Delhi!

Apesar de todo barulho de Delhi, existem muitos lugares tranquilos para ficar. Nesse sentido a escolha pela região dos refugiados tibetanos foi perfeita. Silenciosa, pouco movimento de pessoas e carros, e hotel limpo e barato. Mas eu ainda me sentia mal do estomago desde Leh, e não foi fácil os primeiros dias.

Nas ruas.

Nas ruas.

Dia seguinte quis fazer uma massagem ayurvédica que há dias vinha pensando, mas o folder tornou o lugar muito mais interessante do que era. Saí cheia de óleo dos pés a cabeça e como estávamos longe do hotel, não tinha saída, tive que passar o dia daquele jeito.

Caminhando pelo centro percebi que os preços tinham aumentado. A Índia de 2010 era muito mais barata. Saindo do “restaurante” que almoçamos, vimos uma criança muito machucada, de cabeça baixa numa calçada, parecia ter uns 12 anos, tinha um olhar profundamente triste, e estava com a metade da sua bochecha rasgada como que por uma mordida. Com certeza era moradora de rua. Doía olhar para ela. Alguns indianos trouxeram comida para ajudá-la e ela não conseguia nem esboçar um sorriso, nem levantar a cabeça. Mas comia, com um ar não de prazer, mas de automatismo. A sensação que me passou é que ela vinha sofrendo intensos maus-tratos. O machucado no rosto dela era chocante. E a percepção de que algo extremamente injusto estava acontecendo ali, me tirou a paz. Tinha vontade de levá-la dali. Me senti muito impotente e estranha por não poder fazer nada por ela. Fiquei com aquela criança por dias e dias no meu coração.

Depois de passearmos bastante, mostramos alguns lugares especiais a Jami, e voltamos ao hotel para tomar um banho e ir ao cinema. Tivemos a sorte de ver um filme belíssimo, chamado Bol, recheado de dramas humanos típicos da região, sem final feliz. O casal romântico do filme (que longe de ser o tema principal, apenas mais um dos diversos temas levantados pelo filme), nunca se beijavam, só dançavam e se aproximavam, se insinuando um para o outro. Acho lindo esse romantismo antigo dos filmes de Bollywood. O filme durou pouco mais de 3 horas, com intervalo no meio com direito a pessoas lhe oferecendo comidas e bebidas. Voltei maravilhada com o filme, com as cenas, paisagens e música.

Mas ao voltarmos para casa mais uma outra cena me chocou. Centenas de rikishas (bicicletas-táxi) parados nas gramas, com seus motoristas dormindo em cima, todos tortos, de qualquer jeito. Depois de um dia de trabalho imenso, sobre duas rodas, levando pesos para lá e para cá a troco de centavos, naquelas temperaturas altíssimas, muitas vezes sendo explorados e mau tratados pelos seus clientes, numa competição desumana entre os outros motoristas de rikishas, no final do dia aqueles homens ainda dormiam na rua porque não valia a pena voltar para casa, talvez só no fim de semana para reencontrar suas famílias…

Eu chorei copiosamente vendo esta cena. Era um mar de gente. Uma mar!! Um grande mar!! É de matar imaginar a luta pelo pão de cada dia dessas pessoas. Verdadeiros heróis do nosso tempo!

Os indianos são sem dúvida um dos povos mais interessantes que tivemos o prazer de conhecer, seja por sua riqueza cultural e espiritual, passando pela luta diária de trabalho no meio daquela multidão de pessoas, quanto pelo jeito único e marcante que só o indiano tem.

Nos templos.

Nos templos.

Nos camelôs de muitos países que visitamos, sempre encontramos alguma camiseta que representa algo típico da cultura local, ou uma característica marcante do povo. Passando por uma loja, um vendedor oferecia em alto e bom tom mais uma dessas camisetas, agora com o seguinte escrito sobre os indianos: Full power, 24 hours and No shower!!!

Sem dúvida é um povo incansável e extremamente forte!

Anúncios

Um olhar hindu sobre os ocidentais.

Em Amristar, na volta do show das fronteiras Índia e Paquistão, eu e Jami pegamos um táxi comunitário com alguns locais. Na minha frente sentava um casal jovem de indianos, pais de duas meninas, ao meu lado direito um senhor indiano de uns 60 anos de idade, e esquerdo, um jornalista russo de uns 40 anos. Todos nós começamos a conversar e a pergunta tradicional dos hindus logo foi feita “porque vocês vêm para Índia?”.

Show das fronteiras.

Show das fronteiras.

O casal!

O casal!

Começamos com aquela resposta previsível e impessoal de “para conhecer uma cultura diferente e aprender novos conhecimentos”. Mas aqueles indianos eram indianos clássicos – diretos, especulativos e sinceros. O senhor emendou: “Conhecer o quê? Falta alguma coisa no país de vocês que gostariam de encontrar aqui?”. E ali uma conversa valiosíssima começou… Essa conversa falou da crise de valores no Ocidente atual, porque naquela altura, eu branca e com traços europeus, não importava se eu fosse do Brasil ou o russo da Rússia, nós éramos Ocidentais.

O indiano nos contou a seguinte história. – “Uma vez conheci um turista americano na rua e começamos a conversar. Como ele estava na minha terra, e para nós hospedes são enviados de Deus, procuramos sempre receber muito bem. Depois de um tempo de conversa, convidei-o para ficar na minha casa, e tratei-o como um filho: não medi nada, nem custos, nem vantagens, nem desvantagens. Minha vida pessoal ficou em segundo plano naquele período, pois meu foco era sua presença e tornar seu tempo conosco o mais acolhedor e confortável possível. Ao final de pouco mais de um mês ele foi embora, e tinha certeza de ter feito um grande amigo. Muito fechado no início, mas aos poucos foi me deixando conhecer seu coração. Mantivemos contato e uns meses depois vi na internet uma máquina fotográfica, e escrevi um e-mail pedindo se ele poderia comprar a máquina para mim e me enviar. Logo em seguida recebo a resposta:  – “claro, segue abaixo minha conta e o valor da máquina para você depositar para que eu possa comprar.” –  “Fiquei estarrecido.”

