O País das Madrashas!

De Bukara, seguimos para Kiva, uma cidadezinha no meio do nada com uma cidade velha murada muito bonitinha, que acabou de ser restaurada e reconstruida. Turisticamente, tudo acontecia dentro da cidade murada. Kiva, assim como Bukara e Samarkand, foi um dos grande centros de ensinamentos islamicos do mundo, isso ‘e bem facil de reparar pelo numero de madrashas nesses lugares, so em Kiva tinham mais de 60. Encontramos um bom hotel dentro dos muros cercados e aproveitavamos para conhecer o lugar nos primeiros horarios da manha e depois das sete da noite, pois o sol era ainda mais monstruoso que o de Bukara.

De Kiva fomos para Tashkent, a capital do Uzbekistao, num trem de 23 horas, e com o ar condicionado estragado. O calor era enlouquedor, mas a minha pratica do auto-controle, paciencia e resignacao não me fazia nem levantar os olhos para cima. Aproveitei para molhar uma toalha e ficar com ela sobre o pescoco, e me passando a cada 10 minutos. Hoje sinto que a minha habilidade não vem so do tempo de viagem, mas simplesmente porque no fundo da minha alma sempre existe aquela certeza: “mas esse não ‘e o problema fundamental da vida”.

Kiva

Kiva

Kiva vista de cima.

Quando chegamos em Tashkent o Gui resolveu seguir direto para o consulado da China para darmos entrada no nosso visto e eu, apesar de so pensar no momento glorioso do banho, resolvi ser uma boa esposa e suportar mais algumas horas de suor por ele. Em duas horas estavamos pegando o taxi para a guest house com tudo encaminhado, se não fosse o motorista não achar de jeito nenhum o lugar. Quase uma hora depois conseguimos encontrar a tal guest-house, que estava no mesmo local, mas a rua tinha mudado de nome… Em funcao do meu companheirismo, ficamos no melhor quarto e aproveitei para tomar um banho delicioso e passar calmamente meu hidratante.

A Gulnara Guest House foi um dos pontos altos do Uzbekistao ao meu ver. Cheia de turistas, um mais legal que o outro, conversas deliciosas, e a noticia de que todos estavam indo para o mesmo lado e vindo do mesmo lugar. Os donos da casa tinham que pedir gentilmente para irmos dormir, mas mesmo assim, ficavamos conversando baixinho por horas. Como podiamos cozinhar ali, aproveitamos para tirar férias dos shashiliks de carne (espetinho) com arroz e fizemos nossa propria comida. Alem de reestabelcer nossa pobre flora intestinal que estava deploravel, em funcao da infecao intestinal coletiva que abalou todos os turistas que passaram por Bukara. Na cozinha, so se viam pessoas cozinhando batata e arroz.

Encontramos muitos suicos viajando de bicicleta por meses, alguns casais com mais de 60 anos e outros mais jovens. Conversei muito com a simpatica Rosa Maria de 62 anos, viajando com o marido de 65, ha 7 meses de bike. Ficava pensando como essas pessoas conseguiam viajar de bicicleta nesse calor insuportavel da Asia Central, se para mim passar aquelas fronteiras era uma prova de fogo, eles faziam isso de bicicleta, dormindo na beira da estrada, sem o momento glorioso do banho e tendo ainda que armar a barraca. Um ato de heroismo, me parecia. Mas conforme eles, viajar de bicicleta era bem diferente do que viajar de onibus, voce sentia cada pedacinho da viagem, e a melhor parte não estava em chegar nas cidades e conhecer os melhores lugares, mas estava no “between”, no parar numa vila na beira da estrada e as familias te convidarem para jantar e dormir na casa deles, ou no minimo, acampar no seu quintal. Em poder dormir todo dia junto com a natureza, receber banhos de serotonina, enfim, parecia realmente ter outros momentos gloriosos e uma oportunidade de estar ainda mais perto dos locais.

Um dia aproveitamos para ir ao teatro, ja que nao sabiamos mais  o que fazer em Tashkent. A capital ‘e gostosa, mas entediante.  Apesar de nao termos entendido nada da peca, foi muito bo estar la. Ja que o teatro em Tashkent era um dos principais programas de domingo, algo comum para populacao. Mas o tema da peca era bem simples, sentiamos uma coisa meio ” pao e circo”, ja que os Uzbeks vivem uma grande repreensao politica ha muito tempo. O presidente es’a no pais desde a independencia em 1991, a populacao em geral ‘e muito pobre e os Uzbeks tem muito medo de falar do governo. Talvez  por isso, perto dos iranianos, nao vimos muitos sorrisos nas ruas, eles eram em geral fechados para os primeiros contatos, mas se voce quebrasse a barreira, eram um povo bem acolhedor. Os uzbeks sao um povo turco, e os primeiros descendentes dos mongois a se converter ao islamismo.

Teatro.

Depois de Tashkent fomos ate Samarkand, a cidade mais turistica do Uzbekistao e mais importante da historia da regiao. Prometia ter uma arquitetura belissima. E realmente era verdade. Os monumentos eram os mais imponentes e, apesar da sensacao continuar de museu a ceu aberto, era a cidade mais movimentada, havia uma certa vida local ali, nao somente turistas. Madrashas, mausoleus, e mesquitas estavam espalhadas por todos os lados.

Samarkand

Liiindo!

Impressionante!

Tradicional Uzbek!

Depois de quase 25 dias, resolvemos dar férias as madrashas e ir para uma vila nas montanhas chamada Nurata. Encontramos uma casa de familia bem legal, com um grande quintal cheio de pes de frutas. O lugar era lindo e os arredores tambem. As refeicoes eram inclusas, entao voce so precisava sentar no meio do quintal, onde ficava aquelas mesas de cha e esperar a refeicao vir, de olho para não cair um pessego na sua cabeca.

