Compreendendo o Islamismo!

Alguns tem atracao pelas religioes orientais, como o budismo e o hinduismo, e normalmente uma certa aversao ao islamismo, porem este ultimo ‘e muito mais proximo da nossa religiao do que os anteriores. Louvam o mesmo Deus, inicialmente so dos Judeus e depois dos Cristaos.

O que afasta e dificulta o caminho para entende-los sao os diversos conflitos que houveram entre a civilizacao muculmana e ocidental (crista) ao longo da historia, desde a fundacao do Isla. E naturalmente temos a tendencia de olharmos mais para o que eles fizeram com a gente e nao tanto para o que nos fizemos com eles. Por exemplo, 11 de setembro ninguem esquece, mas o genocideo de muculmanos por cristaos na Bosnia nao ficou tao marcado… Alem dos conflitos, os costumes e tradicoes dos muculmanos nos chocam. As roupas das mulheres, a poligamia, as leis severas. Enfim, a forma que eles tem de resolver as coisas, que ‘e bem diferente da nossa.

Quando eu comecei a viagem pela Africa na Tanzania, desembarquei em Dar Es Salaan e de la seguimos para Zanzibar. Ambos os lugares com maioria esmagadora de muculmanos. Lembro que no meu primeiro dia em Dar Es Salaan, apos todos aqueles avioes, acordei as cinco da manha com o som das mesquitas… e gostei muito. Depois no dia seguinte em Zanzibar, fiquei dias observando todas aquelas mulheres tapadas dos pes a cabeca morrendo de pena, pensando “ coitadas, como sofrem, quanta opressao, que absurdo….”.

Mas com o tempo de viagem e conhecendo muculmanos e mais muculmanos, jantando junto, tomando cha, conversando com as mulheres, a gente comeca a enxergar a coisa de dentro e nao mais de fora. Do ponto de vista deles, e nao do nosso. A unica forma de compreender as coisas. E nao so perdi todo o preconceito que tinha, como hoje, os muculmanos sao um dos “povos” que eu e o Gui mais nos relacionamos afetivamente e os que mais nos acolheram.

Para voce se tornar um muculmano, diferente das outras religioes, voce nao precisa passar por um ritual de batismo, como no cristianismo para receber o Espirito Santo. O que te torna muculmano, ‘e voce considerar a seguinte verdade de fe: Nao ha deus exceto Deus e Muhammed ‘e seu profeta! Se voce acreditar nisso, voce se tornou muculmano, que significa homem limpo!

O Islamismo ‘e a ultima das religioes Abrahamicas: Judaismo-Cristianismo-Islamismo. Porem o que o Islamismo veio reafirmar na visao de um muculmano ‘e o monoteismo puro e original. Para eles, os judeus restringiram a mensagem de Deus apenas para o seu povo, os descendentes de Abrahao. E Cristo entao foi enviado para abrir essas fronteiras e nao limitar mais a mensagem apenas aos judeus, mas a todos, judeus e nao judeus. Porem, Deus ficou diluido na figura de Cristo, na fe de que Deus ‘e trino e uno (pai, filho e espirito santo). E eles vem entao resgatar esse monoteismo puro e para todos. Para o islamismo, o judaismo e cristianismo sao religioes irmas.

Para compreender o mundo muculmano que se inicou com o profeta Muhammed, ‘e preciso entender como era o mundo arabe antes do islamismo chegar. Os arabes na epoca de Muhammed (622 DC), acreditavam em 360 deuses, faziam orgias e mais orgias, as mulheres tinham um valor inferior ao de um escravo, e muitas eram enterradas vivas ao nascer, pois significava prejuizo na certa. A arabia, resumindo, era uma zona.

Muhammed nasceu de numa familia muito nobre, de uma das melhores tribos da epoca, capaz de retracar sua ascendencia ate Abrahao, tamanha a nobreza (da tribo de Isaac veio os judeus e da de Ismael vieram os arabes, ambos filhos de Abrahao). Mas como pouco antes dele nascer seu pai morreu e com 6 anos de idade a mae, ele era muito pobre. Quando a mae faleceu ele passou a ser criado pelo avo ate os 8 anos de idade, quando o avo morreu e passou a ser criado pelo Tio. O Tio morava onde hoje ‘e Meca e era a pessoa responsavel por cuidar dos peregrinos que vinham adorar os 360 deuses.

Desde cedo Muhammed trabalhava cuidando das cabras, mas como cresceu ao lado dos peregrinos, conheceu muitas pessoas importantes e aproveitava para compreender como eles pensavam, pois tinha muito interesse em Deus. Nao participava das orgias e nao gostava dos costumes. A partir de uma certa idade, ja casado, comecou a se retirar para uma caverna para rezar e numa dessas vezes houve uma aparicao do Anjo Gabriel, que disse que ele seria o profeta de seu povo. Muhammed ficou bastante assustado e achou que estava ficando louco, chegou em casa e contou para sua esposa que o tranquilizou e disse que talvez era mesmo uma mensagem do Anjo.

Dali em diante, Muhammed comecou a receber outras mensagens e a pregar o Islamismo, comecando por dizer que os arabes deveriam abandonar seus 360 deuses e passar a acreditar somente em Deus. Obviamente ele comecou a ser perseguido, pois todo o comercio de Meca na epoca era relativo aos peregrinos. Muitos muculmanos foram perseguidos e morreram de fome, pois os arabes negavam-se a fazer comercio com eles. Uma parte fugiu para onde hoje ‘e Etiopia (onde foram protegidos pelo Rei de Axum que era cristao e portanto tambem acreditava num so Deus) e outros para Medina. A religiao se multiplicou e depois de algumas guerras e muitos massacres, os muculmanos venceram.

Junto com Muhammed alguns novos costumes foram adotados. Escravos, pobres e negros podiam se sentar junto com muculmanos nobres e olhar nos seus olhos… os homens passam a ser iguais, independente da classe social ou origem etnica. As mulheres passam a ter valor e direitos civis. No tempo da arabia, como muitas tribos guerreavam entre si, o numero de homens era muito menor que o de mulheres, e restavam poucas opcoes para elas. Podiam tornar-se concumbinas sem direitos ou viver solteiras para o resto da vida e morrer de fome. A poligamia veio como uma forma de protege-las e garantir uma vida digna. Em muitos casos o irmao do marido morto passava a tomar conta da viuva.

Antes do islamismo os arabes podiam ter quantas esposas quisessem, com ou sem o consentimento delas, que nao podiam pedir o divorcio. Com Muhammed, os casamentos so podem se realizar com o aval delas; passam tambem a ter direito de pedir o divorcio; e o homem ao casar-se deve pagar a futura esposa um valor que ela estipula, para ficar com ela durante todo o casamento, e ainda deve sustenta-la integralmente, para garantir a ela alguma liberdade economica no caso de um divorcio. Elas podem tambem ter bens em seu nome, isso desde o tempo de Muhammed. Na sociedade norte americana e brasileira a mulher so p^ode ter bens no seu nome a partir do sec 20…

A poligamia entao so pode ocorrer se o homem garantir os mesmos direitos para cada esposa e o limite ‘e de quatro. Cada uma deve ter sua casa e ser sustentada pelo marido com os mesmos bens que as demais. A ideia da poligamia ‘e ser uma solucao para os periodos em que a populacao feminina e masculina estao em desequilibrio. Hoje somente 2% da populacao dos paises apontados como poligamicos exercem na pratica esse costume.

Quanto as roupas, seria interessante pensarmos que a religiao se propagou numa regiao de deserto com altas temperaturas, sol fortissimo e tempestades de areia, alem de uma arabia incivilizada e cheia de orgias. A roupa entao vem nao so proteger do meio ambiente como das pessoas. Na Arabia Saudita nos ultimos 20 anos houveram apenas dois casos de estupro. Nos temos a liberdade de usarmos a roupa que quisermos, mas nos nao temos seguranca!

