Chegada dos Manos!

De Koshkor seguimos no dia seguinte para Narin, uma cidadezinha muito bonitinha, que ficava perto de mais um vale bonito, para mais uma passeio a cavalo, e que tinha um Caravansarai. Da para perceber que no Kirguistao os programas são sempre mais ou menos parecidos: natureza, montanhas, yurtes, cavalos ou trekkings, escaladas e por ai vai.

Caravansarai.

Acabamos não podendo fazer o passeio, pois nosso cavalo fugiu durante a madrugada e no fim das contas so fizemos uma bela caminhada. O Caravansarai estava bem conservado por fora, conseguindo nos dar uma boa ideia de como eram os hoteis da epoca da rota da seda.

Aproveitamos o lugar, mas o que mais gostei no fim das contas foi a cidadezinha de Narin, já que adoro cidadezinhas. Elas sempre mostram como as pessoas vivem, os costumes do povo e o dia a dia. Tivemos a sorte de nos hospedarmos pela CBT em mais uma simpatica home stay. Foi o lugar que mais gostamos em relacao a limpeza e comida. A comida simples do Kirguistao ‘e muito ruim, não  sei como são os bons restaurantes de comida local, mas “o feijao com arroz deles ‘e de matar”. No geral ‘e sopa de repolho com carneiro duro e gorduroso, um dedao de oleo cobrindo a sopa, deixando ela alaranjada, e plov, arroz com pedacinhos de cenoura e carneiro do mesmo tipo.

Nessa casa, pela primeira vez comemos arroz com carneiro e molho de tomate, e apesar do carneiro estar uma pedra, o molho de tomate estava uma delicia. Foi a melhor comida local do Kirghistao.  Saimos para caminhar pelas ruas e bem perto da nossa home stay, estava tendo um aniversario infantil e a cena era muito familiar, os homens do lado de fora conversando, as mulheres correndo com os filhos, chapeuzinhos na cabeca para todos, tudo muito parecido.

A pacifica cidadezinha de Narin era um encanto. Ganhamos um grande suco de frutas numa padaria, quando um senhor simpatico ao comprar pao viu que eramos turistas, e quis nos presentear, pegando na prateleira um suco pronto de pessego de uns 3 litros. Agradecemos um monte e ele sorridente se despediu voltando para casa. O suco era delicioso, deu para dar férias a dupla: agua e coca-cola. Acho tao bonito esse jeito das pessoas quererem tratar o estrangeiro, que ‘e sempre uma licao cada vez que acontece.

No Brasil já comecamos a hospedar estrangeiros pelo couchsurfing e temos tido experiencias legais e outras nem tanto. Exige doacao de tempo, energia e desorganiza sua programacao, mas depois de tanto tempo no oriente se a gente não aprender a se doar muito mais pelo outro, na minha opiniao, acho que deveriamos ir a m…

A pacata Narin.

A noite jantamos na casa com quatro hospedes locais, que bebiam muita vodka e contavam historias, e demos algumas rizadas e conversamos bastante sobre varios assuntos interessantes. Um deles, no auge da sua melancolia provocada pela vodka comecou a “lembrar dos bons tempos do comunismo”. Disse que antes eles não tinham dinheiro e podiam comprar, e agora eles tem dinheiro, mas nao podem comprar. Contou que os Kirguis eram um povo nomade e rural, viviam na sua maioria como pastores e que os russos desenvolveram bastante sua condicao de vida. Todo mundo tinha saude, educacao e moradia, so não podiam enriquecer, e depois que eles sairam os Kirguis ficaram meio perdidos, e ainda não aprenderam como gerenciar a vida capitalista.

Faz bastante sentido se tratando de um povo simples, acostumado apenas com o pastoreio. Investigando um pouco mais, vi que aquele que falava adorava seguranca, trabalhava há 17 anos na Unesco e queria uma vida mansa e pacata. Ele disse: “eu so quero meu salario no final do mês e dar estabilidade para minha familia.”  Alem de nunca ir a mesquita. Entao para ele o comunismo parecia ideal.

