As Quatro Nobres Verdades de Buda!

Para quem esta acompanhando o blog sabe que estamos agora na India. Como o pais ‘e riquissimo em todos os sentidos, esta dando trabalho preparar e compilar os textos para postar e voces poderem desfrutar com a gente. Enquanto isso, resolvi resgatar o post das “ 4 Nobres Verdades de Buda” e incluir nele o caminho para atingir a Iluminacacao, para que voces possam compreender melhor e junto comigo, migrar de religiao e de cultura – do Budismo para o Hinduismo.

As Quatro Nobres Verdades de Buda!

Contando novamente um pouquinho da historia de Buda ja comentada em post anterior…

Quando Buda nasceu, astrologos disseram ao sei pai que Buda teria um destino unico e especial. Se ele amasse o mundo, se tornaria um monarca e unificaria todos os reinos hindus, mas se por acaso nao amasse, seria um grande lider espiritual. Como o pai de Buda era um rei, pensou: “prefiro que ele seja um grande monarca, entao nao vamos da-lo nenhum desgosto”.

E Buda foi criado num ambiente de felicidade artificialmente construido. Nao eram permitidos velhos, doentes, pessoas de mau temperamento, ma indole e com vicios.  No seu primeiro ano de vida foi construido uma cidade so para ele. Quando ele atingiu a adolescencia, o pai o presenteou com tres palacios com 40 mil dancarinas.

Mas como Buda gostava muito de fazer exercicios, tornando-se habil em luta, tiro e cavalgadas, quando foi ficando mais velho quis cavalgar mais longe do castelo, mas o pai, naturalmente, nao o deixava. Entao, um dia, apos muita insistencia o pai permitiu, e como garantia, pediu para o exercito do castelo ir na frente afastando tudo o que poderia ser ruim, para que Buda passasse sem perceber.

No caminho, de longe Buda avistou um velho e perguntou ao guarda do castelo: “ O que ‘e aquilo?”  O guarda respondeu: “Aquilo ‘e um velho, ‘e a velhice!  E Buda perguntou: “ E alguns escapam da velhice?”  “Sim!”, respondeu o guarda.

Mais para frente Buda avistou um doente e perguntou ao guarda do castelo: “ O que ‘e aquilo?”  O guarda respondeu: “Aquilo ‘e um doente, ‘e a doenca!  E Buda perguntou: “ E alguns escapam da doenca?”  “Sim!”, respondeu o guarda.

Ainda no caminho Buda avistou um cadaver e perguntou ao guarda do castelo: “ O que ‘e aquilo?”  O guarda respondeu: “Aquilo ‘e um cadaver, ‘e a morte!  E Buda perguntou: “ E alguns escapam da morte?”  “Nao!”, respondeu o guarda, “ ninguem escapa da morte”.

Em seguida Buda de longe avista um monge mendigante e pergunta ao guarda do castelo: “ O que ‘e aquilo?”  O guarda responde: “Aquilo ‘e um monge, ‘e alguem que abandonou o mundo!

No caminho de volta, Buda ficou pensando seriamente: “se eu posso escapar da doenca, da velhice, mas nao da morte, qual o sentido de todos esses prazeres?” E pouco tempo depois, ele foge do palacio e conhece praticantes de rajayoga (exercicios que preparam o sujeito para o controle e dominio do corpo) que ensinam alguns exercicios e ele se torna mestre em todos os metodos: ficar enterrado tantos dias, ficar sem comer tanto tempo, etc.

Mas Buda continuava com suas inquietudes em relacao a vida e pensando: “ se existe a velhice, a doenca e a morte, a existencia tem um problema, porque todos estao sujeitos ao sofrimento! E decide parar com as praticas, ao perceber que so livravam do sofrimento fisico, para ir atras da resposta a sua pergunta. E sai para meditar isolado sobre a questao do sofrimento e dias e meses depois acorda e se torna o Buda.

E vai procurar os ex-colegas de rajayoga para dizer que compreendeu o problema do sofrimento e em quatro etapas. Este constitui ‘e o postulado fundamental do Budismo: As Quatro  Nobres Verdades. O unico ponto que todos os ramos budistas concordam.

