As outras belas cidades persas!

De Isfahan seguimos para Shiras, cidade onde fica o mausoleu de dois dos grandes poetas persas: Saadi e Hafes. Hafes falava de amor e influenciou muito Goethe. Saadi de sabedoria, conhecimento. Os outros grandes sao o Ferdosi que falava da cultura persa e Molavi, que alem de poeta, era um grande sufi e mistico, que falava do caminho espiritual.

Jardins do mausoleu do Hafes!

Local onde Hafes est'a interrado!

 

Um dia na rua, passou um menino pobrezinho oferencendo alguns papeis, pedi para o Payam e a Sumi o que era, pensei em algo como jogo do bixo, mas nao, voce fazia um pedido e pagava para retirar um poema que te ajudasse a refletir sobre o teu pedido. Eu achei genial! Depois de ver na festa moderna, os amigos da Nana rescitando poemas com seus instrumentos um para o outro, a Sumi rescitando para mim na sua casa, mais o menino pobrezinho vendendo nas ruas, ficou claro para mim que assim como no Brasil sabemos de cor o nome dos principais jogadores de futebol, os iranianos sempre sabem de cor  alguns dos poemas dos seus poetas preferidos. Quando voce fala com eles, ‘e comum te contarem qual dos poetas ‘e seu preferido, como a gente falar eu sou muito mais Romario do que o Fenomeno… Em geral os iranianos sao muito orgulhosos de sua historia, de seus costumes e de sua tradicao. Nunca gostam de ser confundidos com seus vizinhos arabes, os qual consideram poucos refinados, Sempre enfatizam: “somos persas!”.

Em Shirras as pessoas nao eram tao simpaticas e sorridentes como no resto do Iran, talvez porque la tenha o maior numero de turistas por metro quadrado. Mas mesmo assim, tivemos boas experiencias. Jardins floridos, belas mesquitas, um caravan sarai (antiga hospedagem para as caravanas da rota da seda) no meio do labirinto dos mercados, e a tao comentada Persepolis, capital persa que foi destruida pelos gregos.

Persepolis!

 

Outras ruinas persas!

 

Antigos caravan sarais, hoje comercio local!

Em Yazd, uma cidade que fica bem no meio do deserto no Iran, fiquei nervosa, nunca passei tanto calor na vida, Quer dizer, acho que no deserto da India tambem foi assim. A cidade era bege, cor de areia, parecia que tudo era feito de areia, o que dava um charme especial. Depois das sete da noite voce conseguia caminhar nas ruas com a temperatura batendo so uns 35 graus.

Yazd!

La, conhecemos algumas torres do silencio e um templo zoroastra. O zoroastrismo era a religiao dos persas, antes de chegaram os muculmanos. Hoje existem poucos devotos do zoroastrismo no Ira. Junto com os cristaos, sao tratados como minorias e reclamam do pouco privilegio que tem frente aos muculmanos. O zoroastrismo, a primeira religiao monoteista do mundo, foi esquecida e aniquilada depois da entrada do isla. As torres do silencio eram usadas para deixar os corpos do devotos, pois conforme as crencas, nao se pode enterrar o corpo, pois contaminaria a terra, entao os corpos nao sao deixados ao ar livre para os abutres comerem. Hoje basicamente voce encontra alguns zoroastras na India, Iran e alguns gatos pingados na Inglaterra.

Templo Zoroastra!

Torre do Silencio!

 

Nas ruas de Yazd!

Em Yazd ficamos no hotel Silk Road, ponto de encontro dos viajante do Iran e Asia Central. Alem de reencontrarmos o Stu e a Merlanda, fizemos novos amigos e nos divertimos nos bate papos sem fim no jardim interno do hotel, enquanto esperavamos o sol se acalmar. Pena que nao lembramos de tirar um foto! O hotel contava com um cardapio delicioso, tinha uma boa selecao de comida iraniana, ocidental, e indiana. Eu me esbaldei. Alem de um quarto confortavel e um bom ar condicionado natural (aqui eles tem torre de captacao de ar para ventilacao). Deu para praticar yoga no terraco bem cedinho, vendo a cidade bege, antes que o sol ficasse forte. Perto do hotel ficava uma das mesquitas principais da cidade e tambem a cidade velha. Pensamos em ir para um oasis no deserto, mas o calor era tanto que desisti, preferi ficar conversando no jardim do Silk Road ate nossa ultima cidade no Ira: Mashhad!

De Yazd ate Mashhad eram doze horas dentro de um onibus confortavel. No caminho, paramos duas vezes no meio do nada, e nao entendia o que estavamos fazendo ali – nao havia nenhum banheiro ou lanchonete. As pessoas desciam, estendiam tapetes no chao e rezavam. Da pra acreditar? Mashaad ‘e a cidade mais sagrada do Iran. Como os muculmanos shiitas rezam tres vezes por dia (diferente dos sunitas que rezam cinco), duas delas foram no onibus. A ultima reza da noite e a primeira da manha antes do sol nascer.

Nas ruas de Mashhad!

 

Os famosos tapetes persas!

Quando chegamos em Mashhad fomos ate a casa de um conchsurfer que o Gui estava se comunicando a tempo pela internet desde que chegamos no Ira. Como o celular dele estava fora de area, seguimos direto para sua casa pelo endereco que tinha nos dado. Ao chegar la, no outro lado da cidade, nao havia ninguem no lugar, na verdade era o endereco de um dos escritorios que ele trabalhava. Como tinhamos mais um endereco, o da casa da mae, estavamos pensando se iamos ou nao ate la, quando um iraniano chamado Reza, que estava dentro da clinica veterinaria que o Gui parou para pedir informacao, percebeu que estavamos procurando alguem e se ofereceu para nos ajudar. Passado alguns minutos, ele disse: “eu acho que consigo encontrar o lugar, venham comigo, podem dispensar o taxi de voces…” Seguiu conosco ate a casa da mae do conchsurfer, que disse que ele estava trabalhando e so voltaria a noite, resolvemos entao ir para um hotel. O Reza nos levou. No total ele ficou quase duas horas com a gente dentro do seu carro, rodando num transito desgracado, ate nos deixar no nosso hotel. Reza tinha uns 45 anos, era empresario, pai de duas filhas, e estava perto do horario de almoco quando nos encontrou. Nao sabemos que compromissos ele precisou adiar para estar com a gente aquelas duas horas, mas pelo numero de ligacoes que ele recebeu no celular, nao foram poucas, ele era dono de uma construtora.

Sera que esse exemplo da para compreender ate onde vai a hospitalidade e gentileza iraniana? Sera que da para perceber que isso nao ‘e uma simples ajuda, implica tambem em algum sacrificio pessoal? ‘E claro que, depois de um mes de convivio com os iranianos deu para perceber que essa hospitalidade e bondade era uma mistura de uma formula magica: cultura persa + religiao. Os persas sabem receber e o povo ‘e religioso de fato. A estatura espiritual dos iranianos se destaca de muitos lugares por onde passei. ‘E claro que nos despedimos do Reza com convites pra jantar com a sua familia! Reza por aqui ‘e um nome comum. Ja que os shiitas acreditam nos 12 Imans, que seguem a linha de sangue do Profeta Maome, assim detem o conhecimento. Funciona como os nossos apostolos no Cristinianismo e nao sao poucos os Joaos e Paulos, etc, no Brasil.No dia seguinte, fomos conhecer o centro dos Shiitas, um complexo de mesquitas, capelas, museus e maosoleos que ficavam no coracao da cidade. Milhares e milhares de perguinos circulavam por ali. Alem de ser ponto de encontro dos devotos de Mashhad no final da tarde. Tive que comprar um shador e me cobrir dos pes a cabeca para entrar. Passeamos pela imensidao do lugar, vimos pessoas rezando em todos os cantos, alguns lugares so podiam entrar homens e outros mulheres. Numa dessas, eu tive que me separar do Gui e nos perdemos. Depois de quase um hora, ja estava desistindo de procurar, resolvi voltar para o hotel, e de la ligar para o celular do Gui. Mas como tinhamos que andar sem sapatos, e o Gui estava segurando os meus, tive que voltar de meia. Parei para pensar algumas vezes se devia fazer isso, mas nao aguentava mais procurar, e resolvi voltar de meias mesmo. Nas ruas as pessoas olhavam para os meus pes e cochichavam. Cheguei no hotel, contei tudo a recepcionista, que ate aquela altura ja era uma amiga, que ligou para o Gui e o celular estava fora de area, para ajudar mais ainda. Enfim, voltamos eu e a recepcionista para o Imam Reza Complex, quando cruzamos com o Gui no meio do caminho, branco de tao assustado. Ele nao achava que eu conseguiria voltar para o hotel sozinha, ja que tinhamos acabado de chegar na cidade e muito menos de meias. Mas deu tudo certo, apesar do cansaco e das rizadas que demos depois da situacao.

Complexo Imam Reza!

 

No dia seguinte saimos com a familia do Reza para jantar e tambem fomos resolver os problemas do visto do Turkomenistao. A familia do Reza era muito legal, apesar de nao falar uma palavra em ingles. Fizemos um pinquineinque e fomos conhecer o maosoleo do Ferdosi, o poeta preferido do Reza.

Reza e o Gui no mausoleu do Ferdosi!

Outra coisa que chama atencao no Iran foi o transito enlouquecido. Nao existe a tal da “preferencial”, a preferencial ‘e preferencial para todos. Mas em nome da simpatia, do taruf e da educacao persa, que deveria ser modelo para todos os colegios no mundo, eles nao se xingam, nao gritam, nada. Tambem nao usam buzina. Dao finos e mais finos nos outros motoristas, olham um para o outro, sorriem, e continuam. Um dia vimos um acidente, um carro capotado no meio da rua, os envolvidos com a ajuda de alguns curiosos, simplesmente viraram o carro de “cabeca” para cima de novo e tiraram do meio da rua, acho que ainda nao chegou aquela coisa de esperar a policia chegar sem mexer um centimetro.

