Em fase de despedida!

Da Albania seguimos para Monte Negro em Kotor e passamos alguns dias de pernas para o ar, tomando sol e indo a cidade velha passear. Sempre tem uma cidade velha em todos os lugares. Nos hospedamos na casa de uma simpatica familia que tinha um “parreral” de kiwi no seu jardim, que nao cansavamos de olhar. E fomos desfrutando dos dias de sol e mar.

Quando ainda estavamos em Sofia, tomamos coragem para ligar para Tam e ver sobre nossa volta. Tinhamos direito a uma milhagem, entao resolvemos ligar logo para marcar, pois os lugares de milhagem sao super concorridos. Ligamos no inicio de julho e recebemos a seguinte opcao: 03 ou 05/set ou fim de novembro. Eu achei novembro muito longe, pois praticamente fim de ano e queria voltar a tempo de me reorganizar antes de 2011 chegar… Que bobagem (hoje vejo). Escolhemos setembro!

Nos primeiros dias a sensacao foi boa, tipo tudo bem, “ja vi tanta coisa, ja viajei tanto, ja aprendi bastante, esta na hora de voltar”. Conforme os dias passaram, quando chegamos em Kotor, ja nao tinha mais certeza desses sentimentos. Que outra bobagem achar que as decisoes precisam ser tao certeiras e cheias de certeza. Tem coisas que voce vive e tem pessoas que voce conhece somente quando esta em viagem, como o Baba por exemplo, e eu lembrava disso constantemente.

Os dias em Kotor foram assim em tom de despedida. De cair a ficha. E de digerir sobre o fim. La comecamos a pensar: “mas porque essa viagem tem que acabar agora?” Nao conseguimos chegar a nenhum argumento justo.

Em Kotor, na cidade velha.

Visual da bahia.

Depois seguimos para Bosnia em Sarajevo, para mim a cidade mais linda que conheci na Europa (claro, levando em conta meu conhecimento de Europa, que nao ‘e muito grande). Charmosa, com muita personalidade, uma mistura de otomano com austro hungaro que da uma cara toda unica para Sarajevo. Passeamos pelas ruazinhas, conversamos com o Bosnios, que me lembraram  italianos toscos, sa gritoes, porem secos.

Praca utilizada tambem como cemiterio.

De la passamos por Mostar, aquela cidadezinha que destruiram a ponte, dividindo muculmanos para um lado e cristaos para o outro, onde a guerra foi terrivel. Pensar que isso ocorreu ha menos de 15 anos atras. Mas como disse o meninoa casa de familia que nos hospedamos: “ nao adianta tentar explicar como foi estar aqui durante a guerra”. Paramos de querer perguntar e dizer no final da frase: “sei sei, entendo”. Entende nada, nao entendemos nada!! Nunca vivemos uma guerra para poder captar nem de longe o que ‘e viver isso.

Mostar

Marcas da guerra.

Banho no rio que corta a cidade.

De Mostar seguimos para Croacia de onibus, paramos em Split, pegamos um ferry e seguimos para uma ilha. Queriamos um lugar para descansar e continuar a digestao do fim da viagem. Escolhemos uma bem afastada e calma, a ultima parada do ferry, chamada Lastovo. Desembarcamos quase perto da meia noite e conseguimos um apartamento numa casa de familia aparentemente bacana. Quando acordamos de manha, vimos que se tratava de um paraiso. A janela do quarto dava de frente para o mar azul transparente, e tinhamos ate sacada. Adoramos! Era o lugar perfeito para relaxar e refletir.

No ferry a caminho de Lastovo.

Na frente de casa.

Arredores.

Foram 7 dias de Lastovo, com muito banho de mar, caminhadas, por do sol, paisagens, contemplacao, ate almoco e jantares com amigos italianos que fizemos, tinhamos churrasqueira e saiu um peixe delicioso na grelha. Nestes dias, consegui pensar no post

“ Despedida da viagem!” que claro, sera publicado bem ao final, pois a viagem ainda nao acabou!