Primeira Nobre Verdade: A verdade do sofrimento!

Todos os seres sofrem! Mas existe uma “anestesia mental” que alivia esse sofrimento. Uma especie de expectativa passiva do sofrimento, que de algum modo livrara o sujeito, como um “ vai passar, dias melhores virao!”. E Buda percebe que nao consegue fundamentar essa expectativa: vai passar como? E diz que ela ‘e a maior inimiga espiritual do homem. Isso serve para pensar: eu tenho que trabalhar para resolver esse problema e cessar esse sofrimento!!

Mas compreende que os todos os sofrimentos cessam, mas antes deles cessarem, aparecem outros.  Os sofrimentos sao partes intrinsecas da vida tal como a conhecemos. Doh’a ‘e traducao de sofrimento que significa originalmente “o desencaixar do tubo de uma roda em relacao ao seu centro.” Quando as carrocas estao andando e o raio desencaixava, por exemplo, ‘e o doha. Sofrimento ‘e primeiro o desencontro/desarmonia com o meio e segundo, com as diversas partes do individuo. Este desencaixe ‘e que provoca o sofrimento.

Segunda Nobre Verdade: A verdade das causas do sofrimento!

Porque a dor ‘e um sofrimento? Porque ela nao encaixa com voce, com o sujeito e o objeto da sensacao (voce e o outro, voce e o meio).  E o que o sujeito faz com isso? Deseja um encontro ideal! Quando voce encontra essa desarmonia, a mente imediatamente concebe uma relacao possivel e harmonica, e a deseja.

A causa do sofrimento ‘e o desejo. Aqui desejo nao tem o sentido comum. Ele usa a palavra desejo para o desejo de Realizacao Pessoal. Por isso, ele concebe um modelo ideal que nao causaria esse sofrimento e dai ele muda o mundo fora para que se adeque ao sujeito. O desejo de ordenar os objetos da percepcao a uma ordem do sujeito de percepcao! O desejo de recriar o mundo a sua imagem e semelhanca.

E ‘e possivel fazer isso? Buda pensou: eu nao sei! Pois eu nao sei quem ‘e esse EU que quer reordenar as coisas, preciso estuda-lo.  E percebeu que o EU faz isso porque ele gosta mais dele do que do mundo. Voce ‘e apegado a voce, mas nao ‘e tao apegado ao mundo. Voce NAO pode se imaginar de diversas maneiras, so de algumas. Buda entao comeca a investigar o EU e chega a terceira nobre verdade.

Terceira Nobre Verdade:  A verdade sobre sua verdadeira natureza!

O eu nao corresponde a nenhum objeto real. Quem ‘e o EU? O que voce chama de eu ‘e um conjunto  de relacoes com um nao-eu (o outro, o meio, tudo sao nao-eus).

Todas as coisas que definem voce ‘e uma relacao com um conjunto de objetos. Eu sou filho de fulano, eu sou esposa de ciclano, etc. Tudo o que compoe a ideia de eu, esta em relacao com algum objeto especifico que ‘e um nao eu. E so existe o eu porque existe os nao-eus e uma mente capaz de percebe-los.  E dai Buda se pergunta: e o que ‘e essa mente? E percebe: essa mente nao tem caracteristica de um EU! A mente nao ‘e nenhum deles. Ela ‘e so um testemunho destas relacoes entre o eu e o nao-eu.

Abrindo um parenteses:

O Budista fala de mente no sentido de intelecto, que significa a consciencia da captacao de uma realidade, nao como parte nao material do organismo, como no ocidente. O intelecto ‘e a consciencia do ser.

 

Entao Buda pensa: eu quero testemunhar a mente/ intelecto, para responder finalmente o que ‘e o EU. E compreende a terceira Nobre Verdade.

Buda percebe que seria como um jogo de espelho. Ele teria que criar um instrumento para que a sua mente se voltasse para ela mesma. O unico jeito seria silenciando a mente para ver o que restava. E percebeu: a mente da mente ‘e o fundamento ultimo da realidade, isso ‘e o real!

