Dois mundos!

Na volta do show das Fronteiras Paquistão X Índia, demos carona a um casal de franceses que conhemos em Karimabad, ainda no começo da nossa jornada pelo país. Ao longo do trajeto, fomos encontrando os dois diversas vezes, em lugares diferentes, até reencontrá-los na nossa última noite no Paquistao.

Era um casal novo, de vinte e poucos anos, que guardaram dinheiro por uma longa data, ate realizar a sua primeira viagem longa. Eles nunca tinham saído da França antes. Ele era marcineiro e, ela psicóloga. Estava vindo desda Marcelia,  cidade onde moram, ate o Paquistao praticamente só de carona.

Num primeiro momento, achamos eles legais, até pelo jeito que estavam viajando, mas aos poucos fomos percebendo que eles só tinham saído de corpo para viajar, nao de alma, e a viagem ja estava completando quase 6 meses. Tudo na França era melhor, todas os lugares que eles visitaram eram em geral ruins, com excessao de alguns países na Europa que cruzaram ao longo do caminho, as pessoas entao da Asia Central de uma ignorancia sem tamanho. Pegavam muito no pé dos muculmanos, fruto da crença do povo em Deus que se desdobrava em atos sem sentido para eles. As roupas da muçulmanas, o Ramadan, a chamada das mesquitas, os terroristas, tudo tudo no mesmo pacote.

Como eles cruzaram de carona desde a França até os países da Asia Central para chegar no Paquistão, os países que tinham um povo acostumado a dar caronas eram legais, os que nao eram, nao eram legais! Lugares como Turkomenistao, Uzbequistao, e Kazaquistao, onde ha um cultura fortíssima de táxi pago, nao eram legais. So porque nao existe apenas o taxista credenciado como o nosso, mas qualquer pessoa comum que esteja passando de carro pode ser o seu táxi ( seja dentro das cidades ou na estrada, voce faz um sinal para parar, e se parar é porque podem lhe dar carona, desde que seja para o mesmo sentido que a pessoa esteja indo, e ela te cobrará por isso). É uma forma, nesses países tao pobres e reprimidos pela ditadura, do cidadao comum tirar um troco a mais.

Eles achavam isso um absurdo, sem entender que naqueles lugares carona e taxi eram sinonimos. Como aqueles dinheiristas podiam cobrar, pensavam eles? Assim eles foram passando por diversos países,  levando a referencia da França e das suas necessidades individuais como forma de medir as pessoas e os lugares…

Nesse dia, lá na torcida, encontramos os dois com um paquistanes, ele sentado num bom lugar na arquibancada, tomando uma coca-cola gelada, e a sua namorada, na arquibancada das mulheres (pois as arquibancadas eram separadas em homens, mulheres, famílias e turistas). Estranhamos o lugar e a coca-cola gelada. Depois, vimos eles dispensando o tal senhor assim que nos encontraram, dizendo que iriam com a gente, sem praticamente se despedir.

Perguntei quem era aquele senhor, e eles me contaram rindo que era um homem religioso que conheceram num restaurante quando estavam almoçando, que veio puxar assunto pedindo se estavam gostando do Paquistao, se nao queriam ir para casa dele, pois os estrangeiros sao enviados de Deus, e ele tinha o dever de recebe-los bem. Os dois agradeceram dizendo que ja estavam hospedados num hotel.  O senhor entao, muito simpatico, pediu para eles outros pratos de comida, ja que como bons mochileiros tinham obviamente pedido os pratos mais baratos, e pagou tudo. Após o tal senhor concluir que eles estavam num hotel muito simples (óbvio, os locais nunca entendem porque escolhemos estes hoteis), insistiu para que eles mudassem de hotel, pois tinham outros melhores, e que ele pagaria a diária, pois precisavam estar confortáveis no país dele. Eles agradeceram tambem e, o senhor pediu entao onde eles estavam indo, e contaram que para o show das fronteiras. Na mesma hora o tal senhor pediu um taxi (evitando que eles fossem de onibus, pois era na saída da cidade) e os acompanhou ate o show, pagando a coca-cola gelada e escolhendo um lugar privilegiado para que eles assistissem. No retorno, levaria eles ate o hotel. Mas o senhor foi dispensado assim que eles nos viram!!

Fim da historia. Eles estavam rindo do homem, por ter sido “burro” de pagar tudo a eles, em nome de Alah, e que eles se deram muito bem, economizaram um monte, e comeram como reis. Aí começaram a caçoar da religiao, do islamismo, e falar de como essas pessoas podiam ser tao estupidas em acreditar em mitos e bobagens criadas como Deus, só para controlar o povo, e teceu toda aquela cartilha de sempre de argumentos que os ateus mais jovens usam.  É tudo jogo de poder, invenção, e as traduçoes, etc. Que lá na França, onde o povo é mais escolarizado e educado, isso ja nao existe mais. Nem passou pela cabeça daquelas topeiras perguntar a nós qual era a nossa crença antes de sair desconsiderando o tal homem para gente.

Enfim, era difícil que aqueles dois mundos tao distantes compreendessem o que estava acontecendo ali. O senhor até agora deve estar se perguntando o que ele fez de errado, para ter sido dispensado daquela forma. De um lado um homem que fazia aquil0 por Deus num ato de dever, como ele mesmo disse, do outro o casal que olhava aquilo como uma vantagem economica em nome de algo sem sentido, pois o objetivo do ato do homem que era agradar a Deus nao havia neles, e muito menos o senso de dever, ja que eles vinham dos países da Liberdade de Escolha – do quero ou nao quero, nao do devo ou nao devo.

Enfim, nós nos revoltamos!! Todos nós da mesa queríamos matá-los por falar daquele jeito do pobre senhor, e por todas os absurdos que tinhamos ouvido ao longo dos encontros que tivemos com eles. Eles perceberam a nossa cara de indignação, e perguntaram ao Gui, ” voce nao concorda?” Porque eles falavam usando uma linguagem corporal tentando persuadir que concordassemos com aquilo, e nós fazíamos uma cara de indignados, que eles nao entendiam o porquê. Será que a gente tambem era burro e achava aquilo correto? Será que no Brasil o povo é tao ignorante assim?

O Gui então sabiamente disse: “quando a gente voltou da nossa primeira viagem, nos fizemos um vídeo para dividir com as pessoas o que tinhamos visto e vivido, e começamos o vídeo assim: Deixe seu emprego, abandone seus pertences, se dispeça dos seus familiares e amigos, Esqueca Tudo o que voce aprendeu e o mundo será seu.”

