Mulher na estrada – mitos e verdades!

Eu nao me considero fresca, mas tambem me considero bem menos descolada quando olho para algumas companheiras de estrada. Esse post foi pensado para falar dessas coisas,  tendo como proposito esclarecer os mitos e verdades que uma mulher de mochila nas costas, tendo um budget restrito para seguir, pode atravessar.

Como estava dizendo, nao me considero fresca em geral. Mas tem uma coisa que sou bem chata, mais do que muitas mulheres, quando as observo: limpeza! Pra mim limpeza beira a um TOC! Se nao tiver limpo, nao durmo direito, nao funciono direito, posso ficar mal humorada.

Tomo dois (as vezes  tres) banhos por dia, em todas as estacoes do ano. Quando vou deitar, nao importa onde eu esteja (tirando a casa da minha mae) levanto a coberta e examino se o lencol esta bem limpo e dou sempre uma passda com as maos para tirar qualquer sujeirinha. Faco isso sempre em casa tambem e peco para o Gui bater bem o pe antes de deitar.

Limpo, significa cheiroso, branquinho e areijado. Quarto sem janela, ou que nao bate sol, carpe, essas coisas com cara de mofo, umido, escuro, ‘e muito dificil aceitar como lugar para dormir, so se nao tiver mesmo opcao.

Toda essa minha descricao ‘e para voces alcancarem como fazer uma viagem dessas foi um desafio para mim e tambem quebrar algumas fantasias que se criam…

Voce toma banho todo dia?

Sim, aqueles mesmos dois banhos quando estou viajando. Um de manha, para acordar e outro antes de dormir, para limpar. Uma vez ou outra, nao consigo tomar o noturno, quando pegamos um onibus/trem a noite. Eu raramente acampo. Na viagem toda, houve um so vez que fomos obrigados a dormir na beira de um rio, porque ao tentar passar por um banco de areia, o barco nao conseguiu, passamos a noite na margem. Mas ainda assim, tinha lona no chao, fogueira e comidinhas.

Como sao os hoteis em geral?

Ultra simples, mas limpos e areijados. O lema do Gui ‘e o mais barato, o meu ‘e o mais barato e mais limpo. ‘E claro que o mais limpo sempre encarece nosso budget de hotel. As vezes, dependendo da cidade, tem um hotel baratinho e limpinho do lado do outro, outras se quiser o limpinho vai ter que pagar bem mais caro. Nessas situacoes, infelizmente,vai dormir num nao tao sujinho. Buscamos sempre quarto com banheiro, so pegamos banheiro coletivo quando a diferenca de preco ‘e muito grande, mas permanecemos com o quarto individual. Nada de albergue, muita meninada, so hoteis simples.

Em alguns paises, vale mais apena alugar um quarto na casa de uma familia. Ja fizemos conchsurfing (site de intercambio), mas tem que cuidar para escolher cs com casa limpinha, senao, nao da para reclamar depois, uma vez dormimos na casa de um soldado da onu em Burundi que nao posso nem me lembrar. Ja dormimos em hospedagens de igrejas, monasterios, ferrys e barracas com cama dentro.

E aquelas coisas de mulher: depilacao, pe e mao, sobrancelha, cortar cabelo?

Em viagem isso muda um pouco. Cancelo o pe, a mao e cortar cabelo. Levo comigo um cortador de unha, uma lixa e um esmalte de oleo de cravo para proteger de infeccoes,  e tambem nao sei fazer a mao ou pe sozinha. Sobrancelha eu mesmo faco. Depilacao, faco no salao local.

Em cada salao ‘e uma vivencia cultural diferente. Ja fiz uma depilacaona Jordania,  com uma especie de bola de acucar que ia tirando pelo a pelo, um misto de depilacao e sessao de tortura, durou quase quatro horas para fazer as duas pernas. Ja fiz tambem com aquele fiozinho, que ‘e bem limpinho mas doidinho, ate roll-on no Vietnan.

Estar no salao tambem ‘e um momento de entretenimento e de conhecer um pouco da intimidade das mulheres. Elas sao curiosas em te conhecer e voce em conhecer elas. Nos lugares muculmanos, eles te dao um vestido para colocar, e levantam isoladamente  aquela parte do vestido para depilar a regiao x. Eles so depilam pernas, o restante, consideram que voce deve fazer por si mesmo, pois ” sentem vergonha”. Entao, em ultimo caso, gilette ou cera pronta de farmacia e tentar fazer o melhor que puder. No sudeste asiatico, a cada 10 saloes, 9 so fazem massagem. ‘E um aperto ate achar o ” nosso salao”.