A verdadeira natureza da mente ‘e infinita, sabia, passiva no sentido de nao haver perturbacoes, pois ‘e ausente de dualidade, nao ha dois. ‘E iluminada. Ela ‘e a verdadeira natureza de todos os seres. Buda deu todas as caracteristicas do que a gente atribui a Deus. E fechou, dizendo que a sensacao do sofrimento ‘e possivel porque a sua causa ‘e a ignorancia em relacao a verdadeira natureza do ser!

Apos essa meditacao a respeito do sofrimento que Buda ao acordar e ser questionado por sabios sobre quem ele era, respondeu: “Eu sou Buda, eu sou desperto!”

Apos isso Buda se tornou O Iluminado e passou a ensinar a Quarta Nobre Verdade. O caminho para atingir a iluminacao, para se tornar Buda. O unico jeito do individuo se livrar dos ciclos de reencarnacoes, que para um budista conscio de sua doutrina sabe o quanto as reencarnacoes nao sao nada boas quanto parece para os ocidentais. Porque a logica ‘e simples, se voce foi bom, voce nao volta, voce fica la em “cima”.

Do caminho octoplus ‘e que foram criadas varias adaptacoes para que o sujeito, caso nao consiga atingir a iluminacao, possa concluir esse processo no “ceu” e sem precisar retornar. Dessas adaptacoes ‘e que surgiram os diversos ramos de Budismo existentes e que alguns, inclusive, se contradizem.

Quarta Nobre Verdade: O caminho para sessar o sofrimento.

O nobre Caminho Octoplus para que voce atinja a ilumincacao…

1- Visao Correta:

Voce precisa ter uma clareza intelectual suficiente para compreender a doutrina da iluminacao. Isso significa que voce precisa entender o conceito de: iluminacao; de ignorancia fundamental; das tres nobres verdades anteriores; do eu e do nao eu.

2- Intencao correta:

Uma vez que voce compreendeu a doutrina – o que ‘e a iluminacao, entao voce precisa intensionar, querer a ilumincacao.

3- Linguagem correta:

Uma vez que voce quer a iluminacao, voce precisara frente aos obstaculos da iluminacao,  reexpressar para voce mesmo constantemente a doutrina para nao se desviar.

4- Conduta Correta:

Voce precisa enquanto isso nao violar 5 preceitos.

Nao matar, nao roubar, nao mentir, nao ser incasto, nao ingerir substancias inebriantes ou bebidas.

5- Ocupacao Correta:

Buscar uma ocupacao, objetivamente e subjetivamente, que nao seja contraria a iluminacao, ter uma ocupacao que te ajude na caminhada e que nao exija que voce deixe de seguir alguns dos preceitos.

6- Esforco Correto:

Sempre fazer muitas acoes que visam exclusivamente a iluminacao.

7- Atencao Correta:

Sua atencao geralmente se volta para as relacoes com os objetos e agora tem que se voltar apenas para a testemunha dessas relacoes – a mente. A unica maneira de sessar o sofrimento ‘e voce acessar a sua verdadeira natureza, ou seja, chegar a Iluminacao.

8- Concentracao Correta: Alcancar um estado correto de atencao a esse testemunho da mente e persegui-lo.

Onde ficam as pessoas mas?

Buda nao classifica as pessoas em boas e mas. Ele classifica em tres: boas, mas e excelentes! As boas nao fazem o mal, mas fazem uso apenas dos instrumentos (objetos) da vida e nao conseguem ser nada fora a estes instrumentos, que sao finitos. As excelentes conseguem! E o mal ‘e quando o sujeito esta fora de sua ordem intrinseca, de seu alicerce, distante de sua verdadeira natureza. Os budistas possui a mesma visao de homem do Hindu.

* Essas palavras foram tiradas das aulas gravadas do site www.luizgonzagadecarvalho.com.br, no estudo de Religioes Comparadas, aulas de Budismo; das visitas aos templos e das informacoes disponiveis nestes.

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Devocao, pureza e isolamento!