Na Malasia conhecemos uma moca que estava com um vel curto e colorido, roupas modernas, apesar da calca e blusa de manga comprida, e ela nos explicou que la nao tem tempestades de areia entao nao teria porque usar a burca inteira. Outra garota belga, que nao usava o veu, mas era bastante religiosa e estudiosa do islamismo, dizia que o veu estava dentro de voce. Ou seja, costumes e religiao se misturaram ao longo dos anos e hoje as mulheres se mantem com as burcas dependendo das suas tradicoes familiares, da lei dos seus paises e de como interpretam a palavra do profeta que, em linhas gerais, apenas recomenda que se resguardem ao vestir-se.

O jeito moderno…

E o tradicional!

O profeta ao longo de sua vida foi pai de familia, comerciante, governante… entre outros, e era reconhecido como um homem de conduta impecavel e que todos podiam confiar, inclusive os comerciantes concorrentes dele, quando iam viajar longo, deixavam seus bens para ele cuidar… Como ele teve um leque enorme de papeis humanos, o muculmano tem o exemplo do profeta para as mais variadas areas da vida: de casado, de negocios, de politica, etc. Isso explica porque o muculmano procura ter uma conduta bastante correta, pois ele tem bastante material disponivel. O que falta para nos Cristaos, pois Jesus foi muito mais um lider espiritual, como ele mesmo dizia “ meu reino nao ‘e desse mundo”.

A saber, os muculmanos seguem quatro livros sagrados: o Tora (dos Judeus), o Zebur – dos Profetas (ainda no antigo testamento), o Novo Testamento e o Corao, considerado por eles o mais importante por ser o ultimo e conter ensinamentos de todos os outros, existe por exemplo, um capitulo dedicado somente para Nossa Senhora. O Corao nao ‘e cheio de referencias historicas como a biblia, fala mais do conhecimento inteligivel, o tempo todo mostra como o homem ‘e e como Deus ‘e, para haver esse paralelo e os muculmanos saberem qual o caminho a percorrer.

Existem outros livros como complemento, especialmente o do Profeta Muhammed (nao me recordo o nome), que mostra as atitudes que ele teve diante de todas as situacoes de sua vida, como um guia de conduta, feito por devotos que anotavam tudo que ele fazia e que tambem o consultavam diante de suas duvidas. Vale lembrar que o profeta dizia para anotar separado o que eram mensagens de Deus que ele recebia (o Corao) e o que ele fazia, pois eram coisas bem diferentes.

Nao ignoro que olhando para o mundo muculmano encontramos tambem os extremistas, que sao motivo de vergonha para muitos deles. Mas isso ‘e acidental. Existem os paises com as leis mais severas porque seus governantes se prendem muito a letra da lei na religiao e nao vao ao seu espirito. Mas em contra partida, em qualquer lugar que voce va hoje de cultura predominantemente muculmana, voce se sente mais seguro, respeitado e principalmente “cercado de boa gente”. O que para mim ficou muito claro, olhando para todos os lugares que passamos, onde Deus ainda ‘e um guia para o homem, o ser humano ‘e mais nobre; ja onde quem tomou lugar de Deus foi o dinheiro e a crenca de que o homem ‘e o seu proprio senhor, o homem ‘e mais “coisa”.

Por fim, a respeito do Islamismo, mais uma vez tive aquela sensacao recorrente na viagem do quanto eu estava enganada sobre muitas coisas. Viajar nao ‘e so quebrar paradigmas e preconceitos, ‘e te ensinar a manter-se atento para nao forma-los. E ‘e interessante perceber que por mais que hoje temos tanto acesso a informacao, os canais sao bastante rasos, limitados e tendenciosos, junto com a preguica ou desinteresse em procurar, assim nos conformamos com a informacao ja mastigada e mal concluida. E cheios de si e de opiniao saimos expondo nosso ponto de vista, sem levar em conta o quanto realmente sabemos a cerca daquilo e como temos nos informado.

Fonte: Informacoes obtidas em mesquitas; conversas com religiosos e devotos muculmanos; Luiz Gonzaga aulas gravadas e Fe Explicada.

Viagem com a familia, nos caminhos de Jesus!

Quando ainda estavamos na Jordania recebemos a boa noticia de que nossos pais iriam nos visitar. Nos encontrariamos em Tel Aviv. Estava muito feliz, pois havia feito varios planos com minha mae sobre qual lugar acabariamos nos encontrando ao longo da viagem e queriamos que fosse um lugar especial, e no fim das contas, o encontro depois de longos meses seria em Israel.

Como eu e o Gui chegamos antes deles, aproveitamos para ficar uns dias em Jerusalem e sentir a tao falada atmosfera do lugar. Como Jerusalem ‘e sagrada para as tres religioes semiticas, na cidade antiga voce passeia no bairro judeu, muculmano, cristao e armenico. A sensacao do lugar se mistura com uma consciencia constante do Sagrado quanto de uma tensao no ar. Jerusalem ja foi destruida varias vezes pelas diversas disputas religiosas que houveram ao longo dos seculos e a sensacao ‘e que pode ser destruida novamente a qualquer momento.

Bairro Judeu

O servico militar obrigatorio dos jovens israelenses ‘e muito presente nas ruas. Jovens entre 18 a 21 anos controlam a seguranca de Jerusalem. Passeiam pelos bairros com suas metralhadores lado a lado com os turistas. O estranho ‘e ver uma menina mascando chicletes falando no celular, com mochila da moda, oculos ray ban colorido e uma metralhadora nas costas. Na propria fronteira, sao meninos e meninas carimbando seu passaporte, com blush nas macas do rosto, chicletes e muito rimel. Fica dificil imaginar se da algum problema nas ruas ou fronteira qual a maturidade daqueles soldados para tomar uma decisao e arcar com as consequencias.

Observem a seguranca!

Na cidade velha o maior numero de turistas eram os cristaos e depois de tanto tempo nas outras religioes, agora estar de cara com Jerusalem era bastante especial. Resolvemos ir direto para o bairro cristao e conhecer a igreja do Santo Sepulcro, onde Cristo foi crucificado e ressucitou. Na entrada fica a pedra onde Ele foi enrolado num pano depois da crucificacao. Os fieis chegam, colocam a mao, o rosto e choram. Um pouco mais adiante, fica a caverna onde Ele foi velado ate ressussitar. Cristaos do mundo inteiro formam filas para conhecer o interior. O clima da igreja ‘e bastante funebre e triste.

Santo Sepulcro!

Todos nos, de forma geral, recebemos o cristianismo como heranca religiosa, mas ca entre nos, nao ‘e uma religiao facil de compreender. Porque nosso Deus teve que ser crucificado? Justo o filho de Deus. Enfim, conhecer todos os sites cristaos com a biblia de baixo do braco como guia, faz tanto entendermos melhor a historia de Cristo quanto vermos o quanto ela foi real.

De Jerusalem fomos para Tel Aviv onde encontrariamos nossos pais. Deu tempo de curtimos a praia e nos sentirmos em casa. Tel Aviv ‘e uma cidade agradavel, muito gostosa de ficar, com calcadao beira mar para caminhar, andar de bicicleta, correr. E com varias feiras de ruas. Uma cidade facil de se imaginar morando. Tem um ar leve e solto. Bem cidade de praia.

Beira Mar!

Praia!

Estavamos ansiosos para encontra-los. Ate que chegou o grande dia. Um pouco antes, enquanto estavamos esperando eles chegarem no hotel combinado e o Gui estava no computador, olhei pela janela e gritei: “ Chegaram, chegaram!!!” E sai pulando, tentando abrir o elevador. O Gui veio correndo atras, desligando o computador com pressa. Era mentira minha, foi muito engracado, ele queria me matar. Ate que uma hora, meio atrasados, eles chegaram de verdade. Fomos passear, jantar, matamos um pouco a saudades, mas no dia seguinte tinhamos que pegar a estrada, pois eles tinham apenas 9 dias.

