Paquistao Com Emocao!

Apesar da paz do lugar, e da beleza das pessoas somada a uma cultura tao intocada, dois dias depois tivemos que sair as pressas do Kalash Valley. Ainda de manha, o Gui chegou rindo de nervoso no quarto dizendo que tinha que me dar uma noticia. Como sabia que ali nao tinha telefone, me toquei na hora que era uma noticia paquistanesa. Talibans do Afeganistao haviam atacado a fronteira do Paquistao ao sul do vale Kalash. No total 56 pessoas morreram, entre talibans e militares paquistaneses. Como estavamos há 30 kilometros da fronteira e pelo vale não havia muita seguranca caso os talibans decidissem entrar por alguma montanha, pediram para voltarmos a Chitral, onde tinham uma forte base militar. Conforme as noticias, o interesse nao era entrar no pa’is, mas sim atacar a fronteira. De qualquer forma, nossa escolta disse que deveriamos voltar imediatamente para Chitral.

Brincandeira de crianca.

Voltamos parte do caminho a pe, pois não passava nenhum carro, ate que finalmente passou uma caminhonete e nos deu uma carona ate uma cidade proxima, onde poderiamos pegar um onibus ate Chitral. No total estavamos em seis turistas, nos quatro e mais dois japoneses, alem dos dois policiais, que pareciam não serem capazes de matar uma mosca.

No meio do caminho, um pouco nervosos com a situacao, um senhor sai detras de uma curva fazendo sinal desesperado para pararmos o carro, eu arregalei o olho assustada e pensei: “caramba, est’a vindo os talibans!” Nisso, as pedras do morro comecam a explodir, e eu entao olhei para o Joao que estava do meu lado e me desesperei. Pensei: “fo… !” Apos uns minutos, o tal Senhor acena dizendo algo do tipo: “podem vir agora!” Era so porque a estrada estava sendo arrumada e assim que explodiram um pedacinho do morro, fizeram sinal para a gente passar, ja que as pedras tinham quase tomado conta do estreito espaco entre precipicio e montanha. Eu nao respirava, estava branca, congelada, tremendo, mas não era nada… so conserto de estrada.

Chegamos em Chitral mortos de fome e fomos procurar um hotel mais confortavel para ficarmos. Achei um bem melhor por 100 rupais a mais, um pouco mais de um dolar. Como o hotel nao tinha restaurante, e ja tinha passado da hora do almoco e alem de tudo era Ramadam, pedimos se nos mesmos podiamos cozinhar, usando o espaco deles. O dono concordou. Ele estava faminto tambem, falou que era muito dificil seguir o Ramadam, que ele ficava irritado, nervoso, mas que ja estava quase terminando o mes Sagrado.

Entao, resolvemos nos dividir. O Gui ficou responsavel por ir ate a policia, primeiro para se apresentar junto com a escolta, mostrando que todos nos estavamos bem e tambem para se informar do ocorrido; depois ele iria ate o o escritorio do correio para ver se conseguiriamos pegar um aviao teco teco do correio que tres vezes por semana saia de Chitral ate Slamabad. Enquanto isso, eu e o Jony ficamos responsaveis por fazer a comida. Resolvi fazer o meu prato tipico: macarronada. As escoltas se separaram, um deles foi com o Gui e outro comigo e o Jony. O Marco teve de ficar no quarto, ou melhor, no banheiro, por um problema tecnico rsrsrs de viagem.

Seguimos com nosso guarda-costas, enquanto eu comprava os ingredientes, pedi ao Jony para providenciar o frango. Nisso o Joao voltou e me disse: “vem ver o acougue!” Quando olhei, num lugar caindo aos pedacos, com uma sensacao novamente de tunel do tempo, varias gaiolas com pequenos futuros galos. Apontamos qual nos queriamos, e o senhor matou e depenou na nossa frente, quando pegamos o saco, o frango ainda estava quente. Nunca tinha comido carne tao fresca!

Eu e Jony nas compras (vejam minha roupa de paquistanesa).

Voltamos ao hotel, e mais um desafio, conseguir fazer a comida naquela cozinha suja, cheia de panelas engorduradas, sem detergente, nem esponja de louca, e muito menos colheres e afins para mexer. Com muito custo, consegui fazer uma macarronada gostosa, na companhia do Marco. Quando o Gui chegou vi que ele estava animado, e ja imaginei: nao tinha voo para Slamabad. E foi batata, teriamos que ir de onibus. Eu, Marco e Jony estavamos preocupados, porque passariamos por varias cidades nao tao tranquilas do Paquistao, ate agora estavamos sempre no meio do nada, em alguma vila nas montanhas, e agora passariamos por regioes mais perigosas, meio terra sem lei. Mas nao tinha opcao.

Dormimos entao em Chitral, onde as pessoas so falavam e lamentavam o ocorrido, e no dia seguinte pegamos um onibus de 14 horas ate a capital Islamabad. A escolta ficou com a gente ate o onibus partir e fez seu trabalho ate o fim, inclusive ficou do lado de fora nos abanando como se fossem familiares, enquanto nos da janela como bons brasileiros falavamos: “muito obrigado, valeu por tudo, vamos manter contato.”

Logo nos primeiros minutos, vimos que nosso motorista parecia direto de um filme: tinha uma barba comprida sem bigode ao modelo do Profeta Mohamed, um chapeuzinho branco e verde significando que ele era bem religioso e um livro falando do fim do mundo sobre o painel. Novamente uma estrada super segura, do lado direito montanha gingantesca e do esquerdo precipicio e entre eles apenas uma estrada de chao esburacada e bem estreita, com carros vindo nas duas direcoes, alem de carrocas de vez em quando, caminhoes e burros. Para completar, nosso motorista corria como se estivesse numa reta, numa pista bem larga e acostamento.

Umas tres horas depois, um carro de policia parou nosso onibus no meio da estrada, entrou e documento de todos. O “tenente” nos avisou que para nossa seguranca n’os seriamos escoltados ate proximo a Islamabad. Disse tambem ao motorista, que não deveria entrar mais nenhum passageiro ate perto o fim da viagem. O motorista ficou preocupado, pois sem passageiros não entraria dinheiro. E nos ficamos mais preocupados ainda. Nisso peco para ir ao banheiro, descem cinco homens mais o tenente, entram no banheiro antes, olham, voltam e dizem: pode entrar, esperamos a senhora aqui. Eu so pensava: “onde que a gente foi parar? So espero que isso tudo termine bem.”

Fim das contas, fomos escoltados ate perto de Islamabad, a cada final de um distrito mudava a escolta policial, no total foram sete ou oito. Dentro do onibus, dois locais fumavam haxixe enquanto a policia seguia nos escoltando. O motorista falava do fim do mundo de acordo com os muculmanos, era pro-taliban, e tinha varias teorias da conspiracao quanto aos americanos, judeus e Jerusalem. O Gui se divertia conversando com ele. Ate que uma hora ele falou: “ali do outro lado est’a cheio de talibans.” O Gui olhou e disse: “ali do outro da fronteira que fica aqui perto?” Ele respondeu: “nao, do outro lado desse rio aqui”, apontando para um rio seco que beirava nossa estrada…

O motorista!

Escolta.

Enquanto isso, o Marco e o Jony davam muita rizada com a emocao de um passageiro que contava nunca ter feiro uma viagem tao diferente, que no Paquistao so gente muito importante do governo era escoltada, e que ele estava adorando tudo aquilo. Quando atravessamos as cidades, a policia ligava a cirene para abrirem alas ao nosso onibus. Foi a viagem mais louca que já vivi em toda minha vida!!! Me sentia o presidente da republica, tirando o onibus, ‘e claro!

As pequenas cidades que passavamos eram uma volta ainda maior ao tunel do tempo: mulheres de burca, comercios decadentes, caos total de carros, cabras, carrocas, tudo ao mesmo tempo. Homens com barbas longas, turbantes, e muita sensacao de que estavamos no meio de um filme “faroeste paquistanes”. Essa acho que ‘e a comparacao mais proxima.

Nas cidades, pena que nao da pra ver direito.

Ao longo do caminho, como era Ramadan, nao houve parada para comer, para o nosso desespero, pois eram 14 horas de viagem, mas para nossa sorte, eles pararam muitas vezes para rezar, e nisso a gente conseguiu comer alguma coisa. Nunca vou esquecer do suco de goiaba de caixinha do Paquistao.

No fim da tarde, o sol se pos, ja com quase 12 horas de viagem, tivemos a nossa primeira parada oficial, quando eles desceram para fazer sua primeira refeicao do dia. Uma fila de onibus e carros se formou, as pessoas desciam, estendiam um pano grande e comiam sobre o asfalto: frutas, agua, e chay. Generosamente, nos convidaram para comer com eles, agradecemos e dissemos que queriamos que nao faltasse nem um pedaco de fruta para eles depois daquele longo dia. Em seguida rezaram e continuaram a viagem.

Primeira refeicao do dia.

Essa cena de nos parados no meio da estrada com o sol se pondo, as pessoas comendo sobre o tapete no chao e depois rezando, nunca saira da minha memoria. Foi uma das cenas mais marcantes para mim de toda a viagem. Absolutamente diferente e especial! Fiquei pensando naquele mundo deles tao diferente do nosso…

Filas de carro estavam se formando para quebrar o jejum.

Quando nosso motorista voltou a dirigir, ele pareceu cansado e falou para o seu ajudante que sentava ao lado, para ele dirigir. Estavamos há uns 60km/h quando nosso motorista troca de lugar com o ajudante com o onibus em movimento. Eu olhei para o Gui e os meus irmaos e todo mundo estava chocado. Eles perceberam e olharam pra tras vendo nossas caras de assustados, e deram muita rizada dos turistas. Se fosse um europeu ali teria enfartado, a sorte ‘e que vindo do Brasil nem tudo assusta tanto. O dia tinha sido realmente intenso e nos sentiamos numa terra sem lei… Ou talvez na terra dos Paks mesmo. So para titulo de informacao Paks quer dizer puros.

