Delhi!

Apesar de todo barulho de Delhi, existem muitos lugares tranquilos para ficar. Nesse sentido a escolha pela região dos refugiados tibetanos foi perfeita. Silenciosa, pouco movimento de pessoas e carros, e hotel limpo e barato. Mas eu ainda me sentia mal do estomago desde Leh, e não foi fácil os primeiros dias.

Nas ruas.

Nas ruas.

Dia seguinte quis fazer uma massagem ayurvédica que há dias vinha pensando, mas o folder tornou o lugar muito mais interessante do que era. Saí cheia de óleo dos pés a cabeça e como estávamos longe do hotel, não tinha saída, tive que passar o dia daquele jeito.

Caminhando pelo centro percebi que os preços tinham aumentado. A Índia de 2010 era muito mais barata. Saindo do “restaurante” que almoçamos, vimos uma criança muito machucada, de cabeça baixa numa calçada, parecia ter uns 12 anos, tinha um olhar profundamente triste, e estava com a metade da sua bochecha rasgada como que por uma mordida. Com certeza era moradora de rua. Doía olhar para ela. Alguns indianos trouxeram comida para ajudá-la e ela não conseguia nem esboçar um sorriso, nem levantar a cabeça. Mas comia, com um ar não de prazer, mas de automatismo. A sensação que me passou é que ela vinha sofrendo intensos maus-tratos. O machucado no rosto dela era chocante. E a percepção de que algo extremamente injusto estava acontecendo ali, me tirou a paz. Tinha vontade de levá-la dali. Me senti muito impotente e estranha por não poder fazer nada por ela. Fiquei com aquela criança por dias e dias no meu coração.

Depois de passearmos bastante, mostramos alguns lugares especiais a Jami, e voltamos ao hotel para tomar um banho e ir ao cinema. Tivemos a sorte de ver um filme belíssimo, chamado Bol, recheado de dramas humanos típicos da região, sem final feliz. O casal romântico do filme (que longe de ser o tema principal, apenas mais um dos diversos temas levantados pelo filme), nunca se beijavam, só dançavam e se aproximavam, se insinuando um para o outro. Acho lindo esse romantismo antigo dos filmes de Bollywood. O filme durou pouco mais de 3 horas, com intervalo no meio com direito a pessoas lhe oferecendo comidas e bebidas. Voltei maravilhada com o filme, com as cenas, paisagens e música.

Mas ao voltarmos para casa mais uma outra cena me chocou. Centenas de rikishas (bicicletas-táxi) parados nas gramas, com seus motoristas dormindo em cima, todos tortos, de qualquer jeito. Depois de um dia de trabalho imenso, sobre duas rodas, levando pesos para lá e para cá a troco de centavos, naquelas temperaturas altíssimas, muitas vezes sendo explorados e mau tratados pelos seus clientes, numa competição desumana entre os outros motoristas de rikishas, no final do dia aqueles homens ainda dormiam na rua porque não valia a pena voltar para casa, talvez só no fim de semana para reencontrar suas famílias…

Eu chorei copiosamente vendo esta cena. Era um mar de gente. Uma mar!! Um grande mar!! É de matar imaginar a luta pelo pão de cada dia dessas pessoas. Verdadeiros heróis do nosso tempo!

Os indianos são sem dúvida um dos povos mais interessantes que tivemos o prazer de conhecer, seja por sua riqueza cultural e espiritual, passando pela luta diária de trabalho no meio daquela multidão de pessoas, quanto pelo jeito único e marcante que só o indiano tem.

Nos templos.

Nos templos.

Nos camelôs de muitos países que visitamos, sempre encontramos alguma camiseta que representa algo típico da cultura local, ou uma característica marcante do povo. Passando por uma loja, um vendedor oferecia em alto e bom tom mais uma dessas camisetas, agora com o seguinte escrito sobre os indianos: Full power, 24 hours and No shower!!!

Sem dúvida é um povo incansável e extremamente forte!

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Kashimira!