Transito em Mashhad!

Repetimos mais uma saida com ele no nosso ultimo dia e ele nos levou a parte cool da cidade. Nao dava pra imaginar que aquela area ficava em Mashhad. Como estavamos num hotel de centro e perto do complexo, so viamos pessoas mega conservadoras nas ruas e ele nos levou na Batel Soho da cidade. Cheio de barzinhos, que ficam abertos ate meia noite, e claro nao vendiam bebidas alcoolicas, mulheres arrumadesimas com suas calcas jeans e lencos na cabeca so tapando o rabo de cavalo, com blusas compridas mas no maior estilo, quase parecendo que nao era por causa da lei, mas a roupa que usariam normalmente. Meninos bombados fazendo cara de mal e lojas internacionais mega descoladas. Jantamos numa pizzaria e eles nos presenteou, como era de se esperar do Ira (afinal nao conhecemos ninguem que nao nos deu um presente) com um livro dos poemas do Fersosi, e como a celebre frase: “uma recordacao pra voce lembrar da gente”.

Voltei para casa super triste quando me dei conta de que aquele era o ultimo dia no Iran. Na verdade estava de luto desde os ultimos tres dias. Quando entrei no hotel, me ataquei a chorar copiosamente, me lembrando dos momentos vividos no Ira e principalmente dos momentos memoraveis com as pessoas que tivemos a “sorte” de cruzar no caminho. As melhores experiencias de viagem que tive com pessoas foi sem duvida no Iran, varias vezes tinha que disfarcar e chorar pelos atos de bondade que os iraniaos tinham com a gente.

Quando ainda estavamos na pizaria escrevi uma cartinha para o Reza entregar a familia dele, ja que eles nao puderam vir nesse dia, porque a irma de sua esposa tinha acabado de chegar no aeroporto direto da Turquia. Quando ele viu eu escrevendo se emocionou e agradeceu muito. Os iraniamos se emocionam facil, pelo que percebi. E sem alcool. E ‘e uma emocao diferente, ‘e uma emocao religiosa, ‘e uma emocao de amor ao proximo. O coracao deles ‘e muito grudado com o corpo. Nos despedimos do Reza na frente do hotel e eu ja estava com um no na garganta. Liguei para Sumi, Payam e Nana para me despedir tambem. Foi uma choradeira dos dois lados.

Deixei o Ira com uma sensacao maravilhosa de contentamento e saudosismo, um dos paises mais fantasticos que ja conheci, um dos lugares que mais me senti feliz em estar, um lugar diferente, um lugar realmente especial! Fui embora com orgulho do Ser Humano! Fui embora apaixonada pelos persas. Fui embora com o coracao apertado. Parabens Ira e muito muito obrigada!

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A cidade mais bonita do Ira!

Foi bem dificil deixar a casa da Sumi e do Payam. Se nao fosse o bom senso do Gui, eu estava la ate hoje conversando no sofa. As vezes fico pensando que se viajasse sozinha, ao final de dois anos teria conhecido no maximo 10 paises. Teria ficado um mes numa ilha aprendendo massagem tailandesa e fazendo snorkling; outro mes numa vila nas montanhas aprendendo culinaria indiana; outros tres meses num retiro fazendo yoga, meditando e discutindo metafisica. Gracas ao Gui nada disso foi possivel, mas por outro lado, nao teria conhecido nem um terco dos paises que visitei.

De Tehran seguimos entao para Cashan, um dos destinos mais visitados pelos turistas. Cashan ‘e uma cidade super antiga e muito interessante!! Tinha um clima bem tradicional, mulheres cobertas com seus shadors dos pes a cabeca, mercados de rua, pracas lotadas de pessoas fazendo piquiniques, e casaroes tipicos de tirar o folego, com suas “piscinas” compridas decorativas na frente. La, aproveitamos para dormir num conchsurfer, que morava na parte de baixo de uma casa. O lugar era vazio, so tinha uma cozinha equipada e tapetes ao redor, bem ao estilo iraniano, que da uma sensacao que o pessoal nao tem dinheiro para comprar moveis.

Casas iranianas!

Casaroes tradicionais!

Mais casaroes.

 

Nas ruas de Cashan!

O Reza, era simpatico e pratico. Como ele tem uma pratica enorme em receber viajantes, eu nao sei se ele se ocidentalizou ou se ele ‘e assim mesmo. Mas a experiencia da relacao nao foi tao rica como foi com todos os iranianos ate aqui. Parecia que eu estava num hostel na Europa! Ele era super pratico, despachado, mostrava os mapas, dizia os roteiros que deveriamos fazer, precos, horarios, tudo tudo, alem de ser um capricorniano que realmente seguia a risca as suas descricoes astrologicas, fazia o estilo: “respeito voce, desde que voce pense como eu”.

No dia seguinte, juntou-se a nos, um casal da australia para ficar na casa do Reza. Como o Reza passou a noite no trabalho, ficamos os quatro “sozinhos em casa”. O casal era muito legal e meio “hippies”. Ela era alema, tinha 26 anos e estava morando ha cinco na Australia, sendo os ultimos tres dentro de um carro. Tomava banho nos chuveiros publicos da praia. Acabou nao fazendo faculdade e sua vida era viajar. Trabalhava tres meses sem parar (procurava sempre trabalhos que davam tambem a estadia), e o restante do tempo viajava. Nos ultimos anos, sua vida basicamente foi trabalhar tres meses e viajar seis. Uma conta interessante! Ela dizia que nao conseguia passar mais de tres meses numa mesma rotina. Dava para ver que ela nao conseguia nada muito tempo igual, ela mudava tambem radicalmente o cabelo de tempos em tempos: preto, louro, careca, cabeluda, etc. Dizia que so nao tatuava todo o corpo porque era muito caro e não teria dinheiro para viajar.

Sozinhos em casa!

Ja ele tinha 56 anos, uma filha de 21, era divorciado, e ha 10 anos nao tinha mais casa. Decidiu mudar de vida radicalmente, de trabalhador de carteira assinada numa empresa, com carro e casa proprios, para vender tudo, passar a buscar trabalhos temporarios e viajar o restante. As vezes eles moravam na garagem da casa da ex-mulher. Se diziam amigos, mas com o tempo vimos que eram um casal. Nao gostavam de rotulos e nem queriam acumular cadeiras, mesas, diziam. Porque ter uma casa? Voce nao precisa de nada disso. ‘Quando vieram para o Brasil, passaram quase dez dias numa guest house na favela cheirando e indo nas festas de funk. Apesar da descricao ser estranha, eles eram de fato pessoas bem bacanas e divertidas. Eles eram reais, apesar de seu modo de vida ser bastante diferente.

Normalmente, nas minhas experiencias com pessoas que optam por uma vida muito fora da sociedade, elas tendem a se tornar meio artificiais, numa conversa, por exemplo, se voce fala que quer ter filhos, eles te olham com uma cara tipo “putz, mais um ordinario”. Se voce pergunta quais sao os planos, eles dizem: “que planos, vivemos do presente, do hoje…” Se voce fala que voce nao acha certo tal coisa, eles dizem: “certo? Nao existe certo e errado…” Isso me da um nervoso… Claro que estou fazendo uma caricatura e exagerando, porque geralmente isso nao vem tudo junto na mesma conversa.. Mas enfim, eles nao era assim! Tinham essas escolhas de vida no momento, mas conseguiam conversar com voce e falar de si com naturalidade. Eles estavam sendo de fato o que eles sabiam de si mesmos e aproveitavam suas experiencias para se tornar pessoas melhores, alem de tratar muito bem os locais, se doavam bastante as conversas e exitacao dos iranianos frente aos turistas. E conversavam com voce sem preconceito por voce ter uma casa e querer ter filhos. Prometeram nos visitar em Curitiba na Copa de 2014. Ficaremos esperando reencontrar o Stu e a Merlanda!

No dia seguinte fomos juntos ate Abyane, um vila nas montanhas maravilhosa, com suas casas feitas de barro, pessoas tipica, estranhamos apenas que a maior parte dos moradores eram idosos, o que demonstrava que logo a vila viraria apenas um museu. Depois de passearmos pelo meio das ruazinhas e tirar fotos com os iranianos que nos paravam no meio do caminho, fomos ate as ruinas de um castelo que ficava as margens da vila, no topo de uma montanha, e que tinha uma vista linda para a vila e para todos os lados que voce olhasse. Um dos lugares mais lindos que ja vi!

Populacao local!

Vista de Abyane do outro lado do vale!

Nos despedimos de Cashan poucos dias depois e seguimos para Isfahan. A cidade no Iran que me encantou. Arborizada, limpa, linda, gostosa e cheia de vida. A cidade mais bonita do Iran para mim. Tambem moraria la, depois dos seis meses de Howrama.As ruas eram cheias de pessoas e, as pessoas, novamente, uma simpatia sem tamanho. A praca Imam Russein, onde ficavam a maioria dos monumentos, era de chorar de tao linda. O conjunto monumentos + a praca mais frequentada da cidade, tornava o lugar impar. As mesquitas dos homens e das mulheres e os palacios eram estonteantes. As mesquitas e parte dos palacios eram revestidas de mosaicos estilo miniatura, todos de uma cor entre o azul e o verde, cor da espiritualidade para os muculmanos, eles fazem cada combinacao com essas miniaturas, misturam cores e estilos, que fica uma coisa impressionante.

