Um Povo sem patria!

Logo quando largamos as malas no trem ficamos sabendo que nao tinha vagao de restaurante, como estava anunciado na internet. Corremos entao comprar comida, pois seriam 30 horas de viagem. Sorte que deu para fazer um pe de meia. O vagao contava com banheiros impecaveis e ainda chuveiro. Obvio que fui a unica a tomar banho.

A viagem de trem foi espetacular. A paisagem la de fora era emocionante. Por mim ficaria mais 30 horas naquele trem, de tao lindo que era olhar para fora. Passamos por vilarejos maravilhosos, com poucas casas, uma mesquita e uma escola. As vezes tinhamos visuais duplos de uma janela do trem para outra, de um lado meio deserto, do outro tudo verde com montanhas com neve no topo. De chorar de tao lindo. Tive aqueles momentos emocionantes de profunda felicidade, de pensar que eu nao gostaria que um milimetro da minha vida fosse mudada e que eu estava exatamente aonde e como gostaria de estar…

As cinco da manha chegamos em Diabarkir no Curdistao Turco e fomos procurar hotel. Depois de descansarmos, fomos conhecer a cidade. As ruas cheias de mercados de rua, mulheres com suas burcas dos pes a cabeca e homens tomando chay em frente a mesquita. Alem de outros jogando domino no parque e o visual do rio tigre ao sul da cidade. Aquele visual intocado, de quem ainda sabe o que ‘e tradicao. Logo a ficha veio: a viagem comecou!!! ‘E incrivel como fiquei viciada nos lugares intocados, que enquanto nao chego neles, nao me sinto viajando ainda. Parece mais lazer.

Depois de pouco tempo caminhando e sendo abordada por muitos com Welcome to Diabarkir, conhecemos uma menina de uns 12 anos, junto com suas amigas, que nos convidou para ir ate sua casa. Entramos num labirinto de casas residenciais ate chegar na casa dela. Tapetes no chao, sapato para fora, nada de sofa, so umas almofadas na parede e uma televisao. Para nosso padrao uma casa vazia, sem moveis, para eles uma casa normal. Num canto da sala ficam alguns cobertores e as vezes colchonetes, para se estender no tapete na hora de dormir. Normalmente as casas tem poucos quartos, porque costumam dormir juntos na sala.

O papo comecou entao com a familia da menina e logo nos ofereceram chai, queijo e pao. Ficamos comendo e mimicando. A menina arranhava um ingles. Fim das contas a familia era bem heterogenea: a mae muculmana fervorosa de rezar 5 vezes por dia, como manda o figurino; o marido se dizia marxista e ateu; a filha dizia nao ser nenhuma coisa nem outra, mas ia a igreja aos domingos junto com as amigas, so porque achava legal; e o filho tambem era marxista.

Na parte de cima da casa uma sala de aula. A menina ensinava Kurdo para os kurdos que ja tinham perdido a lingua. E um quadro na sala da guerrilha PPK, mostrando o filho que morreu na guerra entre o PPK e o governo turco, pela independencia dos Kurdos na Turquia.

Uma historia triste, ja que o Kurdistao ja foi uma regiao autonoma na epoca do Imperio Persa, mas apos a primeira guerra e o fim do Imperio Otomano, os ingleses e franceses passaram a tomar contar e dividiram a regiao em quatro pedacos para os recem criados paises: Turquia, Siria, Iran e Iraque. Mas ‘e um povo so, com uma so lingua e tradicao. Na Turquia somente nos ultimos anos eles passaram a ter direito de falar sua lingua e de ter seus costumes. Nesta familia, por exemplo, os pais foram presos durante quatro anos porque a filha ensinava kurdo.

Ao final do encontro, saimos com presentes e o pedido para que a gente voltasse no outro dia. Se contar com o convite de dormir na casa deles e tirar muitas fotos, inclusive com os vizinhos. Nos somos tao diferentes para eles, quanto eles são para nos.

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Revolucao Turca

Com o fim do Imperio Otomano, a Turquia comecou a se organizar como um pais. A regiao era ocupada por diversas etnias, com suas respectivas linguas, costumes e tradicoes. Porem, durante esse processo de organizacao, todas estas caracteristicas foram negadas.