O Myanmar ‘e um pais que mexe com voce. Existe uma atmosfera diferente no ar, muito peculiar. ‘E como se por um periodo voce entrasse no tunel do tempo, num outro mundo e por la ficasse durante toda a estada no pais.

Na antiga capital Yangon, por onde chegamos, era possivel perceber essa atmosfera desde os primeiros contatos com a cidade. Os muitos monges pelas ruas vivendo de doacao da pobre e isolada populacao. Shwedagone Pagoda, o templo mais sagrado do Myanmar ‘e um negocio impressionante. Voce chega final de tarde, e vai curtindo o entardecer naquele lugar magico, circundado por templos e estupas douradas, recebendo milhares de pessoas por dia, a fim de meditar, de orar e de fazer oferendas para seus mestres. ‘E um lugar sagrado e emocionante. Ha um resgate muito grande do amor e devocao a Deus, que ja nao vemos tanto no ocidente.

Emocionante de ver...

O povo ‘e uma raridade, para nos entrou no ranking de um dos povos mais puros, doces e generosos que conhecemos ao longo da viagem. Mas tambem os mais isolados. Eles vivem uma vida completamente controlada por seu ditador, que limita o conhecimento e acesso a informacoes para o povo. A sensacao que d’a ‘e que eles sabem que vivem num mundo isolado, e que la fora muitas coisas devem acontecer, mas que desconhecem. Ate a educacao hoje ‘e controlada, estao baixando a qualidade de ensino do povo e aumentando a dos militares. O povo vai ficando cada vez mais ignorante e pobre, a merce da tirania de seu governante. O mais curioso ‘e que ate o ditador tirano ‘e fiel a astrologia. Muitas decisoes importantissimas do governo, sao antes consultadas com seu astrologo, ate a moeda do pais o ja foi trocado em funcao de seus conselhos.

As locais me pintando com suas maquiagens tipicas.

Futebol entre os pequenos novicos!

O destino mais visitado de Myanmar, a explendorosa Bagan, uma cidade meio vilarejo, circundada pelas mais de 4. 400 ruinas, templos e estupas, feitas pelo rei Anawrahta no sec XI, que unificou o pais e introduziu o budismo theravada – a mais popular ramificacao do Budismo, pos seu reinado a falir por ter investido todo o dinheiro na construcao das ruinas. Bagan definitivamente ‘e para mim a obra humana mais linda que ja vi. O conjunto ‘e assustadoramente perfeito. Uma regiao totalmente plana e seca, cheia de templos e estupas. ‘E possivel subir por dentro dos templos para apreciar o lugar e assistir ao fabuloso por do sol. Incrivel, sem palavras para o lugar! La encontramos nossa companheira de viagem Marlinda, que fez um pouco da Indonesia com a gente. Uma pessoa muito querida e deliciosa companhia. Consegue ser a minha amigona e ao mesmo tempo a brother do Gui. Fizemos dois dias de passeio juntos e saimos para jantar todas as noites.

Bagan!

Um pouco da visao de cima dos templos!

Jantar com Marlinda!

O querido guardiao de um dos templos!

No ultimo dia, para me despedir de Bagan, como havia acabado minhas aulas de hinduismo, queria ouvir a primeira aula de Budismo em cima de um dos templos que conhecemos. Escolhemos o mais legal e la ficamos, eu e Gui, escutar a aula das Quatro Nobres Verdades de Buda. A aula mais linda que ja tinha escutado, realmente magnifica. Fiquei muito feliz, ao ver que Buda comecou o seu desenvolvimento espiritual a partir da constatacao da morte e tirei meu ultimo receio que tinha em ser ridicula, por estar passando por uma puta crise existencial porque havia me dado conta que ia morrer!

por tambemsai Postado em Myanmar

Vale das Sombras!

Apos completar os meus 30 anos, achei que todas as minhas dores que passaram a me atormentar pouco antes do dia 22, cessariam como num passe de magica e eu estaria pronta para completar 31 no dia seguinte. Mas nao, no dia seguinte e nos demais que se sucederam, a dor so aumentava e eu brigava com meus sentimentos. E nao adiantava, eles nao me respeitavam!