Já quando voce fala com outros, seja pelo amor a religiao, ou seja pelo espirito empreendedor, eles preferem muito mais a derrota do Stalin do que  qualquer outra coisa. No Kirguistao isso ‘e uma pouco diferente, comparado as opinioes das pessoas do leste europeu, la so encontramos pessoas idosas com saudades do comunismo. Já aqui, encontramos mais pessoas que gostavam independente da faixa etaria, talvez pela simplicidade do pais quando os russos chegaram e, a pobreza quando deixaram…

No dia seguinte seguimos para Bishikek, pois estava para chegar os meus irmaos, nossa segunda visita. Eu estava muito feliz e apreensiva, feliz por saber que eles poderiam entender um pouco o que eu e o Gui estavamos fazendo ha tanto tempo, e tudo o que uma viagem como essa poderia trazer a eles e, apreensiva se eles iriam se adaptar aos “desafios”. Ate agora todas as nossas visitas não experimentaram como nos viajamos, sempre quando eles chegam, por uma questao ate de respeito haha, alteramos completamente o nivel da viagem em termos de conforto, ritmo e programas. Mas os Manos como eram jovens, não precisariam ser poupados de nada, e estavam dispostos a seguir o nosso ritmo. Eu pensava: “uma coisa ‘e a ideia, outra ‘e a realidade, vamos ver!” Quantas vezes na vida nossas ideias se mostram tao diferentes da realidade experimentada ou imaginada, não ‘e?!

Na madrugada de sexta-feira eles chegaram e foi aquela emocao, fazia quatro meses que não nos viamos. Escolhemos um quarto simples e aconchegante, o mesmo hotel da russa. Os olhos deles brilhavam quando viram o quarto. Deixamos eles descansarem umas duas horinhas para não se perderem depois com o fuso e saimos para tomar um café. Já comecamos a sacanea-los comprando umas bebidas de ruas muito tipicas aqui, que eles logo cuspiram no chao, sendo que uma delas eu e o Gui somos apaixonados e eles não entendem. ‘E uma especie de iogurte natural aguado, salgado e com gas, ‘e muito bom. ‘E chamado de ayran na Turquia, de bla bla bla no Iran, de Lassi salgado na India, de não sei o que no Kirguistao, etc, tem por todo Oriente.

Passeamos pela gostosa Bishikek, eles tambem adoraram o clima da cidade. A noite saimos para comer no Olives, um delicioso restaurante que descobrimos, os donos são um casal jovem de namorados e suuuuper simpaticos, que nos tratavam como reis. A comida ‘e toda ocidental, entao dei umas boas férias para as sopas de repolho e oleo. Eles queriam experimentar a comida local, falei: “ aproveitem Bishikek, que depois voces terao muito tempo para comer sopa de repolho e carneiro”. Eles me ouviram!

No dia seguinte fomos ate o bazar principal, onde teriamos que encontrar um carro para nos levar ate Arselambob. Eles experimentaram a guerra dos motoristas tentando nos oferecer a melhor carro e preco, acabamos fechando com um cara quando vimos a qualidade do carro, que deu uma volta na quadra e nos colocou em outro haha, a sorte que era melhor. Atrasou duas horas para sairmos, pois um dos passageiros estava saindo do dentista (acreditam???) e chegou cuspindo sangue, era verdade mesmo. Deixamos o moco sem dente em casa e pegamos sua esposa e filho, esperamos ela fazer as malas, deixamos seu marido em outra casa, paramos num posto de gasolina, o motorista colocou oleo, gasolina, calibrou os pneus e daí, finalmente fomos.

Essa coisa do senso de servico, da pontualidade que temos no Ocidente, do recibo, do pegar o dinheiro de volta caso voce não goste do servico, nada disso funciona aqui, tudo funciona no fio do bigode, e com muito atraso, de um modo muito caseiro. O Jony e o Cuxo não acreditavam, estavam se divertindo com a (des)organizacao do evento. Depois de quase 12 horas de uma paisagem chocante, muito calor e quentes discussoes familiares, chegamos em Arselambob.