Ele perguntou então a nós: – Porque vocês Ocidentais são assim? Eu e o Russo respondemos: -” assim como?”  Ele disse: – “frios, materialistas?” Não importa o valor da máquina fotográfica, eu não calculei quanto gastei para alimentá-lo e entretê-lo, sei que não deixei ele mexer no bolso enquanto esteve aqui, porque para mim é assim que se trata um hóspede. O valor está na relação, não no custo que ela vai me dar. Sei que uma máquina custa caro, mas a que escolhi era simplória.  Sei que foi um caso isolado, mas sempre que converso com ‘vocês’ tenho a impressão de que o coração de vocês está distante. Vocês prezam em vir ao nosso país para tirar fotos de nossos templos, não para rezar, convivem com a gente para tirar foto da cultura “exótica” e compartilhar em redes sociais, seguem um roteiro inflexível de coisas para fazer e ver, e reservam pouco tempo para pensar e conviver com a gente. Alguns também vêm aqui buscando vida espiritual, mas compreendem muito pouco da nossa religião, ou o que acontece em muitos casos, escolhem o que lhes interessa e dizem que são espiritualizados. Como assim?  Não são hindus, nem espiritualizados. São eles mesmos. Seguem os seus egos e chamam isso de seguir a Deus”.

Logo o casal hindu se intrometeu e a esposa disse: – ” Ele tem razão. E vocês sempre criticam o nosso sistema de castas sem compreendê-lo, só enxergam o aspecto social e discriminatório, mas não compreendem o aspecto espiritual. Nós só podemos casar com alguém que nosso pai escolheu, é verdade, mas confiamos em nossos pais. Porque eles escolheriam uma pessoa ruim para os seus próprios filhos? Depois vamos ao Guru, que faz nosso mapa astral, e cruza nossas características de personalidade e verifica se nossa união nos tornará pessoas melhores, ou se o jeito de ser de um é compatível com o do outro. Quando o Guru e meus pais encontram uma pessoa, casamos. Às vezes demoramos meses para achar uma pessoa boa. Muitas vezes não amamos inicialmente nosso marido. Quando conheci meu marido, por exemplo, não o amava. Mas com o tempo, passei a amá-lo. Para nós é ainda mais difícil entender vocês, pois vocês vêm dos países liberais, mas se separam o tempo todo! Vocês têm liberdade sexual, podem namorar e só depois casar, ou morar juntos ainda, uns escolhem nem ter filhos para ter mais liberdade, e mesmo assim vocês se separam. Por quê? A meu ver, porque vocês estão (não sei por que razão) incapazes de compreender o amor, vocês só querem a parte interessante da história, de todas as histórias, e por isso o coração de vocês está assim.

* Essa conversa terminou em muitas confissoes de todos os lados e abraços, risos. O russo também abriu seu coração, e discutimos muito nossas vidas privadas, assim como a crise de valores e de sentido no Ocidente, que o russo também sente em sua terra.

Todos!!!

Todos!!!

Leh – o Tibet da India!

Negociamos no centro um taxi comunitário que sairia bem cedinho no dia seguinte para Leh, nosso próximo destino. A Jami estranhou muito nossa negociação. Fomos ao centro, encontramos um grupo de taxistas que faziam esse trajeto, perguntamos o valor, negociamos e combinamos o horário dele passar nos buscar dali dois dias. A Jami perguntava: ” mas vocês confiam que ele irá nos buscar?” e a gente dava rizada, porque o fio no bigode aqui funciona muito bem. Viajamos o mundo assim.

Dois dias depois acordamos cedo e deixamos o nosso barco-casa e voltamos a terra firme esperar nosso táxi. Ali aguardando, os tres estavam tristes olhando para o gloriosíssimo Lago Dhaal sabendo que era hora da despedida. Uns 30 minutos depois, chegou nosso táxi com cinco passageiros.

O lago Dhal coberto...

O lago Dhal coberto…

No caminho fui percebendo que o motorista era muito barbeiro, e a estrada muito ruim, sem acostamento e com uns penhascos absurdos, que se despencássemos de lá, nao haveria chance nenhuma de sobrevivencia. Começei a ficar nervosa e pedi para ele prestar mais atenção. O Gui ficou um pouco com vergonha de mim. Mas eu fico muito indignada quando vejo descuido com a vida.

Aos poucos a estrada foi melhorando e não havia mais penhascos. Caso capotássemos tínhamos grandes chances de sair com vida, isso foi me tranquilizando… No caminho fomos passando por cidadezinhas nas montanhas absolutamente paradisíacas, inesplicavelmente lindas, que moraria em cada uma delas agora. A região é simplesmente espetacular e ainda não havíamos chegado em Leh.

Cidadezinhas no caminho.

Cidadezinhas no caminho.

Só chegamos a noite, saímos 06h00 de Srinagar e colocamos o pé em nossa pousada as 23h30, estavamos mortos e mau humorados. Já não conversávamos, latíamos.

No outro dia quando acordamos fiquei apaixonada polo lugar, muito mais parecido com o Tibet do que com a India, parece que voce está em solo budista. E de certo modo está, se não fosse os chatos dos kashimires tentando vender alguma coisa, enquanto os indianos tibetanos, nem te atendiam quando voce entrava nas lojas, precisando insistir para comprar…

Leh é incrível, por tudo. Pela cidadezinha, pelas montanhas, pelo clima, pelo astral do lugar.Já está um pouco turistico demais, mas não perde o charme do lugar.

Nas ruas.

Nas ruas.

Vendedora de tomates.

Vendedora de tomates.

Nas ruas.

Nas ruas.

Fizemos um trekking um dia pelas montanhas rochosas aos arredores de Leh, e eu passei um pouco mal pela altura. Dormimos na casa de uma família no meio do nada, em uma vila paradisíaca, inesquecível.

Foi muito bom conhecer e conviver com a família que nos hospedou, seus costumes, sua alimentação, suas rezas, sua vida. A Jami ficou maravilhada. Eu também. Me emocionei várias vezes.

A caminho!

A caminho!

Na vila.

Na vila.

A casa onde nos hospedamos.

A casa onde nos hospedamos.

No topo da vila.

No topo da vila.

Foi maravilhoso voltar pelas montanhas, se não fosse minha dor por mais uma daquelas infecções alimentares que de vez em quando acabo pegando na viagem. Mas que valem cada buscopan pela aprendizagem.

Depois de alguns dias na região, voltamos de avião para Delhi, pois a estrada que ia até Manali já estava se fechando, e não conseguiríamos chegar em Delhi por terra.

De Leh para Delhi foi como chegar do silencio para o barulho, mas como tínhamos escolhido um hotel longe do centro, em um bairro de refugiados tibetanos, nos sentimos em casa. E a Jami continuava emocionada. Agora com Delhi!

Kashimira!