A proposta era construir um pais moderno, com muitas caracteristicas do Ocidente, buscando formar um sentido de unidade nos diversos povos, a custa de todos se tornarem turcos, esquecerem suas origens e tradicoes, para formarem um so povo, com uma so cultura e uma so lingua.

Os turcos já eram um povo, e a nacao que estava surgindo aparentava ser construida somente para eles, pois eram a maioria. Assim, apenas suas tradicoes seriam preservadas, após ainda uma grande modernizacao destas.

Modernizacao significava, nas maos do governo Ataturk, tornar a Turquia uma “democracia” secular: de direitos iguais para homens e mulheres, com a adocao do alfabeto latin e do modo de se vestir europeu. As comemoracoes folcloricas foram banidas e ate mulheres foram proibidas de usar veus no seu ambiente de trabalho e escolas, isso bem antes da Franca…

Tudo como manda o figurino moderno: secularismo, progresso, padronizacao, obsecao pelo novo, pela re-invencao, pelos prazeres, pela ciencia, pela tecnica e pelo futuro. Afinal para que serviram as geracoes anteriores e todos os seus valores? Parece que não serviram para nada!

Uma pena que o pensamento moderno não tenha comecado antes, tantos erros teriam sido evitados e o indice de felicidade humana seria arrebatador, como se ve hoje nos grandes centros urbanos.

De certa forma, o projeto dos turcos deu certo – como era de se esperar, já que o momento vem sendo propicio ao modernismo desde entao, e com isso surgiu um sentimento muito forte de nacionalismo. Grande parte dos turcos se orgulham da Turquia moderna, se sentem acompanhando o Ocidente. Porem, muitas minorias ate hoje lutam pelos seus direitos, como se p^ode ver pelos diversos protestos nas ruas, já que as eleicoes estao proximas.

Istambul

De Londres, seguimos para Istambul. No caminho do aeroporto ate Taksim (ultima parada do onibus), o frio na barriga comecou a me pegar, aquela sensacao de “a viagem esta comecando mesmo”. Descemos num frio desgracado, daqueles de ficar de gorro. O tempo estava nublado e a sensacao era estranha, pra mim viagem combina com calor e frio com trabalho.

Seguimos para nosso hotel, que o Gui achou meio que por acaso na internet, não tinha grandes recomendacoes, nem estava no guia e impressionou: o custo beneficio era muito bom. Apesar de ser banheiro coletivo, era bem limpinho, antigo, entao os quartos eram grandes e a calefacao estava ligada o dia inteiro, fazendo voce ficar quase de manga curta. Muito acolhedor para primeiro hotel da viagem!

Passamos quase 15 dias em Istambul organizando toda parafernalha dos vistos do Cazaquistao, Uzbesquistao e Kirguistao. Tivemos alguns daqueles momentos “roubadas”, por exemplo, na volta do consulado do Cazaquistao pegamos uma chuva forte naquele frio e nenhum taxi parava, nos molhamos um monte e a unica coisa que não molhou era o que ficou por baixo da jaquetinha impermeavel, que mais uma vez mostrou sua eficiencia. Mas em compensacao tenis, calca e punhos enxarcados. E tinhamos que encarar mais 40 minutos de metro ate chegar no hotel. Deu para quase pegar uma gripe, se não fosse chegarmos e nos jogar logo em baixo do chuveiro para tomar um banho bem quente com cha de gengibre, que compramos no Spice Bazar.

Na vez do Uzbesquistao, já tinhamos comprado guarda-chuva, mas os pes molharam igual, esses tenis de hoje em dia não dao pra nada. Ficamos com os pes enxarcados das dez da manha ate as tres da tarde, quando o visto ficava pronto. Não valia a pena voltar para o hotel, porque estavamos do outro lado da cidade.

Tirando isso, os dias em Istambul foram tranquilos, deu para passar mil vezes em frente a Blue Mosque, na Aya Sophia, Spice Market, Topak Parque, alem de visitarmos o museu antropologico do Oriente Medio, que conta a respeito dos imperios que tomaram conta da regiao, desde os gregos, otomanos, egipcios, babilonicos, sumerios e por ai vai. Bem interessante!

Conseguimos nos encontrar com o Mehmet, nosso couchsurfer da ultima vez, que agora estava morando no escritorio, e com isso não conseguimos ficar na casa dele. Foi um encontro emocionante!O Mehmet foi uma das pessoas que mais adoramos conhecer durante a ultima viagem. Muito bom rever um amigo que voce conheceu viajando, ‘e um sensacao especial.

