As outras belas cidades persas!

De Isfahan seguimos para Shiras, cidade onde fica o mausoleu de dois dos grandes poetas persas: Saadi e Hafes. Hafes falava de amor e influenciou muito Goethe. Saadi de sabedoria, conhecimento. Os outros grandes sao o Ferdosi que falava da cultura persa e Molavi, que alem de poeta, era um grande sufi e mistico, que falava do caminho espiritual.

Jardins do mausoleu do Hafes!

Local onde Hafes est'a interrado!

 

Um dia na rua, passou um menino pobrezinho oferencendo alguns papeis, pedi para o Payam e a Sumi o que era, pensei em algo como jogo do bixo, mas nao, voce fazia um pedido e pagava para retirar um poema que te ajudasse a refletir sobre o teu pedido. Eu achei genial! Depois de ver na festa moderna, os amigos da Nana rescitando poemas com seus instrumentos um para o outro, a Sumi rescitando para mim na sua casa, mais o menino pobrezinho vendendo nas ruas, ficou claro para mim que assim como no Brasil sabemos de cor o nome dos principais jogadores de futebol, os iranianos sempre sabem de cor  alguns dos poemas dos seus poetas preferidos. Quando voce fala com eles, ‘e comum te contarem qual dos poetas ‘e seu preferido, como a gente falar eu sou muito mais Romario do que o Fenomeno… Em geral os iranianos sao muito orgulhosos de sua historia, de seus costumes e de sua tradicao. Nunca gostam de ser confundidos com seus vizinhos arabes, os qual consideram poucos refinados, Sempre enfatizam: “somos persas!”.

Em Shirras as pessoas nao eram tao simpaticas e sorridentes como no resto do Iran, talvez porque la tenha o maior numero de turistas por metro quadrado. Mas mesmo assim, tivemos boas experiencias. Jardins floridos, belas mesquitas, um caravan sarai (antiga hospedagem para as caravanas da rota da seda) no meio do labirinto dos mercados, e a tao comentada Persepolis, capital persa que foi destruida pelos gregos.

Persepolis!

 

Outras ruinas persas!

 

Antigos caravan sarais, hoje comercio local!

Em Yazd, uma cidade que fica bem no meio do deserto no Iran, fiquei nervosa, nunca passei tanto calor na vida, Quer dizer, acho que no deserto da India tambem foi assim. A cidade era bege, cor de areia, parecia que tudo era feito de areia, o que dava um charme especial. Depois das sete da noite voce conseguia caminhar nas ruas com a temperatura batendo so uns 35 graus.

Yazd!

La, conhecemos algumas torres do silencio e um templo zoroastra. O zoroastrismo era a religiao dos persas, antes de chegaram os muculmanos. Hoje existem poucos devotos do zoroastrismo no Ira. Junto com os cristaos, sao tratados como minorias e reclamam do pouco privilegio que tem frente aos muculmanos. O zoroastrismo, a primeira religiao monoteista do mundo, foi esquecida e aniquilada depois da entrada do isla. As torres do silencio eram usadas para deixar os corpos do devotos, pois conforme as crencas, nao se pode enterrar o corpo, pois contaminaria a terra, entao os corpos nao sao deixados ao ar livre para os abutres comerem. Hoje basicamente voce encontra alguns zoroastras na India, Iran e alguns gatos pingados na Inglaterra.

Templo Zoroastra!

Torre do Silencio!

 

Nas ruas de Yazd!

Em Yazd ficamos no hotel Silk Road, ponto de encontro dos viajante do Iran e Asia Central. Alem de reencontrarmos o Stu e a Merlanda, fizemos novos amigos e nos divertimos nos bate papos sem fim no jardim interno do hotel, enquanto esperavamos o sol se acalmar. Pena que nao lembramos de tirar um foto! O hotel contava com um cardapio delicioso, tinha uma boa selecao de comida iraniana, ocidental, e indiana. Eu me esbaldei. Alem de um quarto confortavel e um bom ar condicionado natural (aqui eles tem torre de captacao de ar para ventilacao). Deu para praticar yoga no terraco bem cedinho, vendo a cidade bege, antes que o sol ficasse forte. Perto do hotel ficava uma das mesquitas principais da cidade e tambem a cidade velha. Pensamos em ir para um oasis no deserto, mas o calor era tanto que desisti, preferi ficar conversando no jardim do Silk Road ate nossa ultima cidade no Ira: Mashhad!