Os dias seguintes sobre o lago Dhal foram especiais e cheios de surpresas. O filho do Sr. Gulmon, que surgiu em nossa frente quando descemos de nosso táxi comunitário após 16 horas de viagem, e que com muita insistencia nos convenceu a ficar no barco de seu pai, com o passar dos dias se tornou um amigo…

Em nosso barco-casa.

Em nosso barco-casa.

Sr. Gulmon, dono do barco.

Sr. Gulmon, dono do barco.

Dentro do barco.

Dentro do barco.

Passeamos com ele por muitos lugares, almoçamos em restaurantes típicos, fomos ao centro, as mesquitas, aos templos, e nos perdemos olhando para a beleza de Srinagar, e principalmete, para as pessoas que surgiam para conversar.

Jami, nosso amigo e Gui

Jami, nosso amigo e Gui

Arquitetura típica.

Arquitetura típica.

Nas ruas.

Nas ruas.

Comidas de rua.

Comidas de rua.

Mesquita.

Mesquita.

Caminhar pelo centro de Srinagar e arredores tem uma atmosfera especial. É diferente de toda a India. Além de ser mais limpa e fresca (por ser região montanhosa), a cidade é muito bela. Há um toque muito mais muçulmano que hindu, já que estes são a maioria por ali.

Lago Dhal, não é incrível?

Lago Dhal, não é incrível?

Os passeios sobre o lago eram os melhores, e sempre tinha algo surpreendente para conhecer e ver na comunidade sobre palafitas que ali vive. O mais especial foi um dia que fomos convidados para um casamento muçulmano que ocorria ao lado de nosso barco. Foram dois dias de preparação e tres de festas. Mulheres para um lado, cantando e arrumando a noiva, homens para o outro matando carneiros e preparando a comida.

Uma tenda foi montada para receber todos os convidados. Do outro lado do lago estava a festa da família e amigos do noivo, já que primeiro eles festejavam lá, para depois os noivos se encontrarem do lado de cá, no ultimo dia, na tenda da esposa, deixando todo um gostinho de suspense. Acabamos sendo tiradas para dançar, e foi divertido, eu a Jami no meio da tenda. O dançarino era um homem que dançava meio sexy e de forma engraçada, e os convidados riam muito.

Preparativos.

Preparativos.

Mulheres cantando com a noiva durante os preparativos.

Mulheres cantando com a noiva durante os preparativos.

Mais preparativos.

Mais preparativos.

Nos esbaldamos com as opções de kashimiras no centro, e achamos um lugar barato para comprar uns chales direto da fabrica, o que trouxe alegria para nossa alma feminina. Graças ao nosso amigo.

Depois de alguns dias em Srinagar, com o coração apertado fomos embora. Nosso próximo destino era Leh. Sem dúvida a Kashimira foi um dos lugares mais incríveis que conheci na India.

Chegada da Jami!

Mal o João e o Marco saíram e recebemos nossa segunda ilustre visita – minha querida amiga Jami. Conheci a Jami em 2006 numa pós-graduação e desde lá nos tornamos grandes amigas. A Jami é uma daquelas amigas meio superdotadas que tenho, ao lado da Malu, talentosíssima, 10 em tudo e que tem um caráter de tirar o chapéu.

Quando voltamos da nossa primeira viagem a Jami nos recebeu em sua casa com uma comida mexicana deliciosa, e nos acolheu muito bem, quando eu e o Gui nos sentíamos “um pouco” (imagina!) perdidos. Nesse dia, conversamos muito sobre a viagem e as aprendizagens. A Jami foi uma das poucas pessoas que conversamos mais profundamente sobre a viagem, e ali, maravilhada com o nosso jeito pós-viagem, ela disse que se encontraria com a gente, e como vocês já podem supor, se a Jami diz, está dito. Combinamos que na nossa próxima viagem ela nos encontraria em alguma parte, e decidimos juntos que seria a Índia. Ela delirou!

Quando a Jami chegou, pouco mais de 24 horas depois que o Jony e o Marco foram embora, nós estávamos exaustos, pois o Paquistão foi uma viagem difícil em termos de transporte (claro não para o Gui, mas para mim). Muitas curvas, estradas esburacadas e como tínhamos o visto somente de 30 dias e tínhamos que chegar a Délhi a tempo dos meus irmãos pegarem o voo para o Brasil, tivemos que apressar o passo ao longo do Paquistão.

Como a Jami estava com um fuso forte na cabeça, já que o voo dela atrasou e ela encontrava-se há 36 horas na função para chegar até a Índia, aproveitamos todos para descansar. Logo que a buscamos no aeroporto de autoricksha (é claro!), ela olhava para fora e dizia: “caramba, isso parece um filme, estou encantada, obrigada por me receberem com vocês”. E seus olhos brilhavam vendo a Índia, emocionada. Ali percebemos que a Jami tinha alma de viajante, porque ao invés de ficar olhando para as sujeiras das ruas, e fazendo comentário de como eles vivem assim e blábláblá, ela ia logo se maravilhando com a experiência única que alguém pode sentir, quando pela primeira vez, experimenta estar “num outro mundo”. E para quem tem mais sensibilidade, isso se torna tão maior que a sujeira, que não dá para ficar se limitando em olhar para o chão.

Conversamos bastante e a Jami apagou no quarto do hotel. Batemos na sua porta para acordá-la mais perto do final da tarde e, fomos ao Golden Temple, que é claro, arrebentou!! A Jami estava perplexa com a beleza dos Sikis (devotos da “religião” sikki), que coitados, direto são confundidos com muçulmanos por causa do turbante no Ocidente, e muitas vezes matam os inofensivos Sikis achando que são terroristas. Quanta ignorância!

A beleza do templo a noite.

A beleza do templo a noite.

A vida dentro do templo.

A vida dentro do templo.

De Amristar pegamos um trem para Jamu, e ficamos apenas um dia nesta cidade feia e caótica, cheia de templos hindus, mas não valia muito a pena. Dormimos num hotel estranho, e a noite houve muitos trovoes, e eu senti bastante medo, aquela cidade estava bem esquisita. Os templos da cidade estavam sendo meio alvo de uns muçulmanos extremistas, e estávamos um pouco apreensivos de estar ali. A Jami disse que se assustou também com a cidade e dormiu mal.

Pegando o trem!

Pegando o trem!

No trem.

No trem.

Nossas samusas no trem.