Os dias seguintes sobre o lago Dhal foram especiais e cheios de surpresas. O filho do Sr. Gulmon, que surgiu em nossa frente quando descemos de nosso táxi comunitário após 16 horas de viagem, e que com muita insistencia nos convenceu a ficar no barco de seu pai, com o passar dos dias se tornou um amigo…

Em nosso barco-casa.

Em nosso barco-casa.

Sr. Gulmon, dono do barco.

Sr. Gulmon, dono do barco.

Dentro do barco.

Dentro do barco.

Passeamos com ele por muitos lugares, almoçamos em restaurantes típicos, fomos ao centro, as mesquitas, aos templos, e nos perdemos olhando para a beleza de Srinagar, e principalmete, para as pessoas que surgiam para conversar.

Jami, nosso amigo e Gui

Jami, nosso amigo e Gui

Arquitetura típica.

Arquitetura típica.

Nas ruas.

Nas ruas.

Comidas de rua.

Comidas de rua.

Mesquita.

Mesquita.

Caminhar pelo centro de Srinagar e arredores tem uma atmosfera especial. É diferente de toda a India. Além de ser mais limpa e fresca (por ser região montanhosa), a cidade é muito bela. Há um toque muito mais muçulmano que hindu, já que estes são a maioria por ali.

Lago Dhal, não é incrível?

Lago Dhal, não é incrível?

Os passeios sobre o lago eram os melhores, e sempre tinha algo surpreendente para conhecer e ver na comunidade sobre palafitas que ali vive. O mais especial foi um dia que fomos convidados para um casamento muçulmano que ocorria ao lado de nosso barco. Foram dois dias de preparação e tres de festas. Mulheres para um lado, cantando e arrumando a noiva, homens para o outro matando carneiros e preparando a comida.

Uma tenda foi montada para receber todos os convidados. Do outro lado do lago estava a festa da família e amigos do noivo, já que primeiro eles festejavam lá, para depois os noivos se encontrarem do lado de cá, no ultimo dia, na tenda da esposa, deixando todo um gostinho de suspense. Acabamos sendo tiradas para dançar, e foi divertido, eu a Jami no meio da tenda. O dançarino era um homem que dançava meio sexy e de forma engraçada, e os convidados riam muito.

Preparativos.

Preparativos.

Mulheres cantando com a noiva durante os preparativos.

Mulheres cantando com a noiva durante os preparativos.

Mais preparativos.

Mais preparativos.

Nos esbaldamos com as opções de kashimiras no centro, e achamos um lugar barato para comprar uns chales direto da fabrica, o que trouxe alegria para nossa alma feminina. Graças ao nosso amigo.

Depois de alguns dias em Srinagar, com o coração apertado fomos embora. Nosso próximo destino era Leh. Sem dúvida a Kashimira foi um dos lugares mais incríveis que conheci na India.

Chegada da Jami!

Mal o João e o Marco saíram e recebemos nossa segunda ilustre visita – minha querida amiga Jami. Conheci a Jami em 2006 numa pós-graduação e desde lá nos tornamos grandes amigas. A Jami é uma daquelas amigas meio superdotadas que tenho, ao lado da Malu, talentosíssima, 10 em tudo e que tem um caráter de tirar o chapéu.

Quando voltamos da nossa primeira viagem a Jami nos recebeu em sua casa com uma comida mexicana deliciosa, e nos acolheu muito bem, quando eu e o Gui nos sentíamos “um pouco” (imagina!) perdidos. Nesse dia, conversamos muito sobre a viagem e as aprendizagens. A Jami foi uma das poucas pessoas que conversamos mais profundamente sobre a viagem, e ali, maravilhada com o nosso jeito pós-viagem, ela disse que se encontraria com a gente, e como vocês já podem supor, se a Jami diz, está dito. Combinamos que na nossa próxima viagem ela nos encontraria em alguma parte, e decidimos juntos que seria a Índia. Ela delirou!