Como estavamos proximos da Pascoa, achamos uma igreja da Virgem Maria, que tinha missas em diversas linguas para os estrangeiros. Aproveitamos e fomos na sexta-feira santa, na celebracao da cruz, que foi emocionante. Nunca tinha partipado antes. Primeiro eles fazem a via sacra dentro da igreja e depois há um tempo para contemplacao da cruz. A missa era celebrada partes em turco, italiano, ingles, espanhol e coreano, meio complicado de acompanhar. Eles comecavam o pai nosso em italiano, por exemplo e voce mentalmente em portugues, era facil se perder. Mas foi emocionante ouvir a missa em italiano, principalmente por algumas palavras que eles usam que tornam muito mais claro o significado daquela frase em portugues. Me deu muita vontade de fazer italiano quando voltar ao Brasil.

Deu tempo tambem de conhecermos um casal de suicos bem bacana que farao tambem a Rota da Seda e aproveitamos para trocar informacoes. No fim das contas acabamos jantando no flat que eles alugaram com um turco, pois como um deles ‘e suico-turco, estao aproveitando para aprender a lingua. Uma vergonha para nos, que ficamos tanto tempo e sabemos falar “mahaba” e “tesecuire.” Nada mais que ola e obrigado. Como não sabiamos ao certo quanto tempo demoraria os vistos, não pudemos nos comprometer com um curso, mas definitivamente não ‘e desculpa. Queria ter feito tambem um curso de culinaria turca, mas não vi opcoes anunciadas.

No sabado, já cansados de tanto estar numa cidade grande num hotelzinho de centro, fomos para a Princes Island, local onde serviu de exilio para familias tanto na epoca dos bizantinos como dos otomanos e hoje ‘e a praia particular dos afortundados. Paramos na segunda ilha e foi uma delicia, o passeio certo. Paz, silencio, paisagem, e muitas flores e cheiro de flor. Ruazinhas perfeitinhas com suas casas bonitinhas.

Istambul vai deixar saudades, afinal já estavamos amigos do dono do hotel, do vendedor de frutas, dos donos dos restaurantes, já ganhavamos cha e cafézinho de graca. Mas eu estava muito empolgada de pegar o longo trem ate Diabarkir, no Kurdistao turco. O trem era primeira classe e prometia vistas de montanhas belissimas pelo interior da Turquia.

Humildade!

Uma das coisas que mais paraliza o meu espirito ‘e quando estou em terra muculmana e escuto a chamada das mesquitas. Nas sextas-feiras, principalmente, que ‘e o dia sagrado dos muculmanos, elas ficam ainda mais alardeantes, parecendo uma disputa de qual mesquita chama mais alto os devotos para rezar. Tudo silencia em volta, e não tem como voce não ficar extasiado diante da beleza daquelas chamadas. Bem que podia ser assim nos paises cristaos, o barulho dos sinos da igrejas ser ensurdecedor por alguns minutos. Sinto como se as chamadas viessem diretamente do ceu, como um grito la do alto para todos os homens da terra. Sinto vontade de parar e rezar junto.

E caminhando pelas ruas, uma cena me chamou atencao. Numa das sexta-feiras, estava la, um grupo enorme de devotos, rezando em frente a mesquita. O jeito que os muculmanos rezam arrepia, porque sao diversos gestos encadeados: eles se ajoelham, encostam a testa no chao e levantam juntos, diversas vezes.

Quando voltei de viagem, algumas pessoas me perguntaram, quando eu contava da beleza que era ver os muculmanos rezarem, porque eles se ajoelhavam? Eu demorei para entender essa pergunta… O ponto era porque se ajoelhar, porque se humilhar assim! Ouvi isso algumas vezes. E entendo que fique dificil compreender, já que vivemos num tempo em que o homem ‘e o centro, o dono do universo, e entender alguem tao importante se ajoelhar para alguem, mesmo que este alguem seja Deus, fica complicado. Ate porque o Deus de hoje nem pode parecer mais tao poderoso, nem ser chamado de Deus, talvez de forca maior, consciencia universal…

Pertinho da mesquita, seguimos para uma ruazinha cheia de pequenas lojas locais e eu entrei numa delas para comprar um cachecol. Não vejo ninguem, procuro o dono da loja, ele estava ajoelhado, rezando. Discretamente eu fui embora, mas o tempo que eu fiquei ali, ate encontra-lo, era suficiente para ele parar e me atender. Mas ele preferiu rezar! Aconteceu a mesma coisa em mais duas outras lojas que entrei em seguida. Achei aquele ato tao bonito. Uma hierarquia de valores justa, que sa’i de cabeca baixa pensando nos nossos valores.