No dia seguinte, logo cedo, pegamos um share-taxi e seguimos para Kashimira. Nossos companheiros de carro eram interessantíssimos (um sikki, um muçulmano e dois quatro hindus), e dividimos com eles todas as nossas comidas. Por sinal, no Oriente não tem essa do MEU pacote de bolacha, todo mundo oferece tudo ao vizinho e, se você oferecer, também ninguém fará cerimonia (como muitas vezes fazemos com desconhecidos), eles aceitarão na hora e comerão algumas bolachas…

Nesse dia, esperando no táxi, enquanto tomávamos um chay numa rua decadente, surgiu uma vaca com a mandíbula quebrada, a mandíbula dela estava solta, a vaca era deficiente. Ela caminhava arrastando aquela mandíbula presa a um feixe de pele. Eu e a Jami ficamos chocadas olhando para a vaca. Na Índia já vimos muitas coisas, mas vaca com a mandíbula pendurada era realmente uma novidade. Esse costume de sacrificar o animal que nós temos, não precisa nem dizer que não acontece em terra hindu.

A cidade.

A cidade.

Nossos companheiros do taxi comunitario.

No caminho.

No caminho.

Quando chegamos a Kashimira depois de 16 horas de viagem, ficamos chocados com a beleza do lado Dhal e seus barcos-casas. Fomos logo pegando um barco-casa de um cara muito insistente, porque estava num preço muito bom, e apesar do nosso barco ser num lugar lindo, e ser muito aconchegante e com cara de casa de vó, era um dos mais pobrinhos do Lago.

Nosso barco-casa!

Nosso barco-casa!

Largamos as malas e vimos o sol se pôr ao som das inúmeras mesquitas e de todo comércio que acontece sob o lago. Tem farmácia, mercado, transportes, vendedores… tudo sob palafitas. Ficamos maravilhados com aquela experiência mágica de estar no lago ao som estridente de todas as mesquitas, vendo todos aqueles vendedores ambulantes passando com suas canoas, e os locais remando até em casa. Acho que foi um dos lugares mais incríveis de toda a viagem.

Lago Dhal.

Lago Dhal.

A Jami estava emocionada e nós também! Ninguém mais queria sair mais daquela “sacada” do barco… Ao fim do som das mesquitas e do silencio da oração em comunidade, o Sr. Gulmon serviu nossa comida bem caseira e fresca preparada por ele. Conversamos bastante sobre a vida, a viagem… e fomos dormir. Antes de dormir, tomamos um banho, tinha até banheira no quarto, mas a água era meio verde e fedida, mas nada que não pudesse fazer nos sentirmos limpinhas depois, e dormir maravilhadas com a experiência de estar sob o gloriosíssimo Lago Dhal.

A vida no lago que contemplávamos da sacada do nosso barco-casa.

A vida no lago que contemplávamos da sacada do nosso barco-casa.

Marco e Jony!

Quando eu tinha 12 anos, um dia antes de começar as aulas, meu irmão mais velho que tinha ido viajar, não voltou para casa naquele domingo. Ele tinha 13 anos. O Marco 8 e o Joao 7. Um abismo se abriu na minha frente e a nossa casa virou um vale de lagrimas. Cada um sofreu da sua maneira. O Silvinho estudava na mesma escola que eu, o Marco e o Jony, ainda estavam na nossa ex-escola, que ia até o fim do primário. Eu e o Silvinho fazíamos tudo juntos, tínhamos os mesmos amigos, a mesma turma de inglês, os mesmos programas e praticávamos o mesmo esporte – o tênis. Ele por paixão, eu, pela turma. Quando o Silvinho se foi, eu fiquei muito sozinha. Como o Marco e o João eram crianças, não me passava pela cabeça contar com eles. A diferença de idade nessa época criava uma distancia natural entre nós. Eu não brincava mais, eles ainda viam desenhos. Quando eu saí de casa aos 17 anos para me preparar para o vestibular, o Marco tinha 14 e o Joao 12. Nessa época, quando a barreira da idade ia começar a se dissolver, eu estava saindo e sabia que não voltaria mais. Não combinava voltar para casa depois,  sabia que uma vez dado um passo em uma nova direção, o estado anterior se tornaria impossível para mim. As coisas sempre foram assim comigo… Os feriados começaram a chegar, e cada vez que eu visitava a família, o Jony e o Marco estavam maiores. Parecia mágica, eles cresciam centímetros de um feriado para o outro. Num desses feriados, fui com uma amiga na “boate”, como chamávamos a night do Clube Recreativo Chapecoense, e eu bebi um pouco além da conta para quem voltaria dirigindo, e pedi ao Marco para voltar pilotando. Ele ainda era de menor. Lembro que naquele dia pensei “nossa já estou encontrando meu irmão na boate, que legaaaal!!!” Por fim, o Marco acabou quase atropelando um ciclista, e derrubando um muro de uma casa uns 100 metros depois. Quando tentamos sair do lugar, não haviam mais pneus para isso, e em poucos minutos estávamos cercados pela população local enraivecida, o ciclista sobrevivente e a polícia. Eu havia esquecido de perguntar se o Marco estava em condições de dirigir rssrs… Enfim, pelas diferenças de idade e minha saída relativamente cedo de casa, não foi possível conviver muito com eles, pelo menos o quanto eu gostaria, mesmo que há alguns anos já conseguíamos conversar como adultos sem eles ficarem me chamando de “Bianca Potranca” só porque rima. Sempre fiquei com a sensação de “eu não pude acompanhar de perto a vida deles como gostaria!!!” Graças a insistência de minha mãe e a vontade deles de viajar, eles se organizaram e vieram nos encontrar. Minha mãe falava que seria uma grande oportunidade de convivência mais intensa entre nós e que eu deveria aproveitar para “conhecê-los” muito mais. E eu não tinha noção do quanto aquelas palavras eram verdadeiras. Tinha certo receio, porque eles fariam com a gente a Karakoran, que é uma estrada que corta todo o norte do Paquistão, atravessando os Himalaias. Então, eu sabia que a viagem seria infinitamente roots, as estradas ruins e cheias de curvas. Para quem viajaria por terra o tempo todo, isso seria um desafio! A única ideia que eu fazia deles quanto a companheiros de viagem era que para o Marco seria muito difícil, pois lembrava que ele não gostava do vinagre do pai (um vinagre que ele fazia na pipa, espetacular!), o que criava certa distância entre ele e os demais membros da família, e adorava couve-flor cozida, então automaticamente pensava que ele não aguentaria a comida. O Joao sempre foi um apaixonado pelo vinagre do Pai, e comia de tuuudo, assim como eu, então tinha certeza que com o João não teríamos problemas. Bem que uma amiga minha tinha falado “a gente nunca atualiza a imagem que temos da família…” Até na Bíblia Jesus diz que o profeta nunca é reconhecido na sua própria terra. E é verdade, você pode se tornar o sucesso que for, que a tua família continuará se lembrando daquela tua característica infame de quando você tinha não sei quantos anos. Então eu falava para o Marco muito surpresa: “ você vai experimentar leite de égua (bebida típica do Quirguistão)? Comoooo? Você só comia couve-flor…?” Ele me dizia: “ Bianca, isso já faz tanto tempo…” “Mas Marco é leite de ÉGUA!!” “Sim, Bianca mas deixa eu experimentar, tem que interagir com a cultura local!” “ O quê (eu dizia)?” “ Bianca eu como de tudo!” “Até molho de tomate Marco?” “ Óbvio, da onde tu tirou que eu não como molho de tomate?” “ Do fato de você amar couve-flor só com água e sal…” “ Mas eu não amo couve-flor…” “Não, como assim? Não era tua comida favorita?” “ O quê? Da onde tu tirou isso?” Enquanto o João acabava de deixar o prato de “ravióli de carneiro” porque não gostou do gosto do carneiro… Eu não entendia mais nada! O João comia até pedra! Como assiiiim? Não posso contar às surpresas que tive com o João, porque ele nunca gostou que falassem da vida dele, para quem entende um pouco de astrologia ele é escorpião, signo que normalmente odeia que invadam sua privacidade. Enfim, ia percebendo que eu não havia atualizado os meus irmãos e nem os conhecia tanto assim como supunha. E eles dia a dia, iam me surpreendendo! Nosso primeiro passeio a cavalo no Quirguistão. Até hoje todo mundo que veio nos visitar – minhas mãe, os pais do Gui, irmãs, marido e filhos, por uma questão de idade e de crianças –, nunca pensamos em fazer a “nossa” viagem com eles, sempre colocávamos a nossa em stand-by até por uma questão de bom senso (com exceção do Quirguistão, que tirando os transportes, os pais do Gui dormiram em lugares roots pra caramba e nem reclamaram). Mas com os manos foi bem diferente, eles não tinham nenhuma barreira, nem de idade, nem de filhos, então falávamos para eles “se preparem”. Tinha muita dúvida se eles iriam gostar, pois no Paquistão os perrengues prometiam ser diários. E eles se mostraram excelentes companheiros de viagem, topavam absolutamente tuuuudo, algumas vezes reclamando, com cara de “mas eles só podem estar de sacanagem com a gente”, mas seguiam em frente e no final, já nem se irritavam com os barulhos das buzinas e sujeiras nas ruas, e entendiam porquê tínhamos levado eles ali. Fizeram muito sucesso com os locais. Normalmente esses lugares são pouco visitados, então vem pouco turista e todo mundo quer te conhecer. E como os turistas europeus são a maioria esmagadora que vem para cá, não tem como comparar com um brasileiro quando resolve ser bem simpático, então eles só faltavam dar autógrafos.

