Uma historia comovente!

Passados os dias em Howrama, seguimos para Pavet, uma cidadezinha ali perto, que para chegar “precisavamos” passar por uma estrada de tirar o folego, cheia de pequenas vilas no caminho, montanhas e vales de arrepiar. Apesar de muito bonitinha e com um povo super acolhedor, Pavet parecia São Paulo depois de Howrama, mesmo tendo so 20 mil habitantes. Entao, dia seguinte, pedi ao Gui para voltarmos pra Howrama e ficarmos mais uns dias, antes de seguirmos para Tehran. Acabamos conhecendo um local e ficando na casa dele. Como ele tinha morado 12 anos em Londres, falava um ingles muito bom. Morava com a esposa e filha recem nascida que passava boa parte do dia amarrada no berco, ‘e tradicao em varios lugares o bebe na hora do sono ficar amarrado. Agonia um pouco ver. A menina se chamava Regiane, achamos o nome estranho para um kurdo, quando ele comecou a nos contar sua historia.

Na guerra entre Ira e Iraque, Howrama ficou no meio do fogo cruzado e toda populacao teve que abandonar suas casas e fugir para as montanhas. Omid tinha 8 anos quando isso aconteceu. No caminho pelas montanhas, mais bombas, e na correria, de um instante para o outro, ele perdeu sua familia de vista, quando se deu conta, estava perdido. Naquele instante, comecava toda a historia de uma crianca em constante luta para sobreviver sozinho. Omid precisou seguir com outros kurdos pelo caminho, e acabou chegando no Iraque. Passou muita fome, sede, etc., por la, ate conseguir encontrar um trabalho de servir chay em uma oficina. Trabalhou duro durante dois anos, dormindo num canto da oficina. Quando conseguiu juntar dinheiro suficiente para tentar partir para Turquia, buscando condicoes melhores. Nessas alturas, achava que os pais tinham morrido. No caminho para Turquia, dentro do onibus, um velho senhor muculmano vestido ao estilo bem religioso sentava atras dele. Ele resolveu contar quanto dinheiro tinha e não se deu conta que o senhor atras estava olhando. De uma hora para outra, o senhor comeca a gritar: “ladrao, ladrao. Roubaram meu dinheiro…” O motorista parou o onibus e comecou a revistar as pessoas, como o senhor sabia a quantidade que ele tinha, falou extamente o mesmo valor ao motorista. Fim das contas o menino foi acusado de ladrao, apanhou e foi jogado para fora do trem. La se foram os dois anos de trabalho e o sonho de ir para Turquia. Passou tres noites perambulando pela estrada, sem poder pedir ajuda com medo da policia. Conseguiu voltar para Bagda e trabalhou mais dois anos. Juntou dinheiro e seguiu para Turquia novamente. La, trabalhou uns anos e foi para Grecia. Sempre dentro ou embaixo de caminhoes-containers para conseguir passar pelas fronteiras. De la, seguiu para Italia, mas foi deportado para Grecia, tentou novamente ir para Italia, de onde pegou um trem para Franca e no mesmo dia outro trem para Suecia. Como era ano novo, nem pediram documento dele. Na Suecia pediu azilo politico que foi negado, sugeriram dele ir para Alemanha ou Inglaterra que estavam aceitando refugiados. Foi para Alemanha, mas descobriu que praticamente não teria liberdade por la, porque as regras para refugiados eram muito duras. Foi entao para Inglaterra. Ficou pelas ruas um tempo ate que um dia estava perto de uma escola, quando um grupo de meninas chegou e ficou tirando sarro dele. Mais tarde, já de noite, um carro se aproximou e ele com medo tentou fugir, quando percebeu que era uma das meninas do colegio acompanhada do pai, que estava indo la para ajuda-lo. Fim das contas, acabou morando um bom tempo com essa familia. Que familia! Mais tarde, a familia se mudou e ele foi morar em outra cidade a trabalho. Com16 anos voltou para Londres.No dia que chegou, conheceu a Regiane, uma brasileira de Londrina!! Ficaram amigos, foram buscar um apto para dividir custos e acabaram se apaixonando e virando namorados. Passaram quatro anos juntos. Já tinham uma vida digna e trabalho, quando um dia numa viagem de fim de semana, eles batem o carro, e ele acorda no hospital. A Regiane tinha morrido! Ela estava dirigindo. Ele passa 25 dias em Londrina com sua familia. Volta, sofre como um cao e se “recupera”. Revolve procurar os pais nas embaixadas, descobre que os pais não tinham morrido. Consegue o telefone, liga para eles, e a mae atende. Não consegue falar. Liga de novo, quando conta que era ele, a mae não acredita e desliga. Liga de novo, o pai atende e pede para “não brincar com uma coisa dessas”. Ele insiste dizendo que era ele. O pai comeca a fazer varias perguntas que so sendo ele poderia responder. Os dois se emocionam, choram… Quatorze anos depois, os pais descobrem que seu filho esta vivo! Voces conseguem imaginar uma situacao dessas? Ele volta para Rowrama quase 22 anos depois, com 30 anos. No aeroporto, vizinhos, familiares, e televisao local vao recebe-lo. Era o ultimo sobrevivente da guerra a voltar. Ele casa com uma menina da vila que sua mae arranjou. A menina engravida com dois meses de casados. Nasce a filha, ele coloca o nome de Regiane. Descobre pouco tempo depois que a esposa ‘e bipolar e que não há como ser feliz com ela (conhecemos a moca, e realmente parece impossivel….). Ele pretende se separar logo, so quer esperar a filha ficar um pouquinho maior, pois ela so tem tres meses. Trabalha como marcineiro, no seu proprio negocio. Depois do ocorrido do onibus, deixou de ser muculmano. Hoje esta buscando se encontrar de novo, após uma vida cheia de percalcos e surpresas. Continua a falar da Regiane e sonha em visitar o Brasil novamente… Quando Omid nos disse que tinha somente 31 anos, estranhamos, pois ele parecia muito mais velho. Como viu nosso espanto, disse que a vida fez com que ele crescesse muito rapido. Ele se emociona falando da sua historia varias vezes. Tem uma expressao calejada e uma saudades enorme da Regiane…