E seguiu: “Pelo jeito voces deixaram o emprego…, seguiram toda a cartilha do mochileiro (guardar dinheiro, sair do emprego, etc.), mas esqueceram do mais importante. Voces nunca compreenderão nada, se voces nao colocarem a França um pouco suspensa para olharem o mundo…”

O casal se calou, assim como nós todos, rendendo um momento emocionante de reflexao para todos que estavam ali naquela mesa, naquela noite quente do dia 02 de setembro de 2011, a ultima do Paquistao… Uma bela despedida!

Paquistao, Paquistao, Paquistao!

Depois do intenso dia de viagem anterior, tentamos nos recuperar num hotel em Rawalpindi, cidade a 25km da capital Islamabad. Os meninos ainda conseguiram sair para tentar ver como eram pintados os típicos caminhões do Paquistão, mas o lugar estava fechado, pois era final de Ramadan e, com isto vinha um dos principais feriados do Islamismo. As ruas e comércios estavam vazias. Imaginem para os verdadeiros devotos de Alah, como final de Ramadan ‘e uma coisa Sagrada interiormente, ja que estes sabem  de fato o que significa aqueles 30 dias de jejum no islã, e o quanto merece ser comemorado com a família.

O Ramadan é um período de purificação do mundo e de si mesmo. Uma tentativa de pelo menos ao longo daqueles 30 dias, obter algum domínio sobre si mesmo através do domínio do sentidos. Uma aprendizagem, que pode levar ao muçulmano, compreender o sentido de liberdade, fugindo da escravidão das reaçoes ao mundo e aos sentidos. Um momento para abdicar do pecado, pelo menos naqueles 30 dias. Além de um  ato de sacrifício para o perdão dos pecados cometidos.

Lembro que os xiitas ismailis não faziam Ramadan, por pensar que o Ramadan deve ser feito o ano inteiro, nao somente 30 dias. Deve ser uma atitude interior que acompanha sempre o muçulmano. Eu achei bonita a idéia, mas na prática não sei se funciona tanto, porque quando isso fica encargo apenas do indivíduo, serão poucos que de fato procurão cumprir. Nesse sentido,  acho interessante o Ramadan, pois toca na comunidade muçulmana toda. Lembro que o Baba Mondi, da ordem dos Bektashi, dizia que para os principiantes a lei, e  para os devotos o Espírito.

Caminhoes!

Olha o trabalho!

Nas ruas!

A noite aproveitamos para conhecer o bairro descolado de Islamabad (capital construída, tipo a nossa Brasilia), e nos impressionamos com as lojas e shoppings naquela pequena regiao. Tirado algumas roupas típicas das mulheres, podia tranquilamente ser qualquer lugar do mundo, como todo lugar bem moderno que é o mesmo por onde quer que voce vá. De qualquer forma, dar um break na viagem e desfrutar de um bom restaurante ocidental, com ruas limpas e shoppings, é um conforto para quem viaja com uma mochila nas costas. Escolhemos uma casa de carnes deliciosas com molho barbecue.

No dia seguinte pegamos um ônibus ate Lahore, antiga capital antes de Islamambad. Lahore era muito parecido com o cenario das cidades grandes da India, entao nos sentimos em casa logo de cara. Passeamos bastante, fomos ao Forte e a Mesquita principal, e eramos atraçoes de fotos e olhares. Ninguem nos largava. E a simpatia do povo era absurda. E de novo aquela cena engraçada de muitos amigOs andando de maos dadas, sem querer dizer nada, apenas “eu amo meu amigo”.

A mesquita principal!

Um pouco mais!

Brincquedos para criancada na rua!

Aproveitamos para ir ate a fronteira do Paquistao com a India, onde eles fazem aquele show de provocaçoes. O show comecou logo quando os países se separaram, e nunca mais parou, ha mais de 60 anos existe todos os dias, e sempre está lotado. Basicamente  se formam duas torcidas, como de futebol, em cada lado do portao da fronteira, para gritar: Paquistao, Paquistao ou, India, India, tipo uma provocao de brincadeira, uma forma divertida e descontríida de levar uma rivalidade tao seria.

La havia uma arquibancada para os homens, outra para as mulheres, e outras para as familias, e uma ainda para os turistas. Quando chegamos, o Gui e o Marco estavam com a camiseta de cricket do Paquistao, e ao entrar, imagina!, os homens  se animaram na arquibancada de ver os turistas com a camiseta do seu país, e os dois tascaram um beijo espontaneo na camiseta que foi ovacionado pela torcida. Eles gritavam, de pés na arquibancada, emocionados com os tais turistas. Tinha um senhorzinho que provavelmente era animador de torcida desde o comeco destes shows e que era uma simpatia, alem de uma figura engraçada. Acho que devia ter uns 70 anos. Da para imaginar que ele morrerá de infarto num desses shows nos proximos anos. Todos nos torcemos como loucos, e eu me sentia tao torcedora como no final de uma copa do mundo, tamanho é o amor que passei a ter pelo Paquistao depois de quase um mes de viagem.

Portao de entrada do show!

O senhorzinho!

Show!

O lado das mulheres! Nao sao lindas?!!!!

O lado dos homens!!!

Os grandes torcedores!

As torcidas nao tiravam os olhos da gente e estavam super alegres de verem turistas tao envolvidos na gritaria pelo Paquistao e, nao simplesmente indo la, de forma imparcial para ver um show. Quando acabou, formou rodas de pessoas querendo nos conhecer, tirar fotos, apertar nossa mao, convidar para ir agora para a casa deles e largar o hotel que estavamos. Chegou um ponto, que surgiu até papéis para escrevermos os emails, ou simplesmente assinar, como um autografo.

Incrivel!

Eles nao entendiam  o que brasileiros estavam fazendo ali e porque gostavamos tanto do Paquistao.  Nos agradeceram inumeras vezes, pela camiseta e pela torcida que fizemos “contra” a India, e nós diziamos, ” a gente ‘e que agradece por estar aqui. O Paquistao é o nosso país favorito.” Eles nao sabiam o que fazer de alegria. Diziam ” voces veem como nao somos só terroristas, como tem gente boa por aqui também? Conte para as pessoas do seu país quando voces voltarem…”

Na saída!

Sem dúvida, o Paquistao é um dos países mais incríveis da nossa viagem, entre os mais de 45  visitados, é sem dúvida um dos TOP 5.  Jula Jula Paquistão, como dizia a torcida, e nunca vou esquecer. Nao sei o que significa, mas  nao importa! Valeu muito!

Paquistao Com Emocao!