Quando a Jami chegou, pouco mais de 24 horas depois que o Jony e o Marco foram embora, nós estávamos exaustos, pois o Paquistão foi uma viagem difícil em termos de transporte (claro não para o Gui, mas para mim). Muitas curvas, estradas esburacadas e como tínhamos o visto somente de 30 dias e tínhamos que chegar a Délhi a tempo dos meus irmãos pegarem o voo para o Brasil, tivemos que apressar o passo ao longo do Paquistão.

Como a Jami estava com um fuso forte na cabeça, já que o voo dela atrasou e ela encontrava-se há 36 horas na função para chegar até a Índia, aproveitamos todos para descansar. Logo que a buscamos no aeroporto de autoricksha (é claro!), ela olhava para fora e dizia: “caramba, isso parece um filme, estou encantada, obrigada por me receberem com vocês”. E seus olhos brilhavam vendo a Índia, emocionada. Ali percebemos que a Jami tinha alma de viajante, porque ao invés de ficar olhando para as sujeiras das ruas, e fazendo comentário de como eles vivem assim e blábláblá, ela ia logo se maravilhando com a experiência única que alguém pode sentir, quando pela primeira vez, experimenta estar “num outro mundo”. E para quem tem mais sensibilidade, isso se torna tão maior que a sujeira, que não dá para ficar se limitando em olhar para o chão.

Conversamos bastante e a Jami apagou no quarto do hotel. Batemos na sua porta para acordá-la mais perto do final da tarde e, fomos ao Golden Temple, que é claro, arrebentou!! A Jami estava perplexa com a beleza dos Sikis (devotos da “religião” sikki), que coitados, direto são confundidos com muçulmanos por causa do turbante no Ocidente, e muitas vezes matam os inofensivos Sikis achando que são terroristas. Quanta ignorância!

A beleza do templo a noite.

A beleza do templo a noite.

A vida dentro do templo.

A vida dentro do templo.

De Amristar pegamos um trem para Jamu, e ficamos apenas um dia nesta cidade feia e caótica, cheia de templos hindus, mas não valia muito a pena. Dormimos num hotel estranho, e a noite houve muitos trovoes, e eu senti bastante medo, aquela cidade estava bem esquisita. Os templos da cidade estavam sendo meio alvo de uns muçulmanos extremistas, e estávamos um pouco apreensivos de estar ali. A Jami disse que se assustou também com a cidade e dormiu mal.

Pegando o trem!

Pegando o trem!

No trem.

No trem.

Nossas samusas no trem.

No dia seguinte, logo cedo, pegamos um share-taxi e seguimos para Kashimira. Nossos companheiros de carro eram interessantíssimos (um sikki, um muçulmano e dois quatro hindus), e dividimos com eles todas as nossas comidas. Por sinal, no Oriente não tem essa do MEU pacote de bolacha, todo mundo oferece tudo ao vizinho e, se você oferecer, também ninguém fará cerimonia (como muitas vezes fazemos com desconhecidos), eles aceitarão na hora e comerão algumas bolachas…

Nesse dia, esperando no táxi, enquanto tomávamos um chay numa rua decadente, surgiu uma vaca com a mandíbula quebrada, a mandíbula dela estava solta, a vaca era deficiente. Ela caminhava arrastando aquela mandíbula presa a um feixe de pele. Eu e a Jami ficamos chocadas olhando para a vaca. Na Índia já vimos muitas coisas, mas vaca com a mandíbula pendurada era realmente uma novidade. Esse costume de sacrificar o animal que nós temos, não precisa nem dizer que não acontece em terra hindu.

A cidade.

A cidade.

Nossos companheiros do taxi comunitario.

No caminho.

No caminho.

Quando chegamos a Kashimira depois de 16 horas de viagem, ficamos chocados com a beleza do lado Dhal e seus barcos-casas. Fomos logo pegando um barco-casa de um cara muito insistente, porque estava num preço muito bom, e apesar do nosso barco ser num lugar lindo, e ser muito aconchegante e com cara de casa de vó, era um dos mais pobrinhos do Lago.