O paraiso nas montanhas!

De Marivan seguimos para Howrama, uma pequena vila tipica pendurada nas montanhas, que prometia ser um lugar maravilhoso. Como o petroleo ‘e muito barato por aqui, pegamos um taxi  exclusivo para chegarmos ate la, podendo assim parar ao longo do caminho para tirar fotos. Não sabiamos direito onde poderiamos ficar, já que nosso guia dizia não ter hoteis no vilarejo, enquanto  nosso motorista dizia que sim.

Ao chegarmos, nosso motorista estava certo, havia um único hotel de frente para as montanhas. O lugar era magico e belissimo, o  mais lindo que eu já fui de montanhas. Tinha um rio que cortava o vilarejo la em baixo, montanhas imponentes de pedra, e muito verde no vale ao longo do rio. Voce ficava sem saber para que lado olhar. E um silencio ensurdecedor.

Mas antes mesmo que nos pudessemos nos recompor da surpresa pelo lugar, chegaram alguns iranianos-kurdos super simpaticos pedindo para tirar fotos com a gente. Tiramos algumas e eles já nos convidaram para almocar. Agradecemos, eles insistiram, e la fomos nos largar rapidamente as bagagens no hotel e fazer check-in.

O menino carregou minha mala ate o quarto com a gente e já foi logo tirando um bone de inverno bem bonito que ele usava e nos dando de presente. Nos agradecemos e insistimos para que ele ficasse com o seu bone, mas ele nos pedia para aceitarmos seu presente e ter uma recordacao dele. Imagina, o almoco não tinha ainda nem comecado… E pelo jeito, ‘e tradicao dos iranianos quererem lhe dar algum presente para voce se recordar deles.

Do hotel entramos num dos sete carros da grande familia, entre primos e tios, e paramos num visual escandalizante no topo da montanha para fazer um piquinique. Os iranianos são obssecados tambem por piquiniques.