Bem aventurados os pobres de espirito, disse Jesus! Os pobres de espirito são os humildes, que não vivem apenas para buscar prazeres e riquezas e sim, para serem santos! Santo vem do latim e significa são – uma busca por ser uma pessoa virtuosa. E os ricos de espirito, são os ricos em opiniao, os orgulhosos. Orlando FedeliO Sermão da Montanha e as Bem Aventuranças Evangélicas

 

Compreendendo o Islamismo!

Alguns tem atracao pelas religioes orientais, como o budismo e o hinduismo, e normalmente uma certa aversao ao islamismo, porem este ultimo ‘e muito mais proximo da nossa religiao do que os anteriores. Louvam o mesmo Deus, inicialmente so dos Judeus e depois dos Cristaos.

O que afasta e dificulta o caminho para entende-los sao os diversos conflitos que houveram entre a civilizacao muculmana e ocidental (crista) ao longo da historia, desde a fundacao do Isla. E naturalmente temos a tendencia de olharmos mais para o que eles fizeram com a gente e nao tanto para o que nos fizemos com eles. Por exemplo, 11 de setembro ninguem esquece, mas o genocideo de muculmanos por cristaos na Bosnia nao ficou tao marcado… Alem dos conflitos, os costumes e tradicoes dos muculmanos nos chocam. As roupas das mulheres, a poligamia, as leis severas. Enfim, a forma que eles tem de resolver as coisas, que ‘e bem diferente da nossa.

Quando eu comecei a viagem pela Africa na Tanzania, desembarquei em Dar Es Salaan e de la seguimos para Zanzibar. Ambos os lugares com maioria esmagadora de muculmanos. Lembro que no meu primeiro dia em Dar Es Salaan, apos todos aqueles avioes, acordei as cinco da manha com o som das mesquitas… e gostei muito. Depois no dia seguinte em Zanzibar, fiquei dias observando todas aquelas mulheres tapadas dos pes a cabeca morrendo de pena, pensando “ coitadas, como sofrem, quanta opressao, que absurdo….”.

Mas com o tempo de viagem e conhecendo muculmanos e mais muculmanos, jantando junto, tomando cha, conversando com as mulheres, a gente comeca a enxergar a coisa de dentro e nao mais de fora. Do ponto de vista deles, e nao do nosso. A unica forma de compreender as coisas. E nao so perdi todo o preconceito que tinha, como hoje, os muculmanos sao um dos “povos” que eu e o Gui mais nos relacionamos afetivamente e os que mais nos acolheram.

Para voce se tornar um muculmano, diferente das outras religioes, voce nao precisa passar por um ritual de batismo, como no cristianismo para receber o Espirito Santo. O que te torna muculmano, ‘e voce considerar a seguinte verdade de fe: Nao ha deus exceto Deus e Muhammed ‘e seu profeta! Se voce acreditar nisso, voce se tornou muculmano, que significa homem limpo!

O Islamismo ‘e a ultima das religioes Abrahamicas: Judaismo-Cristianismo-Islamismo. Porem o que o Islamismo veio reafirmar na visao de um muculmano ‘e o monoteismo puro e original. Para eles, os judeus restringiram a mensagem de Deus apenas para o seu povo, os descendentes de Abrahao. E Cristo entao foi enviado para abrir essas fronteiras e nao limitar mais a mensagem apenas aos judeus, mas a todos, judeus e nao judeus. Porem, Deus ficou diluido na figura de Cristo, na fe de que Deus ‘e trino e uno (pai, filho e espirito santo). E eles vem entao resgatar esse monoteismo puro e para todos. Para o islamismo, o judaismo e cristianismo sao religioes irmas.

Para compreender o mundo muculmano que se inicou com o profeta Muhammed, ‘e preciso entender como era o mundo arabe antes do islamismo chegar. Os arabes na epoca de Muhammed (622 DC), acreditavam em 360 deuses, faziam orgias e mais orgias, as mulheres tinham um valor inferior ao de um escravo, e muitas eram enterradas vivas ao nascer, pois significava prejuizo na certa. A arabia, resumindo, era uma zona.