Pela estrada....

Um representante da CBT veio nos receber e já nos levou para uma home stay. A casa era otima, tinha uma vista privilegiada, mas o banheiro era sinistro, sujerrimo e oriental (no chao). Os Manos já falaram na hora: “ ah mas não vamos usar esse banheiro nem a pau.” Falei: “esperem a coisa apertar para o lado de voces para ver se voces não abrem uma excessao, vamos ficar dois ou tres dias aqui”. Não deu outra, no ultimo dia o grande chamado veio de madrugada, e eles tiveram que se adaptar ao banheiro em plenas tres da manha hahaha. Muito engracado era eles discutirem qual era a melhor tecnica para se segurar na tal nova posicao.

Home stay!

Centro de Arselambob!

Muculmanos jogando xadres nas casas de cha!

De manha fechamos um passeio a cavalo que passaria por uma grande cachoeira (ate ai nada de novidade para um brasileiro), depois por alguns vales lindos, dormiriamos nas montanhas a 3.500m de altitude, e voltariamos pelo meio de uma floresta de nozes.

O passeio foi magico e aproveitamos muito. O cavalo encomodou um pouco o joelho dos dois, o Marco tem um joelho capenga por causa de uma operacao, e o Joao não sei, sei que os joelhos deles sempre encomodam, por causa da falta de espaco nos transportes, ou a cela apertada, etc. No meio do caminho comecou a chover e a sorte ‘e que estavamos chegando aonde iriamos dormir. Os organizadores tinham uma casinha de barro onde faziam a comida e dormiam, e nos aproveitamos para ficar ali ate passar a chuva e montarmos as barracas. Essa seria a minha primeira experiencia numa barraca de verdade, so tinha ficado numa quando era crianca, e apesar da “rutesa” da outra viagem, dormimos em barraca com cama, e dormimos tambem ao relento na beira do rio e no deserto, mas na barraca, com saco de dormir seria minha primeira vez.

Achei a experiencia possivel, mas acho que a soma de altitude com barraca não ‘e a minha praia. Se for para ficar sob colcao inflavel num caping, sem altitude e mais quente, com chuveiro e area para cozinhar, daí acho que ate ia gostar.

Mano JOny!

Nos divertimos muito com os organizadores do programa, um dos tiozinhos não parava de dancar os sambas brasileiros que transferimos para o seu celular. O Jony torceu o pe na volta pela floresta de nozes, mas depois se recuperou, o passeio foi incrivel e estava muito feliz de viver aquilo com os Manos.

Nos protegendo da chuva!

Nossas barracas.

Um pouco do lugar.

Floresta de nozes!

Descansamos na home stay e dia seguinte seguimos para Osh, uma das ultimas cidades antes da fronteira com a China. A cidade era muito quente e umida e contava com um mercado de rua legalzinho e um parque de diversoes decadenterrimo no meio de um parque. Pareciam os brinquedos dos parques de diversoes que iamos na praia quando eramos criancas. Levei o Manos para um restaurante indicado pela dona do Olives para dar umas férias a comida Kirgui. Eram so quatro dias, mas já dava para sentir que eles estavam encomodados. Depois de descansar em Osh seguimos para Sary Tash, uma vila maravilhosa bem perto da fronteira. La fazia frio e a casa era congelante. O visual de montanhas nevadas circundava o lugar. Aproveitamos para caminhar na pastagem com as montanhas de fundo.

Sary Tash!

Mais vila!

Mais...