Palacio das 40 colunas!

Dentro das mesquitas!

 

Arte Persa, nao 'e de babar?

 

Pinturas no museu do palacio!

Junto com a arte persa-muculmana presente nos monumentos da praca Imam Russein, mais os milhares de piquiniques e os inumeros pedidos para nos conhecerem, tornava Isfaham um lugar especialissimo. O highlight do highligth das cidades do Iran! Quanto mais o dia caia, mais iranianos saiam as ruas para fazer piquinique. Os iranianos costumam encher as ruas depois do calor do dia, e gostam de jantar muito tarde. Os convites de piquiniques para jantar podem comecar as cnco da tarde, e a janta efetimamente comecar la pelas dez e pouco.

Mais iranianos querendo conversar!

Praca Imam Russein!

Mesquita das mulheres!

Movimento da praca a noite!

 

Ponte dos Arcos em Isfahan!

Nao demorou muito, e nos encontramos com a Sumi, Payam e a Sara, que aproveitaram o fim de semana para nos encontrar novamente. Passamos a maior parte do tempo na praca e arredores, alem de jantares deliciosos, com o inesquecivel fesenjun, um frango ao molho de roma, que pretendo fazer no Brasil. Delicioso!

Com choradeira, nos despedimos dos nossos amigos, que queriam nos encontrar de novo, combinamos varios lugares, entre Brasil, Ira e ate a India. Eles enlouqueceram pela India, mas ja teremos visitas suficientes no Hindustao. Por mim pode ser no Ira, porque definitivamente voltaremos muitas vezes quantas forem possiveis.

Mulheres Iranianas

A Sumi tinnha uma irma chamada Sara, que era uma figura curiosa. Sara tem 22 anos, mas se comportava como uma adolescente de 15, dos tempos dos nossos pais. Ela era apaixonada pelo professor de ingles. Um dia pensando em se fazer notar e seduzi-lo, advinha o que ela fez? Comprou um perfume e foi na aula cheirosa! Nao ‘e o maximo? Pois ‘e, a injenuidade da Sara nao parava por ai. Ela estava se preparando psicologicamente para experimentar alcool uma hora dessas, ela estava decidida! E tambem, se preparava para experimentar homens! Eu nunca tinha ouvido esse termo, mas o experimentar homens significa talvez dar um beijinho, paquerar….

Ela sonhava em ter liberdade para colocar a roupa que quisesse. Nao entendia porque os homens tinham que ser tao machistas e porque as mulheres no Ira tinham que casar virgem (se quisessem casar)! Queria ter liberdade de ir e vir, liberdade de expressao, queria ir numa boate e dancar ate o amanhecer, queria dancar com homens e mulheres juntos, no mesmo ambiente! No Iran no existem casas noturnas, ou coisas do tipo. Inclusive nos casamentos, de um lado fica a noiva com as mulheres e do outro o noivo com os homens, em ambientes separados, onde ninguem podem se ver. So o noivo pode circular entre os dois ambientes. Para os mais modernos, depois da cerimonia, os convidados mais intimos sao recepcionados em casa, onde tem bebida liberada, homens e mulheres dancando juntos.

Sara, eu e Sumi!

Como perder a virgindade ‘e garantia de ficar solteira, ‘e muito comum no Ira cirurgia plastica. Conforme elas, muitas mulheres fazem antes de casar. O medico mais acougueiro vai cobrar 200 e os melhores 1000 dolares. A virgindade nao ‘e restrita aos mais tradicionais, os jovens modernos tambem se casam virgem. Casar virgem ‘e quase unanimidade.

Falando em cirurgia, alem “dessa”, elas tambem sao campeas de cirurgia de nariz. Ja que a unica coisa que pode ser mostrado ‘e o rosto, ‘e muito comum ver nas ruas mulheres com esparadrapo no nariz. Elas procuram manter o rosto perfeito. P^elo ‘e sinal de fim dos tempos, portanto se depila tudo, t-u-d-o, dos dedos do pe, passando pelos bracos, ate o rosto. Quando fui ao salao em Tehram, no final do procedimento, a mulher me olhou e falou: “So isso?” Eu demorei para entender. So depois ao chegar em casa que a Sumi foi me explicar. Passado uns dois dias, com um pouco mais de intimidade, a Sumi me disse: posso depilar o seu rosto? Pelo que me constava, eu nunca tive p^elos no rosto. Deixei, so pra ver como elas faziam! Ela pegou aquele fiozinhoe com um tecnica ninja tirou muita coisa, que so com uma lupa poderia ser observado. Eu me diverti, se nao fosse dois dias depois ficar com o rosto todo cheio de marcas, porque me deu uma grande alergia!

Iranianas modernas fazendo pose para tirar fotos!

 

 

Entre amigos!

De Howrama seguimos para Tehram. Conseguimos chegar no fim de semana. Acabamos escolhendo ligar para o “casal pos moderno”. Pegamos um onibus de nove horas ate la, bem confortavel e com servico de bordo.

Quase nove horas da noite chegamos em Tehran. Era quinta-feira, o sabado para nos, já que o final de semana dos muculmanos ‘e na quinta e sexta. Abrindo um parentes as religioes semiticas fizeram bem direitinho: sexta o dia sagrado dos muculmanos, sabado dos judeus e domingo dos cristaos. Ligamos para o Payam e ele passou o endereco em farsi para o taxista, já que eles moravam ao norte e bem longe da rodoviaria. O norte ‘e a regiao chique de Tehran. No caminho, o transito era absurdo, dizem que ‘e normal por la. Nunca morei em SP, mas parece bem semelhante, a unica diferenca ‘e que voce pode ficar parado no congestionamento, sem que ninguem venha te assaltar. Aproveitei para ficar olhando pelas janelas e conhecer a cidade. Tehram, apesar de grande, parecia bem interessante. Ao meu ver, não tinha aquela cara sempre a mesma de cidade grande, tinha uma certa identidade. Os carros eram bem velhos nas ruas e o peguet branco 206 o mais cotado entre os  jovens. No limite da cidade, ficam o inicio das montanhas, um visual sem igual.

Quase onze horas da noite chegamos a casa dos nossos amigos. A recepcao foi impactante. Eles haviam arrumado a casa para nos receber, tinham musica de fundo e uma alegria estampada no rosto. Logo nos ofereceram: “voces preferem dormir no nosso quarto, ou neste aqui ao lado, ou ainda ao modo iraniano (sobre os belissimos tapetes persas no chao)?” Escolhemos o quarto ao lado, onde eles abriram alguns colchonetes sobre os tapetes, com travesseiros fofos e cobertor. Estava temendo ter que dormir no chao-tapete novamente! Mas deu tudo certo.

Tiveram o bom senso de perguntar se queriamos tomar um banho antes do jantar e para mim foi a gloria. Tomei um banho delicioso enquanto o Gui conversava com eles sem parar. Pediram entao se podiam servir o jantar. Quando sentamos, comecou a vir os pratos impecavelmente decorados por eles, pareciam de restaurante. Coisa mais bonitinha. Eles tinham realmente se empenhado para nos receber.

Cardapio: frango com legumes e pessego ao redor, arroz com acafrao e frutas secas com a parte queimadinha, um molho vermelho apimentado com carne moida bem tipico e delicioso,azeitonas, e  iogurte gelado com menta. Tambem tinham comprado um vinho para tomarmos. Mas deu para ver que foi so pela gente, pois quando foram procurar o saca-rolhas, viram que não tinham rsrs. Depois veio a sobremesa que não lembro bem o que era, mas bem gostosa.

E dali em diante, engatamos num papo mais interessante que o outro, que foi de chorar de tao bom. Eu não acreditava que aquilo poderia estar acontecendo, me beliscava de tao emocionada. Porque geralmente apesar de gostar muito de pessoas, de estar com elas e de escuta-las, dificilmente as pessoas conversam coisas que realmente me interesssam. Falam mais das coisas que estao acontecendo fora delas, seja na politica, na economia, na biologia, na moda, na educacao, no trabalho, na tv, no cinena… Ja com essas pessoas, nos falamos de tambem de diversos assuntos, mas elas estavam ali, presentes, em cada um deles. Falavam da politica, da economia ou da sociologia, mas de como isso as afeta tambem. Não como um jornalista escreve uma reportagem, imparcial, imparcial, imparcial. Se interessaram em saber a historia do cristianismo, em entender a nossa religiao. Queriam compreender as diferencas entre catolicismo e protestantismo, por exemplo, assim como nos queriamos entender as diferencas entre xiitas e sunitas. Eram pessoas que falavam de si mesmas, sem achar isso over, profundo demais ou esquisito. Mas como uma coisa natural que se fala entre pessoas que vivem, aprendem, pensam, sofrem, se alegram, buscam, encontram, perdem e ganham.

Eu não sei quantos dias eu poderia ficar ali conversando com eles… Mas foram quatro dias intensos, onde nos dormiamos as quatro ou cinco da manha, pois passamos a maior parte do tempo sentados no sofa, falando falando e falando.

Cafe da manha - cara de sono ou nao?

E o cuidado deles com a gente era impressionante, não podiamos mover uma palha para levantar um prato da mesa. Disseram que era costume iraniano, o hospede ‘e sempre um enviado por Deus, est’a no Corao. Me sentia realmente enviada por Deus, pois faziam tudo por nos. Eu ate brincava dizendo: “a princesa quer cha agora!” hehe. Alem de não deixarem nos encostarmos na carteira, ate minha ida ao salao foi paga. Nada, nada, nada, não podiamos nem pensar em pagar uma bala.