Apesar da paz do lugar, e da beleza das pessoas somada a uma cultura tao intocada, dois dias depois tivemos que sair as pressas do Kalash Valley. Ainda de manha, o Gui chegou rindo de nervoso no quarto dizendo que tinha que me dar uma noticia. Como sabia que ali nao tinha telefone, me toquei na hora que era uma noticia paquistanesa. Talibans do Afeganistao haviam atacado a fronteira do Paquistao ao sul do vale Kalash. No total 56 pessoas morreram, entre talibans e militares paquistaneses. Como estavamos há 30 kilometros da fronteira e pelo vale não havia muita seguranca caso os talibans decidissem entrar por alguma montanha, pediram para voltarmos a Chitral, onde tinham uma forte base militar. Conforme as noticias, o interesse nao era entrar no pa’is, mas sim atacar a fronteira. De qualquer forma, nossa escolta disse que deveriamos voltar imediatamente para Chitral.

Brincandeira de crianca.

Voltamos parte do caminho a pe, pois não passava nenhum carro, ate que finalmente passou uma caminhonete e nos deu uma carona ate uma cidade proxima, onde poderiamos pegar um onibus ate Chitral. No total estavamos em seis turistas, nos quatro e mais dois japoneses, alem dos dois policiais, que pareciam não serem capazes de matar uma mosca.

No meio do caminho, um pouco nervosos com a situacao, um senhor sai detras de uma curva fazendo sinal desesperado para pararmos o carro, eu arregalei o olho assustada e pensei: “caramba, est’a vindo os talibans!” Nisso, as pedras do morro comecam a explodir, e eu entao olhei para o Joao que estava do meu lado e me desesperei. Pensei: “fo… !” Apos uns minutos, o tal Senhor acena dizendo algo do tipo: “podem vir agora!” Era so porque a estrada estava sendo arrumada e assim que explodiram um pedacinho do morro, fizeram sinal para a gente passar, ja que as pedras tinham quase tomado conta do estreito espaco entre precipicio e montanha. Eu nao respirava, estava branca, congelada, tremendo, mas não era nada… so conserto de estrada.

Chegamos em Chitral mortos de fome e fomos procurar um hotel mais confortavel para ficarmos. Achei um bem melhor por 100 rupais a mais, um pouco mais de um dolar. Como o hotel nao tinha restaurante, e ja tinha passado da hora do almoco e alem de tudo era Ramadam, pedimos se nos mesmos podiamos cozinhar, usando o espaco deles. O dono concordou. Ele estava faminto tambem, falou que era muito dificil seguir o Ramadam, que ele ficava irritado, nervoso, mas que ja estava quase terminando o mes Sagrado.

Entao, resolvemos nos dividir. O Gui ficou responsavel por ir ate a policia, primeiro para se apresentar junto com a escolta, mostrando que todos nos estavamos bem e tambem para se informar do ocorrido; depois ele iria ate o o escritorio do correio para ver se conseguiriamos pegar um aviao teco teco do correio que tres vezes por semana saia de Chitral ate Slamabad. Enquanto isso, eu e o Jony ficamos responsaveis por fazer a comida. Resolvi fazer o meu prato tipico: macarronada. As escoltas se separaram, um deles foi com o Gui e outro comigo e o Jony. O Marco teve de ficar no quarto, ou melhor, no banheiro, por um problema tecnico rsrsrs de viagem.

Seguimos com nosso guarda-costas, enquanto eu comprava os ingredientes, pedi ao Jony para providenciar o frango. Nisso o Joao voltou e me disse: “vem ver o acougue!” Quando olhei, num lugar caindo aos pedacos, com uma sensacao novamente de tunel do tempo, varias gaiolas com pequenos futuros galos. Apontamos qual nos queriamos, e o senhor matou e depenou na nossa frente, quando pegamos o saco, o frango ainda estava quente. Nunca tinha comido carne tao fresca!

Eu e Jony nas compras (vejam minha roupa de paquistanesa).

Voltamos ao hotel, e mais um desafio, conseguir fazer a comida naquela cozinha suja, cheia de panelas engorduradas, sem detergente, nem esponja de louca, e muito menos colheres e afins para mexer. Com muito custo, consegui fazer uma macarronada gostosa, na companhia do Marco. Quando o Gui chegou vi que ele estava animado, e ja imaginei: nao tinha voo para Slamabad. E foi batata, teriamos que ir de onibus. Eu, Marco e Jony estavamos preocupados, porque passariamos por varias cidades nao tao tranquilas do Paquistao, ate agora estavamos sempre no meio do nada, em alguma vila nas montanhas, e agora passariamos por regioes mais perigosas, meio terra sem lei. Mas nao tinha opcao.

Dormimos entao em Chitral, onde as pessoas so falavam e lamentavam o ocorrido, e no dia seguinte pegamos um onibus de 14 horas ate a capital Islamabad. A escolta ficou com a gente ate o onibus partir e fez seu trabalho ate o fim, inclusive ficou do lado de fora nos abanando como se fossem familiares, enquanto nos da janela como bons brasileiros falavamos: “muito obrigado, valeu por tudo, vamos manter contato.”

Logo nos primeiros minutos, vimos que nosso motorista parecia direto de um filme: tinha uma barba comprida sem bigode ao modelo do Profeta Mohamed, um chapeuzinho branco e verde significando que ele era bem religioso e um livro falando do fim do mundo sobre o painel. Novamente uma estrada super segura, do lado direito montanha gingantesca e do esquerdo precipicio e entre eles apenas uma estrada de chao esburacada e bem estreita, com carros vindo nas duas direcoes, alem de carrocas de vez em quando, caminhoes e burros. Para completar, nosso motorista corria como se estivesse numa reta, numa pista bem larga e acostamento.

Umas tres horas depois, um carro de policia parou nosso onibus no meio da estrada, entrou e documento de todos. O “tenente” nos avisou que para nossa seguranca n’os seriamos escoltados ate proximo a Islamabad. Disse tambem ao motorista, que não deveria entrar mais nenhum passageiro ate perto o fim da viagem. O motorista ficou preocupado, pois sem passageiros não entraria dinheiro. E nos ficamos mais preocupados ainda. Nisso peco para ir ao banheiro, descem cinco homens mais o tenente, entram no banheiro antes, olham, voltam e dizem: pode entrar, esperamos a senhora aqui. Eu so pensava: “onde que a gente foi parar? So espero que isso tudo termine bem.”

Fim das contas, fomos escoltados ate perto de Islamabad, a cada final de um distrito mudava a escolta policial, no total foram sete ou oito. Dentro do onibus, dois locais fumavam haxixe enquanto a policia seguia nos escoltando. O motorista falava do fim do mundo de acordo com os muculmanos, era pro-taliban, e tinha varias teorias da conspiracao quanto aos americanos, judeus e Jerusalem. O Gui se divertia conversando com ele. Ate que uma hora ele falou: “ali do outro lado est’a cheio de talibans.” O Gui olhou e disse: “ali do outro da fronteira que fica aqui perto?” Ele respondeu: “nao, do outro lado desse rio aqui”, apontando para um rio seco que beirava nossa estrada…

O motorista!