Chegamos em Islamabad as dez horas da noite, exaustos e cansados. Olhavamos um para o outro e riamos de nervoso do que tinha sucedido ao longo daquela viagem. Acho que isso ‘e uma das coisas que mais gosto de estar no Oriente, que de certa forma vicia, nem um dia de viagem ‘e previsivel ou monotono, sempre tem uma surpresa, uma emocao, um momento inesquecivel, seja porque a vida que eles levam ‘e muito diferente da nossa, seja porque voce tem a chance de viver um pouco a vida deles, de fazer parte de um mundo tao diferente do teu, de experimentar um aquario completamente surreal e de se dar conta de quao absurdamente belo e variado ‘e o mundo que Deus criou.

Povo Kalash!

Depois da vila mais incrivel da viagem, fomos ate Chitral, uma cidade proxima ao Kalash Valley, nosso proximo destino. Havia na cidade uma vida muito tipica e religiosa entre os locais e apesar do barulho do comercio, ver como tudo funcionava era novamente uma excelente experiencia de Paquistao. Fomos parados varias vezes nas ruas para as pessoas nos conhecerem e claro, perguntar se precisavamos de alguma coisa, se eles poderiam nos ajudar com algo, se gostariamos de ficar na casa deles, conhecer suas familias, etc.

Chitral.

Nas ruas.

Para ir ate o vale sabiamos que teriamos de nos identificar na policia local, que exige uma escolta que permaneca com a gente durante todo o periodo na vila. A razao ‘e porque o vale fica ha uns tres dias de caminhada com a fronteira do Afeganistao, e qualquer um pode passar caminhando, ja que nao tem estradas ou controle. Um unico caso ocorreu para que eles tomassem essa decisao, um ocidental de uma ONG que morava no vale ha muitos anos, foi sequestrado por talibans, e devolvido somente nove meses depois.

Apos o 11/set e ainda com esse acontecimento, o cuidado com a seguranca dos turistas ‘e imenso no pais, cada mudanca de cidade passamos por algum controle de passaporte, assim eles vao acompanhando os passos de cada um e sabendo exatamente onde estao os turistas.

Chegando na policia, fomos super bem recepcionados, queriam saber se fomos bem tratados no pa’is, se estavamos gostando, etc., e nos mostraram um quadro do turismo em Chitral. Nos ultimos 10 anos apenas 300 brasileiros visitaram a cidade, e no ano passado apenas tres.  Depois de familiarizados com a nossa escolta, voltamos para o hotel, sabendo que no dia seguinte eles estariam la nos esperando. Outros turistas que encontramos antes no caminho, contaram que o vale era um sossego, mas que estar escoltado era bem desagradavel, obviamente. Os europeus estranham muito em geral, infinitamente mais que a gente. Nao adianta ser hipocrita, n’os brasileiros estamos muito mais acostumados com o perigo, tanto que nao demorou muito para estarmos amigos dos policiais e super a vontade com eles.

Quadro de controle do turismo.

Na manha seguinte pegamos um jipe lotado para chegar ate o Vale Kalash e nos hospedamos numa homestay muito acolhedora. O dono era super simpatico, e professor na unica escola da vila. Contou-nos um pouco do povo Kalash, que ate hoje ninguem sabe exatamente a origem, pois muitos são louros de olhos azuis, entao alguns dizem que são descendentes do Alexandre o Grande, mas são tudo suposicoes.

Com a escolta, aguardando encher para sairmos.

Os Kalash são considerados pagaos para os vizinhos muculmanos. Ao conversar com eles, percebemos que mesmo pagaos, contavam com uma estrutura organizada de relaciomento com a divindade. Acreditam em um so Deus, possuiam os xamans  responsaveis por orientar espiritualmente o povo, purificar suas casas, abencoa-los e curar doencas. Apesar dos kalash buscarem preservar sua cultura,  muitos  já se converteram ao islamismo, e isso tem modificado bastante os costumes e crencas do povo.

Povo Kalash.

As meninas muculamas.

A vila.

O vale.

Uma coisa que me chamou atencao, foi o costume quanto as mulheres. No periodo menstrual, elas precisam sair de suas casas e ir ate uma outra no inicio do vale, para la permanecerem ate o fim do periodo. Sao proibidas de cruzar a vila ate que termine o ciclo, pois “sujam” o ambiente, fazendo com que o xaman tenha que purificar tudo por onde elas passam depois, atraves de longos rituais. O dono da guest house falou tambem que era otimo elas estarem la, já que causam muitos problemas familiares quando estao neste periodo, o que fez n’os darmos muitas rizadas. O pior ‘e que eu estava no tal periodo justamente quando estive la, infelizmente o xaman tera um trabalho enorme depois que eu for embora.

Mais.

Passeamos muito pelo vale, fomos ate a escola das criancas, e passamos quase a manha toda la. Como um dos professores tinha faltado e o outro, era o dono da homestay, enquanto ele dava aula numa sala, distraiamos as criancas na outra, e vice-versa. Ficamos constrangidos de estarmos ali com a escolta, e tentamos divertir as criancas para amenizar.

Escola.

Na sala de aula.

Na volta, encontramos muitas mulheres lavando roupas no rio, batendo na pedra, fomos tambem convidados a tomar chay em algumas casas, e deu ate para provar suas roupas tipicas, que era muito pesada, principalmente o acessorio da cabeca. Aquelas mulheres sao guerreiras em passar o dia belissimas, lavando roupa e cuidando da casa vestidas daquele jeito. Se fossemos nos ja colocariamos uma calca e blusa velha para esse tipo de atividade. Mas elas, mesmo quando estao na lavoura permanecem impecaveis. Foi inesquecivel passar os dias no vale, observando a vida pacata dos Kalashes. As vestimentas, os costumes, as tradicoes e a beleza fazem do lugar mais um dos vales incriveis e inesqueciveis do Paquistao.

Lavando roupa.

Cotidiano.

Mae com os filhos na varanda de casa.

Eu de Kalash!

A pequena vila atras da montanha.

Do Vale Hunza seguimos para Gilgit, a primeira cidade relativamente grande que passariamos do Paquistao. E Gilgit surpreendeu. Tinha um comercio e vida local muito tipica, e um cenario tambem de volta no tempo, como se estivessemos mais ou menos há uns 500 anos atras.

Centro de Gilgit!

Numa tarde fui ao correio tentar enviar umas coisas para o Brasil, e eles me mandaram primeiro ir ate a loja de tecidos e depois ao costureiro que embalaria a caixa que eu pretendia enviar. Eles não tem, assim como na India, o conceito de caixas prontas de papelao que nos temos, entao o procedimento ‘e bem artesanal. Chegando no “atelie”, uma cena me chamou atencao, tinha um jovem tomando banho de roupa na frente da loja atraves de um cano que saia de cima do predio, bem no meio da rua. Entrei na loja, e dois minutos depois, o tal jovem entrou, ele na verdade trabalhava ali, era um dos cinco costureiros do atelie, e tinha parado no meio do “expediente” para se ensopar de agua devido ao calor que fazia. O dono nos atendeu super bem, costurou o pano ao redor da caixa e não aceitou que pagassemos, pois eramos estrangeiros em seu pais e como dizem os muculmanos, assim como os indianos: “Guests are God!”

So um adendo, para gente nao sair por ai falando “nossa que lindo, o Oriente ‘e o maximo, eles falam que guests are God”. Jesus tambem diz o mesmo na Biblia, quando fala algo assim: “quando veres um faminto, um doente, um estrangeiro, etc, etc, saiba que sou eu revestido deles.” Desta citacao sai tambem o conceito de esmola, hoje tao banida pela apelo ao “nao vagabundismo” e a ideia de melhorar o mundo dando um rumo eficaz a vida do mendigo. Resumindo, “evoluimos” e lemos muito pouco o livro Sagrado na nossa religiao.

De Gilgit seguimos de van ate Skardu, por precipicios assustadores, que me fizeram rezar boa parte da viagem. Numa das paradas, pedi ao motorista para ir mais devagar. Como sempre, ao longo do caminho, muitos locais passaram mal, e como era Ramadam, nao tinham nem um gole de agua para tomar depois de colocar tudo para fora. Skardu fez parte durante muitos anos do Imperio Tibetano e ainda possue diversas estatuas de Buda esculpidas na pedra espalhadas na regiao.

Nosso transporte.

Paradas.

Apos providenciarmos transporte, comida, barracas, sacos de dormir e nos divertirmos comprando ingredientes para as refeicoes nos mercados de rua, estavamos prontos para subir ate o planalto Deosai que fica a 4000 m de altitude. La acampamos num frio suportavel e num ceu muito estrelado. Nosso companheiro Coichi, o japones (lembram dele?), continuava nos acompanhando. A noite, num bate papo com o motorista do jipe, ele desabafou comigo que estava muito triste, pois sua familia tinha lhe prometido para uma mulher que nao amava. Contou que namorava escondido ha quase dois anos, e nao sabia o que fazer, pois sua mae nao cedia em desistir da ideia dele casar com a tal moca. Me deu uma pena, mas nao tinha muito o que fazer, eu nao ia ficar falando de livre arbitrio para ele, porque nao fazia o menor sentido naquele contexto, a unica coisa que disse foi “peca para Alah que aconteca o melhor para voce, e lembre que algumas vezes o melhor para nos e para Deus, sao diferentes.”