Ao longo dos dias foram vindo os presentes, em ordem: um chale colorido lindo, um brinco, um livro de poemas em farsi, um livro de poemas em farsi e ingles, um pedaco de tecido retirado do vestido de uma noiva que da muita bencao, duas canetas lindas, pois vinham que nos tinhamos diarios, um terco comprado num dos lugares mais sagrados para o muculmanos xiitas, Kerbala (onde morreu o Imam Hussein), se não estou esquecendo de nada, ‘e isso.

Durante todos os dias, os outros amigos Nana e Abbas, que nos chamavamos de Yazd, pois ele era de la, ligavam todos os dias insistindo para irmos para casa deles. Como não conseguiamos parar de conversar com a Sumi e o Payam, tentavamos despista-los, com a desculpa de amanha, e depois amanha de novo… no fim das contas acabamos não indo. Mas fizemos programas muito legais com eles tambem. Um jantar na casa deles, uma festa, e outro jantar fora de despedida.

Sexta fomos na festa da casa de campo da Nana, na saida de Tehran, perto da montanhas. Foi muito interessante ver todos os iranianos arrumadissimos nos seus carro,  para as baladas nas casas dos amigos aos arredores de Tehram, para terem algum sossego com a bebida.

A maior parte da populacao iraniana ‘e muito religiosa e tradicional e apoiam o governo, e há uma minoria moderna e secular que não apoia e tenta na medida do possivel levar uma vida livre ali.

Foi o que vimos nos carros. As mulheres super maquiadas e carros e carros de amigos indo para a casa de alguem. No caminho a policia já sabe e faz um tipo de blitz, que ‘e na verdade para verificar se eles tem bebidas, entao o engarrafamento ‘e grande.

Chegamos na casa da Nana por volta das nove horas da noite e todos os seus amigos estavam sentados ao redor de uma mesa, as mulheres todas a vontade, de saia, regata, etc., havia um quarto para mudar de roupa ao chegar, largar a scarf, e mantum. Uma das convidadas estava cantando. Os iranianos adoram rescitar poemas um para o outro, da para acreditar? Que povo mais sofisticado!

Ficamos ouvindo, depois vieram as comidas e  o DJ comecou a botar pra quebrar. As musicas eletronicas, mas iranianas. Bem interessante. Elas dancava de um jeito que lembrava as indianas, mas muito mais sexy e charmoso, não aquela coisa bracos para um lado e para o outro. Os homens dancavam juntos olhando um para o outro. Fotos e mais fotos eram tiradas. Na hora da foto, todos se juntavam e  faziam uma pose coletiva maluca, num estilo “ como nos divertimos, como somos felizes juntos, nos contra o mundo….” Bem engracado de ver.

Dancei um monte, tentei imita-las uma hora, mas disseram que eu estava dancando indiano não iraniano, enfim… e depois fomos para dentro da casa, onde cada um pegou um instrumento, daqueles super antigos, classicos que voce ve em fotos nos livros dos poetas e comecaram a rescitar um para o outro novamente. Muito legal!!!

Ate que repentinamente, veio a noticia de que a policia estava la fora e tinha sido subornada por 100 dolares para todos sairem da festa em 15 minutos, pois eles iriam voltar e prender todo mundo. La veio a correria para sairmos, eles tentavam nos deixar calmos dizendo que isso era normal, e que eles so queriam dinheiro, mas nos ficamos preocupados. Eu tava me divertindo com tudo, mas o Gui temia ser expulso do pa’is, eu achava que era exagero Guilhiano.

La fora, os carros dos convidados ficavam um em cada canto, bem longe da casa para não chamar atencao. Fomos pegar o nosso e seguimos embora. Nossos amigos pediram mil desculpas para gente pelo ocorrido. O Gui brincou que não tinha problema, que eles podiam nos levar sempre para situacoes arriscadas, desde que elas acabassem bem no final, como essa.  Eles disseram que se tivessem entrado, com certeza nos seriamos os turistas brasileiros presos numa festa de manchete nacional.

A Sumi nos contou que estava muito nervosa, pois ela não bebe e se caso a policia baixasse ali, ela seria presa junto, e como ela ‘e diretora de cinema, a carreira dela estaria arruinada no Ira… Percebemos que a situacao não ‘e brincadeira, um dos convidados por exemplo, no camiinho para a festa foi pego com seis garrafas de uisque (o equivalente a um caso de trafico no Brasil), numa das blitz da policia, e teve que pagar 3000 dolares para não ficar seis meses preso e levar 70 chibatadas. Da para acreditar? Vimos que a coisa ‘e seria, mas que eles já sabem bastante como lidar com a situacao e viver num pais fechado. E a policia corrupta no fim das contas ajuda um monte.

O Payam e a Sumi brincavam todo dia quando tinham que sair de casa para qualquer coisa, que eles  precisavam incorporar a segunda personalidade. Diziam que tinham duas, a de casa e a publica. Em casa: bermuda, camiseta, assuntos sem censura, etc, na rua: calca e camiseta, e as mulheres, calca, mantum e scarf.

Da para perceber que ‘e um sistema que so não caiu ate hoje, porque o povo em geral ‘e muito religioso. E ‘e bastante complicado opinar, porque tem certas coisas que são bem melhores la do que no ocidente e outras que não. Alem do que, me faltam informacoes e conhecimento suficiente para poder ter uma opiniao justa, entao posso falar mais do que saltou aos meus olhos e do que as pessoas que conversamos se sentem afetadas.

O povo por ser religioso mantem o pais seguindo suas tradicoes, como se ve pelos poemas, instrumentos, musicas locais, roupas, costumes, etc., o que acaba segurando a onda para daqui um pouco não estar todo mundo escutando o mesmo hit internacional, o tipo moderno padronizado globalizado.

A seguranca ‘e enorme nas ruas, pois o povo ‘e religioso, o que torna eles muito mais morais em seu comportamento, alem da lei severa para intimidar os realmente bandidos. O clima no Ira em geral ‘e muito respeitoso, os motoristas dirigem feito loucos com suas regras de transito quebradas, e voce nao ve uma buzina, uma cara feia. Entre as pessoas ha tambem uma clima de apoio mutuo, o que nitidamente ‘e resultado de um povo com uma forte vida espiritual.

Por outro lado, as condicoes de vida para muitos ‘e dif’icil. Escutamos muitos iranianos reclamando que precisavam trabalhar demais e que os precos nao paravam de subir. Qualquer protesto na rua ‘e fortemente reprimido, e o governo usa a religiao para dizer que aquilo nao esta de acordo com o Corao, e o povo religioso, acata.

Quem quer liberdade para escolher o tipo de vida que quer levar, desde a roupa ate o comportamento, ‘e proibido de seguir sua vontade.  A liberdade de imprensa, por exemplo, ‘e quase nula. A Sumi contou que todos os filmes que ela pretende fazer, antes precisa ser enviado ao governo para aprovacao do tema, para so depois rodar. Entao, ao escolher um filme ela precisa pensar num tema que nao seja sens’ivel ao governo. Conta inclusive que nao tem vontade de sair do Ira, pois ela quer promover reflexoes para os iranianos atraves do cinema, por acreditar que o Ira precisa disso. Ela ja foi premiada por alguns de seus filmes na Europa, e ja recebeu convite de ficar por la, mas acredita que nao tem tanto a acrescentar nestes paises. Ja o Payam precisa fazer uma arte feliz, onde so expresse coisas boas, para as pessoas não verem os problemas do  pa’is. Na televisao muita comedia, isso nos chamou atencao. Alem de muuuitos sites bloqueados na internet.

As minorias religiosas, como os Zoroastras e Cristaos, são descriminados pelos muculmanos. Enfim, o Ira ‘e um pais como todos os outros – imperfeito. São problemas diferentes que os nossos, mas são problemas iguais. Uns maiores, outros menores, mas não importa, alguem já viu um pais justo? Alguem já viu uma sociedade justa? Alguem já viu um governo justo? Se fosse possivel a terra seria chamada de paraiso.

Uma historia comovente!

Passados os dias em Howrama, seguimos para Pavet, uma cidadezinha ali perto, que para chegar “precisavamos” passar por uma estrada de tirar o folego, cheia de pequenas vilas no caminho, montanhas e vales de arrepiar. Apesar de muito bonitinha e com um povo super acolhedor, Pavet parecia São Paulo depois de Howrama, mesmo tendo so 20 mil habitantes. Entao, dia seguinte, pedi ao Gui para voltarmos pra Howrama e ficarmos mais uns dias, antes de seguirmos para Tehran. Acabamos conhecendo um local e ficando na casa dele. Como ele tinha morado 12 anos em Londres, falava um ingles muito bom. Morava com a esposa e filha recem nascida que passava boa parte do dia amarrada no berco, ‘e tradicao em varios lugares o bebe na hora do sono ficar amarrado. Agonia um pouco ver. A menina se chamava Regiane, achamos o nome estranho para um kurdo, quando ele comecou a nos contar sua historia.