De Yazd ate Mashhad eram doze horas dentro de um onibus confortavel. No caminho, paramos duas vezes no meio do nada, e nao entendia o que estavamos fazendo ali – nao havia nenhum banheiro ou lanchonete. As pessoas desciam, estendiam tapetes no chao e rezavam. Da pra acreditar? Mashaad ‘e a cidade mais sagrada do Iran. Como os muculmanos shiitas rezam tres vezes por dia (diferente dos sunitas que rezam cinco), duas delas foram no onibus. A ultima reza da noite e a primeira da manha antes do sol nascer.

Nas ruas de Mashhad!

 

Os famosos tapetes persas!

Quando chegamos em Mashhad fomos ate a casa de um conchsurfer que o Gui estava se comunicando a tempo pela internet desde que chegamos no Ira. Como o celular dele estava fora de area, seguimos direto para sua casa pelo endereco que tinha nos dado. Ao chegar la, no outro lado da cidade, nao havia ninguem no lugar, na verdade era o endereco de um dos escritorios que ele trabalhava. Como tinhamos mais um endereco, o da casa da mae, estavamos pensando se iamos ou nao ate la, quando um iraniano chamado Reza, que estava dentro da clinica veterinaria que o Gui parou para pedir informacao, percebeu que estavamos procurando alguem e se ofereceu para nos ajudar. Passado alguns minutos, ele disse: “eu acho que consigo encontrar o lugar, venham comigo, podem dispensar o taxi de voces…” Seguiu conosco ate a casa da mae do conchsurfer, que disse que ele estava trabalhando e so voltaria a noite, resolvemos entao ir para um hotel. O Reza nos levou. No total ele ficou quase duas horas com a gente dentro do seu carro, rodando num transito desgracado, ate nos deixar no nosso hotel. Reza tinha uns 45 anos, era empresario, pai de duas filhas, e estava perto do horario de almoco quando nos encontrou. Nao sabemos que compromissos ele precisou adiar para estar com a gente aquelas duas horas, mas pelo numero de ligacoes que ele recebeu no celular, nao foram poucas, ele era dono de uma construtora.

Sera que esse exemplo da para compreender ate onde vai a hospitalidade e gentileza iraniana? Sera que da para perceber que isso nao ‘e uma simples ajuda, implica tambem em algum sacrificio pessoal? ‘E claro que, depois de um mes de convivio com os iranianos deu para perceber que essa hospitalidade e bondade era uma mistura de uma formula magica: cultura persa + religiao. Os persas sabem receber e o povo ‘e religioso de fato. A estatura espiritual dos iranianos se destaca de muitos lugares por onde passei. ‘E claro que nos despedimos do Reza com convites pra jantar com a sua familia! Reza por aqui ‘e um nome comum. Ja que os shiitas acreditam nos 12 Imans, que seguem a linha de sangue do Profeta Maome, assim detem o conhecimento. Funciona como os nossos apostolos no Cristinianismo e nao sao poucos os Joaos e Paulos, etc, no Brasil.No dia seguinte, fomos conhecer o centro dos Shiitas, um complexo de mesquitas, capelas, museus e maosoleos que ficavam no coracao da cidade. Milhares e milhares de perguinos circulavam por ali. Alem de ser ponto de encontro dos devotos de Mashhad no final da tarde. Tive que comprar um shador e me cobrir dos pes a cabeca para entrar. Passeamos pela imensidao do lugar, vimos pessoas rezando em todos os cantos, alguns lugares so podiam entrar homens e outros mulheres. Numa dessas, eu tive que me separar do Gui e nos perdemos. Depois de quase um hora, ja estava desistindo de procurar, resolvi voltar para o hotel, e de la ligar para o celular do Gui. Mas como tinhamos que andar sem sapatos, e o Gui estava segurando os meus, tive que voltar de meia. Parei para pensar algumas vezes se devia fazer isso, mas nao aguentava mais procurar, e resolvi voltar de meias mesmo. Nas ruas as pessoas olhavam para os meus pes e cochichavam. Cheguei no hotel, contei tudo a recepcionista, que ate aquela altura ja era uma amiga, que ligou para o Gui e o celular estava fora de area, para ajudar mais ainda. Enfim, voltamos eu e a recepcionista para o Imam Reza Complex, quando cruzamos com o Gui no meio do caminho, branco de tao assustado. Ele nao achava que eu conseguiria voltar para o hotel sozinha, ja que tinhamos acabado de chegar na cidade e muito menos de meias. Mas deu tudo certo, apesar do cansaco e das rizadas que demos depois da situacao.

Complexo Imam Reza!

 

No dia seguinte saimos com a familia do Reza para jantar e tambem fomos resolver os problemas do visto do Turkomenistao. A familia do Reza era muito legal, apesar de nao falar uma palavra em ingles. Fizemos um pinquineinque e fomos conhecer o maosoleo do Ferdosi, o poeta preferido do Reza.