Enquanto eu providenciava a comida para o acampamento, o Gui fazia amizade com os locais no mercado. Conseguem distinguir quem 'e quem?

No caminho para o acampamento.

Acampamento.

Deosai plains.

Mais.

De manha seguimos para o nosso principal destino, a Vila de Tarashim. No caminho passamos por paisagens, vilas, casas isoladas no meio da vegetacao, plantacoes, cachoeiras… que olha fazia muito tempo que eu nao via um cenario tao tao lindo. Essas regioes da karakoran sao inexplicavelmente belas, voce fica sem folego.

Vilas no caminho.

Tarashim!

Dormimos em Tarashim a luz de velas, depois de um delicioso jantar, para variar frango karai, a comida tipica da regiao, que ‘e de se lambuzar de tao bom. Na manha seguinte acordamos cedo para uma caminhada ate a montanha Nanga Parbat com mais de 8000 m, passando pela Vila de Rupal. Como a montanha ‘e o maior paredao de um acampamento base ate o topo, eu pensava que o passeio ia ser meio sem graca, do tipo anda anda ate chegar na montanha, tira umas fotos e vai embora. Mas o Pakistao mais um vez, impressionou!!! O passeio foi simplesmente o mais lindo de toda a viagem. Se eu fosse escolher o melhor passeio desde o comeco da viagem, levando em consideracao beleza natural e cultura, eu diria: Rupal.

No caminho voce passava por vilas tipicas com suas casas de barro, infinitas plantacoes dos mais variados alimentos, paisagens de montanhas absurdas com pico nevado, muito verde e um ceu mais que azul. Como o ceu estava absolutamente limpo, sem nenhuma nuvenzinha, o tom das plantacoes com era meio alaranjado e brilhante. Lindo, lindo, lindo!!

No dia do passeio, o nosso guia e dono do hotel tinha passado a noite em claro, pois era um dia especial do Ramadan, em que eles ficam de vigilia rezando a noite toda, somado ao fato dele vir de um jejum, era mesmo assim um sorriso em pessoa. Uma disposicao impressionante. Nos sentimos uns m… perto dele, pois estavamos todos cansados da viagem do dia anterior, e por termos acordado tao cedo.

Ao longo do caminho, um tiozinho veio nos dar as boas vindas e, de forma muito acolhedora colheu umas batatas e uns rabanetes da plantacao e nos deu para levarmos na nossa caminhada caso tivessemos fome. Nos convidou para na volta passarmos para tomar um chay na sua casa. Foi um momento emocionante. Caminhei com aquilo no coracao, encantada com a simplicidade e simpatia dos moradores.

Finalmente chegamos ate a tal montanha, depois de sete horas de caminhada, e a visao era im-pres-si-o-nan-te. De torcer o pescoco para ver o topo, mas com todo um cenario norte, sul, leste e oeste maravilhoso, a montanha era so mais uma coisa incrivel no meio daquele lugar encantado…

A montanha!

Paramos entao para descansar, comer e curtir o astral do lugar. Quando comecamos a voltar, avistamos o tiozinho nos chamando para tomar o chay, ele ja estava nos esperando com um lanche da tarde. Como nem todo mundo queria parar por causa do horario, já que tinhamos umas cinco horas pela frente e ia anoitecer, tivemos que lamentavelmente agradecer, mas ele nao se contentou: veio correndo com uma bandeja cheia de batatas descascadas, subiu em cima do muro na posicao “banheiro oriental” com seus la 70 anos e ficou conversando com a gente ate comermos boa parte da bandeja. Conversamos um pouco, mais que agradecemos, e seguimos a caminhada. Ele tinha ficado cozinhando as batatas no fogo ate nos passarmos de novo. Seriamos recebidos com chay e batatas. Nao ‘e de matar? Simplesmente fantastico!!

Um pouco mais a diante, passamos no meio de umas casas no meio de grandes plantacoes, e quando vejo, mulheres com seus chales coloridos saem do meio da plantacao e comecam a conversar comigo. Os meninos se distanciaram, pois elas so conversam com mulheres e não gostavam de ser fotografadas. Me deram sua “ foice” e perguntaram se eu queria experimentar cortar a plantacao junto com elas, falei que sim, e la fui eu… Trabalho duro! Logo em seguida devolvi a foice dando risadas, com cara de “ok, já cortei! Posso ser amiga de voces agora?” Elas comecaram a me perguntar varias coisas: da onde eu era (obvio que não sabiam onde era o Brasil), se eu era casada, quantos anos tinha, meu nome, se tinha filhos, etc, etc. O repertorio mais ou menos de sempre. E depois já sorridentes e sentindo-se mais a vontade, tipo eu tinha passado no teste para ser amiga delas, me disseram: “sing a song!” Sorri, falei que tinha vergonha, elas insistiram e eu nao exitei. Comecei a cantar Garota de Ipanema para elas, uma das unicas cancoes que sem cantar bem certinho do inicio ao fim, sem inventar palavras. Elas adoraram e comecaram a cantar para mim tambem musicas paquistanesas. Ficamos cantando umas para as outras, enquanto o Gui discretamente tirava fotos, e eu nem percebia.

Elas não queriam que eu fosse embora e nem eu queria continuar caminhando, mas estava todo mundo me esperando. Quando derrepente foi saindo uma multidao de mulheres debaixo das plantacoes, se agrupando ao redor de nos para cantar. Foi tao tao tao tao emocionante… que os meninos nem se importavam de esperar um pouco mais. Eu me controlava para nao chorar na frente delas e elas nao entenderem.

Eu era a de lenco florido.

Fiquei babando naquela vila, naquela vida em comunidade, naquele lugar magico, sem energia eletrica, com uma vida tao perto da natureza e tao devota. Quando fui embora, uma multidao de criancas me seguia dando tchau, era uma gritaria. Demorei algum tempo para voltar a falar e me recuperar do momento que vivi.

As criancas.

Durante a volta, nosso guia, que continuava tao disposto quanto no inicio da manha, ia parando de tempos em tempos para cumprimentar os homens da vila, que eram muito curiosos e acolhedores com a gente. Uma hora ele tambem parou para pegar gelo. O mais impressionante foi de onde: do glacial. Uma cena surpreendente, pegar o gelo raspando a montanha…

Parada para cumprimentar os amigos!

Pegando gelo!

Chegamos exaustos no “hotel”, e no meio daquela vila recebemos um coca-cola gelada!!! Ele fez um jantar delicioso, e enquanto preparava, aproveitei para tomar um banho de balde pelando. No quarto, a luz de velas, dormimos emocionados pelo dia inesquecivel que tivemos. La não tinha energia eletrica em nenhum horario do dia, e deveria nunca ter, pois o lugar era realmente magico!

A tchurma: Jony, Guia, Gui, Marco e Coichi.

O vale magico de Hunza!

Atravessado os primeiros kilometros da Karakoran “highway” e as primeiras vilas no Paquistao, eu me sentia tao impressionada e tao tocada pelo lugar que eu não saberia como descrever. Como a maior parte da Karakoran fica em regioes super tranquilas, atravessando regioes isoladas no meio das montanhas, saberia que viajar pelo Paquistao seria um sossego, tirando a dificuldade de transporte e a inseguranca da estrada.

Os vilarejos do Norte do Paquistao são lugares calmos, isolados, com uma cultura muito tipica, comida deliciosa, pessoas acolhedoras e tranquilas, que vivem num dos lugares mais lindos do mundo, no meio de uma natureza mais do que fantastica, sem ter a menor ideia disso. A impressao que da, ‘e que se o pais entrasse num colapso, aqueles lugares continuariam intocados e na santa paz que viviam.

Vale de Hunza!

Karimabad, a principal vila do Vale Hunza, foi uma das que mais gostei. Poderia viver ali tranquilamente por alguns anos. Ficava na encosta de uma montanha, com vista para um vale gigantesco, circundada por diversas montanhas nevadas. Bem perto da nossa pousada, que foi uma das mais simples que ficamos, por sinal o quarto do Joao e do Marco me dava ataques de risos, havia diversas casas ao longo de um canal. Um dia, no fim de tarde, saimos para caminhar pelo lugar e me emocionei varias vezes com o que vi.

De novo aquela sensacao de tunel do tempo, de estar de frente com formas de vida tao diferentes das nossas. Se não tivesse viajado tanto com Gui, por paises tao diferentes e pouco desenvolvidos, não acreditaria se me contassem que tantas pessoas vivem assim ainda. E isso não se da somente pelo isolamento das regioes, mas pelo rumo que algumas sociedades orientais não tomaram como no ocidente, e que as deixam tao intocadas.

Moradores!

As casas eram de barro e madeira. Na parte de baixo ficavam as cabras e as vacas, na parte de cima a casa da familia. O fogao era uma grande furo numa grande pedra, onde la dentro se fazia o pao e se preparava as comidas. Energia eletrica nunca se sabia se viria ou não. As vezes tinha luz, as vezes não, mas boa parte da noite era a luz de velas. Do lado das casas, uma pequena plantacao de verduras. Nas plantacoes um pouco maiores, mulheres camponesas trabalhavam CANTANDO, vou repetir, porque não sei se voces entenderam: CANTANDO. Voces conseguem se imaginar hoje um grupo de trabalhadores trabalhando pesado e cantando? Por debaixo daquelas altas plantacoes de milho, saia um sari colorido e as vozes. Ao longo do canal, pastores passavam com suas ovelhas, mulheres com seus montes de gravetos sobre a cabeca para fazer fogo, assim como baldes, bacias, palhas, tudo sobre a cabeca.

As casas!

A senhorinha me ve, para para me cumprimentar, me da um abraco apertado e segue... emocionante!!!

