro e, ela psicóloga. Estava vindo desda Marcelia,  cidade onde moram, ate o Paquistao praticamente só de carona.

Num primeiro momento, achamos eles legais, até pelo jeito que estavam viajando, mas aos poucos fomos percebendo que eles só tinham saído de corpo para viajar, nao de alma, e a viagem ja estava completando quase 6 meses. Tudo na França era melhor, todas os lugares que eles visitaram eram em geral ruins, com excessao de alguns países na Europa que cruzaram ao longo do caminho, as pessoas entao da Asia Central de uma ignorancia sem tamanho. Pegavam muito no pé dos muculmanos, fruto da crença do povo em Deus que se desdobrava em atos sem sentido para eles. As roupas da muçulmanas, o Ramadan, a chamada das mesquitas, os terroristas, tudo tudo no mesmo pacote.

Como eles cruzaram de carona desde a França até os países da Asia Central para chegar no Paquistão, os países que tinham um povo acostumado a dar caronas eram legais, os que nao eram, nao eram legais! Lugares como Turkomenistao, Uzbequistao, e Kazaquistao, onde ha um cultura fortíssima de táxi pago, nao eram legais. So porque nao existe apenas o taxista credenciado como o nosso, mas qualquer pessoa comum que esteja passando de carro pode ser o seu táxi ( seja dentro das cidades ou na estrada, voce faz um sinal para parar, e se parar é porque podem lhe dar carona, desde que seja para o mesmo sentido que a pessoa esteja indo, e ela te cobrará por isso). É uma forma, nesses países tao pobres e reprimidos pela ditadura, do cidadao comum tirar um troco a mais.

Eles achavam isso um absurdo, sem entender que naqueles lugares carona e taxi eram sinonimos. Como aqueles dinheiristas podiam cobrar, pensavam eles? Assim eles foram passando por diversos países,  levando a referencia da França e das suas necessidades individuais como forma de medir as pessoas e os lugares…

Nesse dia, lá na torcida, encontramos os dois com um paquistanes, ele sentado num bom lugar na arquibancada, tomando uma coca-cola gelada, e a sua namorada, na arquibancada das mulheres (pois as arquibancadas eram separadas em homens, mulheres, famílias e turistas). Estranhamos o lugar e a coca-cola gelada. Depois, vimos eles dispensando o tal senhor assim que nos encontraram, dizendo que iriam com a gente, sem praticamente se despedir.

Perguntei quem era aquele senhor, e eles me contaram rindo que era um homem religioso que conheceram num restaurante quando estavam almoçando, que veio puxar assunto pedindo se estavam gostando do Paquistao, se nao queriam ir para casa dele, pois os estrangeiros sao enviados de Deus, e ele tinha o dever de recebe-los bem. Os dois agradeceram dizendo que ja estavam hospedados num hotel.  O senhor entao, muito simpatico, pediu para eles outros pratos de comida, ja que como bons mochileiros tinham obviamente pedido os pratos mais baratos, e pagou tudo. Após o tal senhor concluir que eles estavam num hotel muito simples (óbvio, os locais nunca entendem porque escolhemos estes hoteis), insistiu para que eles mudassem de hotel, pois tinham outros melhores, e que ele pagaria a diária, pois precisavam estar confortáveis no país dele. Eles agradeceram tambem e, o senhor pediu entao onde eles estavam indo, e contaram que para o show das fronteiras. Na mesma hora o tal senhor pediu um taxi (evitando que eles fossem de onibus, pois era na saída da cidade) e os acompanhou ate o show, pagando a coca-cola gelada e escolhendo um lugar privilegiado para que eles assistissem. No retorno, levaria eles ate o hotel. Mas o senhor foi dispensado assim que eles nos viram!!

Fim da historia. Eles estavam rindo do homem, por ter sido “burro” de pagar tudo a eles, em nome de Alah, e que eles se deram muito bem, economizaram um monte, e comeram como reis. Aí começaram a caçoar da religiao, do islamismo, e falar de como essas pessoas podiam ser tao estupidas em acreditar em mitos e bobagens criadas como Deus, só para controlar o povo, e teceu toda aquela cartilha de sempre de argumentos que os ateus mais jovens usam.  É tudo jogo de poder, invenção, e as traduçoes, etc. Que lá na França, onde o povo é mais escolarizado e educado, isso ja nao existe mais. Nem passou pela cabeça daquelas topeiras perguntar a nós qual era a nossa crença antes de sair desconsiderando o tal homem para gente.