Logo estenderam seus tapetes, formaram uma bela roda, prepararam o chay, enquanto cozinhavam o kebab. Nos fomos os primeiros a ser servidos, claro. Ficamos conversando e tirando fotos ate a comida ficar pronta. Era um cuidado e uma atencao com a gente impecavel. Depois, fomos os primeiros a serem servidos de comida, o prato era o mesmo de sempre por aqui: kebab de frango, arroz com um pouco de assafrao no topo e umas frutas secas (eles sempre guardam aquela parte queimada do arroz que fica no fundo da panela, e deixam juntos no prato de arroz, que ‘e considerado o file mignon), e para beber o mesmo iogurte estranho ou coca-cola iraniana, de sobremesa melancia.

Vejam o tamanho da familia!

Fim do piquinique, a matriarca da familia gostou muito de mim, uma senhorinha muito simpatica, entao resolvi dar para ela de lembranca um escapulario, pois ela tinha ficado enlouquecida com minha estatueta da Nossa Senhora que tinha na bolsa. Ela não sabia o que fazer de tao feliz. Quando foram nos deixar no hotel, ela foi numa loja e comprou um colar tipico para mim da regiao, muito bonito.

As mulheres da familia com a matriarca!

Na hora da despedida, filas e filas de carros, abracos e mais abracos apertados (entre mulheres e  homens nem um aperto de mao, so um gesto com o corpo sem contato fisico). Eram sete carros com todas as familias buzinando e abanando para gente, um aue. Uma cena emocionante. Parecia que eramos amigos a vida inteira. Ate brinquei com o Gui  que nossa despedida no Brasil não chegou nem aos pes dessa!

Depois que o pessoal foi embora, fomos para o quarto descansar, já eram quase sete horas da noite. Um silencio absurdo no lugar e de fundo o barulho do rio la embaixo. Um ar fresco e puro. Nada de cheiro de cidade, muito bom.

No dia seguinte, fomos caminhar pela vila para conhecer um pouco da rotina dos moradores. Como a vila ficava cravada nas montanhas, eram varios labirintos para cima e para baixo. Resolvemos ir para cima, onde ficava o comercio local. Passamos por uma ruazinha de pedras muito bonitinha onde fica o “centro comercial”. Essa rua bonitinha ‘e chamada Little Paris. Forcando um pouco a barra da ate para chamar.

Little Paris!

Logo escutamos a chamada da unica mesquita e fomos ate la para conhecermos os moradores. Foi batata! Os homens comecaram a sair de suas casas e comercios e subir para rezar. O kurdo da montanha, alem de usar aquele modelo tradicional de roupa, tambem usa um casaco de la com umas ombreiras feitas de osso de vaca e uma bengala. O conjunto fica demais. Todos iam subindo em silencio, passavam por nos, nos cumprimentavam com o tradiconal: “salam ale kum” e seguiam. Ficamos ali contagiados com a calmaria do lugar e o dia a dia das pessoas.

Sa'ida da mesquita!

Chegando em Howrama!

Logo aproveitamos para desbravar tambem a natureza ao redor e conhecer melhor a vila, mas tudo exigia um bom preparo fisico. Fomos ate o rio la embaixo, aproveitei para escondido tomar um banho de roupa, o rio era extremamente gelado, mas delicioso. Revitalizante!

Depois que as roupas secaram, porque o sol era bem forte, fomos passear ao redor do rio e chegamos num lugar onde as maes e os filhos pequenos faziam piqueniques no final do dia,bem ao lado do rio. Em seguida voce via os filhos saindo da escola la em cima e descendo correndo para se juntar aos piqueniques. Ficamos ali paralizados com a vida pura de Howrama! Ja subir depois de volta foi de matar. Quase uma escalada. Chegando no hotel aquela sensacao impar de serotonina com vida  no campo que não tem preco.

O que voces acham do lugar?

Nao tem banho melhor que de rio.

 

Mais tarde descemos para jantar no restaurante do hotel, o único restaurante da vila, e não conseguiamos nos comunicar. Pedimos para irmos ate a cozinha e eles nos mostrarem o que tinham, já que o cardapio era em farsi e eles neem arranhavam o ingles. Nisso, um grupo de iranianos chegou e uma das meninas viu a situacao e pediu o que precisavamos. Falamos que gostariamos de entender o que tinha para comer. Ela tratou de comecar a traduzir a conversa e logo fizemos o nosso pedido.