Reza e o Gui no mausoleu do Ferdosi!

Outra coisa que chama atencao no Iran foi o transito enlouquecido. Nao existe a tal da “preferencial”, a preferencial ‘e preferencial para todos. Mas em nome da simpatia, do taruf e da educacao persa, que deveria ser modelo para todos os colegios no mundo, eles nao se xingam, nao gritam, nada. Tambem nao usam buzina. Dao finos e mais finos nos outros motoristas, olham um para o outro, sorriem, e continuam. Um dia vimos um acidente, um carro capotado no meio da rua, os envolvidos com a ajuda de alguns curiosos, simplesmente viraram o carro de “cabeca” para cima de novo e tiraram do meio da rua, acho que ainda nao chegou aquela coisa de esperar a policia chegar sem mexer um centimetro.

Transito em Mashhad!

Repetimos mais uma saida com ele no nosso ultimo dia e ele nos levou a parte cool da cidade. Nao dava pra imaginar que aquela area ficava em Mashhad. Como estavamos num hotel de centro e perto do complexo, so viamos pessoas mega conservadoras nas ruas e ele nos levou na Batel Soho da cidade. Cheio de barzinhos, que ficam abertos ate meia noite, e claro nao vendiam bebidas alcoolicas, mulheres arrumadesimas com suas calcas jeans e lencos na cabeca so tapando o rabo de cavalo, com blusas compridas mas no maior estilo, quase parecendo que nao era por causa da lei, mas a roupa que usariam normalmente. Meninos bombados fazendo cara de mal e lojas internacionais mega descoladas. Jantamos numa pizzaria e eles nos presenteou, como era de se esperar do Ira (afinal nao conhecemos ninguem que nao nos deu um presente) com um livro dos poemas do Fersosi, e como a celebre frase: “uma recordacao pra voce lembrar da gente”.

Voltei para casa super triste quando me dei conta de que aquele era o ultimo dia no Iran. Na verdade estava de luto desde os ultimos tres dias. Quando entrei no hotel, me ataquei a chorar copiosamente, me lembrando dos momentos vividos no Ira e principalmente dos momentos memoraveis com as pessoas que tivemos a “sorte” de cruzar no caminho. As melhores experiencias de viagem que tive com pessoas foi sem duvida no Iran, varias vezes tinha que disfarcar e chorar pelos atos de bondade que os iraniaos tinham com a gente.

Quando ainda estavamos na pizaria escrevi uma cartinha para o Reza entregar a familia dele, ja que eles nao puderam vir nesse dia, porque a irma de sua esposa tinha acabado de chegar no aeroporto direto da Turquia. Quando ele viu eu escrevendo se emocionou e agradeceu muito. Os iraniamos se emocionam facil, pelo que percebi. E sem alcool. E ‘e uma emocao diferente, ‘e uma emocao religiosa, ‘e uma emocao de amor ao proximo. O coracao deles ‘e muito grudado com o corpo. Nos despedimos do Reza na frente do hotel e eu ja estava com um no na garganta. Liguei para Sumi, Payam e Nana para me despedir tambem. Foi uma choradeira dos dois lados.

Deixei o Ira com uma sensacao maravilhosa de contentamento e saudosismo, um dos paises mais fantasticos que ja conheci, um dos lugares que mais me senti feliz em estar, um lugar diferente, um lugar realmente especial! Fui embora com orgulho do Ser Humano! Fui embora apaixonada pelos persas. Fui embora com o coracao apertado. Parabens Ira e muito muito obrigada!

A cidade mais bonita do Ira!

Foi bem dificil deixar a casa da Sumi e do Payam. Se nao fosse o bom senso do Gui, eu estava la ate hoje conversando no sofa. As vezes fico pensando que se viajasse sozinha, ao final de dois anos teria conhecido no maximo 10 paises. Teria ficado um mes numa ilha aprendendo massagem tailandesa e fazendo snorkling; outro mes numa vila nas montanhas aprendendo culinaria indiana; outros tres meses num retiro fazendo yoga, meditando e discutindo metafisica. Gracas ao Gui nada disso foi possivel, mas por outro lado, nao teria conhecido nem um terco dos paises que visitei.

De Tehran seguimos entao para Cashan, um dos destinos mais visitados pelos turistas. Cashan ‘e uma cidade super antiga e muito interessante!! Tinha um clima bem tradicional, mulheres cobertas com seus shadors dos pes a cabeca, mercados de rua, pracas lotadas de pessoas fazendo piquiniques, e casaroes tipicos de tirar o folego, com suas “piscinas” compridas decorativas na frente. La, aproveitamos para dormir num conchsurfer, que morava na parte de baixo de uma casa. O lugar era vazio, so tinha uma cozinha equipada e tapetes ao redor, bem ao estilo iraniano, que da uma sensacao que o pessoal nao tem dinheiro para comprar moveis.