Na guerra entre Ira e Iraque, Howrama ficou no meio do fogo cruzado e toda populacao teve que abandonar suas casas e fugir para as montanhas. Omid tinha 8 anos quando isso aconteceu. No caminho pelas montanhas, mais bombas, e na correria, de um instante para o outro, ele perdeu sua familia de vista, quando se deu conta, estava perdido. Naquele instante, comecava toda a historia de uma crianca em constante luta para sobreviver sozinho. Omid precisou seguir com outros kurdos pelo caminho, e acabou chegando no Iraque. Passou muita fome, sede, etc., por la, ate conseguir encontrar um trabalho de servir chay em uma oficina. Trabalhou duro durante dois anos, dormindo num canto da oficina. Quando conseguiu juntar dinheiro suficiente para tentar partir para Turquia, buscando condicoes melhores. Nessas alturas, achava que os pais tinham morrido. No caminho para Turquia, dentro do onibus, um velho senhor muculmano vestido ao estilo bem religioso sentava atras dele. Ele resolveu contar quanto dinheiro tinha e não se deu conta que o senhor atras estava olhando. De uma hora para outra, o senhor comeca a gritar: “ladrao, ladrao. Roubaram meu dinheiro…” O motorista parou o onibus e comecou a revistar as pessoas, como o senhor sabia a quantidade que ele tinha, falou extamente o mesmo valor ao motorista. Fim das contas o menino foi acusado de ladrao, apanhou e foi jogado para fora do trem. La se foram os dois anos de trabalho e o sonho de ir para Turquia. Passou tres noites perambulando pela estrada, sem poder pedir ajuda com medo da policia. Conseguiu voltar para Bagda e trabalhou mais dois anos. Juntou dinheiro e seguiu para Turquia novamente. La, trabalhou uns anos e foi para Grecia. Sempre dentro ou embaixo de caminhoes-containers para conseguir passar pelas fronteiras. De la, seguiu para Italia, mas foi deportado para Grecia, tentou novamente ir para Italia, de onde pegou um trem para Franca e no mesmo dia outro trem para Suecia. Como era ano novo, nem pediram documento dele. Na Suecia pediu azilo politico que foi negado, sugeriram dele ir para Alemanha ou Inglaterra que estavam aceitando refugiados. Foi para Alemanha, mas descobriu que praticamente não teria liberdade por la, porque as regras para refugiados eram muito duras. Foi entao para Inglaterra. Ficou pelas ruas um tempo ate que um dia estava perto de uma escola, quando um grupo de meninas chegou e ficou tirando sarro dele. Mais tarde, já de noite, um carro se aproximou e ele com medo tentou fugir, quando percebeu que era uma das meninas do colegio acompanhada do pai, que estava indo la para ajuda-lo. Fim das contas, acabou morando um bom tempo com essa familia. Que familia! Mais tarde, a familia se mudou e ele foi morar em outra cidade a trabalho. Com16 anos voltou para Londres.No dia que chegou, conheceu a Regiane, uma brasileira de Londrina!! Ficaram amigos, foram buscar um apto para dividir custos e acabaram se apaixonando e virando namorados. Passaram quatro anos juntos. Já tinham uma vida digna e trabalho, quando um dia numa viagem de fim de semana, eles batem o carro, e ele acorda no hospital. A Regiane tinha morrido! Ela estava dirigindo. Ele passa 25 dias em Londrina com sua familia. Volta, sofre como um cao e se “recupera”. Revolve procurar os pais nas embaixadas, descobre que os pais não tinham morrido. Consegue o telefone, liga para eles, e a mae atende. Não consegue falar. Liga de novo, quando conta que era ele, a mae não acredita e desliga. Liga de novo, o pai atende e pede para “não brincar com uma coisa dessas”. Ele insiste dizendo que era ele. O pai comeca a fazer varias perguntas que so sendo ele poderia responder. Os dois se emocionam, choram… Quatorze anos depois, os pais descobrem que seu filho esta vivo! Voces conseguem imaginar uma situacao dessas? Ele volta para Rowrama quase 22 anos depois, com 30 anos. No aeroporto, vizinhos, familiares, e televisao local vao recebe-lo. Era o ultimo sobrevivente da guerra a voltar. Ele casa com uma menina da vila que sua mae arranjou. A menina engravida com dois meses de casados. Nasce a filha, ele coloca o nome de Regiane. Descobre pouco tempo depois que a esposa ‘e bipolar e que não há como ser feliz com ela (conhecemos a moca, e realmente parece impossivel….). Ele pretende se separar logo, so quer esperar a filha ficar um pouquinho maior, pois ela so tem tres meses. Trabalha como marcineiro, no seu proprio negocio. Depois do ocorrido do onibus, deixou de ser muculmano. Hoje esta buscando se encontrar de novo, após uma vida cheia de percalcos e surpresas. Continua a falar da Regiane e sonha em visitar o Brasil novamente… Quando Omid nos disse que tinha somente 31 anos, estranhamos, pois ele parecia muito mais velho. Como viu nosso espanto, disse que a vida fez com que ele crescesse muito rapido. Ele se emociona falando da sua historia varias vezes. Tem uma expressao calejada e uma saudades enorme da Regiane…

O paraiso nas montanhas!

De Marivan seguimos para Howrama, uma pequena vila tipica pendurada nas montanhas, que prometia ser um lugar maravilhoso. Como o petroleo ‘e muito barato por aqui, pegamos um taxi  exclusivo para chegarmos ate la, podendo assim parar ao longo do caminho para tirar fotos. Não sabiamos direito onde poderiamos ficar, já que nosso guia dizia não ter hoteis no vilarejo, enquanto  nosso motorista dizia que sim.

Ao chegarmos, nosso motorista estava certo, havia um único hotel de frente para as montanhas. O lugar era magico e belissimo, o  mais lindo que eu já fui de montanhas. Tinha um rio que cortava o vilarejo la em baixo, montanhas imponentes de pedra, e muito verde no vale ao longo do rio. Voce ficava sem saber para que lado olhar. E um silencio ensurdecedor.

Mas antes mesmo que nos pudessemos nos recompor da surpresa pelo lugar, chegaram alguns iranianos-kurdos super simpaticos pedindo para tirar fotos com a gente. Tiramos algumas e eles já nos convidaram para almocar. Agradecemos, eles insistiram, e la fomos nos largar rapidamente as bagagens no hotel e fazer check-in.

O menino carregou minha mala ate o quarto com a gente e já foi logo tirando um bone de inverno bem bonito que ele usava e nos dando de presente. Nos agradecemos e insistimos para que ele ficasse com o seu bone, mas ele nos pedia para aceitarmos seu presente e ter uma recordacao dele. Imagina, o almoco não tinha ainda nem comecado… E pelo jeito, ‘e tradicao dos iranianos quererem lhe dar algum presente para voce se recordar deles.

Do hotel entramos num dos sete carros da grande familia, entre primos e tios, e paramos num visual escandalizante no topo da montanha para fazer um piquinique. Os iranianos são obssecados tambem por piquiniques.

Logo estenderam seus tapetes, formaram uma bela roda, prepararam o chay, enquanto cozinhavam o kebab. Nos fomos os primeiros a ser servidos, claro. Ficamos conversando e tirando fotos ate a comida ficar pronta. Era um cuidado e uma atencao com a gente impecavel. Depois, fomos os primeiros a serem servidos de comida, o prato era o mesmo de sempre por aqui: kebab de frango, arroz com um pouco de assafrao no topo e umas frutas secas (eles sempre guardam aquela parte queimada do arroz que fica no fundo da panela, e deixam juntos no prato de arroz, que ‘e considerado o file mignon), e para beber o mesmo iogurte estranho ou coca-cola iraniana, de sobremesa melancia.

Vejam o tamanho da familia!

Fim do piquinique, a matriarca da familia gostou muito de mim, uma senhorinha muito simpatica, entao resolvi dar para ela de lembranca um escapulario, pois ela tinha ficado enlouquecida com minha estatueta da Nossa Senhora que tinha na bolsa. Ela não sabia o que fazer de tao feliz. Quando foram nos deixar no hotel, ela foi numa loja e comprou um colar tipico para mim da regiao, muito bonito.

As mulheres da familia com a matriarca!

Na hora da despedida, filas e filas de carros, abracos e mais abracos apertados (entre mulheres e  homens nem um aperto de mao, so um gesto com o corpo sem contato fisico). Eram sete carros com todas as familias buzinando e abanando para gente, um aue. Uma cena emocionante. Parecia que eramos amigos a vida inteira. Ate brinquei com o Gui  que nossa despedida no Brasil não chegou nem aos pes dessa!

Depois que o pessoal foi embora, fomos para o quarto descansar, já eram quase sete horas da noite. Um silencio absurdo no lugar e de fundo o barulho do rio la embaixo. Um ar fresco e puro. Nada de cheiro de cidade, muito bom.

No dia seguinte, fomos caminhar pela vila para conhecer um pouco da rotina dos moradores. Como a vila ficava cravada nas montanhas, eram varios labirintos para cima e para baixo. Resolvemos ir para cima, onde ficava o comercio local. Passamos por uma ruazinha de pedras muito bonitinha onde fica o “centro comercial”. Essa rua bonitinha ‘e chamada Little Paris. Forcando um pouco a barra da ate para chamar.

Little Paris!

Logo escutamos a chamada da unica mesquita e fomos ate la para conhecermos os moradores. Foi batata! Os homens comecaram a sair de suas casas e comercios e subir para rezar. O kurdo da montanha, alem de usar aquele modelo tradicional de roupa, tambem usa um casaco de la com umas ombreiras feitas de osso de vaca e uma bengala. O conjunto fica demais. Todos iam subindo em silencio, passavam por nos, nos cumprimentavam com o tradiconal: “salam ale kum” e seguiam. Ficamos ali contagiados com a calmaria do lugar e o dia a dia das pessoas.

Sa'ida da mesquita!

Chegando em Howrama!

Logo aproveitamos para desbravar tambem a natureza ao redor e conhecer melhor a vila, mas tudo exigia um bom preparo fisico. Fomos ate o rio la embaixo, aproveitei para escondido tomar um banho de roupa, o rio era extremamente gelado, mas delicioso. Revitalizante!

Depois que as roupas secaram, porque o sol era bem forte, fomos passear ao redor do rio e chegamos num lugar onde as maes e os filhos pequenos faziam piqueniques no final do dia,bem ao lado do rio. Em seguida voce via os filhos saindo da escola la em cima e descendo correndo para se juntar aos piqueniques. Ficamos ali paralizados com a vida pura de Howrama! Ja subir depois de volta foi de matar. Quase uma escalada. Chegando no hotel aquela sensacao impar de serotonina com vida  no campo que não tem preco.