Muhammed nasceu de numa familia muito nobre, de uma das melhores tribos da epoca, capaz de retracar sua ascendencia ate Abrahao, tamanha a nobreza (da tribo de Isaac veio os judeus e da de Ismael vieram os arabes, ambos filhos de Abrahao). Mas como pouco antes dele nascer seu pai morreu e com 6 anos de idade a mae, ele era muito pobre. Quando a mae faleceu ele passou a ser criado pelo avo ate os 8 anos de idade, quando o avo morreu e passou a ser criado pelo Tio. O Tio morava onde hoje ‘e Meca e era a pessoa responsavel por cuidar dos peregrinos que vinham adorar os 360 deuses.

Desde cedo Muhammed trabalhava cuidando das cabras, mas como cresceu ao lado dos peregrinos, conheceu muitas pessoas importantes e aproveitava para compreender como eles pensavam, pois tinha muito interesse em Deus. Nao participava das orgias e nao gostava dos costumes. A partir de uma certa idade, ja casado, comecou a se retirar para uma caverna para rezar e numa dessas vezes houve uma aparicao do Anjo Gabriel, que disse que ele seria o profeta de seu povo. Muhammed ficou bastante assustado e achou que estava ficando louco, chegou em casa e contou para sua esposa que o tranquilizou e disse que talvez era mesmo uma mensagem do Anjo.

Dali em diante, Muhammed comecou a receber outras mensagens e a pregar o Islamismo, comecando por dizer que os arabes deveriam abandonar seus 360 deuses e passar a acreditar somente em Deus. Obviamente ele comecou a ser perseguido, pois todo o comercio de Meca na epoca era relativo aos peregrinos. Muitos muculmanos foram perseguidos e morreram de fome, pois os arabes negavam-se a fazer comercio com eles. Uma parte fugiu para onde hoje ‘e Etiopia (onde foram protegidos pelo Rei de Axum que era cristao e portanto tambem acreditava num so Deus) e outros para Medina. A religiao se multiplicou e depois de algumas guerras e muitos massacres, os muculmanos venceram.

Junto com Muhammed alguns novos costumes foram adotados. Escravos, pobres e negros podiam se sentar junto com muculmanos nobres e olhar nos seus olhos… os homens passam a ser iguais, independente da classe social ou origem etnica. As mulheres passam a ter valor e direitos civis. No tempo da arabia, como muitas tribos guerreavam entre si, o numero de homens era muito menor que o de mulheres, e restavam poucas opcoes para elas. Podiam tornar-se concumbinas sem direitos ou viver solteiras para o resto da vida e morrer de fome. A poligamia veio como uma forma de protege-las e garantir uma vida digna. Em muitos casos o irmao do marido morto passava a tomar conta da viuva.

Antes do islamismo os arabes podiam ter quantas esposas quisessem, com ou sem o consentimento delas, que nao podiam pedir o divorcio. Com Muhammed, os casamentos so podem se realizar com o aval delas; passam tambem a ter direito de pedir o divorcio; e o homem ao casar-se deve pagar a futura esposa um valor que ela estipula, para ficar com ela durante todo o casamento, e ainda deve sustenta-la integralmente, para garantir a ela alguma liberdade economica no caso de um divorcio. Elas podem tambem ter bens em seu nome, isso desde o tempo de Muhammed. Na sociedade norte americana e brasileira a mulher so p^ode ter bens no seu nome a partir do sec 20…

A poligamia entao so pode ocorrer se o homem garantir os mesmos direitos para cada esposa e o limite ‘e de quatro. Cada uma deve ter sua casa e ser sustentada pelo marido com os mesmos bens que as demais. A ideia da poligamia ‘e ser uma solucao para os periodos em que a populacao feminina e masculina estao em desequilibrio. Hoje somente 2% da populacao dos paises apontados como poligamicos exercem na pratica esse costume.

Quanto as roupas, seria interessante pensarmos que a religiao se propagou numa regiao de deserto com altas temperaturas, sol fortissimo e tempestades de areia, alem de uma arabia incivilizada e cheia de orgias. A roupa entao vem nao so proteger do meio ambiente como das pessoas. Na Arabia Saudita nos ultimos 20 anos houveram apenas dois casos de estupro. Nos temos a liberdade de usarmos a roupa que quisermos, mas nos nao temos seguranca!