De Lastovo, paramos para conhecer a linda Dubrovinic, passeamos tambem por sua cidade velha, que dentre as diversas que vimos em todos os paises, seja na Africa, na Asia ou na Europa, esta acima da media das cidades velhas, apesar de todas serem sempre bem bonitas. Eu especialmente gostei muito da de Zanzibar. Todo mundo quer ir para Croacia agora, ‘e o destino que foi substituido pela Grecia, nossa sugestao ‘e: venham, ‘e bem bonito mesmo”. Mas ‘e como toda viagem na Europa “bonita” , ferias e nao jornada. Vai do gosto e da busca de cada um!

Dubrovinic.

De Dubrovinic pegamos o ferry noturno para Bari. Como durante a viagem perdemos nossos dois sacos de dormir e mais um de nossos cobertores de aviao (que nos ultimos dias estava sendo usado de canga na praia, porque esqueci minha canga ainda na India), so tinhamos um cobertor fino e um lencol. Montamos uma cama embaixo da mesa e capotamos. Como queria ter sido tao descolada desde o inicio da viagem, no comeco jamais conseguiria dormir no chao, “imagina doeria meu quadril haha”. Hoje capoto.

Cama.

Descemos do ferry, e com a ajuda dos nossos amigos italianos, escrevemos num papel: “Siamo due braziliani che cherchiamo una corsa per Napoli”. Resolvemos fazer isso quando soubemos que teriamos que trocar muito de trem ate chegar em Sorrento. Paramos numa esquina e ficamos la com o cartaz nas maos. Uns 15 minutos depois um carro parou com dois meninos. Ambos italianos, um morando em Londres, que estavam voltando de viagem por Monte Negro e Servia. Eles nao estavam indo para Napolis, mas eram de Pompei, que fica ha 30 minutos de trem de Sorrento. Mais perfeito ainda, pois la foi onde aconteceu a devastacao pelo vulcao Visuvio ativo ate hoje em uma cidadezinha romana logo depois de Cristo e tudo ficou pretrificado. E era um lugar que queriamos muito conhecer.

Fim das contas, fomos convidados para almocar com os pais do italiano, e acabamos comendo uma bela macarronada com frutos do mar, com entrada de mussarela de bufala, depois frutas e sorvete e ainda expresso ao final, alem de vinhos e licores. Saimos de la quase seis da tarde com a barriga cheia. Enquanto nao levantassemos da mesa, eles nao paravam de servir. Comer para um italiano significa participar, saborear, entreter-se. E a familia era divertidissima, voce nao tinha certeza se eles estavam conversando ou brigando, eu como descendente de italiana, adorei ver de perto. E disse: “ nossa que legal conhecer uma familia italiana, era bem como eu imaginava (referindo-me ao barulho…).” Eles disseram: “familia Napolitana, ‘e diferente!” Ha um regionalismo entre os italianos. No Sul eles sao mais barulhentos que no Norte. Exatamente o contrario do Brasil, que no norte estao os brasileiros mais quentes e tipicos e no Sul os mais “frios” e fechados – claro para o padrao brasileiro. Alem ‘e claro de no Norte a economia ser melhor.

Familia Napolitana!

Saimos antes que perdessemos o ultimo horario para conhecer a cidade petrificada de Pompei. E ficamos de boca aberta, vimos muuuuuuuuuuuuitas ruinas romanas durante toda viagem, assim como cidades velhas, fortes e mercados arabes rsrsrs. Mas as ruinas de Pompei sao impressionantes. Voce realmente consegue se ver naquele tempo. Se soubessemos teriamos visto so essa durante a viagem que teria valido por todas.

Pompei.

Acabamos dormindo ali pertinho e no dia seguinte fomos para Sorrento. Encontramos logo o hotel da Dona Ana, muito gostozinho, com moveis de vo e bem limpo. Alugamos uma moto e fomos passear e conhecer a Costa Amalfitana.