O que voces acham do lugar?

Nao tem banho melhor que de rio.

 

Mais tarde descemos para jantar no restaurante do hotel, o único restaurante da vila, e não conseguiamos nos comunicar. Pedimos para irmos ate a cozinha e eles nos mostrarem o que tinham, já que o cardapio era em farsi e eles neem arranhavam o ingles. Nisso, um grupo de iranianos chegou e uma das meninas viu a situacao e pediu o que precisavamos. Falamos que gostariamos de entender o que tinha para comer. Ela tratou de comecar a traduzir a conversa e logo fizemos o nosso pedido.

Fim das contas, tratavam-se de dois casais de Tehran, que vieram passar o feriado em Howrama. Comecamos a conversar e eles eram muito bacanas. Vimos que eram iranianos modernos, bem diferentes de todos os que tinhamos conhecido ate ali.

Passado um tempo, nos convidaram para ir ate a casa que eles alugaram no alto da montanha, para tomar alguma coisa. Chegamos la, tratava-se de uisque, vodka, etc. No Ira ‘e proibido beber, entao a bebida vem ilegal pelas fronteiras e se paga bem caro por isso. Como ‘e mais caro e mais arriscado para comprar, voce nunca vai ver um iraniano com cerveja, ele sempre já vai direito no uisque, ou coisa assim, porque não vale a pena o risco por uma cerveja…

Bom, a noite foi muito engracada. Demos muitas rizadas, conversamos sem parar, eles querendo saber da nossa vida e a gente da deles. O litro de uisque foi rapidinho, mas eu e o Gui bebemos muito pouco. Uma das meninas não bebeu. Nunca experimentou bebida na vida. Disse que não sente vontade! Parte por seu proprio estilo, parte pela religiao.

Um casal era Somaye e Payam, ela diretora de cinema ele artista plastico; o outro Ramona e Abbas ela engenheira industrial e ele bussiness man. Os casais eram bem diferentes um do outro. Acho que já da para perceber pelas profissoes. Basicamente o primeiro fazia o estilo pos-moderno (preza a liberdade, mas gosta do tradicional e de certos valores morais, etc) e o segundo moderno puro (liberdade + liberdade +liberdade, não existe certo e errado e bla bla bla).

Fim das contas, trocamos telefones e prometemos ligar para eles quando fossemos para Tehran. E claro, o convite para ficarmos na casa deles estava feito. So apenas um pedido: se fosse possivel,  que fossemos no fim de semana, para eles poderem realmente aproveitar com a gente. Saimos de carona com eles de la, som alto e rizadas extravagantes, me senti na volta de uma balada. Chegamos no hotel empolgados para ve-los de novo, intu’iamos que Tehram com eles prometia!!

A Tchurma!

Curdistao Iraniano

Depois de passarmos pelo Curdistao Turco, Curdistao Iraquiano, chegamos no Curdistao Iraniano. Pelo que observamos e escutamos, ‘e o melhor dos “Curdistaos” para viver. Aqui eles podem falar sua lingua sem perseguicoes e não tem um governo psicopata como no Iraque que quer acabar com sua etnia. Podem simplesmente ter uma vida tranquila de um povo humilde de montanha.

No entanto, a coisa também não foi tao facil para eles. Apesar de estarem numa regiao bastante isolada nas montanhas, acabaram ficando no meio do conflito durante a guerra Ira e Iraque, que durou quase 10 anos e, por isso, tambem tiveram de fugir de suas casas pelas montanhas sem olhar para tras, so com a roupa do corpo. Muitas pessoas se perderam de suas familias durante o trajeto. Outras tantas, na hora do desespero e luta pela vida, tinham que seguir separadas, deixando que nao conseguisse mais caminhar para tras. Sao varias historias, desde familias inteiras dizimadas, ate pais que encontraram um de seus filhos vivos depois de 10 ou 20 anos e outros que conseguiram se manter junto do inicio ao fim e depois puderam voltar para casa.

Atravessamos a fronteira Iraque-Ira ate Marivan, e tivemos a sorte de dividir mais um taxi com um Iraniano, que da mesma forma que o anterior, não sossegou ate nos ver instalados num hotel. Quando chegamos na cidade, ele deveria seguir para Sarandaj, há cerca de duas horas dali, mas atrasou sua viagem tentando explicar para o taxista o hotel que queriamos ficar, mas como estava lotado, desceu conosco em cada um dos demais para ver se ficariamos bem instalados. Era fim de semana e vespera de feriado, portanto a cidade estava lotada. Marivan tem um lago muito bonito, e ‘e destino de descanso para muitos iranianos. Rodamos com nosso amigo quase duas horas procurando hotel e so havia uma opcao disponivel: o segundo pior hotel da cidade. Era um quarto grande, com cama de casal, tapetes furados com cigarro, vidro do banheiro quebrado e banheiro oriental (buraco no chao). O hotel era mais do que decadente e parecia sujo, mas não era, era velho mesmo e mal cuidado.

Nos despedimos do nosso amigo, que nos deixou seu endereco e convidou para ficarmos na casa dele quando passassemos por Isfahan – rota turistica e onde ele morava. Trocamos de roupa, ali comecava a vestimenta obrigatoria para mulheres: calca e blusa larga de manga comprida, que não marquem o corpo, a blusa deve cobrir quadril quase ate o joelho e veu na cabeca. Me arrumei e fomos ate a praca da pequena cidade do lago bonito nas margens da montanha. Na praca, muitos kurdos com sua roupa tipica jogando dama. Era fim de tarde, e todos na praca nos olhavam e vinham perguntar se precisavamos de alguma coisa, se estavamos bem no Ira, se podiam nos ajudar de alguma forma. Agradeciamos e explicavamos que estavamos num “bom hotel” e que so queriamos ficar ali. Dali um pouco, comeca o barulho ensurdecedor da mesquita, e muitos saem para rezar.  Aproveitamos para procurar um restaurante para comer.

Achamos um bem ajeitado, e como não conseguiamos nos comunicar, fomos ate a cozinha do restaurante apontar para as comidas que queriamos. Comemos um delicioso carneiro com arroz e saladas, e como sempre, um chay para digestao. Aqui o chay deles não ‘e com leite como na India, mas ‘e uma obsessao como la, tomam o dia inteiro, o tempo todo. E quase como nosso cafezinho, mas ainda somos moderados no café perto deles. Voce esta sentado na praca tem um senhor passsando vendendo chay. O moco que engraxa sapatos tem um chay do lado, e assim por diante. Tudo ‘e motivo para parar um pouco e tomar um chay.

Dia seguinte fomos ate o lago e ficamos olhando o estilo de vida das pessoas. Haviam alguns grupos de amigos cantando um para o outro (o que me chamou bastante atencao), criancas brincando, familias inteiras tomando chay e alguns homens nadando. As mulheres nada, so no pedalinho que tinha ali do lado com todo arsenal de roupas. Eu estava louca pra tomar banho no lago, mas não podia, tinha que ficar coberta so olhando. Que calor!  Como não podiamos nadar, resolvemos ir ate um parque ao lado para ficar embaixo das arvores.  Logo vimos que estavamos circundados por piquiniques de todos os lados e uma familia já nos convidava para tomar chay. Depois, comecaram a chegar seus amigos e eles foram nos apresentando para cada um. Quem arranhava ingles ali era rei, a maior parte das conversas eram por mimica. Cada vez que tentavamos ir embora, eles diziam que era para esperarmos a comida. Ali mesmo cozinharam frango e arroz. Enquanto a comida não ficava pronta, eles comecaram a dancar suas dancas tipicas, que vem se repetindo de geracao para geracao há muitos e muitos anos. De repente, comecou uma chuva forte e fomos todos para os carros, os cozinheiros tiveram que dar um jeito de continuar preparando a comida.

Assim que a comida ficou pronta, entraram no carro e fomos ate a casa deles. Um engarrafamento enorme para entrar na cidade porque todos resolveram voltar no mesmo horario, e nosso amigo ia furando fila, fazendo manobras e manobras, que no Brasil com certeza ele teria arranjado uma bela briga. Por aqui nada, nem uma buzinada ele levou. Os iranianos sao muito educados um com o outro. ‘E impressionante. A casa era super tipica, bem como mostra no filme iraniano “Filhos do Paraiso” (recomendo assistirem), sala grande, sem moveis, apenas uma tv, com seus tapetes persas rsrsrs belissimos no chao e algumas almofadas encostadas na parede. Ao lado, um quarto com o armario da familia, e uns colchoes finos para serem abertos na hora de dormir. Dentro da casa o chuveiro e fora o banheiro. Normalmente nas casas mais simples e tradicionais, ‘e sempre assim, casa vazia, so com os tapetes e banheiro e chuveiro separados.  Jantamos o nosso repetitivo kebab de frango com arroz e cebola crua e para beber o famoso iogurte deles, que  pode ser comprado ou feito em casa. Uma mistura de iogurte com bastante agua, folha de menta e sal. Esse era feito com leite de cabra. Um gosto super esquisito, mas refrescante e excelente para o estomago. As mulheres resolveram fantasiar eu o Gui com as roupas curdas.