Ate que resolvi escuta-los mais profundamente e parar de dar respostas simples e curtas, tratando-os como retardados. E entrei num periodo tenebroso, que trocando desabafos com uma amiga muito sabia e inteligente do Brasil, ela me disse: “eu sei o que ‘e isso, ‘e como se voce estivesse passando pelo Vale das Sombras (ela ‘e sempre muito criativa e certeira para dar nomes as coisas da alma). ‘E horrivel, mas depois tudo se reverte em muita coragem!” Fiquei impressionada como ela tinha descrevido tao bem o lugar por onde eu andava e em seguida, pensei: “ tomara mesmo que se reverta em muita coragem!”

Assim fiquei por alguns dias, passeando pelo Vale das Sombras e deixando uma parte de mim morrer. Parece que com os 30 e depois dessa viagem, a minha ilusao com a vida foi embora! E junto, uma parte minha bem importante!

Quando a gente viaja, a gente se acostuma a ver o mundo que vive (nossa casa, nossa familia, nossos amigos, nosso trabalho, nossa rotina…) de fora. ‘E como se a nossa vida ficasse suspensa por todo o tempo da viagem e voce tivesse todo o tempo do mundo para observa-la. E passada a fase mais mundana, de se achar super corajoso por ter escolhido viver isso e de ate se sentir um pouco mais que os outros, porque afinal voce foi capaz de fazer esta escolha… Uma sensacao bem parecida com aquela quando viajamos para outro pais, e quando voltamos, olhamos para as pessoas ao nosso redor e pensamos: “nossa, voces nao sabem o que eu vivi nesse periodo e voces continuam aqui, iguais!” Atire a primeira pedra quem nunca sentiu isso!

Estes foram os meus primeiros sentimentos ainda na Africa. Mas pouco antes da passageira volta ao Brasil, comecei a achar isso pequeno demais para tudo o que eu podia apreender do que foi vivido. E me dei conta de outra coisa, bem mais profunda e dura: a Finitude da vida! E isso ficou no meu coracao por todo o periodo no Brasil! Olhava para as pessoas que amo tentando guardar o rosto delas, as palavras delas, guardar o momento com elas. Por alguns momentos, olhava para elas como se ja tivesse morrido!

Quando voltei para a segunda etapa da viagem, esses sentimentos da finitude da vida comecaram a pipocar novamente. Mas eu consegui distrai-los e deixa-los em stand by por dias e meses, ate chegar perto dos malditos e reveladores 30 anos!

Foi quando entrei no Vale das Sombras, como descreve minha sabia amiga! E por la caminhei, sozinha, por dias. Comecei a olhar para a morte de perto e de frente. Comecei a olhar para a minha propria morte! Porque ca entre nos, olhar para a morte dos outros ‘e facil, para dos nossos familiares e amigos ‘e medonho, mas para nossa propria morte eu nem sei descrever o que ‘e!

Me olhava no espelho e pensava: “esse ‘e meu corpo, entao? E que um dia vai acabar!”; olhava para o Gui e pensava: “ esse ‘e meu marido entao, que um dia tambem vai acabar!”; olhava para minha vida no Brasil e pensava: “aquela ‘e a minha vida entao, com aquelas pessoas, que um dia vai acabar!” E assim fui vivendo os dias cinzentos do meu ser e passando por novas cidades no Myamar…

Imaginem o quanto eu me sentia empolgada com esses pensamentos e sentimentos dentro de mim para acompanhar o Gui? Eu queria que os lugares fossem todos explodidos, um a um e bem devagar! E como poderia ficar compartilhando esses sentimentos com o Gui? Mas como sabia que se ficasse so com eles a coisa poderia ficar ainda mais pesada e funebre, tirava forcas de la, de la mesmo, para conhecer os lugares que n’os estavamos visitando.