O sol comeca a se por, e as mesquitas comecam a chamar fervorosamente, desputando umas com as outras quem chamava mais alto. O barulho passa a se tornar homogeneo, como se houvesse um so hino, uma so chamada de fundo, embelezando ainda mais o por do sol. As mulheres correm para suas mesquitas e os homens para as deles, os homens oram em silencio, as mulheres oram em voz alta, aquele som parece como mantras profundos, que ecoam na alma. Já não se ve quase mais o caminho, so a luz das velas iluminando as casas e as mesquitas. ‘E hora de voltar para pousada silenciosa e enfeiticada com a beleza da vida no Vale de Hunza. Inesquecivel!

O senhor voltando para casa com sua cabra...

Entre as montanhas mais imponentes do mundo!

De Kashgar seguimos pela Karakoran sentido Paquistao, nosso proximo destino. A Karakoran highway ‘e a estrada que atravessa algumas das maiores cadeias de montanhas do mundo, dentre elas os Himalayas. A estrada levou 20 anos para ficar pronta,  e a sensacao que da, ‘e que precisa de pelo menos mais 20 para ficar perto de pronta.

Assim que nos afastamos um pouco de Kashgar e comecamos a entrar na estrada, niguem mais falava dentro do carro, eram so suspiros e mais suspiros. O tamanho das montanhas era impressionante, voce torcia o pescoco todo para cima de dentro do carro e não conseguia chegar ao fim em varios pontos. Uma obra natural impressionate! Estavamos todos chocados e maravilhados.

Incrivel...

Paramos no Karakul Lake, um lago azul maravilhoso circundado por montanhas com seus picos nevados para quebrar a viagem, dormindo num yurt e seguirmos no outro dia ate o Paquistao. Negociamos com um local cama e comida  e apagamos depois de passear pelo lago. As 3:30h ele acordou para comer, pois logo iria clarear o dia e comecar o Ramadan. Aquele tapa na cara, pois nos estavamos reclamando que teriamos que acordamos as 06:00h e seguirmos para pegar o onibus que nos levaria ate Sost.

Karakul lake!

Passamos pela imigracao, e avistamos os primeiros turistas: dois alemaes, dois casais de espanhois e um noruegues. No onibus-cama, alem de nos, o restante era paquistanes. Boa parte de Pechawar, perto da regiao onde morreu o Bin Laden. No onibus, o motorista comecava a discutir com alguns passageiros, e voce tinha certeza, na cabeca de um brasileiro, que aquilo acabaria em socos e pontapes, mas não passava de discussoes calientes, sem se levantar um dedo. Os turistas olhavam chocados, principalmente o nordico. Eu dava rizada. As vezes eles se agrupavam para discutir ao redor do Joao, que tinha que se desviar dos cuspes irados.

O Jony no meio da discussao!

Depois de muuuuuuuuuuuuitas curvas e precipicios chegamos em Sost. O pessoal da fronteira foi super amistoso,  com calorosos boas vindas, sem aquele clima tenso de fronteira e nos estavamos super empolgados com o Paquistao e o povo. No centro da cidade, os famosos caminhoes enfeitados do pa’is circulavam. Parecem caminhoes de trio eletrico do Brasil, tamanho o numero de enfeites e cores. E são usados simplemesmente como caminhoes de transporte de carga. Há uma certa competicao de quem tem o caminhao mais bonito. E ‘e dureza decidir.

A estrada.

Vista!!!!!!!!

Passageiros!

Ainda meio tontos com as curvas e procurando hotel, se aproximou de nos um senhor tcheco.  Ele tinha um porte e seriedade de um ex-militar e bisneto de um nobre. Veio perguntar se nos interessavamos em dormir num hotel mais afastado da cidade e seguir no dia seguinte para Passu, onde era nossos planos. Ja que a cidade ali nao tinha muitas atracoes. Para ir ate esse hotel afastado precisava de transporte, e o interesse dele era dividir os custos com a gente. O casal de espanhois topou ir tambem e fomos todos ao tal hotel.

A cidade " feia" da fronteira...

Os belissimos caminhoes!

Ao chegar, o lugar era maravilhoso, no alto de um vale, mas os banheiros do hotel eram muito simples e so tinha agua fria. Não era o que eu esperava para depois daquele onibus-curvas. Eu e a espanhola pedimos se era possivel esquentar um balde de agua quente e o tcheco já foi logo dizendo: “poxa, os latinos são tao limpos, exigem quarto e banheiro limpo, isso ‘e muito bom, voces desenvolvem o nivel dos hoteis para os turistas… nos tchecos somos como porcos, não nos preocupamos com isso.” Logo vimos que o senhor-general era uma figura. Ele tinha 72 anos e estava viajando sozinho no Paquistao pela segunda vez. Esse era o seu pais numero 154, e ainda  acampava, enquanto nos brigavamos com o gerente pelo banho de balde, ele montava sua barraca no quintal para economizar. O cara era um monstro como diz meu pai, no bom sentido.

A vista do hotel!

Fui tomar banho, pois estava esgotada da viagem e da sensacao de inseguranca das curvas e precipicios. Quando comecei a me secar a luz de velas, vejo sangue na minha perna. Me assustei. Olho para os lados, para cima e para baixo e não vejo nada. Dali um pouco, mais sangue, agora na outra perna. Limpo e não tem nada. Comeco a pensar que enlouqueci. Procuro da onde vem aquilo e nao acho nada. Fico so ouvindo gotas do chuveiro cairem no balde. Vou pegar a outra vela que tinha no quarto para iluminar melhor e acho meu dedo cortado jorrando sangue. Que alivio, eu nao tinha enlouquecido, so estava realmente esgotada.

Não entendo aonde posso ter enfiado a mao e ate hoje isso ‘e um misterio. Passado o susto, tomada banho, comecei a raciocinar. Jantamos e me tornava pouco a pouco cada vez mais humana e menos fera. Os meus olhos arregalados comecavam a serenar.  O Gui e os Manos so me olhavam assustados, pois estava parecendo um bixo antes de ir tomar banho. Já não aguentava mais de fome, vendo aquele banheiro horrivel, sem luz e tendo que negociar balde quente. Com a volta da minha consciencia, aproveitamos para conversar com os espanhois e o tcheco. E dormimos a luz de velas!

Dia seguinte comecariamos as nossas aventuras no Paquistao, Inicialmente seguindo ate Passu, uma vila logo ao lado. Passu era cravada nas montanhas e prometia ser maravilhosa, com algumas atracoes ao redor. O motorista do jipe parou na frente de um hotel e disse: “aqui ‘e o centro de Passu”. Não vi nenhum comercio. O tcheco brincou: “aqui entao que fica o shopping, cinema e comercio?” O motorista não entendeu a piada. Olhamos o hotel e disse ao Gui que não dormiria de novo num hotel assim. Como tinha creditos, seguimos para o melhor hotel da vila, que significava paredes brancas e bem pintadas, cama de casal com cobertor cheiroso e banheiro ocidental em bom estado.

No transporte!

O hotel ficava de frente para montanhas gigantestas, num lugar absolutamente calmo, e absurdamente lindo. Ficamos tirando foto da frente do hotel de tao lindo que era o lugar. Logo comecou a chover. Fazia muito tempo que não via chuva e sentia um certo frio. Aproveitamos todos para descansar e “planejar” os proximos dias, pois tinhamos pouco menos de um mês para atravessarmos o Paquistao e chegar a India, já que os Manos tinham passagem marcada por Nova Delhi.

O dono do hotel era um senhor muito simpatico e apaixonado pela —– Button. Era do partido dela. E contou que o seu marido tem feito um bom trabalho, apesar do pouco apoio que tem da populacao. Como o Paquistao ja foi diversos reinados e so ganhou sua independencia no final do anos 40, quando os ingleses dividiram o continente indiano em tres partes, ficando a parte muculmana para os paquistaneses, nao ha um sentimento de uniao por ser paquistanes; pois trata-se de diferentes etnias, isolados geograficamente e com seus proprios reis, ate nao muito tempo atras.  A Karakoran, por exemplo, so na decada de 80 ficou pronta, entao imaginem essas regioes isoladas tendo que fazer parte agora de um so pa’is.

A 50 km dali havia um vilarejo chamado Shimishau, que prometia ser incrivel. Aestrada levou 17 anos para ficar pronta, e tambem passou a mesma impressao, que não estava pronta… O visual no caminho era de novo impressionante e Shimishau ma-ra-vi-lho-sa. As mulheres e homens da vila pareciam tirados da Nacional Geographic.

A estrada!

Shimishau!

Momento mastercard!

A menina mais linda!

Incrivel!!!

A senhorinha da vila!

Ficamos numa homestay e conversarmos bastante com um paquistanes, que era guia de uma inglesa que estava vindo ao Paquistao pela setima vez, sempre para a regiao das montanhas. Perguntamos do Bin Laden e mais uma vez nos disseram o que a maioria dos paquistaneses falam, que o Bin Laden morreu há 4 anos atras. O dono do homestay desmentiu dizendo que ele tinha morrido meses atras como foi falado pelos americanos. Mas foi o unico. Ha muita “teoria da conspiracao” sobre o assunto, entao fica dificil saber aonde esta a informacao correta, mas tambem nao me disperta tanto interesse qual foi a data e local exatos. Alguns falam que ele nao morreu, porque nao apareceu o corpo, e dai a coisa vai longe…

Nossa homestay!

O dono da homestay!