Belissima! A costa ‘e linda, na beira de penhascos e cheia de curvas. No caminho muitas cidadezinhas lindissimas e obviamente, restaurantes deliciosos. Comemos um spaghetti com frutos do mar enrolado num papel que foi de chorar. Lembrarei para sempre deste spaghetti.

Costa Amalfitana.

Parada.

Na estrada.

Sorrento.

Estavamos indecisos sobre o que conhecer na Italia, porque tem tantos lugares legais, mas como a noticia da passagem foi meio de ultima hora, so tinhamos 12 dias, por isso resolvemos fazer um pouco do Sul, ja que o retorno seria por Roma. Eu tinha bastante expectativa de conhecer a Italia desde o inicio da viagem, principalmente por quase toda minha ascendencia familiar ser italiana. Mas com o tempo este desejo foi diminuindo, nao tanto pelo pa’is, mas pela vontade de ficar mais pelo Oriente. Mas chegar na Italia fez eu me senti em casa. O jeito dos italianos, a culinaria, o estilo do povo. A comida especialmente me surpreendeu, achei muito mais gostosa do que achava. E o cuidado com o preparo, com a escolha dos temperos, com a comida fresca, ‘e algo que chama atencao. Eles nao usam freezer. Tudo deve sr fresco. Os italianos sabem comer bem e fazem isso com muito destreza, est’a impregnado nos costumes, mesmo uma pessoa que nao costume cozinhar, parece saber o que ‘e comer bem.

Depois de alguns dias desfrutando Sorrento e passeando pela costa, seguimos para Napoli. Por um lado achamos que para final de viagem Sorrento estava demais para gente, talvez um vilarejo nas montanhas em Toscana seria mais apropriado. Muitos turistas, muita muvuca, muita informacao, nao combinava com fechamento de viagem, combinava com comeco. Mas por outro lado, nos sentiamos cada vez mais perto de casa…

Napoli ‘e uma cidade linda, apesar do centro meio sujo. Buscamos uma tratoria indicada que nosso amigo napolitano nos recomendou, mas estavam em ferias. Gostei muito de ver como os italianos respeitam suas ferias e seus domingos. Nao ‘e aquela coisa de abrir o seu mercadinho para lucrar enquanto o do vizinho esta fechado. Domingo ‘e Sagrado, e eles respeitam isso, nao por ser um dia santo, mas de descanso. A religiao, mesmo estando no berco do catolicismo nao me pareceu forte, senti muito mais os costumes e as tradicoes bem vivos do que o contato com Deus propriamente dito. Nossos amigos nos contaram que inclusive na Italia ‘e legalizado o aborto, o que me surpreeendeu. Me parece que os valores modernos no ocidente realmente ultrapassam a religiao quase em todos os lugares.

Napolis.

Napolis.

Ficamos na casa de uma grande amiga minha de Chapeco city, que tambem morou comigo em Floripa durante a faculdade. Era um bom lugar para encerrar a viagem, perto de amigos e da “familia” srsrs. Apesar que Roma tem tanta coisa para ver, que por um lado, tambem nao combinava com encerramento de viagem, por isso decidimos ver o basico, ja que nao havia mais nenhum espaco em nossos coracoes para entrada de mais nada, todo nosso metabolismo estava voltado para o fim. Um dia fomos ao Palatino, lugar belissimo cheio de ruinas romanas com uma vista linda para Roma e no meio da visita, estendemos nosso lencol no gramado e comecamos a chorar….

Roma.

Amigas!

Fomos muito bem tratados por minha amiga Thaisa e seu queridissimo namorado romano Rafaelli, dois anfitrios de mao cheia. Fiquei muito feliz de ve-la com uma pessoa tao legal! Comemos muito bem, conversamos ate fazer calo nas cordas vocais e nos sentimos em casa.