Finalmente seguimos para a fronteira, que não foi facil de atravessar. Primeiro tivemos que caminhar a pe por aquelas terras de ninguem ate chegar na fronteira para sair do Kirguistao, depois nos embarcaram numas cabines de caminhoes para chegarmos ate um pequeno controle de passaporte; como a fila de caminhoes era grande, andamos um km de caminhao e seguimos o resto a pe ate o tal controle. De la, mais caminhao, mais uma parte a pe, ate chegarmos a fronteira da China. Os oficiais fussaram o computador do Gui e olharam fotos, para ver se eramos jornalistas, já que estavamos entrando por Kashgar, uma regiao de conflito entre Chineses e Uigurs.

Saindo da fronteira descolamos um motorista que estava indo para Kashagar, ele tinha uma bela hilux, ficamos traquilos. Quando ele parou, e colocou sobre as nossas malas dois toneis de oleo e alguns butijoes de gas, a tranquilidade passou. A caminhonete rebaixou na hora e nos já vimos que a coisa não ia ser moleza, para variar.

No meio do caminho o tiozinho comecou a piscar e parou o carro e pediu para dormir, o Gui se ofereceu para dirigir e seguimos viagem com novo motorista. Uns vinte minutos depois o pneu furou e la desce todos nos para ajudar arrumar. Coitado do Tio, dava para ver que estava virado e como era Ramadan, não comia nem bebia desde as quatro da manha, pelo menos. Resolvido o problema seguimos viagem, o calor era infernal e claro que não se ligava o ac para ecomizar, isso ‘e sempre asssim, ‘e capaz deles dizerem que não esta funcionando.

Antes de entrar na cidade, o tio despachou os oleos e gases numa casa. Depois de quase 8 horas de viagem e com muita emocao, e toda a qualidade impar do servico, chegamos a Kashgar e todas aquelas placas com letras chinesas e arabes para tudo que ‘e lado. Eu vibrei, adoro a sensacao da entrada em novos paises. E como recompensa, o primeiro hotel que fomos ver era otimo e tinha ar condicionado, shampoozinho, condicionador, tv, wi-fi, chinelinho do hotel e toalhas, tudo a um preco camarada. Viva Kashgar!

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Autoconhecimento!

Hoje em dia o termo autoconhecimento aparece tantas vezes e, tantas de forma indevida, que eu tenho a sensacao que nao sei direito o que as pessoas estao falando. Quando resolvi viajar, por exemplo, eu tambem nao sabia do que estava falando quando incluia o autoconhecimento como uma das minhas razoes para sair viajar.

Lembro que o principal motivo para minha decisao na epoca em largar carreira, conforto e apostar simplesmente no viajar, sabendo que nesse meio tempo muita gente ia prosperar, enquanto eu estaria apenas viajando, era porque queria compreender o mundo, entender o sentido da vida e conhecer um pouco mais de mim. Mas em relacao a esse ultimo motivo, eu ja tinha feito terapia suficiente para saber coisas suficientes de mim, e por mais que eu descobrisse coisas novas, o que encomodava o meu coracao estava para alem de mim.  Eu queria compreender fora de mim, no meu entorno e talvez com essa perspectiva me localizar e vir a saber de fato algo mais profundo a respeito de mim mesmo.

Viajando eu descobri que autoconhecimento nao ‘e saber “listar” suas qualidades e defeitos; “perdoar” os pais;  aceitar que o mundo nao foi feito para voce; nem saber quais foram as coisas que te influenciaram emocionalmente ‘a ser quem ‘e, etc, etc, etc. Isso ‘e uma fracao do autoconhecimento, uma fracao muito importante, realmente necessaria, mas uma fracao.

Autoconhecimento nessa viagem foi descobrir meu lugar no mundo, e meu lugar para alem do mundo. Quando eu falo lugar, ‘e num sentido metaforico. E isso so foi possivel olhando para o mundo e olhando para o seu Criador, que ‘e o que faco desde que essa viagem comecou. Hoje me interesso muito menos por mim, pelos meus desejos e vontades, meus prazeres e mimos, meus defeitos e qualidades, e com minha imagem. Mesmo que muitas vezes eu possa esquecer disso e me surprender agindo como uma profana novamente.