Casas iranianas!

Casaroes tradicionais!

Mais casaroes.

 

Nas ruas de Cashan!

O Reza, era simpatico e pratico. Como ele tem uma pratica enorme em receber viajantes, eu nao sei se ele se ocidentalizou ou se ele ‘e assim mesmo. Mas a experiencia da relacao nao foi tao rica como foi com todos os iranianos ate aqui. Parecia que eu estava num hostel na Europa! Ele era super pratico, despachado, mostrava os mapas, dizia os roteiros que deveriamos fazer, precos, horarios, tudo tudo, alem de ser um capricorniano que realmente seguia a risca as suas descricoes astrologicas, fazia o estilo: “respeito voce, desde que voce pense como eu”.

No dia seguinte, juntou-se a nos, um casal da australia para ficar na casa do Reza. Como o Reza passou a noite no trabalho, ficamos os quatro “sozinhos em casa”. O casal era muito legal e meio “hippies”. Ela era alema, tinha 26 anos e estava morando ha cinco na Australia, sendo os ultimos tres dentro de um carro. Tomava banho nos chuveiros publicos da praia. Acabou nao fazendo faculdade e sua vida era viajar. Trabalhava tres meses sem parar (procurava sempre trabalhos que davam tambem a estadia), e o restante do tempo viajava. Nos ultimos anos, sua vida basicamente foi trabalhar tres meses e viajar seis. Uma conta interessante! Ela dizia que nao conseguia passar mais de tres meses numa mesma rotina. Dava para ver que ela nao conseguia nada muito tempo igual, ela mudava tambem radicalmente o cabelo de tempos em tempos: preto, louro, careca, cabeluda, etc. Dizia que so nao tatuava todo o corpo porque era muito caro e não teria dinheiro para viajar.

Sozinhos em casa!

Ja ele tinha 56 anos, uma filha de 21, era divorciado, e ha 10 anos nao tinha mais casa. Decidiu mudar de vida radicalmente, de trabalhador de carteira assinada numa empresa, com carro e casa proprios, para vender tudo, passar a buscar trabalhos temporarios e viajar o restante. As vezes eles moravam na garagem da casa da ex-mulher. Se diziam amigos, mas com o tempo vimos que eram um casal. Nao gostavam de rotulos e nem queriam acumular cadeiras, mesas, diziam. Porque ter uma casa? Voce nao precisa de nada disso. ‘Quando vieram para o Brasil, passaram quase dez dias numa guest house na favela cheirando e indo nas festas de funk. Apesar da descricao ser estranha, eles eram de fato pessoas bem bacanas e divertidas. Eles eram reais, apesar de seu modo de vida ser bastante diferente.

Normalmente, nas minhas experiencias com pessoas que optam por uma vida muito fora da sociedade, elas tendem a se tornar meio artificiais, numa conversa, por exemplo, se voce fala que quer ter filhos, eles te olham com uma cara tipo “putz, mais um ordinario”. Se voce pergunta quais sao os planos, eles dizem: “que planos, vivemos do presente, do hoje…” Se voce fala que voce nao acha certo tal coisa, eles dizem: “certo? Nao existe certo e errado…” Isso me da um nervoso… Claro que estou fazendo uma caricatura e exagerando, porque geralmente isso nao vem tudo junto na mesma conversa.. Mas enfim, eles nao era assim! Tinham essas escolhas de vida no momento, mas conseguiam conversar com voce e falar de si com naturalidade. Eles estavam sendo de fato o que eles sabiam de si mesmos e aproveitavam suas experiencias para se tornar pessoas melhores, alem de tratar muito bem os locais, se doavam bastante as conversas e exitacao dos iranianos frente aos turistas. E conversavam com voce sem preconceito por voce ter uma casa e querer ter filhos. Prometeram nos visitar em Curitiba na Copa de 2014. Ficaremos esperando reencontrar o Stu e a Merlanda!

No dia seguinte fomos juntos ate Abyane, um vila nas montanhas maravilhosa, com suas casas feitas de barro, pessoas tipica, estranhamos apenas que a maior parte dos moradores eram idosos, o que demonstrava que logo a vila viraria apenas um museu. Depois de passearmos pelo meio das ruazinhas e tirar fotos com os iranianos que nos paravam no meio do caminho, fomos ate as ruinas de um castelo que ficava as margens da vila, no topo de uma montanha, e que tinha uma vista linda para a vila e para todos os lados que voce olhasse. Um dos lugares mais lindos que ja vi!

Populacao local!

Vista de Abyane do outro lado do vale!