Escolta.

Enquanto isso, o Marco e o Jony davam muita rizada com a emocao de um passageiro que contava nunca ter feiro uma viagem tao diferente, que no Paquistao so gente muito importante do governo era escoltada, e que ele estava adorando tudo aquilo. Quando atravessamos as cidades, a policia ligava a cirene para abrirem alas ao nosso onibus. Foi a viagem mais louca que já vivi em toda minha vida!!! Me sentia o presidente da republica, tirando o onibus, ‘e claro!

As pequenas cidades que passavamos eram uma volta ainda maior ao tunel do tempo: mulheres de burca, comercios decadentes, caos total de carros, cabras, carrocas, tudo ao mesmo tempo. Homens com barbas longas, turbantes, e muita sensacao de que estavamos no meio de um filme “faroeste paquistanes”. Essa acho que ‘e a comparacao mais proxima.

Nas cidades, pena que nao da pra ver direito.

Ao longo do caminho, como era Ramadan, nao houve parada para comer, para o nosso desespero, pois eram 14 horas de viagem, mas para nossa sorte, eles pararam muitas vezes para rezar, e nisso a gente conseguiu comer alguma coisa. Nunca vou esquecer do suco de goiaba de caixinha do Paquistao.

No fim da tarde, o sol se pos, ja com quase 12 horas de viagem, tivemos a nossa primeira parada oficial, quando eles desceram para fazer sua primeira refeicao do dia. Uma fila de onibus e carros se formou, as pessoas desciam, estendiam um pano grande e comiam sobre o asfalto: frutas, agua, e chay. Generosamente, nos convidaram para comer com eles, agradecemos e dissemos que queriamos que nao faltasse nem um pedaco de fruta para eles depois daquele longo dia. Em seguida rezaram e continuaram a viagem.

Primeira refeicao do dia.

Essa cena de nos parados no meio da estrada com o sol se pondo, as pessoas comendo sobre o tapete no chao e depois rezando, nunca saira da minha memoria. Foi uma das cenas mais marcantes para mim de toda a viagem. Absolutamente diferente e especial! Fiquei pensando naquele mundo deles tao diferente do nosso…

Filas de carro estavam se formando para quebrar o jejum.

Quando nosso motorista voltou a dirigir, ele pareceu cansado e falou para o seu ajudante que sentava ao lado, para ele dirigir. Estavamos há uns 60km/h quando nosso motorista troca de lugar com o ajudante com o onibus em movimento. Eu olhei para o Gui e os meus irmaos e todo mundo estava chocado. Eles perceberam e olharam pra tras vendo nossas caras de assustados, e deram muita rizada dos turistas. Se fosse um europeu ali teria enfartado, a sorte ‘e que vindo do Brasil nem tudo assusta tanto. O dia tinha sido realmente intenso e nos sentiamos numa terra sem lei… Ou talvez na terra dos Paks mesmo. So para titulo de informacao Paks quer dizer puros.

Chegamos em Islamabad as dez horas da noite, exaustos e cansados. Olhavamos um para o outro e riamos de nervoso do que tinha sucedido ao longo daquela viagem. Acho que isso ‘e uma das coisas que mais gosto de estar no Oriente, que de certa forma vicia, nem um dia de viagem ‘e previsivel ou monotono, sempre tem uma surpresa, uma emocao, um momento inesquecivel, seja porque a vida que eles levam ‘e muito diferente da nossa, seja porque voce tem a chance de viver um pouco a vida deles, de fazer parte de um mundo tao diferente do teu, de experimentar um aquario completamente surreal e de se dar conta de quao absurdamente belo e variado ‘e o mundo que Deus criou.

Povo Kalash!

Depois da vila mais incrivel da viagem, fomos ate Chitral, uma cidade proxima ao Kalash Valley, nosso proximo destino. Havia na cidade uma vida muito tipica e religiosa entre os locais e apesar do barulho do comercio, ver como tudo funcionava era novamente uma excelente experiencia de Paquistao. Fomos parados varias vezes nas ruas para as pessoas nos conhecerem e claro, perguntar se precisavamos de alguma coisa, se eles poderiam nos ajudar com algo, se gostariamos de ficar na casa deles, conhecer suas familias, etc.

Chitral.

Nas ruas.

Para ir ate o vale sabiamos que teriamos de nos identificar na policia local, que exige uma escolta que permaneca com a gente durante todo o periodo na vila. A razao ‘e porque o vale fica ha uns tres dias de caminhada com a fronteira do Afeganistao, e qualquer um pode passar caminhando, ja que nao tem estradas ou controle. Um unico caso ocorreu para que eles tomassem essa decisao, um ocidental de uma ONG que morava no vale ha muitos anos, foi sequestrado por talibans, e devolvido somente nove meses depois.

Apos o 11/set e ainda com esse acontecimento, o cuidado com a seguranca dos turistas ‘e imenso no pais, cada mudanca de cidade passamos por algum controle de passaporte, assim eles vao acompanhando os passos de cada um e sabendo exatamente onde estao os turistas.

Chegando na policia, fomos super bem recepcionados, queriam saber se fomos bem tratados no pa’is, se estavamos gostando, etc., e nos mostraram um quadro do turismo em Chitral. Nos ultimos 10 anos apenas 300 brasileiros visitaram a cidade, e no ano passado apenas tres.  Depois de familiarizados com a nossa escolta, voltamos para o hotel, sabendo que no dia seguinte eles estariam la nos esperando. Outros turistas que encontramos antes no caminho, contaram que o vale era um sossego, mas que estar escoltado era bem desagradavel, obviamente. Os europeus estranham muito em geral, infinitamente mais que a gente. Nao adianta ser hipocrita, n’os brasileiros estamos muito mais acostumados com o perigo, tanto que nao demorou muito para estarmos amigos dos policiais e super a vontade com eles.

Quadro de controle do turismo.

Na manha seguinte pegamos um jipe lotado para chegar ate o Vale Kalash e nos hospedamos numa homestay muito acolhedora. O dono era super simpatico, e professor na unica escola da vila. Contou-nos um pouco do povo Kalash, que ate hoje ninguem sabe exatamente a origem, pois muitos são louros de olhos azuis, entao alguns dizem que são descendentes do Alexandre o Grande, mas são tudo suposicoes.

Com a escolta, aguardando encher para sairmos.

Os Kalash são considerados pagaos para os vizinhos muculmanos. Ao conversar com eles, percebemos que mesmo pagaos, contavam com uma estrutura organizada de relaciomento com a divindade. Acreditam em um so Deus, possuiam os xamans  responsaveis por orientar espiritualmente o povo, purificar suas casas, abencoa-los e curar doencas. Apesar dos kalash buscarem preservar sua cultura,  muitos  já se converteram ao islamismo, e isso tem modificado bastante os costumes e crencas do povo.