Descobri que o problema fundamental da vida est’a para alem de todas essas coisas, inclusive das minhas vontades e do meu consentimento. E parei de reclamar… e conheco muito mais de mim.

A lampada do corpo!

Depois que os pais do Gui foram embora, tiramos o dia para descansar, porque como eles sempre vem com pouco tempo e tem uma disposicao de uma crianca, sempre quando eles vao embora precisamos de uns dias para nos recuperar. O Gui não demorou em inventar um passeio para um lago maravilhoso, que para chegar ate la levariamos 6 horas a cavalo ou 8 horas a pe. Podiamos escolher! Como no dia seguinte ameacou uma tempestade, consegui convence-lo de irmos no outro dia e eu aproveitaria para descansar mais um pouco e passear pela bela cidadezinha.

Caminho para nossa home stay!

Yurte desmontado em cima.

No, no dia seguinte o tempo colaborou e seguimos entao para o Kol-ukok Lake. Mais ou menos na quarta hora em cima do cavalo, o tempo comecou ameacar uma grande tempestade, e eu dava so umas olhadinhas de canto para o Gui. Passado alguns minutos, comecou a chover gelado, muito gelado e esse gelado se tornou neve. A minha mao estava a ponto de rachar no meio e eu não tinha luvas. Respirei fundo e pensei: “que bela oportunidade de me tornar mais resistente fisicamente as adversidades climaticas e de me tornar mais resignada as situacoes adversas’, pois no comeco da viagem eu choraria de raiva. Alem de ser uma excelente oportunidade para imaginar como deveria ser as longas viagens a cavalo dos antigos. Congelei cada celula do meu corpo com um semblante e uma sensacao de paz sem igual. Minha alma se mantinha serena e eu regojizava.

 

A tempestade.

O comeco do lago!

Anoitecendo, frio!

O lago visto no dia seguinte!

Depois de quase uma hora a tempestade parou, um leve sol se abriu e comecamos a avistar o yurte onde ficariamos. Quase umas duas horas depois chegamos! Eu estava congelada e não teria o banho quente para esquentar. Desfiz minha mochila e coloquei todas as roupas que eu tinha. A familia nos recebeu com cha quente e pao. A comida no Kirguistao ‘e muuito ruim, ela funciona na maior parte das vezes apenas para sacia-lo, mas não tem prazer. O que tambem para mim estava sendo uma experiencia rica. Aprender a não ser tao escrava do prazer, aproveitando cada oportunidade que o mundo te oferece.A noite foi muito dificil para dormir, alem do frio que mantinha meu corpo contraido, senti muitas dores nas pernas das horas em cima do cavalo.

Eu adorei o Kirguistao, mas a infra-estrutura sem banheiro pegou. Ou as possibilidades de chegar no lugar a pe ou a cavalo tambem nao sao das mais confortaveis. Eu imaginava um bangalo bem charmoso com uma lareira, tomando chocolate quente e olhando para a paisagem. O Gui queria me matar quando eu dizia isso, falava que so do jeito autentico que era, poderiamos saber como eles vivem. Ele tinha razao, mas mesmo assim eu gostaria de ter a opcao do bangalo quentinho e o banho.

Nosso yurte!

Nesse dia conhecemos um japones que estava viajando sozinho há tres anos, ele trabalhou por 10 anos seguidos numa empresa como supervisor de engenharia quimica, ate sair para viajar. Nos contou que no Japao as férias anuais são de 15 dias, mas quando voce usa esses 15 dias todos, voce decai no conceito do seu chefe. Entao um japones minimamente responsavel folga sete dias. Não ganham para isso nem banco de horas e nem hora-extra, com excessao das grandes empresas. O horario de saida ‘e cinco ou seis da tarde, mas ‘e natural se voce ‘e minimamente responsavel, sair as dez horas da noite. Ele brincou dizendo: “no Myamar a religiao das pessoas ‘e o budismo, no Iran o islamismo e no Japao o trabalho.” Dentre os cinco paises que ele mais gostou, o Brasil est’a no ranking. Achou as pessoas muito bacanas, gostou muito da musica e dos lugares. Concluiu uma coisa simples e sabia, após os tres anos de viagem: “viajar ‘e receber – voce so recebe, recebe, recebe; e trabalhar ‘e dar, voce so da, da e da.” E completou: “ quando eu voltar de viagem, quero dar tudo o que recebi”. O japones tem um senso de comunidade admiravel, herdado do Mestre Confucio, como confirmou o Koichi.