E as roupas?

Quando acumula demais, procuramos sempre uma pessoa simples que lava as roupas no seu tanque em casa, ou na pedra do rio. Ja ‘e uma forma de ajudar. Se for clima quente e seco, as pecas menores lavo na pia do banheiro com sabao em po e escova, que levamos de casa. Por isso, nao adianta levar roupas que voce gosta muito, porque irao se acabar nessas viagens pelo jeito que sao lavadas. Ficam esgacadas, perdem a cor, amareladas. Entao, quanto mais roupas velhas, melhor.

Mochila?

Sugiro a de 45 litros, que ‘e um pouco maior que a de notebook. Se nao der, no maximo 60 litros. Quanto maior, mais voce coloca coisas. Uso saquinhos para proteger, manter limpas e separar as roupas. Super recomendo ir ate  aquelas lojas de montanhistas, e comprar aquelas toalhas de alta absorcao tamanho grande (que ‘e um pouco maior que uma toalha de rosto), funcionam mesmo, parecem um aspirador de po quando voce passa e sao super leves. Pode levar uma para o corpo e uma menor para o rosto. Uma jaquetinha corta vento e impermeavel ‘e imprescindivel. O peso ideal ‘e 10% do seu peso, eu nunca consegui. Sempre fico nos 9kg.

O que levar?

*Sugestao p/ viagem longa (mais de 4 meses) e de lugares na maioria quentes, se nao a mala fica muito pesada. Voce pode se organizar p/estar nos paises nas estacoes secas.

Tres sarueis fininhas (p/ paises mais tradicionais, oriente em geral), 1 shorts; 1 bermuda; e uma calca de moleton mais quentinha, para voos, trens e onibus noturnos; 2 regatas, 3 camistas soltinhas e duas de manga comprida fininhas e soltinhas (isso se voce for para lugares mais tradicionais, se nao so regatas ‘e tranquilo); uma camiseta quentinha de manga comprida de algodao, ou das especiais de loja de montanhista); um moleton, um bone, lenco de cabelo, cachecol, biquine, canga (otimo tb para sentar em parques e onibus sujos), e no pe: crocs (nao da chule, limpa facil, ‘e arejado); havaiana e um tenis.

Duas necessaires: uma dos teus produtos diarios: escova de dente, cabelo, shampoo, hidratante, etc. e outra de remedios e pomadas  ( nao pode falatar nebacetin, fenergam para picadas de inseto, e outras coisas da sua preferencia), creme para ressecamento dos pes (caso passe muito tempo viajando, no calor e de chinelo resseca muito). Repelente e protetor solar. Livros, no maximo 3. Caderninho de anotacoes, p/ enderecos, comidinhas, emails das pessoas, etc. Legal ficar com um caderninho por viagem.

Remedios?

*Para mais de 6 meses de viagem.

Dois antibioticos, um antiflamatorio, um paracetamol, um plasil, alguns hidrafix, algo p/ recupar flora intestinal (vai dar algum desarranjo, isso ‘e quase garantido), alguns antiacidos, um antialergico (pode comer algo estranho ou levar uma picada de algum inseto esquisito; uma vez passei 3 dias me cocando por algo que comi na India), algo p/ colica menstrual, caso tenha. Um vermifogo potente, para tomar de tempos em tempos, indicam a cada 6 meses. No geral, ‘e isso e farmacia tem em todos os lugares, se precisar.

Comidas?

Tem que se adaptar com cada local, as vezes nao exige tanto, mas as vezes nao tem saida, ‘e sofrido mesmo. No leste da Africa, os pratos eram na sua maioria esmagadora feijao e arroz, frango duro ou peixe frito gorduroso, com batata frita gordurosa, no almoco e janta. Dificil. Mas sempre trem frutas nas ruas e um supermercado para recorrer. Eu nao abro mao de frutas, agua, iogurte natural ‘e bom para cuidar da flora, e o resto, vou tentando descobrir experimentando, o que ‘e mais do meu agrado. Na India, muitos turistas brasileiros falam mal da comida, e apesar de apimentada, tem tantos pratos e opcoes, que voce acaba aproveitando. So tem uma hora que cansa um pouco aquele gosto de curry de fundo, mas dai voce come outro com gosto de cravo ou canela.

Banheiros?