Os Manos com o Gui e escolta no Vale Kalash no Paquistao!!!

O Marco era o alvo, ele era o mais branco de nós três, com os cabelos claros e barba ruiva, parecia o mais internacional. Um dia conhecemos um casal de franceses mega ignorantes, que ficavam brincando que nós no Brasil deveríamos comer insetos de tão precário que eles imaginavam ser a situação do Brasil, e o Marco largou aquela célebre “e vocês que não tomam banho? Uma vez fui numa boate em Paris, estava eu e um amigo empolgados falando com duas francesinhas, quando elas levantaram o braço, veio aquele cheirão, e nos saímos correndo…” Os franceses murcharam e a gente dava rizada.  Depois, não largavam mais os dois, era “Marco Jony” para cá e pra lá. Depois de 50 dias juntos, os Manos foram. Se despediram de nós no hotel e foram sozinhos para a estação de trem em direção a Agra, para ver o Taj Mahal e seguir para o Brasil. Quando vi os dois de costas, com suas respectivas mochilas, saindo naquela rua escura e suja, eu comecei a chorar. Parecia que eram os meus filhos partindo. Como eles cresceram e ficaram altos! Os 50 dias tinham passado e lá estávamos, eu e Gui, sozinhos novamente! Essas idas e vindas, chegadas e despedidas da vida sempre me chamaram muito atenção desde pequena. Como a vida é essa sucessão de acontecimentos, épocas, períodos, momentos, sempre com fim… Jony e Marco, muito obrigada pela companhia, pelos momentos inesquecíveis, conversas, apoio moral, risadas, e principalmente parceria!!! Hoje conheço muito mais vocês rsrs!  Vocês são demais!! Amo vocês pra caramba! Obrigada mãe!

Chegada na Índia

De manhã cedo fizemos as malas e pegamos um táxi até a fronteira Paquistão – Índia. Deixei Lahore com o coração na mão, pois desde o Iran não gostava tanto de um país como gostei do Paquistão. Talvez por tudo o que esperava do Paquistão, tudo o que já tinha escutado, e a realidade que encontrei. Foi uma grande surpresa!

O Paquistão mexeu comigo, por seu povo, sua cultura, suas vilas intocadas, e por todo o medo que eu tinha de visita-lo. Chegar a Índia naquelas alturas, sabendo que estaríamos agora entrando em nosso último país da viagem, os Manos indo embora dali poucos dias, a Jami (amiga minha) chegando, me dava conta como a segunda viagem estava chegando ao fim, e que de agora em diante, não teria terceira tão cedo. Isso me deixou reflexiva!

Logo que começamos a procurar hotel em Amristar, comecei a me perguntar porque mesmo gostava da Índia, porque insistia em dizer que era um dos meus países preferidos, se o barulho ensurdecedor dos auto-rikshas eram insuportáveis, o transito era um caos, e tudo não tinha ordem e nem limpeza. O Gui também ficou com a mesma sensação e o João e o Marco me olhavam com uma cara de porque eles falam tão bem da Índia?

Logo achamos um hotel melhorzinho, que não passou pela minha cabeça que ficava bem no meio do caos, perto do Golden Temple, e de noite queria me arrancar os cabelos, não consegui dormir nada em função do barulho. E dormir mal é de matar! No dia seguinte nos mudamos para um “hotel paraíso” bem longe do centro e mais caro, claro.