Um dia tivemos a genial ideia de passearmos de cavalo pelo vale ao redor, como fazia mais de 20 anos que não cavalgava, estava com medo. Quando subi no meu cavalo, ele desparou. Comecei a gritar desesperadamente, mas ninguem me entendia. Gracas ao meu marido shatrya, o Gui veio cavalgando como um legitimo nobre corajoso e se jogou na frente do meu cavalo. Segui o passeio com o meu cavalo amarrado no dele, como seu eu tivesse 10 anos de idade. O passeio foi belissimo, espetacular, senti uma vontade absurda de fechar nosso apartamento e morar numa daquelas casinhas nas montanhas. Mas os cavalos pareciam criancas, não nos deixavam aproveitar muito, o tempo todo queriam brigar um com o outro, alem de brigar com os cavalos ao redor. Tinhamos  que nos impor e mostrar para eles quem ‘e que mandava. Para o Gui, isso não foi um problema, para mim, senti um pouco mais de dificuldade em me fazer respeitar.

A tranquilidade de Nurata!

As criancas de Nurata!

Mesa das refeicoes!

Os briguentos!

Na terra dos Uzbeks

Depois do susto das malas, fomos ate o ponto dos share taxis para seguirmos ate a fronteira com o Uzbekistao. Felizmente, pela primeira vez, o motorista resolveu ligar o ar condicionado e deu para passar tres horas dentro do carro sem aquela sensacao de tortura dos quarenta e tantos graus que fazia la fora.

Quando chegamos na fronteira era hora do almoco dos funcionarios e apesar de termos escapado do calor ate ali, agora tinhamos que esperar embaixo de uma pequena sombra de um trailler ate o fim do horario de almoco. Acho que estava batendo uns 44 graus! Na fronteira, mais calendarios do presidente fazendo pose, mostrando todos os seus dotes atleticos enquanto a populacao nao tem o que comer e, pronto, estavamos fora do Turkomenistao. Mas ate chegar na imigracao do Uzbekistao tinhamos que atravessar por aquelas terras de ninguem, quase 1km a pe no sol escaldante e a mochila nas costas.

Cruzado para o lado do Uzbekistao, após uma loooonga burocracia, mais um taxi ate Bukara, já quase cinco horas da tarde, e o sol não aliviava. Ao desembarcar aquela deliciosa surpresa, a cidade era linda, cheia de escolas islamicas para todos os lados – as famosas Madrashas, e um lago artificial no meio da praca. Antes mesmo que nos empolgassemos com o lugar, fomos procurar um hotel para não tardarmos o glorioso momento de tirar aquelas roupas suadas, nos jogarmos embaixo do chuveiro gelado, e comermos! Achamos um hotel baratinho, limpo, com um quarto bem gostoso, banheira e ar condicionado. Esses momentos para mim não tem preco, são um dos que mais valorizo na viagem. Voce sofre no calor, nas fronterias, e chega no hotel para tomar um banho! Uma sencacao impar.

Bukara!

As vezes fico impressionada pensando como depois de todo esse tempo de viagem perdi toda a minha frescura. Já topo quase qualquer coisa, já não reclamo mais do sol, dos perrengues, dos hoteis, eu olho para a situacao e vejo ela com uma naturalidade tremenda, pois sei que ela ‘e parte do tipo de viagem que fazemos. E aproveito todas elas para crescer em paciencia, auto-controle, auto-dominio, resignacao e em perseveranca. As vezes sinto vontade de largar a mala no meio do caminho e gritar, chorar, dizer: “to com calor, não aguento mais! Qual ‘e a forma mais cara para me livrar dessa situacao e alguem fazer todo esse processo por mim?” Mas daí logo eu digo para mim mesma: “menos Bianca, isso nao ‘e o mais importante.” E passa!

No hotel conhecemos um casal de israelenses muito legal. Eram recem-casados e a viagem funcionava tambem como lua de mel. Ela cuidava de cabras numa fazenda e ele tinha acabado de sair do exercito, depois de cinco anos. Os dois eram religiosos. Ele, ao acabar o colegio, foi para um Centro de Estudos do Torah (os cinco primeiros livros do Velho Testamento) por um ano, para se preparar psicologicamente para os proximos tres anos que teria no exercito. Esse ‘e o costume. Como o centro era perto da praia, ele aproveitava para surfar e não ia as aulas do Torah. Depois de quase tres meses surfando comecou a se sentir entediado e resolveu conhecer o centro de estudos e se apaixonou pela espiritualidade judaica. Seguiu para o exercito depois e acabou prorrogando seu periodo por mais dois anos. Ao sair conheceu a Ruth, sua esposa e, agora estavam viajando pela Asia Central, ate voltar para casa. A Ruth voltara para as cabras; ele ainda não sabe se fara psicologia, ou algo do genero. Ela comeca as seis da manha e termina as quatro da tarde, vai de bicicleta trabalhar e eles moram nos assentamentos judaicos na Cisjordania, há poucos minutos de Jerusalem. Dizem que a vida deles ‘e muito gostosa, fora do centro das cidades. Conversamos muito sobre varias coisas e combinamos de tentar no encontrar no Kirguistao.

Bukara apesar do calor escaldante, era uma cidade muito agradavel e bela. A beleza das madrashas eram estonteantes, mas depois de ter passado pelo Ira, o impacto já não era tao grande, pois a arquitetura era muito parecida. Nas ruas muitos turistas, restaurantes e lojinhas. Mas a sensacao era de museu a ceu aberto, não como a praca Imam Russein em Isfahan, onde aquela mesquita que voce tira fotos ‘e a mesquita mais frequentada da cidade. Faltava vida!