Depois do jantar,  nos levaram na internet, porque falamos que precisavamos dar noticias as nossas familias. Na verdade não queriamos que eles nos levassem, so queriamos ir embora e na internet, pois já eram quase dez horas da noite.  Eles rodaram a cidade procurando uma internet aberta, esperaram nos mandarmos emails avisando que estavamos bem (a internet no Ira ‘e muito lenta, bloqueada para muitos sites), pagaram e nos deixaram na porta de casa. Na despedida, a dona de casa tirou seu anel da mao e me deu de presente, disse que era para eu ter uma recordacao dela. Comecavamos a experiementar a tao famosa hospitalidade iraniana (por aqui ainda so kurda), que tanto tinhamos ouvido falar. Impressionante e comovente!!!

 

Familia toda!

Danca curda!

Norte do Iraque

De Diabarkir seguimos para uma cidade chamada Dohuk, no Kurdistao, mas agora Iraquiano. Eu nao estava entendo direito para onde estavamos indo. O Gui insisitia em falar dificil desse tal Kurdistao, que foi dividido em partes, e que agora nos estavamos indo para unica parte autonoma. No caminho da fronteira comecei a perguntar mais e mais e a coisa foi ficando clara, parece que estavamos indo para o norte do Iraque.

Ao passar pela fronteira, duas bandeiras enormes do lado de fora, uma do Iraque, outra do Kurdistao Iraquiano. Naquele momento eu olhei para o Gui e disse: “nos estamos no Iraque?” Eu ria de nervosa. Toda aquela fantasia que a gente tem de bombas caindo para la e para ca, era o que me vinha na cabeca. Por outro lado, ja tinhamos nos enfiado em cada buraco juntos, e que nunca eram tao buracos como a gente pensava, que sentia uma certa tranquilidade, tipo “ ok, ‘e o Kurdistao Iraquiano, nao o Iraque”. Mas enfim, o presidente ‘e o mesmo…

Fomos muito bem recebidos na fronteira e recebemos um chay de boas vindas. No caminho passamos por algumas barreiras de exercito com suas barricadas de areira, ate entrarmos em Dohuk. Super amistoso. Por la, o kurdo que dividia o carro com a gente não conseguia compreender que poderiamos procurar hoteis sozinhos, como sempre fizemos, e insistia em nos deixar num hotel. Mas como ele não falava nada vezes nada de ingles, rodamos um monte, porque ele não entendia o nome do hotel que queriamos ficar e nem que poderia nos largar numa esquina qualquer no centro, que encontrariamos um. Fim das contas, quando chegamos no hotel que tinham nos recomendado, o hotel era podrasso, mas preferimos dizer que estava bom, para não continuarmos rodando com o kurdo pela cidade.

Tivemos que apelar para o lencol reserva que guardamos na mala para emergencias – hoteis sujos. Quando fui ligar o chuveiro, so agua gelada e não saia agua, so da torneirinha de baixo que fica acoplada. Comecei a me irritar, pois afinal, o cenario era desconfortante. Estava no Iraque, num hotel sujo de centro e sem ter como tomar banho direito. O Gui sentiu que o clima tendia a ficar muito pesado para o lado dele e comecou a esquentar agua numa especie de chaleira eletrica que compramos para chas e cafes e jogar numa bacia que tinha ao lado do chuveiro. Depois de meia hora esquentando chaleira por chaleira, deu uma bacia de agua cheia e consegui tomar banho. Antes de fechar os olhos disse para o Gui num tom bem impositivo: “amanha vamos para outro hotel, ok?!”Ele entendeu, e dia seguinte nos mudamos para um hotel mais caro, mas infinitamente mais confortavel, limpo e que dava uma sensacao mais acolhedora, tratando-se do fato que estavamos no Iraque.

Fomos entao caminhar pelas ruas e a sensacao foi de “sim, mais do que nunca nos estavamos viajando”. Mercados de rua, mulheres cobertas, homens kurdos com sua roupa tipica, uma especie de calca de magico com um cinto colorido e um blaiser por dentro do cinto e turbante na cabeca, muito legal. Outra coisa que se destacava eram os fios de luz, um emaranhado de fios atravessando hoteis, casas, ruas. A sensacao era de que a qualquer momento poderia haver um curto circuito e seria um grande desastre. Paramos para tomar chay algumas vezes, mas estranhamos que mesmo vendo quase nenhum turista, quase nem um local vinha falar com a gente. Pareciam fechados.

Imaginem um curto circuito por aqui?

 

A noite quando fomos jantar, estavamos perdidos procurando um lugar para comer, quando um jovem de cabelos ao estilo Elvis Presley apareceu nos mostrando um bom restaurante. Ele gostava de ser chamado de Hollywood e sonhava em morar no USA. Tinha aprendido ingles com os soldados americanos. E contava que os kurdos em geral gostavam muito dos americanos por terem libertado eles das garras do Sadam Russein e controlado melhor a situacao no Iraque. No dia seguinte fomos comer no mesmo restaurante, quando no meio do jantar, se aproximou de nos um senhor simpatico. Depois de longo papo descobrimos que ele era padre e tinha vindo ao Iraque para dar apoio aos cristaos em perseverar por sua fe, ja que aqui sao minorias. Um senhor maravilhoso e de muita disposicao. Tinha 75 anos, viajava sozinho, ficava em hoteis mais simples que os nossos e se arriscava indo a cidades no Iraque como Mosul, que hoje ‘e uma regiao de conflito. Contou que nesta tentativa, conseguiu andar 3 quadras e foi deportado pela policia iraquiana, pois seu visto era somente pela regiao do Curdistao.

Nos e o Hollywood!

De volta para o hotel, o Gui resolveu caminhar mais um pouco e eu entrei sozinha. Quando cheguei, o recepcionista da tarde já não era mais o mesmo. Pedi a chave do quarto e subi. Alguns minutos depois o recepcionista bateu na porta e me deu uma sacola com garrafas de agua (nos hoteis por aqui, agua ‘e de graca). Agradeci e fechei a porta. Minutos depois ele ligou perguntando se eu queria chay, na verdade ele não falava nada de ingles, dizia so: “chay, chay….!”, eu disse: “yes, yes…” Chay tambem era de graca nos hoteis, entao estava aproveitando tudo que vinha.

Dali um pouco uma bandeija bonita, com uma xicara, um bule e acucar. Agradeci, quando estava fechando a porta ele disse: “You are so beautiful”. Eu ohei assustada, agradeci seria e fechei a porta. Fiquei paralisada na cama com um pouco de medo, apesar de ver que o cara era menos perigoso que uma mosca e tinha cara de super do bem. Dali uns minutos, toca o telefone e ele diz: “Sorry sorry madame, but I love you!” Eu comecei a tentar dizer que ele não podia falar aquilo porque eu era casada, e para olhar meu passaporte com o do meu marido na recepcao, mas ele não entendia nada. Falava: husband? What ‘s husband? E dava pra ver que não era mentira, ele so repetia a palavra porque eu estava citando varias vezes.

Fim das contas, o Gui chegou e contei para ele. Disse para não pegar pesado pois o cara era do bem, mas so para ele aprender e não fazer mais isso com outras turistas. Afinal para ele, eu era ate entao, uma moca ocidental (ou seja, que vive em paises onde a liberdade sexual ‘e total), sozinha num hotel. Era a oportunidade da vida dele, já que por ali, eles não tem nenhuma liberdade nesse sentido. Tanto que homens caminham de maos dadas, abracados, se acariciando, e nem passa pela cabeca a palavra gay, são realmente so amigos.

Bom, o Gui com seu sangue latino somado ao seu signo sagitariano + dragao de fogo no horoscopo chines e sua carreira com lutas marciais, desceu as escadas literalmente como um dragao, eu so pensava: “coitado do cara, pois connheco o marido que tenho”.

Não deu outra, o Gui assustou tanto ele dizendo que ia falar com a policia, que o cara se ajoelhou e beijava os pes dele e pedia em nome de Alah perdao. Eu queria muito ter visto essa cena. O Gui voltou chocado e meio rindo para o quarto com pena do cara. E falei pro Gui voltar la e dizer que não ia contar para a policia e que perdoava ele, porque imaginava como estava a consciencia do cara anquela hora, pois dava para ver que ele era super injenuo. Dali uns minutos, ele bate na porta do quarto, quando o Gui abre, ele se joga de novo nos pes do Gui e beija sem parar. Pede para falar comigo e pedir perdao tambem para a “madame”. O Gui, como um bom machao, diz: “ não, voce deve pedir para mim, eu sou o marido.” Fiquei nervosa com toda a historia, mas foi muito engracado e o cara tadinho, era realmente do bem!

Dia seguinte seguimos para Erbil num taxi comunitario.Um dos passageiros era iraniano e comecamos a arranhar um farsi com ele. Ele já comecou a mostrar a hospitalidade iraniana antes mesmo de chegar no Ira. Ligou para um amigo que falava ingles e colocou ele para falar com a gente. O tal amigo perguntava para onde estavamos indo e em que hotel ficariamos. Dificil de explicar que a gente se virava e tudo mais. Enfim, o iraniano desceu na proxima cidade, mas deixou bem explicado para o taxista onde ficariamos e em que hotel.

Ao chegar na cidade, o taxista nos deixou com outro taxista local e não explicou onde queriamos ir. Existia uma atracao principal na cidade que era a “ citatel”, a cidade antiga murada que ficava no centro da cidade. Entao chegamos para o taxi e dissemos: “citatel!” E ele não entendia do que se tratava. Entao falamos: “city center”. E ele não entendia tambem. Comecamos a ter um certo trabalho desde que saimos da Turquia com a comunicacao… eles não entendiam nada alem de taxi, hotel and bus. Nem good and bad, nem center, nada nada. Enfim, rodamos um monte e o cara nos levou numa pizzaria para falar com uma pessoa que arranhava um ingles. O Gui explicou para o cara e ele tambem não entendia o que era city center ou citatel, quando o Gui avistou placas nas ruas escrito citatel e apontou para o cara. O cara disse: “Kalah!!!”. E a gente disse, exatamente: “Kalah”. Não adiantava escrever, eles tambem não entendiam nosso alfabeto. Foi um sufoco e muito engracado. Fiquei imaginando alguem chegar em Curitiba e pedir pela Wire Oper house para um taxista com um sotaque bem estranho se não aconteceria o mesmo problema.