Eu achei tao sabia a conclusao dele que quis dividir. Nos dois casos penso que voce da e recebe, senão voce não aguenta. Mas quando voce viaja o que se sobressai ‘e definitivamente o receber: voce conhece pessoas, lugares e culturas novas, e tudo isso amplia absurdamente a sua visao de mundo, e ainda sobra umas faiscas para ampliar tambem sua visao de si mesmo. Essas faiscas podem se tornar labaredas se a viagem for longa, quanto mais tempo na estrada mais a fogueira cresce; porque quando voce faz uma viagem longa voce inclui a nota de se afastar por um longo tempo daquela “vida ativa”, e o retorno dessa experiencia ‘e inenarravel.

Em contrapartida o que voce precisa dar em troca ‘e muito pequeno! Quando voce esta na casa dos outros, normalmente eles querem te servir; em viagem acontece o mesmo, voce esta no territorio dos outros, e para os religiosos voce sempre deve receber bem ao estrangeiro. Como a maior parte dos paises que passamos eram super religiosos, sempre nos sentimos maximamente bem recebidos.

Já quando voce trabalha, a via ‘e diferente. Voce da muito mais de si, seja para a empresa, para o mercado, para o chefe. Quando voce trabalha numa coisa que voce entende como realmente valida, ou que pelo menos voce goste muito, o receber ‘e infinitamente maior, mas ainda assim, trabalho ‘e muita doacao, nem que seja de energia. Por isso gostei tanto quando o Koichi disse que ele tem a intencao de dar o que recebeu. E nao gosto quando encontro viajantes que querem passar a vida inteira viajando, fugindo da rotina, porque  acredito que um homem digno precisa gerar essa troca.

Eu agradeco a Deus sempre que me lembro por poder fazer essas viagens. Me sinto tao distante daquela Bianca que morava no Brasil ate julho de 2009, que quase não consigo me reconhecer naquela figura. Parece que essa viagem me desintoxicou, de muito do que eu estava intoxicada e nem sabia. Abencoadas as pessoas que tem uma oportunidade como essa, de tao cedo poder ter essa “parada no caminho” para pensar profundamente na vida, seja atraves de uma viagem ou não, e com isso poder mudar o rumo que vinham tomando…  Nao ‘e por nada que agora “criaram” o tal ano sabatico, como um nome para explicar ao mundo essa saida.

Nos tempos em que vivemos, onde o individuo nao ‘e mais capaz de experimentar algumas horas sozinho, sem automaticamente ligar a televisao, abrir um livro, a geladeira, o computador ou pegar no telefone, so um ano sabatico mesmo para a pessoa ter uma nocao da miseria que somos sozinhos. Dizem os Santos que somene apos um longo periodo sozinho, um homem pode se transformar num monstro ou num anjo. Nao existe coisa mais real do que isso.

Numa citacao de Jesus Ele diz: “ (…) O teu olho ‘e a lampada do corpo. Se teu olho ‘e são, todo o corpo sera bem iluminado; se, porem, estiver em mau estado, o teu corpo estara em trevas(…) Lucas, 11-34″. Sinto que o principal ganho desta viagem, foram as mudancas que aconteceram nos meus olhos.

Voltando mais 6 horas.

A beleza do Kirguistao!