Esperamos o entardecer para irmos todos juntos ao Golden Temple, o vaticano dos Sikis, uma religião relativamente nova da Índia, quando comparada ao Hinduísmo. Tem por volta de quase 600 anos e se diz mais como uma orientação para viver uma vida melhor, mais digna e generosa, do que propriamente uma religião que tem como objetivo a salvação da alma. O Sikismo já não é assim, fala mais de um modo de vida, do que alguma garantia pós-vida. Imagino que nos textos mais sagrados isso deva aparecer, mas para os fiéis leigos é isso que é conhecido.

No final do dia quando chegamos no glorioso Golden Temple, o João e o Marco não falavam, estavam estarrecidos diante da beleza do lugar, e mística da Índia. Os sáris coloridos, os turbantes coloridos na cabeça dos homens, a devoção das pessoas ao chegar, os mantras de fundo tocando ininterruptamente, as pessoas se purificando na “grande piscina” que tem na frente do templo, é uma visão incrível.

Entardecer!

Nós nem falávamos, ficamos todos em silencio experimentando a delicia que é ficar no templo. Todo barulho das buzinas e caos ficam lá fora, não se escuta nada, o chão é impecavelmente limpo, e as pessoas sentam ao redor da “piscina” e ali ficam por horas observando e simplesmente estando ali. Em algumas horas começam as rezas nos microfones e os devotos circulam ao redor da piscina rezando. Ficamos horas largados até quando bateu a fome e fomos jantar. O jantar é gratuito no templo, com direito a chay, e uma comida deliciosa. Se você quiser dar alguma doação, tem alguns lugares disponíveis para deixar dinheiro. Mas ninguém vai lhe pedir.

Os peregrinos!

A noite!

De lá seguimos para o hotel e nos despedimos do Marco e do Jony, que estavam seguindo para Agra para ver o Taj Mahal, de lá eles dormiriam em Delhi e seguiriam para o Brasil. Só com aquele período no templo, eles já ficaram maravilhados com a Índia, tristes que tinham que voltar. E já começaram a entender porque muitos quando vão à Índia descrevem sentimentos intensos de amor e ódio, e mesmo os que sentem isso sempre retornam, como nós. Os que sentem só ódio, saem assustados do país, e não querem nunca mais voltar. Vale a pena o esforço de passar da fase do susto, a beleza da Índia se abrirá para você!

Entre o Oriente e o Ocidente!

Quem acompanhou nossa viagem, sabe que a maior parte dela se deu no Oriente. Ate, quando chegamos na Europa no final da jornada, estivemos mais na Europa Oriental. Oriente e Ocidente sao termos que caem em desuso quando estamos no nosso dia a dia, mas lembramos muito deles quando viajamos.

No passado Oriente e Ocidente representavam mais que uma demarcacao geografica, representavam dois mundos distintos e ao mesmo tempo complementares, que viviam lado a lado, mesmo se as vezes um estivesse geograficamente para um ou para outro lado. Hoje eles estao se aproximando, mas tivemos a sorte de buscar lugares que essa diferenca ainda esta bem acentuada. Minha intencao ‘e falar um pouco destas diferencas que se revelam quando se est’a no Oriente. E ate responder porque nao concentramos nossa viagem no Ocidente.

As primeiras diferencas que se percebe ‘e do sistema de pensamento. Eles nao foram tao marcados como a gente com o periodo renascentista, a queda de Deus e todas as suas consequencias posteriores. Enquanto nos estivemos pensando nisso, muitos deles ainda pensavam em coisas muito mais basicas e imediatas como, por exemplo, garantir a sobrevivencia ou conseguir a independencia de algum pais Europeu.

Por isso, quando voce esta no Oriente – refiro-me aos paises subdesenvolvidos, a ultima coisa que voce ve ‘e infra-estrutura e organizacao. As coisas nao funcionam. Eles pecam no basico. Formar uma fila exige muito estudo para conseguir se concretizar. De outro lado, as tradicoes e a religiao estao presentes, sustentando todo o seu caos.

Quando eles nos encontram, nos veem como superiores, superiores em ordem e  materia. Tentam nos copiar como n’os sul americanos copiamos os Estados Unidos. Pois somos mais fortes em dinheiro e em poder que eles. E a lei do mais fraco buscar ser como o mais forte ‘e uma tendencia ontologica do ser humano. Se nao fosse assim, nao buscariamos Deus. Os indianos, por exemplo, quando estavamos na India, eles adoravam pegar meu oculos escuros e provar! Aquilo era especial para eles.

Ja no Ocidente, com a queda de Deus e o Imperio do Relativismo, onde tudo cabe a mim e a voce, o cristianismo foi enfraquecendo e enfraquecendo, principalmente com alguns abusos da igreja catolica. E o nosso homem hoje se orgulha de rechassa-la o tempo todo, generalizando fatos, como se a Igreja tivesse como unico objetivo na vida nos manipular, enganar e abusar de criancinhas. Eu fico horrorizada como perdemos o senso critico. Bom, e dai? No que nos tornamos fracos? No Sagrado! Jesus era nossso elo. E isso se acentua mais ainda quando subimos para os paises desenvolvidos da Europa.

Na India, olhava os turistas ocidentais fazendo o mesmo movimento que os indianos faziam com o meu oculos. Eles sao mais fortes em espirito, certo? E nesse ponto tentamos imita-los. Os turistas imitavam suas religioes num ponto quase ridiculo, como  o indiano ao provar o meu oculos que se olhava no reflexo do vidro do carro e tirava fotos fazendo pose. O turista ocidental nao ficava para tras.

Chegavam na India, especialmente em cidades com varios ashrams, e se fantasiavam em poucos dias. Passavam a usar varios colares de rudraksha, que é como usar um crucifixo no Ocidente. E depois a coisa so ia piorando, se fantasiavam de yogues, uns andavam quase ao estilo Adao e Eva segurando um pau para se apoiar exatamente como faziam os yogues e, claro, testas pintadas para ca e para la. Quando voce conversava com eles muito poucos sabiam o significado de cada um daqueles aderecos. Bem ao estilo de um homem material, comecando primeiro pelo externo, como se a roupa fosse te trazer iluminacao. Soube de alguns casos de turistas que tiveram que ser buscados pelos pais, pois piraram de vez.