Povo Kalash.

As meninas muculamas.

A vila.

O vale.

Uma coisa que me chamou atencao, foi o costume quanto as mulheres. No periodo menstrual, elas precisam sair de suas casas e ir ate uma outra no inicio do vale, para la permanecerem ate o fim do periodo. Sao proibidas de cruzar a vila ate que termine o ciclo, pois “sujam” o ambiente, fazendo com que o xaman tenha que purificar tudo por onde elas passam depois, atraves de longos rituais. O dono da guest house falou tambem que era otimo elas estarem la, já que causam muitos problemas familiares quando estao neste periodo, o que fez n’os darmos muitas rizadas. O pior ‘e que eu estava no tal periodo justamente quando estive la, infelizmente o xaman tera um trabalho enorme depois que eu for embora.

Mais.

Passeamos muito pelo vale, fomos ate a escola das criancas, e passamos quase a manha toda la. Como um dos professores tinha faltado e o outro, era o dono da homestay, enquanto ele dava aula numa sala, distraiamos as criancas na outra, e vice-versa. Ficamos constrangidos de estarmos ali com a escolta, e tentamos divertir as criancas para amenizar.

Escola.

Na sala de aula.

Na volta, encontramos muitas mulheres lavando roupas no rio, batendo na pedra, fomos tambem convidados a tomar chay em algumas casas, e deu ate para provar suas roupas tipicas, que era muito pesada, principalmente o acessorio da cabeca. Aquelas mulheres sao guerreiras em passar o dia belissimas, lavando roupa e cuidando da casa vestidas daquele jeito. Se fossemos nos ja colocariamos uma calca e blusa velha para esse tipo de atividade. Mas elas, mesmo quando estao na lavoura permanecem impecaveis. Foi inesquecivel passar os dias no vale, observando a vida pacata dos Kalashes. As vestimentas, os costumes, as tradicoes e a beleza fazem do lugar mais um dos vales incriveis e inesqueciveis do Paquistao.

Lavando roupa.

Cotidiano.

Mae com os filhos na varanda de casa.

Eu de Kalash!

A pequena vila atras da montanha.

Do Vale Hunza seguimos para Gilgit, a primeira cidade relativamente grande que passariamos do Paquistao. E Gilgit surpreendeu. Tinha um comercio e vida local muito tipica, e um cenario tambem de volta no tempo, como se estivessemos mais ou menos há uns 500 anos atras.

Centro de Gilgit!

Numa tarde fui ao correio tentar enviar umas coisas para o Brasil, e eles me mandaram primeiro ir ate a loja de tecidos e depois ao costureiro que embalaria a caixa que eu pretendia enviar. Eles não tem, assim como na India, o conceito de caixas prontas de papelao que nos temos, entao o procedimento ‘e bem artesanal. Chegando no “atelie”, uma cena me chamou atencao, tinha um jovem tomando banho de roupa na frente da loja atraves de um cano que saia de cima do predio, bem no meio da rua. Entrei na loja, e dois minutos depois, o tal jovem entrou, ele na verdade trabalhava ali, era um dos cinco costureiros do atelie, e tinha parado no meio do “expediente” para se ensopar de agua devido ao calor que fazia. O dono nos atendeu super bem, costurou o pano ao redor da caixa e não aceitou que pagassemos, pois eramos estrangeiros em seu pais e como dizem os muculmanos, assim como os indianos: “Guests are God!”

So um adendo, para gente nao sair por ai falando “nossa que lindo, o Oriente ‘e o maximo, eles falam que guests are God”. Jesus tambem diz o mesmo na Biblia, quando fala algo assim: “quando veres um faminto, um doente, um estrangeiro, etc, etc, saiba que sou eu revestido deles.” Desta citacao sai tambem o conceito de esmola, hoje tao banida pela apelo ao “nao vagabundismo” e a ideia de melhorar o mundo dando um rumo eficaz a vida do mendigo. Resumindo, “evoluimos” e lemos muito pouco o livro Sagrado na nossa religiao.

De Gilgit seguimos de van ate Skardu, por precipicios assustadores, que me fizeram rezar boa parte da viagem. Numa das paradas, pedi ao motorista para ir mais devagar. Como sempre, ao longo do caminho, muitos locais passaram mal, e como era Ramadam, nao tinham nem um gole de agua para tomar depois de colocar tudo para fora. Skardu fez parte durante muitos anos do Imperio Tibetano e ainda possue diversas estatuas de Buda esculpidas na pedra espalhadas na regiao.

Nosso transporte.

Paradas.

Apos providenciarmos transporte, comida, barracas, sacos de dormir e nos divertirmos comprando ingredientes para as refeicoes nos mercados de rua, estavamos prontos para subir ate o planalto Deosai que fica a 4000 m de altitude. La acampamos num frio suportavel e num ceu muito estrelado. Nosso companheiro Coichi, o japones (lembram dele?), continuava nos acompanhando. A noite, num bate papo com o motorista do jipe, ele desabafou comigo que estava muito triste, pois sua familia tinha lhe prometido para uma mulher que nao amava. Contou que namorava escondido ha quase dois anos, e nao sabia o que fazer, pois sua mae nao cedia em desistir da ideia dele casar com a tal moca. Me deu uma pena, mas nao tinha muito o que fazer, eu nao ia ficar falando de livre arbitrio para ele, porque nao fazia o menor sentido naquele contexto, a unica coisa que disse foi “peca para Alah que aconteca o melhor para voce, e lembre que algumas vezes o melhor para nos e para Deus, sao diferentes.”

Enquanto eu providenciava a comida para o acampamento, o Gui fazia amizade com os locais no mercado. Conseguem distinguir quem 'e quem?

No caminho para o acampamento.

Acampamento.

Deosai plains.

Mais.

De manha seguimos para o nosso principal destino, a Vila de Tarashim. No caminho passamos por paisagens, vilas, casas isoladas no meio da vegetacao, plantacoes, cachoeiras… que olha fazia muito tempo que eu nao via um cenario tao tao lindo. Essas regioes da karakoran sao inexplicavelmente belas, voce fica sem folego.

Vilas no caminho.

Tarashim!

Dormimos em Tarashim a luz de velas, depois de um delicioso jantar, para variar frango karai, a comida tipica da regiao, que ‘e de se lambuzar de tao bom. Na manha seguinte acordamos cedo para uma caminhada ate a montanha Nanga Parbat com mais de 8000 m, passando pela Vila de Rupal. Como a montanha ‘e o maior paredao de um acampamento base ate o topo, eu pensava que o passeio ia ser meio sem graca, do tipo anda anda ate chegar na montanha, tira umas fotos e vai embora. Mas o Pakistao mais um vez, impressionou!!! O passeio foi simplesmente o mais lindo de toda a viagem. Se eu fosse escolher o melhor passeio desde o comeco da viagem, levando em consideracao beleza natural e cultura, eu diria: Rupal.