De Almaty seguimos para Bishikek, capital do Kirguistao. So de passar pela fronteira ja dava para sentir o que vinha pela frente, muita natureza, tranquilidade e montanhas. A primeira visao era de um riozinho, com algumas plantacoes e montanhas com picos nevados. Me deu uma sensacao deliciosa de alivio, pois desde o comeco da viagem so tinhamos passado praticamente por cidades, com excessao de Howrama no Ira e da vila de Nurata no Uzbekistao, o resto foi full time cidades e muito calor. E o Kirguistao ainda prometia ter um clima mais fresco.

Fomos direto para um hotel recomendado no guia, chamado MBA Business Center, uma escola de negocios onde os estudantes e professores de outros lugares tinham um hotel p/ se hospedar, e se sobrasse vaga, os turistas tambem. Os quartos contavam com uma sala e cozinha arejada, escrivaninha para estudar, alem do quarto e banheiro. Era tao espacoso e gostoso que eu poderia morar ali dentro tranquilamente por anos. A recepcionista era uma russa que não falava uma palavra em ingles, e que o tempo todo ligava do seu celular para sua filha para entender as coisas mais elementares que queriamos para traduzir para sua mae. Muito diposta e acolhedora a mulher, mas ela não entendia a linguagem universal da mimica.

Saimos para conhecer a capital do Kirguistao com uma expectativa baixissima, pois diziam que a beleza do pais estava nos arredores. Mas Bishikek surpreendeu, era ampla, arborizada, super calma e facil de se localizar. Basicamente tinha uma avenida principal com aqueles canteiros no meio, algumas pracas do governo e museu e o resto eram restaurantes deliciosos, italianos, ocidentais em geral e locais. Eu me esbaldei indo no primeiro dia num italiano recomendado. A salada e o macarrao estavam de chorar, eu comi bem devagar para demorar o maximo possivel para engolir cada garfada.

As varias pracas dos sovieticos.

No dia seguinte chegaram as nossas primeiras visitas do Brasil – os pais do Gui. Eles sempre vem nos ver em alguma etapa da viagem, ate porque viajar para eles definitivamente ‘e uma rotina, eles sempre estao vindo de algum lugar ou planejando a proxima viagem, nos encontrar no Kirguistao, na Tanzania, em Israel ou na Tailandia nao ‘e nada demais. A unica novidade ‘e que em funcao do Mestre Gui, eles conheceram novos continentes, a Asia e a Africa. E eles adoraram!

Matamos a saudades num hotel com piscina e cafe da manha impecavel. O Clau sempre tem o dom de escolher os melhores hoteis de viagem, e deu para tirar ferias dos hoteis budget. Apesar de que o Uzbequistao tinha arrasado na categoria, por 10 dolares cada um ficavamos em hoteis com banheira e ar condicionado.

Depois de conversarmos um monte fomos jantar num restaurante gostoso e se preparar para no dia seguinte seguirmos viagem pelas montanhas e vilas do Kirguistao. Nossa primeira parada foi numa cidadezinha chamada Karakol, muito bonitinha, com casas tipicas; uma igreja ortodoxa linda; uma mesquita com cara de chinesa construida pelos dugans (filho de pai arabe com mae chinesa, resultado na etnia dugans, eles sao muculmanos com costumes chineses), e os varios blocos de predios sovieticos que eu particularmente adoro. Eles tentam fazer um modelo padrao igualando todos e voce ve na sacadas das casas as diferencas humanas que sao impossiveis de  reprimir. Cada sacada de uma cor, uma sacada de madeira, outra de ferro, outra de papelao e assim por diante.

A linda igreja ortodoxa de madeira.

 

Os blocos sovieticos.

Onibus local.

 

Mesquita Dungan!

O pais ‘e ideal para quem gosta de beleza natural, montanhas e tranquilidade. Como o Kirguistao não tem um turismo tao conhecido, apesar do potencial absurdo, ‘e muito tranquilo ser turista por la. Voce caminha tranquilamente pelas ruas, os precos não são super faturados e não tem gente o tempo todo querendo te oferecer coisas. Noventa e dois porcento do pais sao montanhas e voce sente isso para cada lado que olha. As estradas, os vilarejos, os yurtes espalhados por tudo tornam o visual inexplicavelmente lindo. Alem das montanhas t^em varios lagos azuis, pequenos e grandes, vales belissimos, pastagens de verao, os tais jaloos, algumas com tapetes de flores. Lindo, lindo, lindo!