No ashram do Ramana Maharish, um dos maiores santos hindus, uma das maiores provas do tratado Divino, muitos passavam os dias la, mas quando eu perguntava: “voce sabe quem foi o Ramana?” Nao, nao tive tempo ainda de ver, mas gosto muito da energia desse lugar.” Essa da energia para ca e para la é de matar!

Outra coisa que era “ engracado” eram os Ocidentais falando de como se tornar um Iluminado. Falavam da iluminacao como algo que se alcanca com um boa dose de determinacao, como passar numa prova de vestibular no Brasil de Medicina na Federal. Nao como uma forte inclinacao ao divino movimentado pelo proprio Divino, que so se concretiza em pouquissimas pessoas. Alem de ja pensarem em se tornar Iluminado como uma meta e nao no Sentido que move alguem a buscar a Iluminacao, que ‘e o maximo encontro possivel com a Divindade em tudo que existe. Outros ainda falavam do caminho da iluminacao como se estivessem formando um check-list, meditar tantas horas por dia, nao comer mais carne, respeitar a alimentacao ayurvedica, rezar, etc. Faltava so uma planilha de excel!

Nessas horas eu via a diferenca de sistema de pensamento. E como eram mundos tao distintos. Quando nos perguntam insistentemente porque nos nao viajamos mais pela Europa? Eu tenho vontade de responder: porque deveriamos ter viajado mais pela Europa?

Gosto muito da beleza da Europa, da limpeza das ruas, das vitrines das lojas, dos cafes, tortas e sorvetes e dos banheiros – esses especialmente, sao os melhores! A Arte? Tem muita arte hindu, arabe e persa de tirar o chapeu tambem. Mas quando decidimos fazer essa viagem, nao queriamos voltar mais descolados para o Brasil, com um corte de cabelo que ainda nao chegou, queriamos voltar melhores do que fomos! Melhores dentro, nao fora! E buscamos ir ate o mais forte hoje – forte em Espirito!

por tambemsai Postado em India

Pessoas!

Conhecer pessoas sempre foi uma das minhas grandes paixoes. Ao contrario de alguns, as pessoas de forma geral nao me irritam ou perturbam, nao roubam o meu tempo e nao me cansam. Sempre me alegro ao dividir alguma coisa com alguem ou simplesmente em ter o prazer de ouvi-las falar da vida e de si.

Durante os dias do ashram, tive a oportunidade de conhecer belas pessoas e dividir com elas momentos que estarao sempre comigo e nas minhas mais doces memorias da viagem.

Nao vou esquecer das longas conversas com a Marlinda no terraco, fumando escondido, olhando para as estrelas, e dividindo a alegria de ter viajado durante quase um ano pelo mundo. Das trocas sobre nossas descobertas espirituais; de falar da nova vida que se abriu pela experiencia da viagem; da volta para casa e de todo o significado que esta viagem proporcionou para cada uma.

Nao vou esquecer da suica que passeava todos os dias com seu cachorro de rua que havia adotado na Tailandia, ela estava sozinha no ashram ha dois meses. Ela era leve, firme e honesta. Tinha uma ligacao forte com a natureza, percebia mudancas sutis nas arvores e plantas, sem ser babona, era orientada por sua intuicao e sensacao das coisas. Ela passava paz e fortaleza. Tivemos momentos muito especiais, principalmente um dia que resolvemos tomar um lanche no Freedom Cafe, um lugar delicioso de frente para o Ganges e fomos de moto balancando as trancas pelo longo caminho ate a cidade.

Nao vou esquecer da italiana, tao doce e carinhosa, que na sua busca incansavel por compreender seu vazio, um dia ficou tao doente, que nao conseguiu levantar da cama, nem comer, nem abrir os olhos. Nestes dias sozinha, ela teve um grande contato com os seres divinos e dali em diante, resolveu cuidar de si. Foi para India passar 15 dias no ashram do Sai Baba e acabou morando no ashram por tres anos. La acabou se casando numa cerimonia hindu com um italiano e agora se preparava para voltar ‘a Roma. Nao vou esquecer de nos duas, sentadas sobre uma grande pedra, de frente para o Ganges, falando sobre o que de verdade importa nessa vida.

Nao vou esquecer da neo zelandeza de 26 anos, que tinha concluido a faculdade e estava viajando pelo mundo antes de comecar a trabalhar.  Ela tinha uma grande duvida se necessariamente precisaria entrar no sistema ou poderia ja comecar sua vida num trailler trabalhando com coisas bastante alternativas. Ela tinha uma linda humildade e muita vontade de descobrir a Verdade das coisas e se dirigir para o caminho certo. Uma bela garota!

Nao vou esquecer tambem, que dias antes de me encontrar com o Gui, estava tentando ver como iria para Delli e de ultima hora surgiu um ingles, que estava indo de taxi sozinho e me convidou para ir junto. Ele tinha quarenta e poucos anos, havia sido casado durante 20, tem duas filhas e fazia 3 meses que tinha se separado. Sua ultima viagem, havia sido uma volta ao mundo de combe com um amigo, durante dois anos, pouco antes de conhecer sua esposa. Durante os ultimos 20 anos, ele so fez uma viagem para uma cidade a uma hora de sua casa e trabalhou como um condenado. A vida passou! E como obra do destino eles se separaram e na semana seguinte ele foi para India pensar na vida. Comecou por longas semanas de meditacao num lindo monasterio na Tailandia. Seus tres meses estavam acabando e ao chegar em Delli, no dia seguinte, ele voltaria para casa. Que grande mundanca e que belo momento a vida estava proporcionando para ele. Falamos sem parar um segundo durante o caminho ate Delli, foi uma das pessoas mais genias que conheci durante toda a viagem.

Nao vou esquecer do Daniel, um ingles filho de mae viciada em cocaina, neto de um prisioneiro do Auchevitz. Era meu vizinho de quarto e quando falava parecia o Joao Pequeno do Cidade de Deus. Era traficante de drogas e usuario de cocaina em Londres, quando descobriu a yoga. Hoje seu objetivo ‘e nada mais do que se tornar um yogue e iluminado. Para isso faz varias horas de yoga por dia, cuida da alimentacao, jejua quase diariamente ate a noite, oferece toda sua comida a Deus e segue todas aquelas recomendacoes de yoga para limpeza do corpo. Como tinha que dividir banheiro com ele, sempre esperava muito, ate ele limpar seu nariz com um tubo, depois enfiar metros de pano no estomago para deixar tudo bem limpinho. Um dia, apos o jantar, alguns turistas perguntaram porque ele era tao maluco, se referindo ao jeito Joao Pequeno de falar e ele comecou a despencar a historia da  familia dele. Desde seus tres anos de idade sua mae ‘e dependente de heroina. Foi criado praticamente na rua. Hoje le Bagavaghita diariamente. Quando ele acabou de falar, as pessoas ficaram em silencio e eu disse olhando bem para ele: voce ‘e uma grande pessoa. Parabens! Acho que ninguem nunca tinha dito isso. Ele encheu os olhos de lagrimas, e sempre passava pelo meu quarto com doces cumprimentos…

Gostaria de oferecer um brinde a essas pessoas Marlinda, Nicola, Kyara, Nicci, Jaison e Daniel, e a todas as outras que conhecemos na viagem e que nao estao relatadas aqui!