O que mais me vinha na cabeca era: mas que sentido tem a vida se um dia eu vou morrer? E se as pessoas que eu amo tambem vao? E ainda, que eu nao sei quando eu e, nem eles vao morrer? E mais: e depois, eu vou para onde? Para o “ceu”? So porque eu nao matei ninguem, eu mereco o “ceu”? Acho um saco as pessoas que simplesmente acham coisas sem base nenhuma! Nenhuma religiao no mundo diz, que simplesmente se voce nao matar ninguem ou nao ser um psicopata voce vai para o “ceu”. Todas falam que tem que se esforcar mais, bem mais do que nos esforcamos normalmente! E hoje religiao virou superfluo, e espiritualidade virou “algo que as pessoas nem sabem o que tao compreendendo”, leem um livro budista e ja se acham espiritualizadas, meditam uma vez por mes, e se sentem quase iluminadas, entao para mim sou parceira dos hindus que no periodo do Kali Yuga (o atual, chamada idade ruim) muito poucos se salvam, vai todo mundo pro inferno. ‘E o que faz mais sentido pra mim quando olho ao redor.

E entao, num primeiro momento, tudo o que eu estava fazendo da minha vida nao fazia mais sentido algum levando em consideracao a perspectiva da morte. Enquanto vida estava show de bola, mas enquanto vida finita, tinha um caminho a ser trilhado!

Muitas ideias foram seriamente pensadas, sobre como viver uma vida que TAMBEM me preparasse para a morte e para a unica coisa que de fato vou ter depois: a alma! Porque ca entre nos, o que a gente leva dessa vida nao ‘e a vida que a gente leva, ‘e a alma! Nossa alma ‘e imaterial, como ela morre com o corpo material? Simplesmente ‘e logico.

Com toda essa questao mexendo profundamente comigo e paralelamente estudando o CD de religiao do filosofo Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, fui encontrando algumas respostas, uma das principais no hinduismo. Resultado de profunda meditacao de sabios hindus num acesso a Deus em 2500 AC. Destas palavras foram escritos os Vedas, o livro sagrado dos hindus (como a Biblia para nos).

Deus diz para os sabios que todos os seres tem um Dharma. Dharma significa alicerce, o fundamento do ser na realidade! Cada ser tem um, uma ordem intrinseca que o apoia na realidade. Na medida em que ele se distancia deste Dharma, ele perde sua identidade propria, sua ordem, seu alicerce e passa a ser objeto de outros seres, ou seja, ‘e determinado pelo ambiente, por tudo o que nao ‘e ele. Pois o Dharma ‘e a unica coisa que torna voce Voce. Nao confundemos Dharma com o sentido pobre de identidade, vai muito mais alem.

Para cada individuo concreto ha um caminho concreto, o Dharma, e voce nao escolhe o seu Dharma, precisa descobri-lo. Resumindo: o dharma ‘e o que voce veio fazer aqui, sua missao, sua vocacao no sentido mais profundo! Se voce encontrar seu Dharma e realiza-lo, voce cumpriu sua missao. A realizacao do Dharma ‘e equivalente ao sentido Cristao de Salvacao, voce se salvou!

Isso ‘e a essencia do Hinduismo, que ‘e a religiao do Sanatanadharma, sanatana significaa eterno e dharma lei ou ordem intrinseca. ‘E uma lei anterior a voce! Ao contrario das religioes semiticas, que tentaram compreender Deus, os hindus tentaram primeiro compreender o homem, por isso que muitas pessoas hoje em dia conseguem encontrar muitas respostas na India. Isso ‘e a essencia do hinduismo, contada de uma forma absurdamente resumida, tem toda a base da antropovisao hindu por tras. Mas chegando na India, conto mais.

Bom, depois de tudo isso, conclui que tem sentido viver, desde que esse sentido venha antes de voce e nao termine com voce! Essa consciencia me fez despertar para muitas coisas dentro e fora. O contato com a morte me fez querer reajustar a caminhada e deu um sentido que jamais havia tocado antes. Agora compreendo porque o Dalai Lama dizia: “as pessoas vivem como se nunca fossem morrer!” Eu vivia asssim. E ignorava a Rainha das Verdades da vida humana.

por tambemsai Postado em Myanmar

30 anos no Myanmar!!!