No caminho voce passava por vilas tipicas com suas casas de barro, infinitas plantacoes dos mais variados alimentos, paisagens de montanhas absurdas com pico nevado, muito verde e um ceu mais que azul. Como o ceu estava absolutamente limpo, sem nenhuma nuvenzinha, o tom das plantacoes com era meio alaranjado e brilhante. Lindo, lindo, lindo!!

No dia do passeio, o nosso guia e dono do hotel tinha passado a noite em claro, pois era um dia especial do Ramadan, em que eles ficam de vigilia rezando a noite toda, somado ao fato dele vir de um jejum, era mesmo assim um sorriso em pessoa. Uma disposicao impressionante. Nos sentimos uns m… perto dele, pois estavamos todos cansados da viagem do dia anterior, e por termos acordado tao cedo.

Ao longo do caminho, um tiozinho veio nos dar as boas vindas e, de forma muito acolhedora colheu umas batatas e uns rabanetes da plantacao e nos deu para levarmos na nossa caminhada caso tivessemos fome. Nos convidou para na volta passarmos para tomar um chay na sua casa. Foi um momento emocionante. Caminhei com aquilo no coracao, encantada com a simplicidade e simpatia dos moradores.

Finalmente chegamos ate a tal montanha, depois de sete horas de caminhada, e a visao era im-pres-si-o-nan-te. De torcer o pescoco para ver o topo, mas com todo um cenario norte, sul, leste e oeste maravilhoso, a montanha era so mais uma coisa incrivel no meio daquele lugar encantado…

A montanha!

Paramos entao para descansar, comer e curtir o astral do lugar. Quando comecamos a voltar, avistamos o tiozinho nos chamando para tomar o chay, ele ja estava nos esperando com um lanche da tarde. Como nem todo mundo queria parar por causa do horario, já que tinhamos umas cinco horas pela frente e ia anoitecer, tivemos que lamentavelmente agradecer, mas ele nao se contentou: veio correndo com uma bandeja cheia de batatas descascadas, subiu em cima do muro na posicao “banheiro oriental” com seus la 70 anos e ficou conversando com a gente ate comermos boa parte da bandeja. Conversamos um pouco, mais que agradecemos, e seguimos a caminhada. Ele tinha ficado cozinhando as batatas no fogo ate nos passarmos de novo. Seriamos recebidos com chay e batatas. Nao ‘e de matar? Simplesmente fantastico!!

Um pouco mais a diante, passamos no meio de umas casas no meio de grandes plantacoes, e quando vejo, mulheres com seus chales coloridos saem do meio da plantacao e comecam a conversar comigo. Os meninos se distanciaram, pois elas so conversam com mulheres e não gostavam de ser fotografadas. Me deram sua “ foice” e perguntaram se eu queria experimentar cortar a plantacao junto com elas, falei que sim, e la fui eu… Trabalho duro! Logo em seguida devolvi a foice dando risadas, com cara de “ok, já cortei! Posso ser amiga de voces agora?” Elas comecaram a me perguntar varias coisas: da onde eu era (obvio que não sabiam onde era o Brasil), se eu era casada, quantos anos tinha, meu nome, se tinha filhos, etc, etc. O repertorio mais ou menos de sempre. E depois já sorridentes e sentindo-se mais a vontade, tipo eu tinha passado no teste para ser amiga delas, me disseram: “sing a song!” Sorri, falei que tinha vergonha, elas insistiram e eu nao exitei. Comecei a cantar Garota de Ipanema para elas, uma das unicas cancoes que sem cantar bem certinho do inicio ao fim, sem inventar palavras. Elas adoraram e comecaram a cantar para mim tambem musicas paquistanesas. Ficamos cantando umas para as outras, enquanto o Gui discretamente tirava fotos, e eu nem percebia.

Elas não queriam que eu fosse embora e nem eu queria continuar caminhando, mas estava todo mundo me esperando. Quando derrepente foi saindo uma multidao de mulheres debaixo das plantacoes, se agrupando ao redor de nos para cantar. Foi tao tao tao tao emocionante… que os meninos nem se importavam de esperar um pouco mais. Eu me controlava para nao chorar na frente delas e elas nao entenderem.

Eu era a de lenco florido.

Fiquei babando naquela vila, naquela vida em comunidade, naquele lugar magico, sem energia eletrica, com uma vida tao perto da natureza e tao devota. Quando fui embora, uma multidao de criancas me seguia dando tchau, era uma gritaria. Demorei algum tempo para voltar a falar e me recuperar do momento que vivi.

As criancas.

Durante a volta, nosso guia, que continuava tao disposto quanto no inicio da manha, ia parando de tempos em tempos para cumprimentar os homens da vila, que eram muito curiosos e acolhedores com a gente. Uma hora ele tambem parou para pegar gelo. O mais impressionante foi de onde: do glacial. Uma cena surpreendente, pegar o gelo raspando a montanha…

Parada para cumprimentar os amigos!

Pegando gelo!

Chegamos exaustos no “hotel”, e no meio daquela vila recebemos um coca-cola gelada!!! Ele fez um jantar delicioso, e enquanto preparava, aproveitei para tomar um banho de balde pelando. No quarto, a luz de velas, dormimos emocionados pelo dia inesquecivel que tivemos. La não tinha energia eletrica em nenhum horario do dia, e deveria nunca ter, pois o lugar era realmente magico!

A tchurma: Jony, Guia, Gui, Marco e Coichi.

O vale magico de Hunza!

Atravessado os primeiros kilometros da Karakoran “highway” e as primeiras vilas no Paquistao, eu me sentia tao impressionada e tao tocada pelo lugar que eu não saberia como descrever. Como a maior parte da Karakoran fica em regioes super tranquilas, atravessando regioes isoladas no meio das montanhas, saberia que viajar pelo Paquistao seria um sossego, tirando a dificuldade de transporte e a inseguranca da estrada.

Os vilarejos do Norte do Paquistao são lugares calmos, isolados, com uma cultura muito tipica, comida deliciosa, pessoas acolhedoras e tranquilas, que vivem num dos lugares mais lindos do mundo, no meio de uma natureza mais do que fantastica, sem ter a menor ideia disso. A impressao que da, ‘e que se o pais entrasse num colapso, aqueles lugares continuariam intocados e na santa paz que viviam.

Vale de Hunza!