Fim das contas, tratavam-se de dois casais de Tehran, que vieram passar o feriado em Howrama. Comecamos a conversar e eles eram muito bacanas. Vimos que eram iranianos modernos, bem diferentes de todos os que tinhamos conhecido ate ali.

Passado um tempo, nos convidaram para ir ate a casa que eles alugaram no alto da montanha, para tomar alguma coisa. Chegamos la, tratava-se de uisque, vodka, etc. No Ira ‘e proibido beber, entao a bebida vem ilegal pelas fronteiras e se paga bem caro por isso. Como ‘e mais caro e mais arriscado para comprar, voce nunca vai ver um iraniano com cerveja, ele sempre já vai direito no uisque, ou coisa assim, porque não vale a pena o risco por uma cerveja…

Bom, a noite foi muito engracada. Demos muitas rizadas, conversamos sem parar, eles querendo saber da nossa vida e a gente da deles. O litro de uisque foi rapidinho, mas eu e o Gui bebemos muito pouco. Uma das meninas não bebeu. Nunca experimentou bebida na vida. Disse que não sente vontade! Parte por seu proprio estilo, parte pela religiao.

Um casal era Somaye e Payam, ela diretora de cinema ele artista plastico; o outro Ramona e Abbas ela engenheira industrial e ele bussiness man. Os casais eram bem diferentes um do outro. Acho que já da para perceber pelas profissoes. Basicamente o primeiro fazia o estilo pos-moderno (preza a liberdade, mas gosta do tradicional e de certos valores morais, etc) e o segundo moderno puro (liberdade + liberdade +liberdade, não existe certo e errado e bla bla bla).

Fim das contas, trocamos telefones e prometemos ligar para eles quando fossemos para Tehran. E claro, o convite para ficarmos na casa deles estava feito. So apenas um pedido: se fosse possivel,  que fossemos no fim de semana, para eles poderem realmente aproveitar com a gente. Saimos de carona com eles de la, som alto e rizadas extravagantes, me senti na volta de uma balada. Chegamos no hotel empolgados para ve-los de novo, intu’iamos que Tehram com eles prometia!!

A Tchurma!

Curdistao Iraniano

Depois de passarmos pelo Curdistao Turco, Curdistao Iraquiano, chegamos no Curdistao Iraniano. Pelo que observamos e escutamos, ‘e o melhor dos “Curdistaos” para viver. Aqui eles podem falar sua lingua sem perseguicoes e não tem um governo psicopata como no Iraque que quer acabar com sua etnia. Podem simplesmente ter uma vida tranquila de um povo humilde de montanha.

No entanto, a coisa também não foi tao facil para eles. Apesar de estarem numa regiao bastante isolada nas montanhas, acabaram ficando no meio do conflito durante a guerra Ira e Iraque, que durou quase 10 anos e, por isso, tambem tiveram de fugir de suas casas pelas montanhas sem olhar para tras, so com a roupa do corpo. Muitas pessoas se perderam de suas familias durante o trajeto. Outras tantas, na hora do desespero e luta pela vida, tinham que seguir separadas, deixando que nao conseguisse mais caminhar para tras. Sao varias historias, desde familias inteiras dizimadas, ate pais que encontraram um de seus filhos vivos depois de 10 ou 20 anos e outros que conseguiram se manter junto do inicio ao fim e depois puderam voltar para casa.

Atravessamos a fronteira Iraque-Ira ate Marivan, e tivemos a sorte de dividir mais um taxi com um Iraniano, que da mesma forma que o anterior, não sossegou ate nos ver instalados num hotel. Quando chegamos na cidade, ele deveria seguir para Sarandaj, há cerca de duas horas dali, mas atrasou sua viagem tentando explicar para o taxista o hotel que queriamos ficar, mas como estava lotado, desceu conosco em cada um dos demais para ver se ficariamos bem instalados. Era fim de semana e vespera de feriado, portanto a cidade estava lotada. Marivan tem um lago muito bonito, e ‘e destino de descanso para muitos iranianos. Rodamos com nosso amigo quase duas horas procurando hotel e so havia uma opcao disponivel: o segundo pior hotel da cidade. Era um quarto grande, com cama de casal, tapetes furados com cigarro, vidro do banheiro quebrado e banheiro oriental (buraco no chao). O hotel era mais do que decadente e parecia sujo, mas não era, era velho mesmo e mal cuidado.