Paramos em algumas cidades historicas no litoral, antes de irmos para regiao da Galileia e iniciarmos os sites cristaos. De frente para o lago da Galileia, numa regiao muito bonita, fica a Igreja do Primado de Sao Pedro, local onde Jesus falou: “Sobre esta pedra edificara minha igreja.”

Galileia!

De la seguimos para o Monte das Bem Aventurancas onde no alto do Monte Jesus rescitou o Sermao da Montanha. “ Bem Aventurados os pobres de espirito, pois deles ‘e o Reino dos Ceus…”; “Bem Aventurados os Mansos, pois herdarao a terra…” e assim por diante. O Sermao da Montanha tecnicamente resume todo o Cristianismo e Santo Agostinha em seu livro “ Sobre o Sermao do Senhor na Montanha” explica detalhadamente o que Cristo queria dizer com cada uma das Bem Aventurancas e porque elas tinham esta ordem. Por exemplo, porque comecam com Pobres de Espirito e depois Mansos…? Os pobres de espirito, sao os desapegados de suas opinioes e ricos de espirito. A primeira barreira para o homem perceber o Sagrado ‘e enfraquecer as suas opinioes, um homem cheio de opinioes geralmente ‘e impermeavel. Com as opinioes enfraquecidas, ficamos mais Humildes… Depois vem os Mansos…. e assim o sermao continua.

Igreja das Bem Aventurancas!

Paramos depois no Monte Tabor, onde ocorreu a transfiguracao. Diante dos apostolos Pedro, Joao e Tiago “ a aparencia de seu rosto se transfigurou, e suas roupas ficaram alvas e resplandescentes como o brilho de um relampago” e Jesus conversava com os profetas Moises e Elias.

Tambem passamos pela Igreja onde ocorreu as Bodas de Cana, local onde Jesus fez um dos seus primeiros milagres, transformou agua em vinho durante um casamento. De la fomos a Nazare, onde Jesus viveu com seus pais e Maria recebeu a noticia do Anjo Gabriel que ela teria um filho. No local fica a Igreja da Anunciacao. Nesta, diversos retratos na parede mostram os nomes e roupagens diferentes da Nossa Senhora conforme suas aparicoes e crencas para cada um dos povos.

Todos esses dias ficamos em numa Guest House deliciosa em Tiberiades. O dono cozinhava como ninguem. Cercado por parreirais e um jardim maravilhoso. Lugar ideal para relaxar apos os passeios.

Em nosso ultimo dia na regiao da Galileia, fomos conhecer o Rio Jordao, onde Cristo foi batizado por Joao Batista. La, muitos devotos aproveitavam para ser re-batizados. Aproveitei para entrar no rio como uma forma de batismo.

Rio Jordao!

A caminho de Jerusalem paramos no Mar Morto e boiamos um pouco. Todos nos adoramos a experiencia, ‘e bastante interessante. Depois de uns minutos comecou a arder um machucadinho que eu tinha e tive que sair correndo para o banho no bem estruturado banheiro publico. Quando estava no chuveiro, lembrei que tinha esquecido de pegar a toalha, nao tinha como chamar ninguem. Bastante descolada com o tempo de viagem, utilizei os papeis toalhas disponiveis para secar as maos.

Foto classica!

Chegamos em Jerusalem no fim do dia e no dia seguinte saimos para conhecer o Monte das Oliveiras, aonde fica a Igreja da Ascencao, muitos dos episodios decisivos da vida de Jesus aconteceram ali. Foi de seu topo, que ele subiu aos ceus, desaparecendo entre as nuvens, conforme contam os Evangelhos. Bem pertinho dali encontra-se a linda igreja do Pai Nosso, traduzida em 240 linguas, ali Jesus teria ensinado a principal oracao crista aos seus discipulos.

Quase aos pes do Monte esta Getsemane – o Horto das Oliveiras, onde fica a “rocha da agonia de Jesus”, hoje dentro da Igreja de Todas as Nacoes, onde Jesus chorou angustiado pois sabia que estava proximo da morte e fez uma oracao comovente. “ Se possivel, Pai, afasta de mim esse calice; contudo, nao seja o que eu quero, mas sim o que Tu queres” ( Marcos 14.35). Jesus pediu ao Pai por sua propria vida. Mas nao foi atendido. Tinha que ser cumprido o que os profetas haviam falado sobre o Messias – o Salvador. Era preciso que morresse como homem para que pudesse sobreviver como Deus.

Vista do Monte!

Vista de Jerusalem com as cupulas da Igreja da Santa Maria Madalena!

Bem pertinho dali fica a gruta onde Jesus costumava se encontrar com os seus discipulos e local onde Judas o delatou aos soldados romanos. Ja em territorio palestino, fica Belem, onde esta a Igreja da Natividade, suposto lugar onde Jesus nasceu. Aos arredores, uma pequena igreja mostra o campo dos pastores quando o Anjo os avisou que o Salvador tinha nascido.

Fizemos todo o caminho da Via Sacra junto com os franciscanos, um pouco mais de 1 km, desde o local onde Jesus foi acoitado e humilhado pelos soldados romanos ate colocarem a coroa de espinhos e faze-lo caminhar ate o local da crucificacao e ressureicao.

Para fechar este post nada melhor do que um ensinamento do proprio Jesus. Numa passagem da biblia ‘e contato a visita de Jesus e seus discipulos a Casa de Marta e Maria, enquanto estavam em viagem levando a palavra de Deus.

Jesus chegou a casa e Marta os recebeu. A sua irma Maria, sentou-se aos seus pes e ficou ouvindo o que ele ensinava. Marta se manteve ocupada com todo o trabalho de casa para servi-los. Entao chegou a Jesus e disse: “ Sera que o Senhor nao se importa que a minha irma me deixe sozinha com todo este trablaho? Mande ela me ajudar.” Ai Jesus respondeu: “Marta, Marta, voce esta ocupada e atrapalhada com tantas coisas, mas apenas uma ‘e necessaria. Maria escolheu a melhor, e esta ninguem vai tomar dela.”

Sociedades cristas e Cristianismo!

Pra quem acompanha este blog, deve perceber que sempre estou falando de religioes, ao mesmo tempo que falo da viagem propriamente dita. Isso ocorre, tanto por um interesse pessoal, mas tambem pelo fato de que viajar no Oriente naturalmente te coloca diante deste tema o tempo todo. Religioes e tradicoes ‘e o que mais voce ve quando vem para estes paises.

Quando voce olha para as sociedade hindus, budistas e muculmanas voce encontra muitos devotos; conforme os lugares, voce sente que as pessoas respiram religiao. Mas quando voce olha para as sociedades cristas, principalmente as mais desenvolvidas, modernas e os grandes centros, a atmosfera ‘e bem diferente. Nestes, tanto a religiao quanto as tradicoes, se perderam e sao sinonimo de imbecilizacao segui-las. Nos paises desenvolvidos da Europa, por exemplo, voce encontra muito mais ateus do que em qualquer outro lugar.

Depois principalmente do periodo renascentista no Ocidente, quando o homem estava bastante cansado de receber os conhecimentos apenas Revelados por Deus e motivado por buscar algum valor para ele (como se homem e Deus fossem duas coisas distintas), o homem passou a se tornar a “medida de todas as coisas” e se ver separado de Deus, mudando a maneira que percebe a si mesmo.

A igreja catolica, que era veiculo da revelacao divina, passa a ser questionada por Lutero dizendo que nao deveria haver ninguem entre Deus e o homem e propondo que cada individuo interpretasse as escrituras por si mesmo. A igreja perde o poder. Muito mais tarde vem Nietzsche e anuncia em tom de ironia e critica “ matamos Deus”.

E a coisa descambou de vez… Depois uma sucessao de outros casos, como Marx apregoando o comunismo e assim por diante. Como o homem passa a ser a medida de todas as coisas, ele precisa se sentir inteiramente livre, entao Deus se tornou um obstaculo. Entre a vontade de Deus e a minha, fico com quem? Com a minha. Baseado nessa crenca tao enraizada, tudo virou uma coisa sem pe e nem cabeca e nao somos mais capazes de discernir.