Os paquistaneses tem uma grande magoa da midia ocidental e dos USA pela imagem que pintam do Paquistao la fora. Muito ‘e por ser vizinho do Afeganistao. Esclarem que os talibans, que na epoca da ocupacao da Uniao Sovietica no Afeganistao, eram os estudantes islamicos que lutavam contra a transformacao do Afeganistao em um Estado Comunista. Com o apoio de treinamento e armamento dos Estados Unidos, os taibans conseguiram expulsar os sovieticos do pa’is. Porem, apos conquistar o poder, os principios dos talibans e dos americanos para a conducao do Afeganistao eram totalmente divergentes. E nesse ponto a historia ‘e longa e, eu entendo muito pouco… mas no fim das contas o feitico virou contra o feiticeiro. Por algum motivo, o taliba fez alianca com a antiga oposicao Al Queda, e os interesses deixaram de ser apenas locais.

Os talibans tem um numero variado de faccoes, e algumas delas ficam na fronteira com o Paquistao. Porem esssa fronteira ‘e so uma linha num mapa, existindo portanto um livre acesso para os dois lados, uma regiao do pa’is chamada de Cinturao Tribal, onde o proprio governo do Paquistao nao tem controle. Mais ou menos como ocorre nas nossas favelas.

Como comentei antes, o Paquistao ‘e como se fosse varios paises num so territorio, e decidimos entao nao incluir o Paquistao-Taliban no nosso itinerario. Com toda essa introducao o Paquistao pode parecer um lugar perigoso, e ‘e esta a revolta da populacao local. Os atentados dos ultimos 10 anos, mataram cerca de 35 mil pessoas. Numero muito proximo do que a violencia do Brasil mata por ano. Na regiao extremo-norte do Paquistao, eu caminhava tranquilamente apos ter anoitecido com dinheiro e maquina fografica, com sensacao zero de inseguranca, sentimento que eu nao teria nem no bairro da minha casa. Ja quando tivemos que atravessar regioes com historico de conflitos me sentia naqueles cruzamentos com alto indice de assalto. Na verdade, nao chegava a tanta inseguranca, mas esse ‘e o exemplo que mais se assemelha.

 

 

 

 

 

O contraste e a beleza da Kashigaria!!

Depois de bem instalados, fomos correndo ao restaurante do hotel almocar. Já eram quase seis horas da tarde e so tinhamos tomado café da manha. Olhamos o prato de uns chineses ao nosso lado, que pareceu um frango com molho vermelho, com tomates e pimentoes e não exitamos, pedimos o mesmo. Ao chegar o prato, os tais tomates eram pimentas malaguetas e apesar do sabor, estava muito dificil de aguentar a quantidade de pimentas…

Apesar do calor que fazia em Kashgar, conhecer a cidade era uma atracao a parte. Lembrou-me dos meus primeiros dias de Africa, em Zanzibar, quando saimos para conhecer o comercio local. Na ruas voce encontrava pessoas vendendo frutas, fazendo pao, consertando sapatos, “farmacias” de produtos naturais que vendiam iguarias como cobras secas, varios antiquarios bem falsificados, artesanatos dos mais variados, e muita, mas muita gente.

Eu me sentia em casa. Adoro esse mundo não globalizado, apesar dele me encomodar um pouco por ser mais sujo e parecer as vezes meio caotico, voce ve ali que ainda existe a mao do homem e suas aptidoes. Tem o cara que sabe fazer pao como ninguem, o cara que conserta sapato como ninguem, o cara que faz talheres como ninguem, e assim por diante. Tudo ‘e mais rudimentar, mas parece muito mais verdadeiro.

O caos!

Artesao!

Quebrador de gelo!

Sapateiro!

Costureiro!

O barbeiro!

O padeiro!

No meio do comercio, algumas cabras...

Se tirassem as motos, os poucos carros que circulavam e os celulares, voce facilmente poderia se transportar para uns 500 anos atras ou mais. Os predios eram ruinas, as profissoes artesanais, as roupas pareciam grandes panos jogados pelo corpo, e as carrocas de boi que passavam no meio das motos, não deixavam duvida que nos estavamos no passado.

Iguarias!

Temperos!

Cabeca de bode!

Mais iguarias!

Há uns poucos kilometros dali, era um choque cultural entrar no lado chines. Lojas de departamento de eletro-eletronicos, shoppings com marcas internacionais, hoteis e transito organizado. A diferenca cultural e religiosa era gritante, entre os uyrgurs que habitavam o “velho centro” com o chines: calcas jeans, bones virados para tras, MP3 nos ouvidos, facebook, e nem se via religiao alguma. Com o comunismo, muitos chineses se tornaram ateus, outros continuaram budistas e outros seguem alguns preceitos de Confucio, sem nem mais se dar conta. Quando perguntavamos sobre qual era a sua religiao, diziam minha religiao ‘e a internet, outros apontavam para os jogos eletronicos e assim por diante. O chines comum ama a vida moderna e nao troca ela por nada.

Lado Chines!

O contraste no transito!

Os uygurs são um povo de origem turca, parentes dos uzbeks, kirguis e kazaks, que viviam na regiao da Kashgaria, na epoca parte da Asia Central, ate ser anexada a China por volta dos anos 50. Com isso, gradativamente os uygurs vem pouco a pouco perdendo sua identidade. Na ansia dos chineses não so de copiar, mas de padronizar tudo, e ‘e claro dominar a regiao, enviaram milhares de chineses da etnia predominante Ham para viver ali, principalmente nos ultimos 20 anos. Atraves de incentivos de impostos e oportunidades de trabalho, muitos chineses migraram para Kashgar, e aos poucos e a forca, t^em tentado acabar com a cultura uygur.

Os uygurs são chamados de terroristas por não aceitarem a ocupacao e o clima tem se tornado cada vez mais tenso na regiao. Nos dias em que tivemos por la, pudemos perceber a tensao em funcao dos milhares de policiais nas ruas, principalmente em frente a mesquita mais importante da cidade. Pelotoes com escudos e capacetes pareciam preparados para uma grande batalha. Na semana anterior, eles haviam incendiado um restaurante chines como forma de protesto aos incentivos dados aos imigrantes e a discriminacao que vem sofrendo.

Movimento ao redor da mesquita!

Frutas nas mesquitas a postos, esperando o sol se por, p/ quebrar o jejum.

Eu e o Jony descansando na frente da mesquita!

Numa lanchonete que paramos para comprar agua, um uygur nos falou um pouco da situacao disfarcadamente, com medo que os policiais percebessem. Ele tinha os olhos cheios de lagrima e demonstrava muita tristeza por ver que eles perderiam essa guerra em breve, pois eram minoria perto dos chineses.

Me tocou muito a tristeza daquele homem. Olhando para os dois lados da cidade, podia imaginar quao dificil deveria ser integrar duas culturas tao contrarias. Eles se recusam a aprender o mandarin, e fazem cara feia quando voce se engana e agradece em mandarin alguma coisa, logo nos davamos conta, e agradeciamos em uygur, que ‘e o mesmo obrigado dos kazaks, kirguis e uzbeks.

No domingo fomos ao famoso  Sunday Market deles, que prometia ser imperdivel, mas não achamos tanto, se não fosse a hora em que resolvi comprar um vestido longo para usar no nosso proximo destino – Paquistao, e todos os locais pararam para ver minha negociacao, mais ou menos umas 30 pessoas assistiam e gesticulavam tentando me ajudar a falar precos menores. Muito acolherdor. Fiquei feliz com a minnha compra e as mulheres elogiaram a escolha.

De la seguimos para o Animal Market que foi um choque. Não que eu já não tivesse visto coisa parecida nas nossas viagens, mas me senti mais no tunel do tempo do que nunca vendo aquelas vacas, yaques, cabras, bodes, homens com suas roupas panos, chao batido, comercializando os animais. Uma cena inesquecivel! Ali se tirassem os carros, tranquilamente me transportaria para mil anos atras, parecia aqueles fimes epicos. Kashagar foi um dos lugares mais legais que conheci e da para entender porque foi um dos centros comerciais mais importantes da rota da seda.  Recomendo que se forem a China, nao percam de ir ate la.

Sunday market!

Chegada dos Manos!

De Koshkor seguimos no dia seguinte para Narin, uma cidadezinha muito bonitinha, que ficava perto de mais um vale bonito, para mais uma passeio a cavalo, e que tinha um Caravansarai. Da para perceber que no Kirguistao os programas são sempre mais ou menos parecidos: natureza, montanhas, yurtes, cavalos ou trekkings, escaladas e por ai vai.

Caravansarai.

Acabamos não podendo fazer o passeio, pois nosso cavalo fugiu durante a madrugada e no fim das contas so fizemos uma bela caminhada. O Caravansarai estava bem conservado por fora, conseguindo nos dar uma boa ideia de como eram os hoteis da epoca da rota da seda.

Aproveitamos o lugar, mas o que mais gostei no fim das contas foi a cidadezinha de Narin, já que adoro cidadezinhas. Elas sempre mostram como as pessoas vivem, os costumes do povo e o dia a dia. Tivemos a sorte de nos hospedarmos pela CBT em mais uma simpatica home stay. Foi o lugar que mais gostamos em relacao a limpeza e comida. A comida simples do Kirguistao ‘e muito ruim, não  sei como são os bons restaurantes de comida local, mas “o feijao com arroz deles ‘e de matar”. No geral ‘e sopa de repolho com carneiro duro e gorduroso, um dedao de oleo cobrindo a sopa, deixando ela alaranjada, e plov, arroz com pedacinhos de cenoura e carneiro do mesmo tipo.

Nessa casa, pela primeira vez comemos arroz com carneiro e molho de tomate, e apesar do carneiro estar uma pedra, o molho de tomate estava uma delicia. Foi a melhor comida local do Kirghistao.  Saimos para caminhar pelas ruas e bem perto da nossa home stay, estava tendo um aniversario infantil e a cena era muito familiar, os homens do lado de fora conversando, as mulheres correndo com os filhos, chapeuzinhos na cabeca para todos, tudo muito parecido.