Nos despedimos do nosso amigo, que nos deixou seu endereco e convidou para ficarmos na casa dele quando passassemos por Isfahan – rota turistica e onde ele morava. Trocamos de roupa, ali comecava a vestimenta obrigatoria para mulheres: calca e blusa larga de manga comprida, que não marquem o corpo, a blusa deve cobrir quadril quase ate o joelho e veu na cabeca. Me arrumei e fomos ate a praca da pequena cidade do lago bonito nas margens da montanha. Na praca, muitos kurdos com sua roupa tipica jogando dama. Era fim de tarde, e todos na praca nos olhavam e vinham perguntar se precisavamos de alguma coisa, se estavamos bem no Ira, se podiam nos ajudar de alguma forma. Agradeciamos e explicavamos que estavamos num “bom hotel” e que so queriamos ficar ali. Dali um pouco, comeca o barulho ensurdecedor da mesquita, e muitos saem para rezar.  Aproveitamos para procurar um restaurante para comer.

Achamos um bem ajeitado, e como não conseguiamos nos comunicar, fomos ate a cozinha do restaurante apontar para as comidas que queriamos. Comemos um delicioso carneiro com arroz e saladas, e como sempre, um chay para digestao. Aqui o chay deles não ‘e com leite como na India, mas ‘e uma obsessao como la, tomam o dia inteiro, o tempo todo. E quase como nosso cafezinho, mas ainda somos moderados no café perto deles. Voce esta sentado na praca tem um senhor passsando vendendo chay. O moco que engraxa sapatos tem um chay do lado, e assim por diante. Tudo ‘e motivo para parar um pouco e tomar um chay.

Dia seguinte fomos ate o lago e ficamos olhando o estilo de vida das pessoas. Haviam alguns grupos de amigos cantando um para o outro (o que me chamou bastante atencao), criancas brincando, familias inteiras tomando chay e alguns homens nadando. As mulheres nada, so no pedalinho que tinha ali do lado com todo arsenal de roupas. Eu estava louca pra tomar banho no lago, mas não podia, tinha que ficar coberta so olhando. Que calor!  Como não podiamos nadar, resolvemos ir ate um parque ao lado para ficar embaixo das arvores.  Logo vimos que estavamos circundados por piquiniques de todos os lados e uma familia já nos convidava para tomar chay. Depois, comecaram a chegar seus amigos e eles foram nos apresentando para cada um. Quem arranhava ingles ali era rei, a maior parte das conversas eram por mimica. Cada vez que tentavamos ir embora, eles diziam que era para esperarmos a comida. Ali mesmo cozinharam frango e arroz. Enquanto a comida não ficava pronta, eles comecaram a dancar suas dancas tipicas, que vem se repetindo de geracao para geracao há muitos e muitos anos. De repente, comecou uma chuva forte e fomos todos para os carros, os cozinheiros tiveram que dar um jeito de continuar preparando a comida.

Assim que a comida ficou pronta, entraram no carro e fomos ate a casa deles. Um engarrafamento enorme para entrar na cidade porque todos resolveram voltar no mesmo horario, e nosso amigo ia furando fila, fazendo manobras e manobras, que no Brasil com certeza ele teria arranjado uma bela briga. Por aqui nada, nem uma buzinada ele levou. Os iranianos sao muito educados um com o outro. ‘E impressionante. A casa era super tipica, bem como mostra no filme iraniano “Filhos do Paraiso” (recomendo assistirem), sala grande, sem moveis, apenas uma tv, com seus tapetes persas rsrsrs belissimos no chao e algumas almofadas encostadas na parede. Ao lado, um quarto com o armario da familia, e uns colchoes finos para serem abertos na hora de dormir. Dentro da casa o chuveiro e fora o banheiro. Normalmente nas casas mais simples e tradicionais, ‘e sempre assim, casa vazia, so com os tapetes e banheiro e chuveiro separados.  Jantamos o nosso repetitivo kebab de frango com arroz e cebola crua e para beber o famoso iogurte deles, que  pode ser comprado ou feito em casa. Uma mistura de iogurte com bastante agua, folha de menta e sal. Esse era feito com leite de cabra. Um gosto super esquisito, mas refrescante e excelente para o estomago. As mulheres resolveram fantasiar eu o Gui com as roupas curdas.