Karimabad, a principal vila do Vale Hunza, foi uma das que mais gostei. Poderia viver ali tranquilamente por alguns anos. Ficava na encosta de uma montanha, com vista para um vale gigantesco, circundada por diversas montanhas nevadas. Bem perto da nossa pousada, que foi uma das mais simples que ficamos, por sinal o quarto do Joao e do Marco me dava ataques de risos, havia diversas casas ao longo de um canal. Um dia, no fim de tarde, saimos para caminhar pelo lugar e me emocionei varias vezes com o que vi.

De novo aquela sensacao de tunel do tempo, de estar de frente com formas de vida tao diferentes das nossas. Se não tivesse viajado tanto com Gui, por paises tao diferentes e pouco desenvolvidos, não acreditaria se me contassem que tantas pessoas vivem assim ainda. E isso não se da somente pelo isolamento das regioes, mas pelo rumo que algumas sociedades orientais não tomaram como no ocidente, e que as deixam tao intocadas.

Moradores!

As casas eram de barro e madeira. Na parte de baixo ficavam as cabras e as vacas, na parte de cima a casa da familia. O fogao era uma grande furo numa grande pedra, onde la dentro se fazia o pao e se preparava as comidas. Energia eletrica nunca se sabia se viria ou não. As vezes tinha luz, as vezes não, mas boa parte da noite era a luz de velas. Do lado das casas, uma pequena plantacao de verduras. Nas plantacoes um pouco maiores, mulheres camponesas trabalhavam CANTANDO, vou repetir, porque não sei se voces entenderam: CANTANDO. Voces conseguem se imaginar hoje um grupo de trabalhadores trabalhando pesado e cantando? Por debaixo daquelas altas plantacoes de milho, saia um sari colorido e as vozes. Ao longo do canal, pastores passavam com suas ovelhas, mulheres com seus montes de gravetos sobre a cabeca para fazer fogo, assim como baldes, bacias, palhas, tudo sobre a cabeca.

As casas!

A senhorinha me ve, para para me cumprimentar, me da um abraco apertado e segue... emocionante!!!

O sol comeca a se por, e as mesquitas comecam a chamar fervorosamente, desputando umas com as outras quem chamava mais alto. O barulho passa a se tornar homogeneo, como se houvesse um so hino, uma so chamada de fundo, embelezando ainda mais o por do sol. As mulheres correm para suas mesquitas e os homens para as deles, os homens oram em silencio, as mulheres oram em voz alta, aquele som parece como mantras profundos, que ecoam na alma. Já não se ve quase mais o caminho, so a luz das velas iluminando as casas e as mesquitas. ‘E hora de voltar para pousada silenciosa e enfeiticada com a beleza da vida no Vale de Hunza. Inesquecivel!

O senhor voltando para casa com sua cabra...

Entre as montanhas mais imponentes do mundo!

De Kashgar seguimos pela Karakoran sentido Paquistao, nosso proximo destino. A Karakoran highway ‘e a estrada que atravessa algumas das maiores cadeias de montanhas do mundo, dentre elas os Himalayas. A estrada levou 20 anos para ficar pronta,  e a sensacao que da, ‘e que precisa de pelo menos mais 20 para ficar perto de pronta.

Assim que nos afastamos um pouco de Kashgar e comecamos a entrar na estrada, niguem mais falava dentro do carro, eram so suspiros e mais suspiros. O tamanho das montanhas era impressionante, voce torcia o pescoco todo para cima de dentro do carro e não conseguia chegar ao fim em varios pontos. Uma obra natural impressionate! Estavamos todos chocados e maravilhados.

Incrivel...

Paramos no Karakul Lake, um lago azul maravilhoso circundado por montanhas com seus picos nevados para quebrar a viagem, dormindo num yurt e seguirmos no outro dia ate o Paquistao. Negociamos com um local cama e comida  e apagamos depois de passear pelo lago. As 3:30h ele acordou para comer, pois logo iria clarear o dia e comecar o Ramadan. Aquele tapa na cara, pois nos estavamos reclamando que teriamos que acordamos as 06:00h e seguirmos para pegar o onibus que nos levaria ate Sost.

Karakul lake!

Passamos pela imigracao, e avistamos os primeiros turistas: dois alemaes, dois casais de espanhois e um noruegues. No onibus-cama, alem de nos, o restante era paquistanes. Boa parte de Pechawar, perto da regiao onde morreu o Bin Laden. No onibus, o motorista comecava a discutir com alguns passageiros, e voce tinha certeza, na cabeca de um brasileiro, que aquilo acabaria em socos e pontapes, mas não passava de discussoes calientes, sem se levantar um dedo. Os turistas olhavam chocados, principalmente o nordico. Eu dava rizada. As vezes eles se agrupavam para discutir ao redor do Joao, que tinha que se desviar dos cuspes irados.

O Jony no meio da discussao!

Depois de muuuuuuuuuuuuitas curvas e precipicios chegamos em Sost. O pessoal da fronteira foi super amistoso,  com calorosos boas vindas, sem aquele clima tenso de fronteira e nos estavamos super empolgados com o Paquistao e o povo. No centro da cidade, os famosos caminhoes enfeitados do pa’is circulavam. Parecem caminhoes de trio eletrico do Brasil, tamanho o numero de enfeites e cores. E são usados simplemesmente como caminhoes de transporte de carga. Há uma certa competicao de quem tem o caminhao mais bonito. E ‘e dureza decidir.

A estrada.

Vista!!!!!!!!

Passageiros!

Ainda meio tontos com as curvas e procurando hotel, se aproximou de nos um senhor tcheco.  Ele tinha um porte e seriedade de um ex-militar e bisneto de um nobre. Veio perguntar se nos interessavamos em dormir num hotel mais afastado da cidade e seguir no dia seguinte para Passu, onde era nossos planos. Ja que a cidade ali nao tinha muitas atracoes. Para ir ate esse hotel afastado precisava de transporte, e o interesse dele era dividir os custos com a gente. O casal de espanhois topou ir tambem e fomos todos ao tal hotel.

A cidade " feia" da fronteira...

Os belissimos caminhoes!

Ao chegar, o lugar era maravilhoso, no alto de um vale, mas os banheiros do hotel eram muito simples e so tinha agua fria. Não era o que eu esperava para depois daquele onibus-curvas. Eu e a espanhola pedimos se era possivel esquentar um balde de agua quente e o tcheco já foi logo dizendo: “poxa, os latinos são tao limpos, exigem quarto e banheiro limpo, isso ‘e muito bom, voces desenvolvem o nivel dos hoteis para os turistas… nos tchecos somos como porcos, não nos preocupamos com isso.” Logo vimos que o senhor-general era uma figura. Ele tinha 72 anos e estava viajando sozinho no Paquistao pela segunda vez. Esse era o seu pais numero 154, e ainda  acampava, enquanto nos brigavamos com o gerente pelo banho de balde, ele montava sua barraca no quintal para economizar. O cara era um monstro como diz meu pai, no bom sentido.