* As fotos desse post vem qdo encontrarmos uma boa internet.

por tambemsai Postado em India

Vida de Ashram II!

Ao final dos 10 dias, o Gui chegou e aproveitou o ashram comigo durante mais quatro dias. Ele adorou! Aproveitamos para matar a saudades e passear na natureza. Quando chegou a hora de ir embora, pois haviamos comprado nossa passagem para a Jordania (nosso proximo destino ‘e fazer o Oriente Medio) nao queria ir embora de jeito nenhum.

Caminho de volta para o ashram ao final das meditacoes!

Fim de tarde!

Fim das contas, decidimos mudar a passagem e o Gui foi para as montanhas e eu voltei para o ashram, pois precisavamos fazer algumas coisas praticas em Rishikesh. A principio duvidei da minha decisao pois estava perto daqueles dias femininos e fiquei me culpando por ter dado todo o trabalho para o Gui de mudar a passagem, que nao foi uma jornada facil. Quando os dias chegaram, relaxei e pude entender porque aquele chamado era tao forte para voltar.

Tive algumas meditacoes inexplicaveis. Um dia, quando acordei numa chuva forte, fazia nao sei quantos meses que nao sentia o cheiro da chuva e nem o prazer de te-la, levantei da cama e fui meditar, num lugar bem especial no ashram de frente para o Ganges. Eram quase seis da manha. Duas horas depois quando abri os olhos, tudo silenciou, nao havia sequer uma coisa dual no meu ser, tudo era harmonia, eu, o chao, a chuva, as plantas, o ganges, o ashram, todos eram uma coisa so e nao havia separacao de nada. Nao havia eu e nao-eu, como explica Buda. E eu chorava! Chorava em ter aqueles minutos contemplando a magia e os misterios da Revelacao. Aqueles longos minutos que fiquei sentindo aquela absoluta harmonia, esta tao registrado em mim, que depois daquele dia, parei de duvidar de muita coisa e a confiar na sinfonia que rege o mundo.

Sobre uma pedra, no dia seguinte frente ao Ganges, quando estava rezando por um longo tempo, fui tomada por uma sensacao absurda de amor, de bencao e de acolhimento. Senti, pela primeira vez na vida, de forma clara, a presenca dos anjos que me acompanham. Estava rezando Santo Anjo!

Durante todo o percurso dessa viagem, queria entender o que era a falta que ainda sentia e que ja nao era mais daqui. Ja nao era mais um insight de terapia que buscava, nem compreender mais minha psique, nem entender mais porque as vezes os mesmos comportamentos surgem novamente, nao sentia mais falta de respostas para a minha psicologia e nem vontade de entender nada nesse sentido. Queria entender o que era aquela pergunta que havia no meu coracao desde pequena, quem sou eu e para onde vou, que tomava formas diferentes….

Quando a Andrea, minha amiga querida, me entregou um CD de Religios Comparadas antes mesmo de eu viajar, peguei aquele CD como se tivesse recebido um presente para estudar alguma coisa, mas nada demais. Queria mesmo era entender um pouco mais do sentido das religios, mas uma coisa bem assim sem pretensao e sem grandes interesses.

As aulas comecavam na propria ordem da Revelacao. As primeiras aulas foram de Hinduismo, depois de Budismo, depois Judaismo, Cristianismo, Islamismo, Confucionismo, Taoismo e Tradicoes Indigenas. Em cada religiao, meu professor era de uma imparcialidade admiravel. Quando ele fala do hinduismo, ele ‘e um hindu, quando fala do Budismo, ‘e um budista e assim por diante…. Bom, ouvindo essas aulas ao longo da viagem e estando ao mesmo tempo em frente a estas religioes, convivendo com pessoas de cada uma delas… na Africa, nos paises que passamos boa parte era muculmana, no sudeste asiatico obviamente budista e na India hindu.

E nessa caminhada percebi que nao precisava mais de novas abordagens espirituais como toda hora surgem na nossa frente, nem de livros de auto-ajuda, nem de “ OSegredo”, nem de psicologia, nem de retiros malucos, nem de nada…. eu queria entender o basico e ter uma visao mais inteira do mundo, nao varios pedacos, queria conseguir conectar religiao com historia com sociedades com o homem. Eu nao queria mais tirar o que me interessava de todos os conselhos de ser melhor, nem de meditar por meditar… Eu queria Deus, essa era a minha falta! E eu fui descobrir nessa viagem, olhando para esses povos, com dinheiro ou sem dinheiro, firmes no seu amor e na sua fe, que era isso que eu precisava.

Eu nunca tinha sentido a fe. Eu nunca consegui acreditar em algo que nao entendia. E nesse sentido as aulas foram perfeitas para mim, pois eu pude comecar a entender Deus, religiao e o homem atraves do estudo; atraves, primeiramente, do intelecto, que ‘e mais meu jeito de aprender.

Hoje descobri minha falta: eu nao tinha nenhuma relacao com Deus. Advinha quem ‘e o Guru que descobri que mais fala de mim? Jesus Cristo. Que grande ironia do destino. Precisei viajar o mundo para voltar as origen

Pra pensar:

Este chamado que ouvimos rumo a um tipo de vida, esta voz ou grito imperativo que se eleva de nosso intimo mais radical, ‘e a vocacao. Na vocacao ‘e proposto ao homem, nao imposto, o que ele deve fazer. E a vida adquire, por isso, o carater da realizacao de um imperativo. Est’a em nossas maos querer ou nao realiza-lo, ser fieis ou infieis ‘a nossa vocacao. Mas est’a, quer dizer, aquilo que verdadeiramente devemos fazer, nao est’a em nossas maos. Chega at’e nos inexoravelmente proposto. Eis porque toda a vida humana tem uma missao.

Ortega y Gasset

Encontro!