Nos despedimos de Cashan poucos dias depois e seguimos para Isfahan. A cidade no Iran que me encantou. Arborizada, limpa, linda, gostosa e cheia de vida. A cidade mais bonita do Iran para mim. Tambem moraria la, depois dos seis meses de Howrama.As ruas eram cheias de pessoas e, as pessoas, novamente, uma simpatia sem tamanho. A praca Imam Russein, onde ficavam a maioria dos monumentos, era de chorar de tao linda. O conjunto monumentos + a praca mais frequentada da cidade, tornava o lugar impar. As mesquitas dos homens e das mulheres e os palacios eram estonteantes. As mesquitas e parte dos palacios eram revestidas de mosaicos estilo miniatura, todos de uma cor entre o azul e o verde, cor da espiritualidade para os muculmanos, eles fazem cada combinacao com essas miniaturas, misturam cores e estilos, que fica uma coisa impressionante.

Palacio das 40 colunas!

Dentro das mesquitas!

 

Arte Persa, nao 'e de babar?

 

Pinturas no museu do palacio!

Junto com a arte persa-muculmana presente nos monumentos da praca Imam Russein, mais os milhares de piquiniques e os inumeros pedidos para nos conhecerem, tornava Isfaham um lugar especialissimo. O highlight do highligth das cidades do Iran! Quanto mais o dia caia, mais iranianos saiam as ruas para fazer piquinique. Os iranianos costumam encher as ruas depois do calor do dia, e gostam de jantar muito tarde. Os convites de piquiniques para jantar podem comecar as cnco da tarde, e a janta efetimamente comecar la pelas dez e pouco.

Mais iranianos querendo conversar!

Praca Imam Russein!

Mesquita das mulheres!

Movimento da praca a noite!

 

Ponte dos Arcos em Isfahan!

Nao demorou muito, e nos encontramos com a Sumi, Payam e a Sara, que aproveitaram o fim de semana para nos encontrar novamente. Passamos a maior parte do tempo na praca e arredores, alem de jantares deliciosos, com o inesquecivel fesenjun, um frango ao molho de roma, que pretendo fazer no Brasil. Delicioso!

Com choradeira, nos despedimos dos nossos amigos, que queriam nos encontrar de novo, combinamos varios lugares, entre Brasil, Ira e ate a India. Eles enlouqueceram pela India, mas ja teremos visitas suficientes no Hindustao. Por mim pode ser no Ira, porque definitivamente voltaremos muitas vezes quantas forem possiveis.

Mulheres Iranianas

A Sumi tinnha uma irma chamada Sara, que era uma figura curiosa. Sara tem 22 anos, mas se comportava como uma adolescente de 15, dos tempos dos nossos pais. Ela era apaixonada pelo professor de ingles. Um dia pensando em se fazer notar e seduzi-lo, advinha o que ela fez? Comprou um perfume e foi na aula cheirosa! Nao ‘e o maximo? Pois ‘e, a injenuidade da Sara nao parava por ai. Ela estava se preparando psicologicamente para experimentar alcool uma hora dessas, ela estava decidida! E tambem, se preparava para experimentar homens! Eu nunca tinha ouvido esse termo, mas o experimentar homens significa talvez dar um beijinho, paquerar….

Ela sonhava em ter liberdade para colocar a roupa que quisesse. Nao entendia porque os homens tinham que ser tao machistas e porque as mulheres no Ira tinham que casar virgem (se quisessem casar)! Queria ter liberdade de ir e vir, liberdade de expressao, queria ir numa boate e dancar ate o amanhecer, queria dancar com homens e mulheres juntos, no mesmo ambiente! No Iran no existem casas noturnas, ou coisas do tipo. Inclusive nos casamentos, de um lado fica a noiva com as mulheres e do outro o noivo com os homens, em ambientes separados, onde ninguem podem se ver. So o noivo pode circular entre os dois ambientes. Para os mais modernos, depois da cerimonia, os convidados mais intimos sao recepcionados em casa, onde tem bebida liberada, homens e mulheres dancando juntos.

Sara, eu e Sumi!

Como perder a virgindade ‘e garantia de ficar solteira, ‘e muito comum no Ira cirurgia plastica. Conforme elas, muitas mulheres fazem antes de casar. O medico mais acougueiro vai cobrar 200 e os melhores 1000 dolares. A virgindade nao ‘e restrita aos mais tradicionais, os jovens modernos tambem se casam virgem. Casar virgem ‘e quase unanimidade.