Enfim, era difícil que aqueles dois mundos tao distantes compreendessem o que estava acontecendo ali. O senhor até agora deve estar se perguntando o que ele fez de errado, para ter sido dispensado daquela forma. De um lado um homem que fazia aquil0 por Deus num ato de dever, como ele mesmo disse, do outro o casal que olhava aquilo como uma vantagem economica em nome de algo sem sentido, pois o objetivo do ato do homem que era agradar a Deus nao havia neles, e muito menos o senso de dever, ja que eles vinham dos países da Liberdade de Escolha – do quero ou nao quero, nao do devo ou nao devo.

Enfim, nós nos revoltamos!! Todos nós da mesa queríamos matá-los por falar daquele jeito do pobre senhor, e por todas os absurdos que tinhamos ouvido ao longo dos encontros que tivemos com eles. Eles perceberam a nossa cara de indignação, e perguntaram ao Gui, ” voce nao concorda?” Porque eles falavam usando uma linguagem corporal tentando persuadir que concordassemos com aquilo, e nós fazíamos uma cara de indignados, que eles nao entendiam o porquê. Será que a gente tambem era burro e achava aquilo correto? Será que no Brasil o povo é tao ignorante assim?

O Gui então sabiamente disse: “quando a gente voltou da nossa primeira viagem, nos fizemos um vídeo para dividir com as pessoas o que tinhamos visto e vivido, e começamos o vídeo assim: Deixe seu emprego, abandone seus pertences, se dispeça dos seus familiares e amigos, Esqueca Tudo o que voce aprendeu e o mundo será seu.”

E seguiu: “Pelo jeito voces deixaram o emprego…, seguiram toda a cartilha do mochileiro (guardar dinheiro, sair do emprego, etc.), mas esqueceram do mais importante. Voces nunca compreenderão nada, se voces nao colocarem a França um pouco suspensa para olharem o mundo…”

O casal se calou, assim como nós todos, rendendo um momento emocionante de reflexao para todos que estavam ali naquela mesa, naquela noite quente do dia 02 de setembro de 2011, a ultima do Paquistao… Uma bela despedida!

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8 comentários em “Dois mundos!

  1. Oi Bianca!
    Também fiquei revoltada com o casal ao ler o texto. Realmente, é um desperdício de tempo e dinheiro sair para “ver” o mundo sem deixar pra trás a visão que já tínhamos criado sobre os lugares. Torço pra que o homem do Paquistão, em nome de Alah, não deixe de ser hospitaleiro depois da infeliz experiência de conhecer este casal francês.
    Continue contando suas experiências!!!
    Adoro ler suas histórias…
    Abraços

    • Oi Eliceli!!!

      Voce falou muito bem, pegou no ponto certo, eu tambem torço que esse homem, assim como os franceses fizeram, nao generalize pensando o que muitos pensam dos ocidentais: frios, estranhos e desconfiados.
      Um grande beijo

  2. Complicado sair viajar sem sair de si mesmo, ou seja, de seu olhar restrito ao espaço que percebia … Não para perder-se, mas para ampliar seu mundo interno com um novo olhar para as coisas que certamente não existiam até o instante de serem percebidas…Neste movimento mental produzido pelo contato com o inesperado é que surgem as mais profundas aprendizagens…
    O casal frances vai chegar lá…

  3. Isso me fez pensar na Copa q iremos sediar… vai ter muito brasileiro hospitaleiro q vai tratar o turista como ‘rei’ e não vai ser reconhecido.
    Mas o importante já foi dito : não vamos mudar nosso jeito de ser por causa de gente assim, eles q são os ignorantes 😉

  4. Essa é minha maior preocupação para o momento de pegar a estrada.
    Não quero nunca ser como esses franceses. Quero ver o mundo como ele é, respeitá-lo por isso e aprender/absorver tudo que eu puder.
    Não me vejo assim, mas fica aquela insegurança dos preconceitos enraizados. Não me acredito conservador, mas a gente nunca se acha até se deparar com a situação real.
    Enfim, acho que o primeiro passo é justamente ler textos como o seu e se analisar a cada situação do dia a dia. O aprendizado vem com o tempo.
    Ainda tenho quase um ano para por esse sonho em prática. Até lá vou viajando pelo sonho de outros.

    • Oi Thiago,

      Não se preocupe que a gente perde a ignorância na estrada. Se você tiver o coração aberto para aprender você escutará e observará as coisas antes de tomar uma atitude como a dos franceses. O problema deles não era ser conservador (eles não eram nada conservadores por sinal), o problema deles era opinar sobre o que não se sabe. O conhecimento que eles tinham de islamismo ou de religião era de prateleira, coisa que qualquer ocidental amante da modernidade diria, um discurso pronto. Mas quando nós tentamos mostrar outros aspectos, eles não ouviram. Se a gente souber que na maior parte das vezes temos opiniões formadas sobre as coisas com pouco embasamento, isso já nos dá humildade para aprender. Eu só percebi o quão ignorante sou, viajando. Desejo que seu sonho se realize!!

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