Depois do jantar,  nos levaram na internet, porque falamos que precisavamos dar noticias as nossas familias. Na verdade não queriamos que eles nos levassem, so queriamos ir embora e na internet, pois já eram quase dez horas da noite.  Eles rodaram a cidade procurando uma internet aberta, esperaram nos mandarmos emails avisando que estavamos bem (a internet no Ira ‘e muito lenta, bloqueada para muitos sites), pagaram e nos deixaram na porta de casa. Na despedida, a dona de casa tirou seu anel da mao e me deu de presente, disse que era para eu ter uma recordacao dela. Comecavamos a experiementar a tao famosa hospitalidade iraniana (por aqui ainda so kurda), que tanto tinhamos ouvido falar. Impressionante e comovente!!!

 

Familia toda!

Danca curda!

Reflexoes de um viajante.

Esses dias eu estava pensando como ‘e bom ter esse blog para escrever. Conheci muitos viajantes que sairam de viagem com um blog e , ainda no comeco, já tinham desistido de continuar. Toma bastante tempo manter um blog: voce precisa relembrar o que voce fez, os lugares que voce foi, recortar algumas experiencias e reflexoes dispertadas, e tentar escolher algumas fotos que retratem não so o lugar, mas como ‘e a vida ali.
Durante todo o tempo de viagem, apesar do trabalho que o blog me dava, eu nunca pensei em deixar de escrever, as vezes me debatia um pouco sobre o que escrever, diante de tanta coisa que podia ser expressada de um mesmo lugar. Poucas vezes tive que escreveer para não passar em branco, porque durante toda a viagem procuramos escolher lugares que nos trouxessem experiencias muito ricas e foi o que acabou acontecendo quase cem por cento das vezes.
Me lembro que no comeco tudo me surpreendia e como eu era capaz de perceber cada detalhe, que hoje nao consigo mais. Por exemplo, agora quando vejo uma mulher muculmana toda coberta sinto o mesmo impacto que em ver uma mulher de bermuda e regata. Nessa epoca, tambem tinha historias muito engracadas para contar, que no comeco eram espontaneas, mas que depois de um certo tempo se tornaram pequenas para mim diante do que se podia perceber de uma viagem.
Enfim, parecia que ao longo do percurso, a viagem ia se ampliando tanto diante de mim, que tinham momentos que eram simplesmente belissimos. E que de tempos em tempos se repetem. Voce se emociona, paraliza, fica embebida por uma felicidade e sentimento de satisfacao indizivel, e agradece por poder estar vivendo aquilo! ‘E como se toda a sua vida fizesse sentido naquele instante que voce esta ali. Tem um filosofo chamado Luis Lavelle que retrata muito bem essa experiencia, quando diz:

“ Há na vida momentos privilegiados nos quais parece que o universo se ilumina, que nossa vida nos revela sua significacao, que nos queremos o destino mesmo que nos coube, como se nos proprios o tivesse escolhido.”

Eu tive varios desses momentosdurante a viagem, especialmente no leste da Africa, India e Oriente Medio. E muitos deles ocorriam de novo, quando eu estava re-cotando para mim mesma e para voces, os lugares que eu tinha ido. Talvez por isso ate, depois de um certo tempo, eu não conseguia mais dar rizadas das galinhas dos onibus da Africa, ou dos perrengues que a gente passava, porque a propria experiencia da viagem vai te levando a outras reflexoes. Parece que a viagem vai se tornando cada vez mais seria, e a tua relacao com a vida tambem. Não num sentido ruim, mas a vida adquire muito mais significado. Coisas que eram importantes passam a nao ser mais. Coisas que nao eram importantes, passam a ser muito. As referencias mudam, os valores se alteram e os projetos mudam de direcao.
Enfim, a vida vai passando, ontem e o minuto anterior vao se desfazendo, e o que sobra de voce no fim das contas ‘e apenas uma consciencia presente, que tenta integrar as diversas partes da sua vida em direcao ao significado dela. E quanto mais voce caminha, mais teus projetos se tornam pequenos, diante da imensidao que a vida vai revelando. Tudo vai se tornando profundamente interessante.