Falando em cirurgia, alem “dessa”, elas tambem sao campeas de cirurgia de nariz. Ja que a unica coisa que pode ser mostrado ‘e o rosto, ‘e muito comum ver nas ruas mulheres com esparadrapo no nariz. Elas procuram manter o rosto perfeito. P^elo ‘e sinal de fim dos tempos, portanto se depila tudo, t-u-d-o, dos dedos do pe, passando pelos bracos, ate o rosto. Quando fui ao salao em Tehram, no final do procedimento, a mulher me olhou e falou: “So isso?” Eu demorei para entender. So depois ao chegar em casa que a Sumi foi me explicar. Passado uns dois dias, com um pouco mais de intimidade, a Sumi me disse: posso depilar o seu rosto? Pelo que me constava, eu nunca tive p^elos no rosto. Deixei, so pra ver como elas faziam! Ela pegou aquele fiozinhoe com um tecnica ninja tirou muita coisa, que so com uma lupa poderia ser observado. Eu me diverti, se nao fosse dois dias depois ficar com o rosto todo cheio de marcas, porque me deu uma grande alergia!

Iranianas modernas fazendo pose para tirar fotos!

 

 

Entre amigos!

De Howrama seguimos para Tehram. Conseguimos chegar no fim de semana. Acabamos escolhendo ligar para o “casal pos moderno”. Pegamos um onibus de nove horas ate la, bem confortavel e com servico de bordo.

Quase nove horas da noite chegamos em Tehran. Era quinta-feira, o sabado para nos, já que o final de semana dos muculmanos ‘e na quinta e sexta. Abrindo um parentes as religioes semiticas fizeram bem direitinho: sexta o dia sagrado dos muculmanos, sabado dos judeus e domingo dos cristaos. Ligamos para o Payam e ele passou o endereco em farsi para o taxista, já que eles moravam ao norte e bem longe da rodoviaria. O norte ‘e a regiao chique de Tehran. No caminho, o transito era absurdo, dizem que ‘e normal por la. Nunca morei em SP, mas parece bem semelhante, a unica diferenca ‘e que voce pode ficar parado no congestionamento, sem que ninguem venha te assaltar. Aproveitei para ficar olhando pelas janelas e conhecer a cidade. Tehram, apesar de grande, parecia bem interessante. Ao meu ver, não tinha aquela cara sempre a mesma de cidade grande, tinha uma certa identidade. Os carros eram bem velhos nas ruas e o peguet branco 206 o mais cotado entre os  jovens. No limite da cidade, ficam o inicio das montanhas, um visual sem igual.

Quase onze horas da noite chegamos a casa dos nossos amigos. A recepcao foi impactante. Eles haviam arrumado a casa para nos receber, tinham musica de fundo e uma alegria estampada no rosto. Logo nos ofereceram: “voces preferem dormir no nosso quarto, ou neste aqui ao lado, ou ainda ao modo iraniano (sobre os belissimos tapetes persas no chao)?” Escolhemos o quarto ao lado, onde eles abriram alguns colchonetes sobre os tapetes, com travesseiros fofos e cobertor. Estava temendo ter que dormir no chao-tapete novamente! Mas deu tudo certo.

Tiveram o bom senso de perguntar se queriamos tomar um banho antes do jantar e para mim foi a gloria. Tomei um banho delicioso enquanto o Gui conversava com eles sem parar. Pediram entao se podiam servir o jantar. Quando sentamos, comecou a vir os pratos impecavelmente decorados por eles, pareciam de restaurante. Coisa mais bonitinha. Eles tinham realmente se empenhado para nos receber.

Cardapio: frango com legumes e pessego ao redor, arroz com acafrao e frutas secas com a parte queimadinha, um molho vermelho apimentado com carne moida bem tipico e delicioso,azeitonas, e  iogurte gelado com menta. Tambem tinham comprado um vinho para tomarmos. Mas deu para ver que foi so pela gente, pois quando foram procurar o saca-rolhas, viram que não tinham rsrs. Depois veio a sobremesa que não lembro bem o que era, mas bem gostosa.

E dali em diante, engatamos num papo mais interessante que o outro, que foi de chorar de tao bom. Eu não acreditava que aquilo poderia estar acontecendo, me beliscava de tao emocionada. Porque geralmente apesar de gostar muito de pessoas, de estar com elas e de escuta-las, dificilmente as pessoas conversam coisas que realmente me interesssam. Falam mais das coisas que estao acontecendo fora delas, seja na politica, na economia, na biologia, na moda, na educacao, no trabalho, na tv, no cinena… Ja com essas pessoas, nos falamos de tambem de diversos assuntos, mas elas estavam ali, presentes, em cada um deles. Falavam da politica, da economia ou da sociologia, mas de como isso as afeta tambem. Não como um jornalista escreve uma reportagem, imparcial, imparcial, imparcial. Se interessaram em saber a historia do cristianismo, em entender a nossa religiao. Queriam compreender as diferencas entre catolicismo e protestantismo, por exemplo, assim como nos queriamos entender as diferencas entre xiitas e sunitas. Eram pessoas que falavam de si mesmas, sem achar isso over, profundo demais ou esquisito. Mas como uma coisa natural que se fala entre pessoas que vivem, aprendem, pensam, sofrem, se alegram, buscam, encontram, perdem e ganham.