Depois do sufoco, e quase uma hora caminhando achamos um “hotel bem mais ou menos” no centro. Dia seguinte paramos para tomar um suco de banana (agua com banana mesmo), super estranho, quando vimos aquela cena classica do World Trade Center caindo, perguntei ao moco do suco o que estava acontecendo e ele mostrou com a mao passando pelo pescoco e falou “Osama”. Eu disse: “Osama died?”, fazendo o mesmo gesto e ele disse, yes. Eu quase pulei de alegria e automaticamente me ocorreu um aumento de seguranca na hora, um certo “agora estou mais tranquila aqui no Iraque”, e logo em seguida olhei para o lado com medo de repreensao, bem coisa de ocidental ignorante, como se por aqui as pessoas fossem amar o Osama e estar no Oriente Medio, nao importando aonde, era estar do lado da Al Queda. O cara comemorou comigo e muitas pessoas na rua falavam felizes. Pelo jeito o Osama era amado somente pela Al – Queda e seus familiares.

Ainda antes de ir para o Ira, fomos ate Halabja, cidade onde Sadam Russein fez um terrivel ataque com armas quimicas contra os kurdos. O objetivo era acabar com esta etnia. No museu onde ficam expostas as fotos do ataque, muitos dos funcionarios sao sobreviventes. Eles contam que as armas quimicas tinham cheiros diferentes, as vezes de maca, outras de alho ou cebola. Apos jogadas no ar, a agua dos rios ficava contaminada, e quando as pessoas iam beber, morriam, especialmente criancas, mulheres e velhos eram as maiores vitimas, porque alguns homens e jovens conseguiam correr. Alguns, para tentar fugir, seguiam pelas montanhas ate a fronteria do Ira, deixando para traz os familiares. Nao houve tempo de pegar comida ou agua, e muitas pessoas morreram nas montanhas. Esse episodio marcou muito o passado dos kurdos e ‘e possivel encontrar muitos sobreviventes relatando as historias. Todos tem um verdadeiro pavor do Sadam e se sentem muito gratos aos americanos e alguns paises europeus que enviaram comida no tempo que passaram nos campos de refugiados no Ira, ate poder voltar para casa.

Reflexoes de um viajante.

Esses dias eu estava pensando como ‘e bom ter esse blog para escrever. Conheci muitos viajantes que sairam de viagem com um blog e , ainda no comeco, já tinham desistido de continuar. Toma bastante tempo manter um blog: voce precisa relembrar o que voce fez, os lugares que voce foi, recortar algumas experiencias e reflexoes dispertadas, e tentar escolher algumas fotos que retratem não so o lugar, mas como ‘e a vida ali.
Durante todo o tempo de viagem, apesar do trabalho que o blog me dava, eu nunca pensei em deixar de escrever, as vezes me debatia um pouco sobre o que escrever, diante de tanta coisa que podia ser expressada de um mesmo lugar. Poucas vezes tive que escreveer para não passar em branco, porque durante toda a viagem procuramos escolher lugares que nos trouxessem experiencias muito ricas e foi o que acabou acontecendo quase cem por cento das vezes.
Me lembro que no comeco tudo me surpreendia e como eu era capaz de perceber cada detalhe, que hoje nao consigo mais. Por exemplo, agora quando vejo uma mulher muculmana toda coberta sinto o mesmo impacto que em ver uma mulher de bermuda e regata. Nessa epoca, tambem tinha historias muito engracadas para contar, que no comeco eram espontaneas, mas que depois de um certo tempo se tornaram pequenas para mim diante do que se podia perceber de uma viagem.
Enfim, parecia que ao longo do percurso, a viagem ia se ampliando tanto diante de mim, que tinham momentos que eram simplesmente belissimos. E que de tempos em tempos se repetem. Voce se emociona, paraliza, fica embebida por uma felicidade e sentimento de satisfacao indizivel, e agradece por poder estar vivendo aquilo! ‘E como se toda a sua vida fizesse sentido naquele instante que voce esta ali. Tem um filosofo chamado Luis Lavelle que retrata muito bem essa experiencia, quando diz:

“ Há na vida momentos privilegiados nos quais parece que o universo se ilumina, que nossa vida nos revela sua significacao, que nos queremos o destino mesmo que nos coube, como se nos proprios o tivesse escolhido.”

Eu tive varios desses momentosdurante a viagem, especialmente no leste da Africa, India e Oriente Medio. E muitos deles ocorriam de novo, quando eu estava re-cotando para mim mesma e para voces, os lugares que eu tinha ido. Talvez por isso ate, depois de um certo tempo, eu não conseguia mais dar rizadas das galinhas dos onibus da Africa, ou dos perrengues que a gente passava, porque a propria experiencia da viagem vai te levando a outras reflexoes. Parece que a viagem vai se tornando cada vez mais seria, e a tua relacao com a vida tambem. Não num sentido ruim, mas a vida adquire muito mais significado. Coisas que eram importantes passam a nao ser mais. Coisas que nao eram importantes, passam a ser muito. As referencias mudam, os valores se alteram e os projetos mudam de direcao.
Enfim, a vida vai passando, ontem e o minuto anterior vao se desfazendo, e o que sobra de voce no fim das contas ‘e apenas uma consciencia presente, que tenta integrar as diversas partes da sua vida em direcao ao significado dela. E quanto mais voce caminha, mais teus projetos se tornam pequenos, diante da imensidao que a vida vai revelando. Tudo vai se tornando profundamente interessante.

Um Povo sem patria!

Logo quando largamos as malas no trem ficamos sabendo que nao tinha vagao de restaurante, como estava anunciado na internet. Corremos entao comprar comida, pois seriam 30 horas de viagem. Sorte que deu para fazer um pe de meia. O vagao contava com banheiros impecaveis e ainda chuveiro. Obvio que fui a unica a tomar banho.

A viagem de trem foi espetacular. A paisagem la de fora era emocionante. Por mim ficaria mais 30 horas naquele trem, de tao lindo que era olhar para fora. Passamos por vilarejos maravilhosos, com poucas casas, uma mesquita e uma escola. As vezes tinhamos visuais duplos de uma janela do trem para outra, de um lado meio deserto, do outro tudo verde com montanhas com neve no topo. De chorar de tao lindo. Tive aqueles momentos emocionantes de profunda felicidade, de pensar que eu nao gostaria que um milimetro da minha vida fosse mudada e que eu estava exatamente aonde e como gostaria de estar…

As cinco da manha chegamos em Diabarkir no Curdistao Turco e fomos procurar hotel. Depois de descansarmos, fomos conhecer a cidade. As ruas cheias de mercados de rua, mulheres com suas burcas dos pes a cabeca e homens tomando chay em frente a mesquita. Alem de outros jogando domino no parque e o visual do rio tigre ao sul da cidade. Aquele visual intocado, de quem ainda sabe o que ‘e tradicao. Logo a ficha veio: a viagem comecou!!! ‘E incrivel como fiquei viciada nos lugares intocados, que enquanto nao chego neles, nao me sinto viajando ainda. Parece mais lazer.

Depois de pouco tempo caminhando e sendo abordada por muitos com Welcome to Diabarkir, conhecemos uma menina de uns 12 anos, junto com suas amigas, que nos convidou para ir ate sua casa. Entramos num labirinto de casas residenciais ate chegar na casa dela. Tapetes no chao, sapato para fora, nada de sofa, so umas almofadas na parede e uma televisao. Para nosso padrao uma casa vazia, sem moveis, para eles uma casa normal. Num canto da sala ficam alguns cobertores e as vezes colchonetes, para se estender no tapete na hora de dormir. Normalmente as casas tem poucos quartos, porque costumam dormir juntos na sala.

O papo comecou entao com a familia da menina e logo nos ofereceram chai, queijo e pao. Ficamos comendo e mimicando. A menina arranhava um ingles. Fim das contas a familia era bem heterogenea: a mae muculmana fervorosa de rezar 5 vezes por dia, como manda o figurino; o marido se dizia marxista e ateu; a filha dizia nao ser nenhuma coisa nem outra, mas ia a igreja aos domingos junto com as amigas, so porque achava legal; e o filho tambem era marxista.

Na parte de cima da casa uma sala de aula. A menina ensinava Kurdo para os kurdos que ja tinham perdido a lingua. E um quadro na sala da guerrilha PPK, mostrando o filho que morreu na guerra entre o PPK e o governo turco, pela independencia dos Kurdos na Turquia.

Uma historia triste, ja que o Kurdistao ja foi uma regiao autonoma na epoca do Imperio Persa, mas apos a primeira guerra e o fim do Imperio Otomano, os ingleses e franceses passaram a tomar contar e dividiram a regiao em quatro pedacos para os recem criados paises: Turquia, Siria, Iran e Iraque. Mas ‘e um povo so, com uma so lingua e tradicao. Na Turquia somente nos ultimos anos eles passaram a ter direito de falar sua lingua e de ter seus costumes. Nesta familia, por exemplo, os pais foram presos durante quatro anos porque a filha ensinava kurdo.

Ao final do encontro, saimos com presentes e o pedido para que a gente voltasse no outro dia. Se contar com o convite de dormir na casa deles e tirar muitas fotos, inclusive com os vizinhos. Nos somos tao diferentes para eles, quanto eles são para nos.