Nunca imaginei que meus 30 anos seriam completados no Myanmar. Ate dia 14 janeiro, nao tinha sentido ainda meu inferno astral e nem meu setimo periodo da cabala. Ambos colocam, grosseiramente falando, que os ultimos dias que antecedem o aniversario sao de reflexao da caminhada ate ali e portanto de fechamento, revisao, uma especie de reciclagem. Como estou indo e como quero continuar? A astrologia fala em 30 e a cabala fala em 52 dias antes do aniversario.

E estava achando muito estranho nao estar sentindo nada muito inspirador, alem de um cansaco extremo. Sempre tive uma quase obrigatoriedade moral de fazer seriamente essa reflexao pelo menos nesse periodo. A partir do dia 14, quando chegamos no Myamar e eu me vi de novo, vendo a Africa, a reflexao chegou e com tudo.

Como o Myamar ‘e um pais fechado, comunista (apesar de nao tentar acabar com a religiao, muito pelo contrario), ‘e um pais que d’a a sensacao de voce estar regressando pelo menos uns 30 anos no tempo.

Nas ruas, os homens usam saias quadriculadas, os chamados sarongs na Indonesia, lembrando muito a vestimenta dos muculmanos na Africa. Ja as mulheres uma maquiagem forte cor de mel, bem marcada. As ruas sao sujas, os predios decadentes, mas a simplicidade e amabilidade das pesssoas impera. Na antiga capital Yangon com mais de 5 milhoes de habitantes, as pessoas caminham vagarosamente nas ruas, param para conviver o tempo todo, trabalham, convivem com os milhares de monges que moram nos arredores em seus monasterios, e que pela manha vao as ruas buscar suas doacoes para o cafe e almoco. A ultima refeicao ‘e feita ao 12:00h para o corpo estar sempre preparado para meditacao. Bom… tudo isso junto, d’a uma beleza tao pura ao lugar, que nem um lugar limpo e desenvolvido (do ponto de vista material) poderia proporcionar.

...Pelas ruas!

Foi nesse contexto e nessa atmosfera que chegamos em Myamar e passamos em silencio caminhando pelas ruas, tocados com tudo que estavamos vendo. Sendo cumprimentados por todos, e parados pelas pessoas para conversar a todo momento, pelo simples fato de querer conhecer voce…

Eu nao sei direiro explicar o que aconteceu comigo, mas o periodo de reciclagem veio com tudo e eu chorava. Chorava porque ia fazer 30 anos, chorava porque ja passaram 30 anos, chorava de lembrar os melhores e piores momentos ate os 30 anos, chorava de alegria por me livrar das insegurancas tipicas dos 20, mas tambem chorava de saudades daqueles momentos inconsequentes da imaturidade dos 20, chorava porque estava viajando, chorava porque estava no Myamar, chorava porque precisava chorar por tudo o que esta viagem que comecou no dia 30/jun estava me fazendo descobrir! Uma sensacao de dispertar imensa, muito boa, mas do’ida. Nao ‘e por nada, que desde que a humanidade existe a ignorancia precisou existir, pois ela “protege” bastante a gente de muita coisa…

Depois me infurnei a escutar meu CD de religioes comparadas, onde ainda me encontro nas aulas apaixonantes de hinduismo (nao ‘e a toa que tantos ocidentais vao para l’a buscar suas respostas espirituais), e as fichas ca’iram mais ainda e mais e mais. Principalmente, numa discussao profunda do que afinal ‘e livre arbitrio, o professor diz: o livre arbitrio ‘e a parte divina do humano, ‘e o “ “ imprestimo” da criatividade divina, ‘e como se o criador desse a oportunidade a criatura de poder criar sua propria vida… de tambem ser Criador, como ele! E, o livre arbitrio, nao atua na camada dos desejos e aversoes humanas, mas na camada do intelecto (leia-se intelecto, nao so razao, mas tudo o que faz parte da nossa capacidade humana de compreensao, intuicao, discernimento, analise, raciocinio e pensamento).

Acho que foi a coisa mais linda que eu podia ter descoberto nos meus 30 anos. Olhar minha limitacao como criatura, mas minha possibilidade como criadora da minha propria vida e historia. Com essa alegria e responsabilidade, consegui entao me desejar Feliz Aniversario!

Indo para a festa!