Nao existe mais certo e errado, existe o certo e errado Para Mim, o certo e errado Para Voce. No ashram tinha discussoes com os meu colegas de coisas basicas. Essa coisa do “homem ‘e a medida de todas coisas” parece uma epidemia, que torna tudo tao contaminado, que voce nao consegue mais ter uma discussao produtiva com ninguem. Um dia, apos um banho no ganges, comecamos a falar sobre isso e tentei mostrar que nao era bem assim. Entao perguntei: e essa pedra que esta aqui no chao, ‘e uma pedra ou nao? E a resposta foi unamime: “depende de quem esta olhando. Para mim pode ser uma pedra para voce nao!” Eu disse: Pimba!!!! O homem ‘e a medida de todas as coisas!! Eu esbravejava empolgada com a discussao idiota fruto do ponto que o homem chegou e dizia: “ Isso ‘e uma pedra!!! Pega, sinta!!! ‘E uma pedra e tem uma funcao de pedra tanto na natureza como na vida do homem! Se voce quer usa-la como oculos, como comida, como chapeu, vai ser impossivel. Mas se voce quiser contruir uma casa, usar como um banco, usar para tentar se proteger de um assaltante, etc, ela esta dentro de sua funcionalidade de pedra.” As pessoas ficaram me olhando tipo sem entender muito o porque daquilo, outros entenderam e a discussao acabou. Esses se interessaram em querer entender aonde eu estava tendo acesso a esse conhecimento novo. Eu falei: novo? Isso ‘e mais antigo do que nossos avos…

Bom, mas para que eu estou falando tudo isso? Para poder entrar no Cristianismo, na religiao mais presente no Ocidente. O cristianismo perdeu lugar com a globalizacao e acesso a informacao as religioes orientais. O ocidente descobriu o hinduismo e o budismo. E hoje sobraram poucos cristaos verdadeiros. As pessoas que tinham uma busca maior pelo divino foram para o Oriente e hoje seguem, em partes, estas religioes. Porque em partes? Porque o homem ocidental, o nosso homem, normalmente nao segue nada inteiro, so o que nao faz ele ter muitas renuncias, por isso, temos muita gente fazendo uma boa salada. Continuaram “ cristaos” os hipocritas, que vao a igreja todo domingo, fazem uma caridade ou outra no final do ano, mas suas acoes nao tem nada a ver com os ensinamentos de Cristo. Sobrou e aumentou a populacao de igrejas evangelicas, onde algumas brincam com o dinheiro do povo. Na verdade, hoje os pobres e os doentes ‘e que buscam mais o divino, alguem com um senso de privacao maior. A causa do Lutero, que eu nao tenho nada contra as razoes que levaram ele a se rebelar, mas junto com todo o oba oba moderno, hoje todos podem interpretar a palavra de Deus, ate a igreja Bola de Neve. E entre voce ser um drogado ou um “fanatico”, melhor o segundo.

E assim falar hoje em dia que voce ‘e cristao para um ocidental ‘e meio fora de contexto. Eu brinco dizendo, que se eu voltar para o Brasil rezando com a biblia embaixo do braco, estou fora. Mas se eu voltar meditando com os livros sagrados do Buda, eu sou espiritualizada. Como se os cristaos nao meditassem. Caramba, ate que ponto chegamos!

O Jaison, meu amigo ingles, quando voltamos conversando de Rishikesh ate Delli, me contou que passou um mes num mosteiro na Tailandia e que um monge disse para ele: “porque todos voces vem para ca buscar religiao, voces tem um Deus tao bonito nos seus paises! Quando voce voltar para o teu pais, experimenta ir na igreja!”

Pois ‘e, olhando para essas sociedades “ cristas”, ou seja, para o ocidente, quem tem alguma aspiracao espiritual, hoje nao tem mais moticao para entrar na igreja. Por um lado, porque confundem sociedade crista com cristao. Confundem as aberracoes da idade media com cristianismo. Confundem costumes e valores locais, como do Imperio Romano, com o que ‘e ser cristao. Por outro, porque as igrejas ficaram muito restritas a ensinar somente as leis e mandamentos tornando a mensagem seca.

Cristo deixou bem claro quem sao os cristaos. “ Por isto conhecereis quem sao os meus discipulos, por vos amar-des uns aos outros como eu vous amei.” Ele da a chave para voce saber quem ‘e e quem nao ‘e cristao. Cristaos não são os individuos que fazem parte da sociedade crista, nem todos os padres, papas e pastores, mas os santos (canonizados ou nao) e os cristaos exemplares!

Na Terra do Povo Eleito!

Quando chegamos na Jordania, apos quase tres meses de India e cinco meses de Sudeste Asiatico, pudemos perceber rapidamente a diferenca dos dois grandes ramos religiosos – ariano e semitico e a sensacao foi de voltar para casa.

Os arianos que habitavam o subcontinente indiano quando os Vedas foram revelados criaram o hinduismo; bem mais tarde veio o budismo. Os principios e o objetivo de ambos sao os mesmos, chegar a iluminacao. Um caminho sempre igual, da busca de um homem por acessar integralmente sua natureza divina. E quando voce esta na India consegue ver isso muito claro, as fotos expostas em qualquer estabelecimento comercial de um Guru que atingiu a iluminacao. Nos templos budistas ‘e a mesma coisa, sao estatuas e mais estatuas de monges iluminados lado a lado com Buda.

Nao existe a adoracao por uma figura unica, quando voce ‘e um iluminado voce se torna como qualquer um dos deuses que houveram. Voce partilha da natureza divina ou budica, mesmo nao se tornando o proprio Deus e governando o universo. Por isso Sai Baba e Ama, por exemplo, sao alguns dos deuses vivos que os indianos e ocidentais adoram hoje em dia.

A Ama ‘e capaz de ficar mais de 24h abracando a multidao de fieis que vem ate seu ashram para receber o seu abraco curativo ou seu amor. As pessoas que conheci que ficaram no ashram dela relatam que tentaram acompanhar o circuito de abracos da Ama, mas nao conseguiram, precisaram parar para ir no banheiro ao longo do dia, almocar e a noite dormir. Mas Ama nao sente as mesmas necessidades humanas que as nossas! Os deuses normalmente nao precisam dormir, coisa de 2h por dia ‘e suficiente para estarem prontos para a proxima, quando dormem. E isso ‘e relatado nos livros, as necessidades de descanso e comida sao para nos mortais. E isso nao ‘e piada nao, vao para India que voces poderao ver com seus proprios olhos!

Mas quando voce chega no territorio das religioes semiticas a atmosfera ‘e outra. Existe uma relacao diferente com Deus, uma preocupacao com a conduta, com o certo e o errado, nao “apenas” o foco em tornar-se um Iluminado. Noe teve tres filhos, dentre eles Sem, Abrahao foi descendente de Sem,  Abrahao teve primeiro dois filhos Isaac e Ismael,  deles surgiram duas racas:  os judeus e os arabes.

Cidade velha – Jerusalem!

Enquanto as religioes arianas buscaram perceber qual ‘e a semelhanca entre o homem e Deus, e qual o caminho para se chegar a essa natureza divina; os semiticos queriam saber quem era Deus, quais eram suas leis e suas preferencias. Por isso, as tres grandes religieos semiticas (judaismo, cristianismo e islamismo), a grosso modo, parecem um conjunto de mandamentos e regras do que voce deve fazer e do que nao deve fazer para ter uma amizade com Deus como diriam os Judeus; para ter o amor de Deus como diriam os cristaos ou por gratidao a Deus como diriam os muculmanos.

Nao sei se para voces, mas os judeus sempre me causaram muita curiosidade. Porque eles foram tao perseguidos ao longo da historia? Porque eles sao um povo tao separado dos demais? Porque eles sao tao unidos entre eles? Porque eles sao, a primeira vista, tao fechados nas suas relacoes? Porque eles devem casar somente entre si?