A pacifica cidadezinha de Narin era um encanto. Ganhamos um grande suco de frutas numa padaria, quando um senhor simpatico ao comprar pao viu que eramos turistas, e quis nos presentear, pegando na prateleira um suco pronto de pessego de uns 3 litros. Agradecemos um monte e ele sorridente se despediu voltando para casa. O suco era delicioso, deu para dar férias a dupla: agua e coca-cola. Acho tao bonito esse jeito das pessoas quererem tratar o estrangeiro, que ‘e sempre uma licao cada vez que acontece.

No Brasil já comecamos a hospedar estrangeiros pelo couchsurfing e temos tido experiencias legais e outras nem tanto. Exige doacao de tempo, energia e desorganiza sua programacao, mas depois de tanto tempo no oriente se a gente não aprender a se doar muito mais pelo outro, na minha opiniao, acho que deveriamos ir a m…

A pacata Narin.

A noite jantamos na casa com quatro hospedes locais, que bebiam muita vodka e contavam historias, e demos algumas rizadas e conversamos bastante sobre varios assuntos interessantes. Um deles, no auge da sua melancolia provocada pela vodka comecou a “lembrar dos bons tempos do comunismo”. Disse que antes eles não tinham dinheiro e podiam comprar, e agora eles tem dinheiro, mas nao podem comprar. Contou que os Kirguis eram um povo nomade e rural, viviam na sua maioria como pastores e que os russos desenvolveram bastante sua condicao de vida. Todo mundo tinha saude, educacao e moradia, so não podiam enriquecer, e depois que eles sairam os Kirguis ficaram meio perdidos, e ainda não aprenderam como gerenciar a vida capitalista.

Faz bastante sentido se tratando de um povo simples, acostumado apenas com o pastoreio. Investigando um pouco mais, vi que aquele que falava adorava seguranca, trabalhava há 17 anos na Unesco e queria uma vida mansa e pacata. Ele disse: “eu so quero meu salario no final do mês e dar estabilidade para minha familia.”  Alem de nunca ir a mesquita. Entao para ele o comunismo parecia ideal.

Já quando voce fala com outros, seja pelo amor a religiao, ou seja pelo espirito empreendedor, eles preferem muito mais a derrota do Stalin do que  qualquer outra coisa. No Kirguistao isso ‘e uma pouco diferente, comparado as opinioes das pessoas do leste europeu, la so encontramos pessoas idosas com saudades do comunismo. Já aqui, encontramos mais pessoas que gostavam independente da faixa etaria, talvez pela simplicidade do pais quando os russos chegaram e, a pobreza quando deixaram…

No dia seguinte seguimos para Bishikek, pois estava para chegar os meus irmaos, nossa segunda visita. Eu estava muito feliz e apreensiva, feliz por saber que eles poderiam entender um pouco o que eu e o Gui estavamos fazendo ha tanto tempo, e tudo o que uma viagem como essa poderia trazer a eles e, apreensiva se eles iriam se adaptar aos “desafios”. Ate agora todas as nossas visitas não experimentaram como nos viajamos, sempre quando eles chegam, por uma questao ate de respeito haha, alteramos completamente o nivel da viagem em termos de conforto, ritmo e programas. Mas os Manos como eram jovens, não precisariam ser poupados de nada, e estavam dispostos a seguir o nosso ritmo. Eu pensava: “uma coisa ‘e a ideia, outra ‘e a realidade, vamos ver!” Quantas vezes na vida nossas ideias se mostram tao diferentes da realidade experimentada ou imaginada, não ‘e?!

Na madrugada de sexta-feira eles chegaram e foi aquela emocao, fazia quatro meses que não nos viamos. Escolhemos um quarto simples e aconchegante, o mesmo hotel da russa. Os olhos deles brilhavam quando viram o quarto. Deixamos eles descansarem umas duas horinhas para não se perderem depois com o fuso e saimos para tomar um café. Já comecamos a sacanea-los comprando umas bebidas de ruas muito tipicas aqui, que eles logo cuspiram no chao, sendo que uma delas eu e o Gui somos apaixonados e eles não entendem. ‘E uma especie de iogurte natural aguado, salgado e com gas, ‘e muito bom. ‘E chamado de ayran na Turquia, de bla bla bla no Iran, de Lassi salgado na India, de não sei o que no Kirguistao, etc, tem por todo Oriente.

Passeamos pela gostosa Bishikek, eles tambem adoraram o clima da cidade. A noite saimos para comer no Olives, um delicioso restaurante que descobrimos, os donos são um casal jovem de namorados e suuuuper simpaticos, que nos tratavam como reis. A comida ‘e toda ocidental, entao dei umas boas férias para as sopas de repolho e oleo. Eles queriam experimentar a comida local, falei: “ aproveitem Bishikek, que depois voces terao muito tempo para comer sopa de repolho e carneiro”. Eles me ouviram!

No dia seguinte fomos ate o bazar principal, onde teriamos que encontrar um carro para nos levar ate Arselambob. Eles experimentaram a guerra dos motoristas tentando nos oferecer a melhor carro e preco, acabamos fechando com um cara quando vimos a qualidade do carro, que deu uma volta na quadra e nos colocou em outro haha, a sorte que era melhor. Atrasou duas horas para sairmos, pois um dos passageiros estava saindo do dentista (acreditam???) e chegou cuspindo sangue, era verdade mesmo. Deixamos o moco sem dente em casa e pegamos sua esposa e filho, esperamos ela fazer as malas, deixamos seu marido em outra casa, paramos num posto de gasolina, o motorista colocou oleo, gasolina, calibrou os pneus e daí, finalmente fomos.

Essa coisa do senso de servico, da pontualidade que temos no Ocidente, do recibo, do pegar o dinheiro de volta caso voce não goste do servico, nada disso funciona aqui, tudo funciona no fio do bigode, e com muito atraso, de um modo muito caseiro. O Jony e o Cuxo não acreditavam, estavam se divertindo com a (des)organizacao do evento. Depois de quase 12 horas de uma paisagem chocante, muito calor e quentes discussoes familiares, chegamos em Arselambob.

Pela estrada....

Um representante da CBT veio nos receber e já nos levou para uma home stay. A casa era otima, tinha uma vista privilegiada, mas o banheiro era sinistro, sujerrimo e oriental (no chao). Os Manos já falaram na hora: “ ah mas não vamos usar esse banheiro nem a pau.” Falei: “esperem a coisa apertar para o lado de voces para ver se voces não abrem uma excessao, vamos ficar dois ou tres dias aqui”. Não deu outra, no ultimo dia o grande chamado veio de madrugada, e eles tiveram que se adaptar ao banheiro em plenas tres da manha hahaha. Muito engracado era eles discutirem qual era a melhor tecnica para se segurar na tal nova posicao.

Home stay!

Centro de Arselambob!

Muculmanos jogando xadres nas casas de cha!

De manha fechamos um passeio a cavalo que passaria por uma grande cachoeira (ate ai nada de novidade para um brasileiro), depois por alguns vales lindos, dormiriamos nas montanhas a 3.500m de altitude, e voltariamos pelo meio de uma floresta de nozes.

O passeio foi magico e aproveitamos muito. O cavalo encomodou um pouco o joelho dos dois, o Marco tem um joelho capenga por causa de uma operacao, e o Joao não sei, sei que os joelhos deles sempre encomodam, por causa da falta de espaco nos transportes, ou a cela apertada, etc. No meio do caminho comecou a chover e a sorte ‘e que estavamos chegando aonde iriamos dormir. Os organizadores tinham uma casinha de barro onde faziam a comida e dormiam, e nos aproveitamos para ficar ali ate passar a chuva e montarmos as barracas. Essa seria a minha primeira experiencia numa barraca de verdade, so tinha ficado numa quando era crianca, e apesar da “rutesa” da outra viagem, dormimos em barraca com cama, e dormimos tambem ao relento na beira do rio e no deserto, mas na barraca, com saco de dormir seria minha primeira vez.

Achei a experiencia possivel, mas acho que a soma de altitude com barraca não ‘e a minha praia. Se for para ficar sob colcao inflavel num caping, sem altitude e mais quente, com chuveiro e area para cozinhar, daí acho que ate ia gostar.

Mano JOny!

Nos divertimos muito com os organizadores do programa, um dos tiozinhos não parava de dancar os sambas brasileiros que transferimos para o seu celular. O Jony torceu o pe na volta pela floresta de nozes, mas depois se recuperou, o passeio foi incrivel e estava muito feliz de viver aquilo com os Manos.

Nos protegendo da chuva!

Nossas barracas.

Um pouco do lugar.

Floresta de nozes!

Descansamos na home stay e dia seguinte seguimos para Osh, uma das ultimas cidades antes da fronteira com a China. A cidade era muito quente e umida e contava com um mercado de rua legalzinho e um parque de diversoes decadenterrimo no meio de um parque. Pareciam os brinquedos dos parques de diversoes que iamos na praia quando eramos criancas. Levei o Manos para um restaurante indicado pela dona do Olives para dar umas férias a comida Kirgui. Eram so quatro dias, mas já dava para sentir que eles estavam encomodados. Depois de descansar em Osh seguimos para Sary Tash, uma vila maravilhosa bem perto da fronteira. La fazia frio e a casa era congelante. O visual de montanhas nevadas circundava o lugar. Aproveitamos para caminhar na pastagem com as montanhas de fundo.

Sary Tash!

Mais vila!

Mais...