Eu não sei quantos dias eu poderia ficar ali conversando com eles… Mas foram quatro dias intensos, onde nos dormiamos as quatro ou cinco da manha, pois passamos a maior parte do tempo sentados no sofa, falando falando e falando.

Cafe da manha - cara de sono ou nao?

E o cuidado deles com a gente era impressionante, não podiamos mover uma palha para levantar um prato da mesa. Disseram que era costume iraniano, o hospede ‘e sempre um enviado por Deus, est’a no Corao. Me sentia realmente enviada por Deus, pois faziam tudo por nos. Eu ate brincava dizendo: “a princesa quer cha agora!” hehe. Alem de não deixarem nos encostarmos na carteira, ate minha ida ao salao foi paga. Nada, nada, nada, não podiamos nem pensar em pagar uma bala.

Ao longo dos dias foram vindo os presentes, em ordem: um chale colorido lindo, um brinco, um livro de poemas em farsi, um livro de poemas em farsi e ingles, um pedaco de tecido retirado do vestido de uma noiva que da muita bencao, duas canetas lindas, pois vinham que nos tinhamos diarios, um terco comprado num dos lugares mais sagrados para o muculmanos xiitas, Kerbala (onde morreu o Imam Hussein), se não estou esquecendo de nada, ‘e isso.

Durante todos os dias, os outros amigos Nana e Abbas, que nos chamavamos de Yazd, pois ele era de la, ligavam todos os dias insistindo para irmos para casa deles. Como não conseguiamos parar de conversar com a Sumi e o Payam, tentavamos despista-los, com a desculpa de amanha, e depois amanha de novo… no fim das contas acabamos não indo. Mas fizemos programas muito legais com eles tambem. Um jantar na casa deles, uma festa, e outro jantar fora de despedida.

Sexta fomos na festa da casa de campo da Nana, na saida de Tehran, perto da montanhas. Foi muito interessante ver todos os iranianos arrumadissimos nos seus carro,  para as baladas nas casas dos amigos aos arredores de Tehram, para terem algum sossego com a bebida.

A maior parte da populacao iraniana ‘e muito religiosa e tradicional e apoiam o governo, e há uma minoria moderna e secular que não apoia e tenta na medida do possivel levar uma vida livre ali.

Foi o que vimos nos carros. As mulheres super maquiadas e carros e carros de amigos indo para a casa de alguem. No caminho a policia já sabe e faz um tipo de blitz, que ‘e na verdade para verificar se eles tem bebidas, entao o engarrafamento ‘e grande.

Chegamos na casa da Nana por volta das nove horas da noite e todos os seus amigos estavam sentados ao redor de uma mesa, as mulheres todas a vontade, de saia, regata, etc., havia um quarto para mudar de roupa ao chegar, largar a scarf, e mantum. Uma das convidadas estava cantando. Os iranianos adoram rescitar poemas um para o outro, da para acreditar? Que povo mais sofisticado!

Ficamos ouvindo, depois vieram as comidas e  o DJ comecou a botar pra quebrar. As musicas eletronicas, mas iranianas. Bem interessante. Elas dancava de um jeito que lembrava as indianas, mas muito mais sexy e charmoso, não aquela coisa bracos para um lado e para o outro. Os homens dancavam juntos olhando um para o outro. Fotos e mais fotos eram tiradas. Na hora da foto, todos se juntavam e  faziam uma pose coletiva maluca, num estilo “ como nos divertimos, como somos felizes juntos, nos contra o mundo….” Bem engracado de ver.

Dancei um monte, tentei imita-las uma hora, mas disseram que eu estava dancando indiano não iraniano, enfim… e depois fomos para dentro da casa, onde cada um pegou um instrumento, daqueles super antigos, classicos que voce ve em fotos nos livros dos poetas e comecaram a rescitar um para o outro novamente. Muito legal!!!

Ate que repentinamente, veio a noticia de que a policia estava la fora e tinha sido subornada por 100 dolares para todos sairem da festa em 15 minutos, pois eles iriam voltar e prender todo mundo. La veio a correria para sairmos, eles tentavam nos deixar calmos dizendo que isso era normal, e que eles so queriam dinheiro, mas nos ficamos preocupados. Eu tava me divertindo com tudo, mas o Gui temia ser expulso do pa’is, eu achava que era exagero Guilhiano.