O Judaismo comecou a partir de uma amizade entre um homem e Deus. Inicialmente de Abrahao e sua familia, depois de um povo e uma nacao. O Tora sao os cinco primeiros livros do velho testamento que consistem numa serie de meios para preservar uma amizade com Deus. A saber, o judaismo possui 613 leis.

Mas o que ‘e um judeu afinal? ‘E um povo separado de toda a humanida, porque Deus os separou. Na biblia Deus diz mais ou menos assim: “ Oh Israel, farei de ti uma luz para as nacoes. Voces estao aqui, as nacoes estao ali. Com esta nacao aqui, vou mostrar para o mundo o que ‘e um povo inteiro viver centrado numa relacao pessoal com Deus.” Por isso o termo “Povo Eleito”.

Mas com o passar dos seculos, essas leis somaram-se com novas regras, fazendo com que a relacionamento se tornasse mais distante, enfatizando mais as regras e rituais, do que a propria relacao com Deus. E foi isso que eu e o Gui percebemos em nosso rico jantar na casa de alguns judeus ortodoxos que contarei logo adinte.

Quando ainda estava na India, fiz amizade no ashram com um judeu que vivia em Tel Aviv e contei que estavamos indo para Terra Prometida e acabamos falando do termo “povo eleito”. Ele me contou que alguns judeus do tipo “senso comum”, sentem-se superiores por serem o povo eleito, mas os mais religiosos, que verdadeiramente estudam o Tora, se veem muito mais responsaveis e desafiados justamente por isso. O Gui tambem conheceu uma judia em Amstar, que contou que sua familia se sente superior a todas as nacoes.

Bom, mas papo vem papo vai, ele me recomendou fazer counchsurfing em Israel, especialmente em Jerusalem, pois disse que de fora nao conseguiriamos compreender a realidade que ‘e ser um judeu, confirmando o que ja planejavamos. Fizemos contato com uma familia ortodoxa que acabou nos convidando para passar o Shabbat com eles (dia sagrado).

Abrindo um parenteses, na Jordania jantamos com alguns judeus seculares (termo usado para se referirem, a grosso modo, aos judeus que seguem as tradicoes mas nao a religiao). Numa linguagem mais facil, os ditos modernos, temos seculares por todos os lados hoje em dia, principalmente no ocidente. E eles deram o seu ponto de vista. Disseram que nao gostam de ter que servir ao exercito e nem de participar das guerras. Sao obrigados a lutar por uma nacao separada das outras em nome de uma religiao/historia/povo.  Nao querem lutar por algo que nao criaram e s’o querem viver em paz.

Bom, mas a historia ‘e bem diferente quando voce senta para conversar com os ortodoxos, ou seja, os que seguem o judaismo. Eles dizem: “ Deus nos separou como nacao!” E contam inumeras historias, desde quando foram punidos por Deus e tiveram que ficar 40 anos no deserto ate todas as recompensas por ser o povo eleito. Se sentem muito mais responsabilizados e desafiados. Quando sofrem, acham que estao sendo testados por Deus. Aceitam os sofrimentos como prova de sua fidelidade a Deus. Dizem que ser o povo eleito, o peso do bom e do mal ‘e muito mais forte: “ quando ‘e bom ‘e muuuuito bom, mas quando ‘e ruim ‘e muuuito ruim”.

O jantar!!

Chegamos por volta das oito da noite, horario combinado na casa de Natanael. Fomos recebidos por sua esposa americana, ambos judeus-americanos que vieram para Jerusalem ha 34 anos atras. Sua esposa era super esquisita. Mal nos deu a mao para cumprimentar-nos, quase uns10 minutos depois que tinhamos chegado e apontou para o sofa entupido de pelo de cachorro para sentarmos. A casa cheirava mofo e cachorro, era cheia de quinquilharias, livros e objetos velhos empilhados uns sobre os outros. Quando estavamos forcosamente tentando nos sentir a vontade chega Natanael com seus dois cachorros, um grande e outro pequeno. Natanael nao era esquisito como a esposa, ele era completamente louco. Seu pescoco era torto e seu olhar era como se ele estivesse permanentemnete em estado de susto, nos olhava meio de perfil e de canto de olho, parecendo que tinha um torcicolo constante. Ele falava sem parar, quase nao respirava.

Enquanto eu estava sentada no sofa deixando o Gui ver todos os quadros da casa com o Natanael na sua jugular contando a historia de sua familia desde 1800, chegou um outro casal convidado. Estes eram super normais e simpaticos. Comecamos a conversar, ele queria saber um pouco do Brasil. Enquanto tentava contar, o cachorro menor idiota tentava ter relacoes comigo atraves do meu braco. A minha roupa cuidadosamente separada para o jantar estava abarrotada de pelos e a minha rinite, que ha muito tempo nao se manisfestava, estava enlouquecida, eu so espirrava. Esperava que os malucos donos da casa tirassem aquele cachorro infeliz do meu lado e prendessem ele la fora, mas nao. Eu empurrava o cachorro e ele voltava ao meu braco. Assim foi ate a hora do jantar, quando nos levaram a um comodo separado, ainda mais mofado e umido. La fecharam a porta de vidro que separava a “sala de jantar” dos demais ambientes, mas enfiaram os infelizes dos cachorros juntos.

Como era Shabbat, eles iniciariam os seus rituais para podermos jantar. Como havia o casal anfitriao, o casal normal e mais um outro senhor convidado, eles teriam ali, tres rituais judaicos diferentes. Todos vinham da orientacao de Deus de que antes de comer devem lavar as maos e rezar, mas a forma que cada um fazia isso e a reza escolhida dependia do ramo judaico proveniente. Judeus europeus? Etiopes…? Como falei antes, os costumes comecam a se multiplicar.

Entao o anfitriao trouxe uma bacia com agua e uma toalha, lavou suas maos e rezou alto. Como ele ‘e descendente de espanhois e portugueses, tambem rezou em espanhol. J’a o casal convidado, na sua tradicao recomenda-se seguir o ritual do anfitriao, entao fizeram o mesmo. O senhor, ja de outra tradicao, lavou a mao numa bacia separada e rezou em voz baixa. Tudo isso ao mesmo tempo. Era muito estranho de ver. Voce consegue perceber que sao povos que viveram por anos em paises diferentes e se juntaram recentemente para viver numa mesma terra. Para eles, terem sua nacao ‘e algo muito novo e a sensacao ‘e que voce esta no meio de um quebra-cabeca humano. Eles confirmam.

Os judeus ortodoxos nas ruas andam com chapeus e ternos preto, os cabelos das extremidades nunca sao cortados (onde fica a costeleta), preso a camisa branca usam uma especie de cordoes compridos brancos que vao balancando enquanto caminham. Perguntamos a eles sobre a roupa, o cabelo e os cordoes e eles nos explicaram. Tudo esta escrito no Tora. Voce nao deve nunca raspar o cavanhaque; as mulheres devem cobrir os cabelos, por isso as judias andam sempre com lencoes ou raspam o cabelo e usam pirucas; e os tais cordoes existem para que cada vez que voce olhar lembrar-se dos mandamentos de Deus.

Os ternos!

Os judeus do jantar, nao usavam o terno com o chapeu, mas usavam os cordoes e nao raspavam o costeleta. As esposas usavam uma boina para esconder o cabelo. Foi possivel perceber com a experiencia o quanto os rituais acabam se tornando muito exteriores. As vezes parecem nao ter muita consciencia do que estao fazendo, a relacao parece mais automatizada com Deus. No muro das lamentacoes pudemos observar varios tipos de judeus, incluindo ultra-ortodoxos, estes parecem mais como misticos, voce consegue ver uma conexao muito mais ‘intima com Deus!