Nossos queridos amigos!

Tudo ‘e muito lindo em Roma e bastante arborizado. A cidade ‘e charmosa e acolhedora. O Coliseu ‘e impressionante, imenso. E o Vaticano foi para mim a sensacao. Amei a basilica de Sao Pedro e a Capela Cistina. Foi arrepiante estar la!

Coliseu.

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Basilica de Sao Pedro.

Vaticano.

No sabado o Gui se despediu de nos, pois nao conseguimos voltar no mesmo voo, tinhamos direito apenas uma milhagem e voltar juntos era a opcao mais cara. Foi bem dificil abracar o Gui no aeroporto e dar tchau, nos choravamos. Era muito estranho pensar que toda aquela viagem estava acabando…

Quando o Gui foi, por uma lado fiquei aliviada, tipo “ok, acabou, amanha ‘e a minha vez!”. Nao tinha mais aquele sentimento esta chegando o fim, chegou o fim da viagem . Entao relaxei e eu e  Tata fomos no parque. Conversamos sem parar sobre a vida e voltamos ao anoitecer. No dia seguinte, peguei o voo para Madri e passei a tarde caminhando pela cidade, deu ate para tirar um cochilo na praca e depois pegar o voo para o Brasil.

Gratidao!

Esses dias vendo um por do sol numa ilha paradisiaca na Croacia, curtindo o ultimo dia na ilha, contemplando o entardecer, pensava no Sentido da vida. Olhando aquele sol se por e os passaros a plainar sobre o vento, pensava em Deus, no homem e em mim mesma.

Esses dias li num livro que dizia que os passaros, assim como todos os mineirais, vegetais e animais, expressam sua gratidao a Deus pelo simples fato de existirem. Mas que o homem, unico capaz de pensar, de escolher e de amar, expressa sua gratidao por quanto usa de sua faculdade de pensar, por como usa sua liberdade e por quanto ‘e capaz de amar, de ter sentimentos nobres.

Olhava para a magia daquele fim de tarde e agradecia por todas os sentidos que essa viagem me mostrou… pela abundancia de sentido, de vida e de amor que hoje preenchem meu coracao.

Lembrei de um dia, quando uma das primeiras pacientes que atendi, me disse que foi diagnosticada como depressiva e que sofria de uma doenca que fazia da vida dela, uma vida sem sentido. Olhando para ela, por mais que ela me desse mil razoes, nao conseguia ver doenca alguma naquela mulher… Muito pelo contrario, via muita vontade de viver, mas pouca consciencia de porque viver.

Aos poucos fomos resgatando esses porques, que sao tao necessarios para as pessoas mais sensiveis. E no fim de uma sessao perguntei a ela se ja tinha visto o sol nascer ou ser por. Ela ficou em silencio, fechamos a sessao e na semana seguinte ela me disse. “Eu vi o sol nascer e no mesmo dia se por. Mexi tambem na terra e me sujei inteira… e compreendi o quanto minha vida tinha sentido…”

Um muculmano uma vez teve um sonho, onde viu o ceu e o inferno. Viu alguns homens entrando no ceu e outros no inferno. Perguntado quem eram aqueles que estavam entrando no inferno, ele respondeu: os ingratos! O inferno esta cheio de ingratidao… E essa frase ficou na minha cabeca durante a viagem.

Quando hoje olho para a vida querendo encontrar sentido, acho dificil encontrar poucos. Mas o maior, quando penso, nao ‘e sentido do sucesso, nao ‘e sentido da carreira… mas vejo sentido na gratidao.

Por isso agradeci, vendo aquele por do sol, por todo o mundo que Deus no deu para viver, por toda liberdade que Deus nos deu para escolher e por todo amor que Deus nos deu para sermos capazes de sentir e de transmitir.

E me despedi daquele por do sol, nao so cheia de sentido, mas cheia de Deus!