Finalmente seguimos para a fronteira, que não foi facil de atravessar. Primeiro tivemos que caminhar a pe por aquelas terras de ninguem ate chegar na fronteira para sair do Kirguistao, depois nos embarcaram numas cabines de caminhoes para chegarmos ate um pequeno controle de passaporte; como a fila de caminhoes era grande, andamos um km de caminhao e seguimos o resto a pe ate o tal controle. De la, mais caminhao, mais uma parte a pe, ate chegarmos a fronteira da China. Os oficiais fussaram o computador do Gui e olharam fotos, para ver se eramos jornalistas, já que estavamos entrando por Kashgar, uma regiao de conflito entre Chineses e Uigurs.

Saindo da fronteira descolamos um motorista que estava indo para Kashagar, ele tinha uma bela hilux, ficamos traquilos. Quando ele parou, e colocou sobre as nossas malas dois toneis de oleo e alguns butijoes de gas, a tranquilidade passou. A caminhonete rebaixou na hora e nos já vimos que a coisa não ia ser moleza, para variar.

No meio do caminho o tiozinho comecou a piscar e parou o carro e pediu para dormir, o Gui se ofereceu para dirigir e seguimos viagem com novo motorista. Uns vinte minutos depois o pneu furou e la desce todos nos para ajudar arrumar. Coitado do Tio, dava para ver que estava virado e como era Ramadan, não comia nem bebia desde as quatro da manha, pelo menos. Resolvido o problema seguimos viagem, o calor era infernal e claro que não se ligava o ac para ecomizar, isso ‘e sempre asssim, ‘e capaz deles dizerem que não esta funcionando.

Antes de entrar na cidade, o tio despachou os oleos e gases numa casa. Depois de quase 8 horas de viagem e com muita emocao, e toda a qualidade impar do servico, chegamos a Kashgar e todas aquelas placas com letras chinesas e arabes para tudo que ‘e lado. Eu vibrei, adoro a sensacao da entrada em novos paises. E como recompensa, o primeiro hotel que fomos ver era otimo e tinha ar condicionado, shampoozinho, condicionador, tv, wi-fi, chinelinho do hotel e toalhas, tudo a um preco camarada. Viva Kashgar!

Autoconhecimento!

Hoje em dia o termo autoconhecimento aparece tantas vezes e, tantas de forma indevida, que eu tenho a sensacao que nao sei direito o que as pessoas estao falando. Quando resolvi viajar, por exemplo, eu tambem nao sabia do que estava falando quando incluia o autoconhecimento como uma das minhas razoes para sair viajar.

Lembro que o principal motivo para minha decisao na epoca em largar carreira, conforto e apostar simplesmente no viajar, sabendo que nesse meio tempo muita gente ia prosperar, enquanto eu estaria apenas viajando, era porque queria compreender o mundo, entender o sentido da vida e conhecer um pouco mais de mim. Mas em relacao a esse ultimo motivo, eu ja tinha feito terapia suficiente para saber coisas suficientes de mim, e por mais que eu descobrisse coisas novas, o que encomodava o meu coracao estava para alem de mim.  Eu queria compreender fora de mim, no meu entorno e talvez com essa perspectiva me localizar e vir a saber de fato algo mais profundo a respeito de mim mesmo.

Viajando eu descobri que autoconhecimento nao ‘e saber “listar” suas qualidades e defeitos; “perdoar” os pais;  aceitar que o mundo nao foi feito para voce; nem saber quais foram as coisas que te influenciaram emocionalmente ‘a ser quem ‘e, etc, etc, etc. Isso ‘e uma fracao do autoconhecimento, uma fracao muito importante, realmente necessaria, mas uma fracao.

Autoconhecimento nessa viagem foi descobrir meu lugar no mundo, e meu lugar para alem do mundo. Quando eu falo lugar, ‘e num sentido metaforico. E isso so foi possivel olhando para o mundo e olhando para o seu Criador, que ‘e o que faco desde que essa viagem comecou. Hoje me interesso muito menos por mim, pelos meus desejos e vontades, meus prazeres e mimos, meus defeitos e qualidades, e com minha imagem. Mesmo que muitas vezes eu possa esquecer disso e me surprender agindo como uma profana novamente.

Descobri que o problema fundamental da vida est’a para alem de todas essas coisas, inclusive das minhas vontades e do meu consentimento. E parei de reclamar… e conheco muito mais de mim.

A lampada do corpo!

Depois que os pais do Gui foram embora, tiramos o dia para descansar, porque como eles sempre vem com pouco tempo e tem uma disposicao de uma crianca, sempre quando eles vao embora precisamos de uns dias para nos recuperar. O Gui não demorou em inventar um passeio para um lago maravilhoso, que para chegar ate la levariamos 6 horas a cavalo ou 8 horas a pe. Podiamos escolher! Como no dia seguinte ameacou uma tempestade, consegui convence-lo de irmos no outro dia e eu aproveitaria para descansar mais um pouco e passear pela bela cidadezinha.

Caminho para nossa home stay!

Yurte desmontado em cima.

No, no dia seguinte o tempo colaborou e seguimos entao para o Kol-ukok Lake. Mais ou menos na quarta hora em cima do cavalo, o tempo comecou ameacar uma grande tempestade, e eu dava so umas olhadinhas de canto para o Gui. Passado alguns minutos, comecou a chover gelado, muito gelado e esse gelado se tornou neve. A minha mao estava a ponto de rachar no meio e eu não tinha luvas. Respirei fundo e pensei: “que bela oportunidade de me tornar mais resistente fisicamente as adversidades climaticas e de me tornar mais resignada as situacoes adversas’, pois no comeco da viagem eu choraria de raiva. Alem de ser uma excelente oportunidade para imaginar como deveria ser as longas viagens a cavalo dos antigos. Congelei cada celula do meu corpo com um semblante e uma sensacao de paz sem igual. Minha alma se mantinha serena e eu regojizava.

 

A tempestade.

O comeco do lago!

Anoitecendo, frio!

O lago visto no dia seguinte!

Depois de quase uma hora a tempestade parou, um leve sol se abriu e comecamos a avistar o yurte onde ficariamos. Quase umas duas horas depois chegamos! Eu estava congelada e não teria o banho quente para esquentar. Desfiz minha mochila e coloquei todas as roupas que eu tinha. A familia nos recebeu com cha quente e pao. A comida no Kirguistao ‘e muuito ruim, ela funciona na maior parte das vezes apenas para sacia-lo, mas não tem prazer. O que tambem para mim estava sendo uma experiencia rica. Aprender a não ser tao escrava do prazer, aproveitando cada oportunidade que o mundo te oferece.A noite foi muito dificil para dormir, alem do frio que mantinha meu corpo contraido, senti muitas dores nas pernas das horas em cima do cavalo.

Eu adorei o Kirguistao, mas a infra-estrutura sem banheiro pegou. Ou as possibilidades de chegar no lugar a pe ou a cavalo tambem nao sao das mais confortaveis. Eu imaginava um bangalo bem charmoso com uma lareira, tomando chocolate quente e olhando para a paisagem. O Gui queria me matar quando eu dizia isso, falava que so do jeito autentico que era, poderiamos saber como eles vivem. Ele tinha razao, mas mesmo assim eu gostaria de ter a opcao do bangalo quentinho e o banho.

Nosso yurte!

Nesse dia conhecemos um japones que estava viajando sozinho há tres anos, ele trabalhou por 10 anos seguidos numa empresa como supervisor de engenharia quimica, ate sair para viajar. Nos contou que no Japao as férias anuais são de 15 dias, mas quando voce usa esses 15 dias todos, voce decai no conceito do seu chefe. Entao um japones minimamente responsavel folga sete dias. Não ganham para isso nem banco de horas e nem hora-extra, com excessao das grandes empresas. O horario de saida ‘e cinco ou seis da tarde, mas ‘e natural se voce ‘e minimamente responsavel, sair as dez horas da noite. Ele brincou dizendo: “no Myamar a religiao das pessoas ‘e o budismo, no Iran o islamismo e no Japao o trabalho.” Dentre os cinco paises que ele mais gostou, o Brasil est’a no ranking. Achou as pessoas muito bacanas, gostou muito da musica e dos lugares. Concluiu uma coisa simples e sabia, após os tres anos de viagem: “viajar ‘e receber – voce so recebe, recebe, recebe; e trabalhar ‘e dar, voce so da, da e da.” E completou: “ quando eu voltar de viagem, quero dar tudo o que recebi”. O japones tem um senso de comunidade admiravel, herdado do Mestre Confucio, como confirmou o Koichi.

Eu achei tao sabia a conclusao dele que quis dividir. Nos dois casos penso que voce da e recebe, senão voce não aguenta. Mas quando voce viaja o que se sobressai ‘e definitivamente o receber: voce conhece pessoas, lugares e culturas novas, e tudo isso amplia absurdamente a sua visao de mundo, e ainda sobra umas faiscas para ampliar tambem sua visao de si mesmo. Essas faiscas podem se tornar labaredas se a viagem for longa, quanto mais tempo na estrada mais a fogueira cresce; porque quando voce faz uma viagem longa voce inclui a nota de se afastar por um longo tempo daquela “vida ativa”, e o retorno dessa experiencia ‘e inenarravel.

Em contrapartida o que voce precisa dar em troca ‘e muito pequeno! Quando voce esta na casa dos outros, normalmente eles querem te servir; em viagem acontece o mesmo, voce esta no territorio dos outros, e para os religiosos voce sempre deve receber bem ao estrangeiro. Como a maior parte dos paises que passamos eram super religiosos, sempre nos sentimos maximamente bem recebidos.

Já quando voce trabalha, a via ‘e diferente. Voce da muito mais de si, seja para a empresa, para o mercado, para o chefe. Quando voce trabalha numa coisa que voce entende como realmente valida, ou que pelo menos voce goste muito, o receber ‘e infinitamente maior, mas ainda assim, trabalho ‘e muita doacao, nem que seja de energia. Por isso gostei tanto quando o Koichi disse que ele tem a intencao de dar o que recebeu. E nao gosto quando encontro viajantes que querem passar a vida inteira viajando, fugindo da rotina, porque  acredito que um homem digno precisa gerar essa troca.