O jantar, no fim das contas, foi riquissimo em todos os sentidos. Nao conseguimos em nenhum segundo sequer nos sentir confortaveis, pois a ultima coisa que eles foram foi acolhedores. Falavam sem parar, sempre com pontos de vistas opostos, e nao tinham o menor receio de mostrar suas diferencas entre si. Quando o anfitriao comecava a falar demais coisas que os outros nao concordavam, os homens convidados diziam imperativamente: “ essa ‘e a sua opiniao, nao a nossa!!!”, como ele nem dava bola e continuava falando sem parar, eles completavam: “ cala a boca, para de falar um pouco”. Ate o cachorro quando latia eles gritavam: “SHUT UP!!” As mulheres nem respiravam, so serviam a comida e pareciam alheias a conversa. A atmosfera era tao louca e tensa que eu e o Gui nao lembramos de tirar uma foto.

A comida foi servida em cinco etapas. A primeira era uma sopa gelada de iogurte com menta e pao com humus. Achei que seria so aquilo e reclamei para o Gui: “ nao acredito, estou morrendo de fome e vou ter que comer essa sopa gelada”. Fim das contas, ja sem apetite, veio a proxima, depois a outra, mais outra, e finalmente a sobremesa. Mordi a lingua!

Muro das Lamentacoes!

Navolta nos acompanou ate bem perto do nosso hotel com seus cachorros. Eram quase duas da manha. Num determinado momento falou: ” acho que daqui voces vao, ne?!” Quando fomos virar e dizer: ” sim, obrigado!”  E agradecer o jantar, ele ja estava quase do outro lado da rua. Pensamos “sera que fizemos alguma coisa errada”. No dia seguinte ele colocou no counchsurfing que gostou muito da gente e seus convidados tambem. Nos mandou mais emails querendo fazer mais programas…

O que dizer da India?

Fiquei alguns dias pensando por onde comecar a falar da India de modo que voces pudessem se sentir bem familiarizados e perdessem aquela sensacao comum quando pensamos na India, como um lugar de costumes meio descabidos, onde tudo parece nao fazer muito sentido e que talvez por isso as pessoas sintam tanta curiosidade de ir ate la. Mas depois de eu ler alguns livros sobre a historia do pais, do povo e estudar sua religiao antes de chegar aqui, a India passou a ter sentido para mim e ‘e sobre esta India com sentido que quero comecar a falar, pois tem muita coisa para dizer da India…

Quando os europeus chegaram ao subcontinente indiano a regiao era dominada por reinos hindus e muculmanos que disputavam o poder entre si ha custa de muito sangue. Com a conquista da independencia no final dos anos 40 se dividiu primeiramente em India, onde ficou a maioria hindu, e Pakistao para os muculmanos. Disputas politicas continuaram a existir no leste da India, ate que no inicio da decada de 70, houve uma nova divisao formando Bangladeshi, tambem de maioria muculmana. Apos a conquista dos povos em terem seus proprios territorios e com isso garantir a sobrevivencia de suas tradicoes religiosas, a India finalmente pode ser India!! E apesar do numero de muculmanos ainda ser maior que a populacao do Brasil, nao ha como pensar e compreender o pais, sem antes compreender o hinduismo e sua marca na populacao. Entao pretendo contar um pouquinho da religiao, das castas e do momento que a India vive neste sentido religioso e espiritual.

Da mesma maneira que o Judaismo fala dos descendentes de Abrahao e Jacob (filho de Abrahao) – os judeus, o hinduismo fala dos hindus. Para fazer parte do hinduismo, voce precisa fazer parte da comunidade vedica, voce precisa ser hindu, porque a religiao deles nao fala de um “estado de ser” como o cristianismo, mas de um valor que ‘e trazido hereditariamente e que propoe organizar a sociedade, o famoso sistema de castas. A religiao hindu comecou a partir dos Vedas, o livro sagrado. A principal questao do hindu foi compreender quem ‘e o homem, por isso toda a religiao esta baseada no estudo de sua Antropovisao, que fala do que o homem ‘e e nao do que ele deveria ser. Nesse estudo aprofundado (e umas das coisas mais lindas que tive acesso nessa viagem) explica grande parte da cultura hindu, pois ela fala do homem e a conclusao principal, se ‘e que posso dizer assim, ‘e que todo homem possue uma ordem intrinseca que o apoia na realidade, que eles chamam de dharma e ‘e essa ordem que os sacerdotes hindus vao dizer que ‘e a religiao deles.

Arquitetura dos templos hindus. Poucos deuses?

Os vedas se afirmar como uma colecao de aplicacoes dessa ordem intrinseca que esta no anandamaia (a camada mais pura do homem). O hindu vai nomear a religiao dele como Sanatanadharma. Sanatana significa eterno e dharma lei. Segundo os hindus, cada ser tem um dharma, que vem anterior ao proprio ser e voce nao escolhe, mas precisa descobri-lo na caminhada da vida. Eles acreditam que Deus faz pessoas diferentes e caminhos diferentes para cada um chegar ate ele, por isso dizem que para cada individuo concreto ha um caminho concreto, o dharma e na medida em que voce se distancia do ser dharma perde sua identidade e passa a ser objeto de outros seres. E o hinduismo serve para traduzir o dharma do ser humano. Falando de uma forma mais “pratica”, cada homem possui uma identidade e uma missao, portanto uma vocacao. E ‘e em razao desta que o homem se realiza verdadeiramente e cumpre seu papel como ser humano.

Os vedas propoem que para manter uma religiao assim ‘e necessario “somente” duas coisas: o sistema de castas e que qualquer outra religao que queira entrar no pais somente os brahmanes (a casta mais nobre) podem aprovar. Por isso o hinduismo anexa diversas religioes, pois considera manifestacoes de Sanatanadharma. Assim a grande abertura do Induismo com os crencas e ritus de seus fieis, que para nos podem parecer costumes descabidos, para eles, o que importa ‘e levam a realizacao do dharma.

Os brahmanes que cuidam dos templos!

O hinduismo contempla tambem tres Deuses principais: Brahma – o Criador, Vishnu – o Mantenedor e Shiva – o destruidor/regenerador. Cada um expressa um dos aspectos de Deus. Cada fiel deve adorar sempre um aspecto do Deus  e mais um que tenha um papel de padroeiro para nos. Dos principais o mais reverenciado ‘e o Shiva e dos “padroeiros” ‘e o Ganesh, filho de Shiva (aquele com cabeca de elefante). A veneracao com as vacas acontece pois o touro ‘e o transporte de Shiva.

O touro de Shiva, venerado dentro dos templos!

Do que fala o sistema de castas? Tem um pensador suico chamado Frithjof Schuon que resume muito bem quando diz: “se existem a diversidade de qualificacoes humanas e a hereditariedade, o sistema de castas ‘e possivel e legitimo”. E ‘e disso que fala os vedas, que o sistema de castas se baseia na natureza das qualificacoes humanas e que neste sentido, ele pode ser aproveitado para toda humanidade.

O sistema fala de 4 castas principais e varias subdivisoes entre elas. Vou citar bem superficialmente as principais: existem os Brahmanes que sao o tipo puramente intelectual, contemplativo, sacerdotal, onde o que importa ‘e o Transcendente; em seguida existem os Kshatriyas que tem sua forca no carater, sao os grandes guerreiros e os martires (que podemos ver ao longo de toda historia do mundo), onde o que importa ‘e o ato, que determina e modifica as coisas; em seguida vem os Vaishyas que ‘e o homem material, ‘e a riqueza, a seguranca e a prosperidade que importa, sao os ditos comerciantes; e por ultimo vem o Shudra que ‘e qualificado para os trabalhos manuais, o trabalhador bracal, onde o que importa sao as satisfacoes vitais basicas, e tem como grande valor a fidelidade. Por ultimo vem os parias ou intocaveis, os sem castas, que sao os ordenados a fazer o que os outros rejeitam, pois eles sentem prazer na transgressao.

A sociedade hindu esta sub-divida basicamente nessas 4 castas principais, e mesmo que voce nao faca parte do hinduismo, por exemplo, voce seja um cristao indiano, voce ‘e hindu e portanto pertence a algumas dessas castas. O objetivo religioso das castas ‘e ordenar a sociedade para facilitar o caminho de seu dharma. ‘E um aspecto importante da identidade.