Os de rua do Leste da Africa, India, Myamar, algumas ilhas da Indonesia, sao sinistros, sujos, terriveis, sao banheiro tipo oriental (buraco no chao) e imundos. Nos hoteis, sempre buscamos os ocidentais, que siginifica vaso sanitario e papel higienico, nao agua…

A viagem ‘e um perrengue?

Existem sempre desafios muito maiores do que estar protegido na sua casa. Viajar ‘e estar definitivamente mais exposto e se voce nao souber cuidar do ritmo e de voce, pode ser  desgastante. Voce esta  se mudando com uma certa frequencia, experimentando hoteis e cidades diferentes, alem de conhecendo pessoas, linguas e comidas diferentes, pegando transportes longos de tempos em tempos, e nesse sentido est’a o grande desafio. Mas nao ‘e uma dificuldade, dormimos, comemos bem e nos mantemos limpos. Mas nao ‘e ferias, piscina e agua fresca…

De tudo que experimentamos,  o Leste da Africa, algumas ilhas da Indonesia e Myamar  foram o mais desafiador, perrengue mesmo, mas eu voltaria mil vezes para cada um desses lugares, pela aprendizagem que se tem.

Sei que, depois de viajar tantos meses seguidos, quando voltei para casa tive dois sentimentos em relacao a parte do conforto: como ‘e gostosa e muuuuuuuuuito confortavel a vida em casa, mas como ela pode se tornar, se voce nao se manter em vigilia, por sua propria estrutura,  empobrecedora.

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Quem sao os mochileiros?

Achei que seria legal contar um pouco quem sao e como pensam os mochileiros de forma geral…

Bom, primeira coisa ‘e que mochileiro nao gosta de ser confundido com  turista comum. O que ‘e um turista comum? Geralmente alguem que gosta de conforto, de praticidade, de programas previamente definidos (suportados por uma agencia de turismo), e que em suas viagens convive com turista. Ja o mochileiro gosta de viajar de forma independente, sem muitos planos e, alterando os poucos que tem. Prefere conviver com os locais e na medida do possivel compreender ao maximo como eles vivem e o que pensam.

O mochileiro quase sempre sabe aonde esta e prefere usar os transportes locais. O turista comum, muitas vezes nao sabe direito aonde esta e prefere os onibus que pulam de atracao em atracao.  Independente do dinheiro que tem para gastar na viagem, o mochileiro busca gastar o menos possivel, ja que conforto definitivamente nao ‘e a maior necessidade. Para ele o mais importante sao as experiencias vividas nos lugares visitados, do que os pontos turisticos.

Da onde eles sao? Os mochileiros na sua maioria sao Europeus (liderados por alemaes, franceses e ingleses), alem de Canadenses, Israelenses e Australianos. Na Africa, com excessao das maiores atracoes, encontramos muitos poucos mochileiros. Ja no sudeste asiatico ‘e impressionante! Tem mochileiros, assim como todos os tipos de turistas, em todos os cantos. Por ser um destino barato e super preparado para o turismo, voce consegue, se quiser, fazer novas amizades todos os dias.

Vale acrescentar que o mochileiro que foge dos pontos mais turisticos da Africa ‘e bem diferente do mochileiro que viaja pelo Sudeste Asiatico (com excessao de algumas regioes da Indonesia e Myamar). O primeiro precisa ser realmente roots, pois nao vem nada de mao beijada, ja o segundo quase nao precisa pensar, tem agencias por todos os cantos e vans com precos super acessiveis que te levam por tudo. Sem que seja preciso voce pegar dois onibus para chegar ate a rodoviaria local e na chegada, pegar mais outro transporte (a descobrir) para te deixar proximo da regiao de hoteis, que voce precisara conhecer um a um, ate encontrar aquele com o preco e o conforto esperado.

Dentre os mochileiros, voce encontra muitos jovens casais por volta dos 28-35 anos e muitos solteiros de 20 a 25 anos viajando sozinhos e se agrupando a outros durante o caminho. O estilo de se vestir ‘e bastante proporcional ao tempo de viagem! Para os que estao viajando apenas por ferias ou coisa do tipo, gostam bastante de ousar nas roupas, tentando parecer o mais descolado possivel. Ja os que vieram para viagens longas nao tem tanto essa necessidade porque encaram isso como secundario ao objetivo maior da viagem. Quando digo “os de viagem longa” me refiro a pelo menos um ano. Apesar de que, encontramos algumas pessoas que venderam tudo e nao sabem quando vao voltar para casa e que casa.