La fora, os carros dos convidados ficavam um em cada canto, bem longe da casa para não chamar atencao. Fomos pegar o nosso e seguimos embora. Nossos amigos pediram mil desculpas para gente pelo ocorrido. O Gui brincou que não tinha problema, que eles podiam nos levar sempre para situacoes arriscadas, desde que elas acabassem bem no final, como essa.  Eles disseram que se tivessem entrado, com certeza nos seriamos os turistas brasileiros presos numa festa de manchete nacional.

A Sumi nos contou que estava muito nervosa, pois ela não bebe e se caso a policia baixasse ali, ela seria presa junto, e como ela ‘e diretora de cinema, a carreira dela estaria arruinada no Ira… Percebemos que a situacao não ‘e brincadeira, um dos convidados por exemplo, no camiinho para a festa foi pego com seis garrafas de uisque (o equivalente a um caso de trafico no Brasil), numa das blitz da policia, e teve que pagar 3000 dolares para não ficar seis meses preso e levar 70 chibatadas. Da para acreditar? Vimos que a coisa ‘e seria, mas que eles já sabem bastante como lidar com a situacao e viver num pais fechado. E a policia corrupta no fim das contas ajuda um monte.

O Payam e a Sumi brincavam todo dia quando tinham que sair de casa para qualquer coisa, que eles  precisavam incorporar a segunda personalidade. Diziam que tinham duas, a de casa e a publica. Em casa: bermuda, camiseta, assuntos sem censura, etc, na rua: calca e camiseta, e as mulheres, calca, mantum e scarf.

Da para perceber que ‘e um sistema que so não caiu ate hoje, porque o povo em geral ‘e muito religioso. E ‘e bastante complicado opinar, porque tem certas coisas que são bem melhores la do que no ocidente e outras que não. Alem do que, me faltam informacoes e conhecimento suficiente para poder ter uma opiniao justa, entao posso falar mais do que saltou aos meus olhos e do que as pessoas que conversamos se sentem afetadas.

O povo por ser religioso mantem o pais seguindo suas tradicoes, como se ve pelos poemas, instrumentos, musicas locais, roupas, costumes, etc., o que acaba segurando a onda para daqui um pouco não estar todo mundo escutando o mesmo hit internacional, o tipo moderno padronizado globalizado.

A seguranca ‘e enorme nas ruas, pois o povo ‘e religioso, o que torna eles muito mais morais em seu comportamento, alem da lei severa para intimidar os realmente bandidos. O clima no Ira em geral ‘e muito respeitoso, os motoristas dirigem feito loucos com suas regras de transito quebradas, e voce nao ve uma buzina, uma cara feia. Entre as pessoas ha tambem uma clima de apoio mutuo, o que nitidamente ‘e resultado de um povo com uma forte vida espiritual.

Por outro lado, as condicoes de vida para muitos ‘e dif’icil. Escutamos muitos iranianos reclamando que precisavam trabalhar demais e que os precos nao paravam de subir. Qualquer protesto na rua ‘e fortemente reprimido, e o governo usa a religiao para dizer que aquilo nao esta de acordo com o Corao, e o povo religioso, acata.

Quem quer liberdade para escolher o tipo de vida que quer levar, desde a roupa ate o comportamento, ‘e proibido de seguir sua vontade.  A liberdade de imprensa, por exemplo, ‘e quase nula. A Sumi contou que todos os filmes que ela pretende fazer, antes precisa ser enviado ao governo para aprovacao do tema, para so depois rodar. Entao, ao escolher um filme ela precisa pensar num tema que nao seja sens’ivel ao governo. Conta inclusive que nao tem vontade de sair do Ira, pois ela quer promover reflexoes para os iranianos atraves do cinema, por acreditar que o Ira precisa disso. Ela ja foi premiada por alguns de seus filmes na Europa, e ja recebeu convite de ficar por la, mas acredita que nao tem tanto a acrescentar nestes paises. Ja o Payam precisa fazer uma arte feliz, onde so expresse coisas boas, para as pessoas não verem os problemas do  pa’is. Na televisao muita comedia, isso nos chamou atencao. Alem de muuuitos sites bloqueados na internet.

As minorias religiosas, como os Zoroastras e Cristaos, são descriminados pelos muculmanos. Enfim, o Ira ‘e um pais como todos os outros – imperfeito. São problemas diferentes que os nossos, mas são problemas iguais. Uns maiores, outros menores, mas não importa, alguem já viu um pais justo? Alguem já viu uma sociedade justa? Alguem já viu um governo justo? Se fosse possivel a terra seria chamada de paraiso.