Sei que fica complicado para nos ocidentais entendermos e nao criticarmos o sistema de castas, por diversas razoes: primeiro o sentido de identidade para nos nao ‘e uma preocupacao comum, nos preocupamos muito mais em sermos eficientes e uteis do que em saber de fato quem somos; outro ponto que para nos o livre arbitrio, a liberdade de ir e vir, ‘e muito mais importante onde a casta “limitaria”; outro ponto ainda ‘e que subestimamos a hereditariedade porque ela quase nao funciona mais hoje em dia no nosso mundo ocidental; depois temos ainda o aspecto social que para nos ‘e discriminatorio e por ultimo, para quem olha para o aspecto religioso, temos um ensinamento muito marcado “ diante de Deus todos somos iguais”. E isso ‘e interessante citar, pois nesse ponto, para as pessoas altamente espirituais que possam surgir das outras castas, o sistema de castas tambem se neutraliza, como o caso de Nandamar que foi um santo paria.

Algumas grandes personalidades e santos hindus eram contra o “sistema”, nunca ao sentido e significado, das castas, como Buda por exemplo. Alguns destes, como Ramana Maharish, que dizia que o sistema era bom, mas nao funcionava mais na India, quem nascia numa familia Brahmane ja nao ‘e mais brahamane, quem nascia Paria ja nao ‘e mais paria e etc. Inclusive ele que foi um grande santo hindu, nasceu numa familia Brahmane e conta que nunca ouviu falar nos Vedas em casa, apenas em dinheiro.

Em decorrencia de varias questoes a hereditariedade nao esta mais funcionando como antigamente e isso fica de certa forma claro quando visitamos a India. Por seculos e seculos aquela familia que comecou brahmane continuara sendo brahmane, mas nao necessariamente os valores brahmanicos estarao presentes nos membros da familia. Estamos numa epoca de superpopulacao e de valores modernos e nesse sentido o mundo respira essa realidade e nao seria diferente na India. Quando falo de valores modernos, falo do culto a materia (ao dinheiro) e ao racionalismo cientifico. A India tem vivido os mesmos valores que nos. Gosto de uma parte onde o Shuon diz que o mundo vive uma epoca meio vaishya meio shudra e ao meu ver, ‘e isso mesmo.

Nesse cenario, encontramos muitos sadhus (que sao os monges daqui), pessoas que resolveram abandonar o mundo para viver somente de doacoes e de busca por iluminacao, que nao sao serios. Grande parte dos sadhus infelizmente hoje sao assim. Passam pelos turistas pedindo dinheiro ou se oferecendo para tirar fotos em troca de algumas rupias. O mesmo ocorre com os gurus (guru num sentido preciso na India ‘e alguem que atingiu a iluminacao), que aqui sao considerados semi-deuses, onde multidoes e multidoes seguem seus ensinamentos e sao falsos gurus. Esses dias tinha uma reportagem em um jornal local, de um guru super famoso que pregava o celibato estava envolvido com uma atriz de bollywood. O mesmo ocorre nos ashrams, locais que originalmente eram a casa de algum guru e as pessoas iam para praticar yoga, meditacao e participar dos pujas (cerimonias sagradas de purificacao) e hoje sao puramente comerciais. Existem poucos ainda que se mantem serios, vivendo de doacoes dos seguidores e ajudando a comunidade.

Como disse sabiamente um local para mim: “cuidado com os gurus e os ashrams, hoje essas pessoas so querem saber de dinheiro, nao ‘e mais como antigamente. Ai ele completou: “ eles tem milhares de seguidores, uma parte sao os nossos locais que vivem de estomago vazio e  em busca de milagres, e a outra parte, sao os seguidores ocidentais, que tem o estomago cheio, mas a cabeca e o coracao vazio”!!

Os fieis no templo em ritual!

As Quatro Nobres Verdades de Buda!

Para quem esta acompanhando o blog sabe que estamos agora na India. Como o pais ‘e riquissimo em todos os sentidos, esta dando trabalho preparar e compilar os textos para postar e voces poderem desfrutar com a gente. Enquanto isso, resolvi resgatar o post das “ 4 Nobres Verdades de Buda” e incluir nele o caminho para atingir a Iluminacacao, para que voces possam compreender melhor e junto comigo, migrar de religiao e de cultura – do Budismo para o Hinduismo.

As Quatro Nobres Verdades de Buda!

Contando novamente um pouquinho da historia de Buda ja comentada em post anterior…

Quando Buda nasceu, astrologos disseram ao sei pai que Buda teria um destino unico e especial. Se ele amasse o mundo, se tornaria um monarca e unificaria todos os reinos hindus, mas se por acaso nao amasse, seria um grande lider espiritual. Como o pai de Buda era um rei, pensou: “prefiro que ele seja um grande monarca, entao nao vamos da-lo nenhum desgosto”.

E Buda foi criado num ambiente de felicidade artificialmente construido. Nao eram permitidos velhos, doentes, pessoas de mau temperamento, ma indole e com vicios.  No seu primeiro ano de vida foi construido uma cidade so para ele. Quando ele atingiu a adolescencia, o pai o presenteou com tres palacios com 40 mil dancarinas.

Mas como Buda gostava muito de fazer exercicios, tornando-se habil em luta, tiro e cavalgadas, quando foi ficando mais velho quis cavalgar mais longe do castelo, mas o pai, naturalmente, nao o deixava. Entao, um dia, apos muita insistencia o pai permitiu, e como garantia, pediu para o exercito do castelo ir na frente afastando tudo o que poderia ser ruim, para que Buda passasse sem perceber.

No caminho, de longe Buda avistou um velho e perguntou ao guarda do castelo: “ O que ‘e aquilo?”  O guarda respondeu: “Aquilo ‘e um velho, ‘e a velhice!  E Buda perguntou: “ E alguns escapam da velhice?”  “Sim!”, respondeu o guarda.

Mais para frente Buda avistou um doente e perguntou ao guarda do castelo: “ O que ‘e aquilo?”  O guarda respondeu: “Aquilo ‘e um doente, ‘e a doenca!  E Buda perguntou: “ E alguns escapam da doenca?”  “Sim!”, respondeu o guarda.

Ainda no caminho Buda avistou um cadaver e perguntou ao guarda do castelo: “ O que ‘e aquilo?”  O guarda respondeu: “Aquilo ‘e um cadaver, ‘e a morte!  E Buda perguntou: “ E alguns escapam da morte?”  “Nao!”, respondeu o guarda, “ ninguem escapa da morte”.

Em seguida Buda de longe avista um monge mendigante e pergunta ao guarda do castelo: “ O que ‘e aquilo?”  O guarda responde: “Aquilo ‘e um monge, ‘e alguem que abandonou o mundo!

No caminho de volta, Buda ficou pensando seriamente: “se eu posso escapar da doenca, da velhice, mas nao da morte, qual o sentido de todos esses prazeres?” E pouco tempo depois, ele foge do palacio e conhece praticantes de rajayoga (exercicios que preparam o sujeito para o controle e dominio do corpo) que ensinam alguns exercicios e ele se torna mestre em todos os metodos: ficar enterrado tantos dias, ficar sem comer tanto tempo, etc.

Mas Buda continuava com suas inquietudes em relacao a vida e pensando: “ se existe a velhice, a doenca e a morte, a existencia tem um problema, porque todos estao sujeitos ao sofrimento! E decide parar com as praticas, ao perceber que so livravam do sofrimento fisico, para ir atras da resposta a sua pergunta. E sai para meditar isolado sobre a questao do sofrimento e dias e meses depois acorda e se torna o Buda.

E vai procurar os ex-colegas de rajayoga para dizer que compreendeu o problema do sofrimento e em quatro etapas. Este constitui ‘e o postulado fundamental do Budismo: As Quatro  Nobres Verdades. O unico ponto que todos os ramos budistas concordam.