Vamos ao estilo! O estilo do mochileiro vem muito como produto da necessidade. Quando voce tem apenas uma mochila e poucas opcoes de roupa e ainda nao teve tempo de lava-las, ‘e muito normal que uma coisa voce passe a esquecer na sua vida: a combinacao e harmonia das cores! Isso simplesmente desaparece e dai, meio que sem querer, essa miscelancia de cores e tipos de roupa se transformam magicamente num conjunto muito legal. Os mochileiros de primeira viagem forcam um pouco a barra, fazendo qualquer um notar que o conjunto foi cuidadosamente pensado e nao espontaneo, como deveria ser.

Dois exemplos das necessidades da mochilagem, para mim, mais curiosos: Em Gilli Air na Indonesia, uma europeia por ter esquecido o biquini (ou sei la porque…), mergulhava de calcinha e sutian claros, na maior tranquilidade, seguida de caminhadas no fim da tarde com calcinha e regata. Em lugares frios onde o tal mochileiro nao estava preparado para a temperatura, voce encontra alguns de bermuda e meia de futebol ate o joelho, sandalia e uma camiseta de manga comprida de lycra p/ surf, daquelas coladissimas! E por ai vai… Por exemplo, minha mochilinha de mao foi comida por um pequeno rato na pousada (a pousada era limpissima, mas aconteceu), ao ver o furo, o Gui disse:“nossa, agora tua mochila t’a muito de mochileira haha”! No fim das contas, como a mochilinha ja estava pequena demais, comecei a buscar uma nova, ate que encontramos um mochileiro que estava querendo reduzir o peso de suas coisas e nos deu uma mochilinha, um guarda-chuva e uma capa de mochila. Problema resolvido! A Marlinda, uma amiga nossa de viagem, quando comecou sua jornada levou um tenis altamente velho para seu periodo de mochilagem, duas semanas depois acompanhados de trekking, o tenis se despedacou literalmente, ela disse que nao tinha se tocado de quao velho era o tenis…

Outra coisa,  ‘e que depois de tanta viagem, atraves dos turistas a gente passa a ter alguma ideia da tendencia de moda internacional e uma coisa que me chamou muito atencao foi perceber o quanto no Brasil somos conservadores e uniformizados no estilo de se vestir, nem entrando no universo corte de cabelo. Vendo os turistas, voce resgata algumas modas classicas que voce havia esquecido: para as mulheres, o resgate do cabelo preto azul (nao ‘e como no Brasil, que depois da Gisele Bundchen, a maior parte adotou o cabelo natural ou pintado com cara de natural). Bandana na cabeca; camiseta de rock com colares de caveira; camisa xadres; coletes; chapeus estilo social, boinas; oculos falsificado da ray ban colorido modelo pai, e claro, as Legitimas, que ‘e o cumulo do cool. Quanto mais velhas, com cores desgastadas, amassadas, furadas e surradas forem suas roupas, mais apropriado voce esta, mais cool voce ‘e!

Os cabelos das mochileiras tambem ‘e outro ponto. Como muitas vezes o chuveiro quente nao ‘e uma garantia, ‘e normal ve-las de cabelos presos e oleosos. Para as fazedoras de estilo, o cabelo ‘e usado super baguncado, como se tivessem dormido tres dias seguidos e rolado na cama a noite inteira ininterruptamente. O que acaba fazendo com que o estilo “cuidadosamente feito” seja detectado, ‘e que junto aos cabelos ultra baguncados existem mil camadas de rimel!

Bom, e como a maioria dos mochileiros decidiu viajar? Existem os que terminaram o colegio e resolvem viajar por um periodo antes de comecar a faculdade; assim como os que terminaram a faculdade e decidem viajar antes de entrar no mercado de trabalho. Os israelenses sao um caso a parte, existe quase que uma regra entre eles, viajar por longos periodos apos o servico militar obrigatorio. A saber, homem tres anos e mulher dois anos de servico. Ja os mais velhos, normalmente ja tiveram alguma experiencia de mochilagem na vida e ao descobrirem que ‘e possivel viajar para varios destinos gastando menos de 600 dolares/mes, ao voltar para casa planejam guardar dinheiro para um dia fazer uma viagem longa. Na maior parte das vezes essas pessoas possuem trabalhos de satisfacao exclusivamente financeira e ao se depararam com o mundo magico da mochilagem passam a guardar para viajar, voltar para seu pa’is, trabalhar mais, guardar de novo e viajar indefinidademente. Alguns, mais descolados, ja passam a trabalhar durante a viagem para continuar viajando. Outros, numa tentativa desesperada vendem coisas para estender a viagem. Ate vender a mochila…