Eu agradeco a Deus sempre que me lembro por poder fazer essas viagens. Me sinto tao distante daquela Bianca que morava no Brasil ate julho de 2009, que quase não consigo me reconhecer naquela figura. Parece que essa viagem me desintoxicou, de muito do que eu estava intoxicada e nem sabia. Abencoadas as pessoas que tem uma oportunidade como essa, de tao cedo poder ter essa “parada no caminho” para pensar profundamente na vida, seja atraves de uma viagem ou não, e com isso poder mudar o rumo que vinham tomando…  Nao ‘e por nada que agora “criaram” o tal ano sabatico, como um nome para explicar ao mundo essa saida.

Nos tempos em que vivemos, onde o individuo nao ‘e mais capaz de experimentar algumas horas sozinho, sem automaticamente ligar a televisao, abrir um livro, a geladeira, o computador ou pegar no telefone, so um ano sabatico mesmo para a pessoa ter uma nocao da miseria que somos sozinhos. Dizem os Santos que somene apos um longo periodo sozinho, um homem pode se transformar num monstro ou num anjo. Nao existe coisa mais real do que isso.

Numa citacao de Jesus Ele diz: “ (…) O teu olho ‘e a lampada do corpo. Se teu olho ‘e são, todo o corpo sera bem iluminado; se, porem, estiver em mau estado, o teu corpo estara em trevas(…) Lucas, 11-34″. Sinto que o principal ganho desta viagem, foram as mudancas que aconteceram nos meus olhos.

Voltando mais 6 horas.

A beleza do Kirguistao!

De Almaty seguimos para Bishikek, capital do Kirguistao. So de passar pela fronteira ja dava para sentir o que vinha pela frente, muita natureza, tranquilidade e montanhas. A primeira visao era de um riozinho, com algumas plantacoes e montanhas com picos nevados. Me deu uma sensacao deliciosa de alivio, pois desde o comeco da viagem so tinhamos passado praticamente por cidades, com excessao de Howrama no Ira e da vila de Nurata no Uzbekistao, o resto foi full time cidades e muito calor. E o Kirguistao ainda prometia ter um clima mais fresco.

Fomos direto para um hotel recomendado no guia, chamado MBA Business Center, uma escola de negocios onde os estudantes e professores de outros lugares tinham um hotel p/ se hospedar, e se sobrasse vaga, os turistas tambem. Os quartos contavam com uma sala e cozinha arejada, escrivaninha para estudar, alem do quarto e banheiro. Era tao espacoso e gostoso que eu poderia morar ali dentro tranquilamente por anos. A recepcionista era uma russa que não falava uma palavra em ingles, e que o tempo todo ligava do seu celular para sua filha para entender as coisas mais elementares que queriamos para traduzir para sua mae. Muito diposta e acolhedora a mulher, mas ela não entendia a linguagem universal da mimica.

Saimos para conhecer a capital do Kirguistao com uma expectativa baixissima, pois diziam que a beleza do pais estava nos arredores. Mas Bishikek surpreendeu, era ampla, arborizada, super calma e facil de se localizar. Basicamente tinha uma avenida principal com aqueles canteiros no meio, algumas pracas do governo e museu e o resto eram restaurantes deliciosos, italianos, ocidentais em geral e locais. Eu me esbaldei indo no primeiro dia num italiano recomendado. A salada e o macarrao estavam de chorar, eu comi bem devagar para demorar o maximo possivel para engolir cada garfada.

As varias pracas dos sovieticos.

No dia seguinte chegaram as nossas primeiras visitas do Brasil – os pais do Gui. Eles sempre vem nos ver em alguma etapa da viagem, ate porque viajar para eles definitivamente ‘e uma rotina, eles sempre estao vindo de algum lugar ou planejando a proxima viagem, nos encontrar no Kirguistao, na Tanzania, em Israel ou na Tailandia nao ‘e nada demais. A unica novidade ‘e que em funcao do Mestre Gui, eles conheceram novos continentes, a Asia e a Africa. E eles adoraram!

Matamos a saudades num hotel com piscina e cafe da manha impecavel. O Clau sempre tem o dom de escolher os melhores hoteis de viagem, e deu para tirar ferias dos hoteis budget. Apesar de que o Uzbequistao tinha arrasado na categoria, por 10 dolares cada um ficavamos em hoteis com banheira e ar condicionado.

Depois de conversarmos um monte fomos jantar num restaurante gostoso e se preparar para no dia seguinte seguirmos viagem pelas montanhas e vilas do Kirguistao. Nossa primeira parada foi numa cidadezinha chamada Karakol, muito bonitinha, com casas tipicas; uma igreja ortodoxa linda; uma mesquita com cara de chinesa construida pelos dugans (filho de pai arabe com mae chinesa, resultado na etnia dugans, eles sao muculmanos com costumes chineses), e os varios blocos de predios sovieticos que eu particularmente adoro. Eles tentam fazer um modelo padrao igualando todos e voce ve na sacadas das casas as diferencas humanas que sao impossiveis de  reprimir. Cada sacada de uma cor, uma sacada de madeira, outra de ferro, outra de papelao e assim por diante.

A linda igreja ortodoxa de madeira.

 

Os blocos sovieticos.

Onibus local.

 

Mesquita Dungan!

O pais ‘e ideal para quem gosta de beleza natural, montanhas e tranquilidade. Como o Kirguistao não tem um turismo tao conhecido, apesar do potencial absurdo, ‘e muito tranquilo ser turista por la. Voce caminha tranquilamente pelas ruas, os precos não são super faturados e não tem gente o tempo todo querendo te oferecer coisas. Noventa e dois porcento do pais sao montanhas e voce sente isso para cada lado que olha. As estradas, os vilarejos, os yurtes espalhados por tudo tornam o visual inexplicavelmente lindo. Alem das montanhas t^em varios lagos azuis, pequenos e grandes, vales belissimos, pastagens de verao, os tais jaloos, algumas com tapetes de flores. Lindo, lindo, lindo!

Como a populacao ‘e bem pobre na maior parte do pais, voce ve muuuuitos pastores com suas ovelhas, gados e seus yurtes, ‘e natural ter que parar o carro na estrada para esperar as ovelhas ou os burricos passarem.

Dormimos algumas noites nos yurtes em lugares diferentes. Estava preocupada se os pais do Gui iam se acostumar com a “moradia”, mas me deram um banho, os anos viajando acampando tornaram eles super descolados. Algumas tecnicas que eu uso quando pego hoteis sujos para eles ‘e super natural, a Monica forra o travesseiro com uma manta, usa a canga como entre lencol, e no final nao ha contato nenhum com o material estranho do lugar.

Nosso primeiro acampamento nos yurtes foi num belissimo vale, com montanhas enormes com picos nevados e um rio que atravessava em frente, obrigando voce dormir com aquele barulho delicioso de fundo. A segunda foi num outro vale absurdo, com campos de flores, mais picos nevados e hot spring natural, no home stay do sujerrimo Valentine, dono da casa, pela sua aparencia ele devia tomar dois banhos por mes. Entre a casa dele super suja e uma casinha la fora tambem suja que ele construiu, achamos melhor pegar a de fora. Como nao tinha banheiro, tudo era feito ao ar livre, no meio das flores. O Gui buscava agua no rio para escovarmos os dentes e quando iamos ao toalete, avisavamos para ninguem sair la fora. Um dia vi que o Gui e o Clau se assustaram com alguma coisa dentro da casa, e disfarcaram. Depois o Gui me contou que tinha um rato la dentro e que eles nao conseguiram tirar, o ratinho dormiu com a gente. Deixamos para contar para a Monica no ultimo dia, mas ela nem reagiu, deu uma risadinha como se tivessemos contado que tinhamos matado uma barata, tamanha a experiencia deles na estrada…

 

Os yurtes!

O primeiro vale!

Ainda no primeiro, num passeio a cavalo!

Um local, saindo do yurte para ir a cidade!

Por fim, ficamos em mais uma cidadezinha linda com um mercado de animais interessantissimo, para nos prepararmos para ir ate um lago no meio dos jaloos, as tais pastagens de verao. Nesse dia pegamos um frio forte a noite, mas gracas ao fogao a esterco que tinha dentro do yurte conseguimos sobreviver. Os yurtes, com excessao do primeiro, não tinham banho. Os passeios a cavalo se tornaram rotina. De Koshkor nos despedimos deles com saudades, eles seguiram para Bishikek, depois passariam uns poucos dias no Uzbequistao e finalizariam na Costa Amalfitana. Ao final de 30 dias voltariam ao Brasil…

Tipica kirgui!

Mercado de animais!

Nossos companheiros de estrada!

Segundo vale!

Casas tipicas das cidadezinhas!

O lago azul no meio dos jaloos!

Os yurtes!

Aproveitamos para descansar da nossa proxima visita, teriamos oito dias ate a chegada dos meus irmaos. Nao sei o que aconteceu nessa viagem, ‘e normal as pessoas falarem para gente “ talvez encontraremos voces em tal etapa”, mas tirando os pais do Gui, o resto normalmente ‘e sempre lenda. Claro, sem contar com o memoravel fim de ano com toda sua fam’ilia na Tailandia. E os dias em Israel com a minha mae. Mas definitivamente, os que garantidamente sempre vem, são os pais do Gui. Dessa vez todo mundo resolveu levar a serio, depois do Clau e da Monica chegariam os meus irmaos, e assim que eles fosssem, uma graaaande amiga minha passaria 16 dias com gente.