Primeira Nobre Verdade: A verdade do sofrimento!

Todos os seres sofrem! Mas existe uma “anestesia mental” que alivia esse sofrimento. Uma especie de expectativa passiva do sofrimento, que de algum modo livrara o sujeito, como um “ vai passar, dias melhores virao!”. E Buda percebe que nao consegue fundamentar essa expectativa: vai passar como? E diz que ela ‘e a maior inimiga espiritual do homem. Isso serve para pensar: eu tenho que trabalhar para resolver esse problema e cessar esse sofrimento!!

Mas compreende que os todos os sofrimentos cessam, mas antes deles cessarem, aparecem outros.  Os sofrimentos sao partes intrinsecas da vida tal como a conhecemos. Doh’a ‘e traducao de sofrimento que significa originalmente “o desencaixar do tubo de uma roda em relacao ao seu centro.” Quando as carrocas estao andando e o raio desencaixava, por exemplo, ‘e o doha. Sofrimento ‘e primeiro o desencontro/desarmonia com o meio e segundo, com as diversas partes do individuo. Este desencaixe ‘e que provoca o sofrimento.

Segunda Nobre Verdade: A verdade das causas do sofrimento!

Porque a dor ‘e um sofrimento? Porque ela nao encaixa com voce, com o sujeito e o objeto da sensacao (voce e o outro, voce e o meio).  E o que o sujeito faz com isso? Deseja um encontro ideal! Quando voce encontra essa desarmonia, a mente imediatamente concebe uma relacao possivel e harmonica, e a deseja.

A causa do sofrimento ‘e o desejo. Aqui desejo nao tem o sentido comum. Ele usa a palavra desejo para o desejo de Realizacao Pessoal. Por isso, ele concebe um modelo ideal que nao causaria esse sofrimento e dai ele muda o mundo fora para que se adeque ao sujeito. O desejo de ordenar os objetos da percepcao a uma ordem do sujeito de percepcao! O desejo de recriar o mundo a sua imagem e semelhanca.

E ‘e possivel fazer isso? Buda pensou: eu nao sei! Pois eu nao sei quem ‘e esse EU que quer reordenar as coisas, preciso estuda-lo.  E percebeu que o EU faz isso porque ele gosta mais dele do que do mundo. Voce ‘e apegado a voce, mas nao ‘e tao apegado ao mundo. Voce NAO pode se imaginar de diversas maneiras, so de algumas. Buda entao comeca a investigar o EU e chega a terceira nobre verdade.

Terceira Nobre Verdade:  A verdade sobre sua verdadeira natureza!

O eu nao corresponde a nenhum objeto real. Quem ‘e o EU? O que voce chama de eu ‘e um conjunto  de relacoes com um nao-eu (o outro, o meio, tudo sao nao-eus).

Todas as coisas que definem voce ‘e uma relacao com um conjunto de objetos. Eu sou filho de fulano, eu sou esposa de ciclano, etc. Tudo o que compoe a ideia de eu, esta em relacao com algum objeto especifico que ‘e um nao eu. E so existe o eu porque existe os nao-eus e uma mente capaz de percebe-los.  E dai Buda se pergunta: e o que ‘e essa mente? E percebe: essa mente nao tem caracteristica de um EU! A mente nao ‘e nenhum deles. Ela ‘e so um testemunho destas relacoes entre o eu e o nao-eu.

Abrindo um parenteses:

O Budista fala de mente no sentido de intelecto, que significa a consciencia da captacao de uma realidade, nao como parte nao material do organismo, como no ocidente. O intelecto ‘e a consciencia do ser.

 

Entao Buda pensa: eu quero testemunhar a mente/ intelecto, para responder finalmente o que ‘e o EU. E compreende a terceira Nobre Verdade.

Buda percebe que seria como um jogo de espelho. Ele teria que criar um instrumento para que a sua mente se voltasse para ela mesma. O unico jeito seria silenciando a mente para ver o que restava. E percebeu: a mente da mente ‘e o fundamento ultimo da realidade, isso ‘e o real!

A verdadeira natureza da mente ‘e infinita, sabia, passiva no sentido de nao haver perturbacoes, pois ‘e ausente de dualidade, nao ha dois. ‘E iluminada. Ela ‘e a verdadeira natureza de todos os seres. Buda deu todas as caracteristicas do que a gente atribui a Deus. E fechou, dizendo que a sensacao do sofrimento ‘e possivel porque a sua causa ‘e a ignorancia em relacao a verdadeira natureza do ser!

Apos essa meditacao a respeito do sofrimento que Buda ao acordar e ser questionado por sabios sobre quem ele era, respondeu: “Eu sou Buda, eu sou desperto!”

Apos isso Buda se tornou O Iluminado e passou a ensinar a Quarta Nobre Verdade. O caminho para atingir a iluminacao, para se tornar Buda. O unico jeito do individuo se livrar dos ciclos de reencarnacoes, que para um budista conscio de sua doutrina sabe o quanto as reencarnacoes nao sao nada boas quanto parece para os ocidentais. Porque a logica ‘e simples, se voce foi bom, voce nao volta, voce fica la em “cima”.

Do caminho octoplus ‘e que foram criadas varias adaptacoes para que o sujeito, caso nao consiga atingir a iluminacao, possa concluir esse processo no “ceu” e sem precisar retornar. Dessas adaptacoes ‘e que surgiram os diversos ramos de Budismo existentes e que alguns, inclusive, se contradizem.

Quarta Nobre Verdade: O caminho para sessar o sofrimento.

O nobre Caminho Octoplus para que voce atinja a ilumincacao…

1- Visao Correta:

Voce precisa ter uma clareza intelectual suficiente para compreender a doutrina da iluminacao. Isso significa que voce precisa entender o conceito de: iluminacao; de ignorancia fundamental; das tres nobres verdades anteriores; do eu e do nao eu.

2- Intencao correta:

Uma vez que voce compreendeu a doutrina – o que ‘e a iluminacao, entao voce precisa intensionar, querer a ilumincacao.

3- Linguagem correta:

Uma vez que voce quer a iluminacao, voce precisara frente aos obstaculos da iluminacao,  reexpressar para voce mesmo constantemente a doutrina para nao se desviar.

4- Conduta Correta:

Voce precisa enquanto isso nao violar 5 preceitos.

Nao matar, nao roubar, nao mentir, nao ser incasto, nao ingerir substancias inebriantes ou bebidas.

5- Ocupacao Correta:

Buscar uma ocupacao, objetivamente e subjetivamente, que nao seja contraria a iluminacao, ter uma ocupacao que te ajude na caminhada e que nao exija que voce deixe de seguir alguns dos preceitos.

6- Esforco Correto:

Sempre fazer muitas acoes que visam exclusivamente a iluminacao.

7- Atencao Correta:

Sua atencao geralmente se volta para as relacoes com os objetos e agora tem que se voltar apenas para a testemunha dessas relacoes – a mente. A unica maneira de sessar o sofrimento ‘e voce acessar a sua verdadeira natureza, ou seja, chegar a Iluminacao.

8- Concentracao Correta: Alcancar um estado correto de atencao a esse testemunho da mente e persegui-lo.

Onde ficam as pessoas mas?

Buda nao classifica as pessoas em boas e mas. Ele classifica em tres: boas, mas e excelentes! As boas nao fazem o mal, mas fazem uso apenas dos instrumentos (objetos) da vida e nao conseguem ser nada fora a estes instrumentos, que sao finitos. As excelentes conseguem! E o mal ‘e quando o sujeito esta fora de sua ordem intrinseca, de seu alicerce, distante de sua verdadeira natureza. Os budistas possui a mesma visao de homem do Hindu.

* Essas palavras foram tiradas das aulas gravadas do site www.luizgonzagadecarvalho.com.br, no estudo de Religioes Comparadas, aulas de Budismo; das visitas aos templos e das informacoes disponiveis nestes.