A vista do hotel!

Fui tomar banho, pois estava esgotada da viagem e da sensacao de inseguranca das curvas e precipicios. Quando comecei a me secar a luz de velas, vejo sangue na minha perna. Me assustei. Olho para os lados, para cima e para baixo e não vejo nada. Dali um pouco, mais sangue, agora na outra perna. Limpo e não tem nada. Comeco a pensar que enlouqueci. Procuro da onde vem aquilo e nao acho nada. Fico so ouvindo gotas do chuveiro cairem no balde. Vou pegar a outra vela que tinha no quarto para iluminar melhor e acho meu dedo cortado jorrando sangue. Que alivio, eu nao tinha enlouquecido, so estava realmente esgotada.

Não entendo aonde posso ter enfiado a mao e ate hoje isso ‘e um misterio. Passado o susto, tomada banho, comecei a raciocinar. Jantamos e me tornava pouco a pouco cada vez mais humana e menos fera. Os meus olhos arregalados comecavam a serenar.  O Gui e os Manos so me olhavam assustados, pois estava parecendo um bixo antes de ir tomar banho. Já não aguentava mais de fome, vendo aquele banheiro horrivel, sem luz e tendo que negociar balde quente. Com a volta da minha consciencia, aproveitamos para conversar com os espanhois e o tcheco. E dormimos a luz de velas!

Dia seguinte comecariamos as nossas aventuras no Paquistao, Inicialmente seguindo ate Passu, uma vila logo ao lado. Passu era cravada nas montanhas e prometia ser maravilhosa, com algumas atracoes ao redor. O motorista do jipe parou na frente de um hotel e disse: “aqui ‘e o centro de Passu”. Não vi nenhum comercio. O tcheco brincou: “aqui entao que fica o shopping, cinema e comercio?” O motorista não entendeu a piada. Olhamos o hotel e disse ao Gui que não dormiria de novo num hotel assim. Como tinha creditos, seguimos para o melhor hotel da vila, que significava paredes brancas e bem pintadas, cama de casal com cobertor cheiroso e banheiro ocidental em bom estado.

No transporte!

O hotel ficava de frente para montanhas gigantestas, num lugar absolutamente calmo, e absurdamente lindo. Ficamos tirando foto da frente do hotel de tao lindo que era o lugar. Logo comecou a chover. Fazia muito tempo que não via chuva e sentia um certo frio. Aproveitamos todos para descansar e “planejar” os proximos dias, pois tinhamos pouco menos de um mês para atravessarmos o Paquistao e chegar a India, já que os Manos tinham passagem marcada por Nova Delhi.

O dono do hotel era um senhor muito simpatico e apaixonado pela —– Button. Era do partido dela. E contou que o seu marido tem feito um bom trabalho, apesar do pouco apoio que tem da populacao. Como o Paquistao ja foi diversos reinados e so ganhou sua independencia no final do anos 40, quando os ingleses dividiram o continente indiano em tres partes, ficando a parte muculmana para os paquistaneses, nao ha um sentimento de uniao por ser paquistanes; pois trata-se de diferentes etnias, isolados geograficamente e com seus proprios reis, ate nao muito tempo atras.  A Karakoran, por exemplo, so na decada de 80 ficou pronta, entao imaginem essas regioes isoladas tendo que fazer parte agora de um so pa’is.

A 50 km dali havia um vilarejo chamado Shimishau, que prometia ser incrivel. Aestrada levou 17 anos para ficar pronta, e tambem passou a mesma impressao, que não estava pronta… O visual no caminho era de novo impressionante e Shimishau ma-ra-vi-lho-sa. As mulheres e homens da vila pareciam tirados da Nacional Geographic.

A estrada!

Shimishau!

Momento mastercard!

A menina mais linda!

Incrivel!!!

A senhorinha da vila!

Ficamos numa homestay e conversarmos bastante com um paquistanes, que era guia de uma inglesa que estava vindo ao Paquistao pela setima vez, sempre para a regiao das montanhas. Perguntamos do Bin Laden e mais uma vez nos disseram o que a maioria dos paquistaneses falam, que o Bin Laden morreu há 4 anos atras. O dono do homestay desmentiu dizendo que ele tinha morrido meses atras como foi falado pelos americanos. Mas foi o unico. Ha muita “teoria da conspiracao” sobre o assunto, entao fica dificil saber aonde esta a informacao correta, mas tambem nao me disperta tanto interesse qual foi a data e local exatos. Alguns falam que ele nao morreu, porque nao apareceu o corpo, e dai a coisa vai longe…

Nossa homestay!

O dono da homestay!

Os paquistaneses tem uma grande magoa da midia ocidental e dos USA pela imagem que pintam do Paquistao la fora. Muito ‘e por ser vizinho do Afeganistao. Esclarem que os talibans, que na epoca da ocupacao da Uniao Sovietica no Afeganistao, eram os estudantes islamicos que lutavam contra a transformacao do Afeganistao em um Estado Comunista. Com o apoio de treinamento e armamento dos Estados Unidos, os taibans conseguiram expulsar os sovieticos do pa’is. Porem, apos conquistar o poder, os principios dos talibans e dos americanos para a conducao do Afeganistao eram totalmente divergentes. E nesse ponto a historia ‘e longa e, eu entendo muito pouco… mas no fim das contas o feitico virou contra o feiticeiro. Por algum motivo, o taliba fez alianca com a antiga oposicao Al Queda, e os interesses deixaram de ser apenas locais.

Os talibans tem um numero variado de faccoes, e algumas delas ficam na fronteira com o Paquistao. Porem esssa fronteira ‘e so uma linha num mapa, existindo portanto um livre acesso para os dois lados, uma regiao do pa’is chamada de Cinturao Tribal, onde o proprio governo do Paquistao nao tem controle. Mais ou menos como ocorre nas nossas favelas.

Como comentei antes, o Paquistao ‘e como se fosse varios paises num so territorio, e decidimos entao nao incluir o Paquistao-Taliban no nosso itinerario. Com toda essa introducao o Paquistao pode parecer um lugar perigoso, e ‘e esta a revolta da populacao local. Os atentados dos ultimos 10 anos, mataram cerca de 35 mil pessoas. Numero muito proximo do que a violencia do Brasil mata por ano. Na regiao extremo-norte do Paquistao, eu caminhava tranquilamente apos ter anoitecido com dinheiro e maquina fografica, com sensacao zero de inseguranca, sentimento que eu nao teria nem no bairro da minha casa. Ja quando tivemos que atravessar regioes com historico de conflitos me sentia naqueles cruzamentos com alto indice de assalto. Na verdade, nao chegava a tanta inseguranca, mas esse ‘e o exemplo que mais se assemelha.