Como a populacao ‘e bem pobre na maior parte do pais, voce ve muuuuitos pastores com suas ovelhas, gados e seus yurtes, ‘e natural ter que parar o carro na estrada para esperar as ovelhas ou os burricos passarem.

Dormimos algumas noites nos yurtes em lugares diferentes. Estava preocupada se os pais do Gui iam se acostumar com a “moradia”, mas me deram um banho, os anos viajando acampando tornaram eles super descolados. Algumas tecnicas que eu uso quando pego hoteis sujos para eles ‘e super natural, a Monica forra o travesseiro com uma manta, usa a canga como entre lencol, e no final nao ha contato nenhum com o material estranho do lugar.

Nosso primeiro acampamento nos yurtes foi num belissimo vale, com montanhas enormes com picos nevados e um rio que atravessava em frente, obrigando voce dormir com aquele barulho delicioso de fundo. A segunda foi num outro vale absurdo, com campos de flores, mais picos nevados e hot spring natural, no home stay do sujerrimo Valentine, dono da casa, pela sua aparencia ele devia tomar dois banhos por mes. Entre a casa dele super suja e uma casinha la fora tambem suja que ele construiu, achamos melhor pegar a de fora. Como nao tinha banheiro, tudo era feito ao ar livre, no meio das flores. O Gui buscava agua no rio para escovarmos os dentes e quando iamos ao toalete, avisavamos para ninguem sair la fora. Um dia vi que o Gui e o Clau se assustaram com alguma coisa dentro da casa, e disfarcaram. Depois o Gui me contou que tinha um rato la dentro e que eles nao conseguiram tirar, o ratinho dormiu com a gente. Deixamos para contar para a Monica no ultimo dia, mas ela nem reagiu, deu uma risadinha como se tivessemos contado que tinhamos matado uma barata, tamanha a experiencia deles na estrada…

 

Os yurtes!

O primeiro vale!

Ainda no primeiro, num passeio a cavalo!

Um local, saindo do yurte para ir a cidade!

Por fim, ficamos em mais uma cidadezinha linda com um mercado de animais interessantissimo, para nos prepararmos para ir ate um lago no meio dos jaloos, as tais pastagens de verao. Nesse dia pegamos um frio forte a noite, mas gracas ao fogao a esterco que tinha dentro do yurte conseguimos sobreviver. Os yurtes, com excessao do primeiro, não tinham banho. Os passeios a cavalo se tornaram rotina. De Koshkor nos despedimos deles com saudades, eles seguiram para Bishikek, depois passariam uns poucos dias no Uzbequistao e finalizariam na Costa Amalfitana. Ao final de 30 dias voltariam ao Brasil…

Tipica kirgui!

Mercado de animais!

Nossos companheiros de estrada!

Segundo vale!

Casas tipicas das cidadezinhas!

O lago azul no meio dos jaloos!

Os yurtes!

Aproveitamos para descansar da nossa proxima visita, teriamos oito dias ate a chegada dos meus irmaos. Nao sei o que aconteceu nessa viagem, ‘e normal as pessoas falarem para gente “ talvez encontraremos voces em tal etapa”, mas tirando os pais do Gui, o resto normalmente ‘e sempre lenda. Claro, sem contar com o memoravel fim de ano com toda sua fam’ilia na Tailandia. E os dias em Israel com a minha mae. Mas definitivamente, os que garantidamente sempre vem, são os pais do Gui. Dessa vez todo mundo resolveu levar a serio, depois do Clau e da Monica chegariam os meus irmaos, e assim que eles fosssem, uma graaaande amiga minha passaria 16 dias com gente.