Na Malasia conhecemos uma moca que estava com um vel curto e colorido, roupas modernas, apesar da calca e blusa de manga comprida, e ela nos explicou que la nao tem tempestades de areia entao nao teria porque usar a burca inteira. Outra garota belga, que nao usava o veu, mas era bastante religiosa e estudiosa do islamismo, dizia que o veu estava dentro de voce. Ou seja, costumes e religiao se misturaram ao longo dos anos e hoje as mulheres se mantem com as burcas dependendo das suas tradicoes familiares, da lei dos seus paises e de como interpretam a palavra do profeta que, em linhas gerais, apenas recomenda que se resguardem ao vestir-se.

O jeito moderno…

E o tradicional!

O profeta ao longo de sua vida foi pai de familia, comerciante, governante… entre outros, e era reconhecido como um homem de conduta impecavel e que todos podiam confiar, inclusive os comerciantes concorrentes dele, quando iam viajar longo, deixavam seus bens para ele cuidar… Como ele teve um leque enorme de papeis humanos, o muculmano tem o exemplo do profeta para as mais variadas areas da vida: de casado, de negocios, de politica, etc. Isso explica porque o muculmano procura ter uma conduta bastante correta, pois ele tem bastante material disponivel. O que falta para nos Cristaos, pois Jesus foi muito mais um lider espiritual, como ele mesmo dizia “ meu reino nao ‘e desse mundo”.

A saber, os muculmanos seguem quatro livros sagrados: o Tora (dos Judeus), o Zebur – dos Profetas (ainda no antigo testamento), o Novo Testamento e o Corao, considerado por eles o mais importante por ser o ultimo e conter ensinamentos de todos os outros, existe por exemplo, um capitulo dedicado somente para Nossa Senhora. O Corao nao ‘e cheio de referencias historicas como a biblia, fala mais do conhecimento inteligivel, o tempo todo mostra como o homem ‘e e como Deus ‘e, para haver esse paralelo e os muculmanos saberem qual o caminho a percorrer.

Existem outros livros como complemento, especialmente o do Profeta Muhammed (nao me recordo o nome), que mostra as atitudes que ele teve diante de todas as situacoes de sua vida, como um guia de conduta, feito por devotos que anotavam tudo que ele fazia e que tambem o consultavam diante de suas duvidas. Vale lembrar que o profeta dizia para anotar separado o que eram mensagens de Deus que ele recebia (o Corao) e o que ele fazia, pois eram coisas bem diferentes.

Nao ignoro que olhando para o mundo muculmano encontramos tambem os extremistas, que sao motivo de vergonha para muitos deles. Mas isso ‘e acidental. Existem os paises com as leis mais severas porque seus governantes se prendem muito a letra da lei na religiao e nao vao ao seu espirito. Mas em contra partida, em qualquer lugar que voce va hoje de cultura predominantemente muculmana, voce se sente mais seguro, respeitado e principalmente “cercado de boa gente”. O que para mim ficou muito claro, olhando para todos os lugares que passamos, onde Deus ainda ‘e um guia para o homem, o ser humano ‘e mais nobre; ja onde quem tomou lugar de Deus foi o dinheiro e a crenca de que o homem ‘e o seu proprio senhor, o homem ‘e mais “coisa”.

Por fim, a respeito do Islamismo, mais uma vez tive aquela sensacao recorrente na viagem do quanto eu estava enganada sobre muitas coisas. Viajar nao ‘e so quebrar paradigmas e preconceitos, ‘e te ensinar a manter-se atento para nao forma-los. E ‘e interessante perceber que por mais que hoje temos tanto acesso a informacao, os canais sao bastante rasos, limitados e tendenciosos, junto com a preguica ou desinteresse em procurar, assim nos conformamos com a informacao ja mastigada e mal concluida. E cheios de si e de opiniao saimos expondo nosso ponto de vista, sem levar em conta o quanto realmente sabemos a cerca daquilo e como temos nos informado.

Fonte: Informacoes obtidas em mesquitas; conversas com religiosos e devotos muculmanos; Luiz Gonzaga aulas gravadas e Fe Explicada.