Nosso barco-casa!

Nosso barco-casa!

Largamos as malas e vimos o sol se pôr ao som das inúmeras mesquitas e de todo comércio que acontece sob o lago. Tem farmácia, mercado, transportes, vendedores… tudo sob palafitas. Ficamos maravilhados com aquela experiência mágica de estar no lago ao som estridente de todas as mesquitas, vendo todos aqueles vendedores ambulantes passando com suas canoas, e os locais remando até em casa. Acho que foi um dos lugares mais incríveis de toda a viagem.

Lago Dhal.

Lago Dhal.

A Jami estava emocionada e nós também! Ninguém mais queria sair mais daquela “sacada” do barco… Ao fim do som das mesquitas e do silencio da oração em comunidade, o Sr. Gulmon serviu nossa comida bem caseira e fresca preparada por ele. Conversamos bastante sobre a vida, a viagem… e fomos dormir. Antes de dormir, tomamos um banho, tinha até banheira no quarto, mas a água era meio verde e fedida, mas nada que não pudesse fazer nos sentirmos limpinhas depois, e dormir maravilhadas com a experiência de estar sob o gloriosíssimo Lago Dhal.

A vida no lago que contemplávamos da sacada do nosso barco-casa.

A vida no lago que contemplávamos da sacada do nosso barco-casa.

Marco e Jony!

Quando eu tinha 12 anos, um dia antes de começar as aulas, meu irmão mais velho que tinha ido viajar, não voltou para casa naquele domingo. Ele tinha 13 anos. O Marco 8 e o Joao 7. Um abismo se abriu na minha frente e a nossa casa virou um vale de lagrimas. Cada um sofreu da sua maneira. O Silvinho estudava na mesma escola que eu, o Marco e o Jony, ainda estavam na nossa ex-escola, que ia até o fim do primário. Eu e o Silvinho fazíamos tudo juntos, tínhamos os mesmos amigos, a mesma turma de inglês, os mesmos programas e praticávamos o mesmo esporte – o tênis. Ele por paixão, eu, pela turma. Quando o Silvinho se foi, eu fiquei muito sozinha. Como o Marco e o João eram crianças, não me passava pela cabeça contar com eles. A diferença de idade nessa época criava uma distancia natural entre nós. Eu não brincava mais, eles ainda viam desenhos. Quando eu saí de casa aos 17 anos para me preparar para o vestibular, o Marco tinha 14 e o Joao 12. Nessa época, quando a barreira da idade ia começar a se dissolver, eu estava saindo e sabia que não voltaria mais. Não combinava voltar para casa depois,  sabia que uma vez dado um passo em uma nova direção, o estado anterior se tornaria impossível para mim. As coisas sempre foram assim comigo… Os feriados começaram a chegar, e cada vez que eu visitava a família, o Jony e o Marco estavam maiores. Parecia mágica, eles cresciam centímetros de um feriado para o outro. Num desses feriados, fui com uma amiga na “boate”, como chamávamos a night do Clube Recreativo Chapecoense, e eu bebi um pouco além da conta para quem voltaria dirigindo, e pedi ao Marco para voltar pilotando. Ele ainda era de menor. Lembro que naquele dia pensei “nossa já estou encontrando meu irmão na boate, que legaaaal!!!” Por fim, o Marco acabou quase atropelando um ciclista, e derrubando um muro de uma casa uns 100 metros depois. Quando tentamos sair do lugar, não haviam mais pneus para isso, e em poucos minutos estávamos cercados pela população local enraivecida, o ciclista sobrevivente e a polícia. Eu havia esquecido de perguntar se o Marco estava em condições de dirigir rssrs… Enfim, pelas diferenças de idade e minha saída relativamente cedo de casa, não foi possível conviver muito com eles, pelo menos o quanto eu gostaria, mesmo que há alguns anos já conseguíamos conversar como adultos sem eles ficarem me chamando de “Bianca Potranca” só porque rima. Sempre fiquei com a sensação de “eu não pude acompanhar de perto a vida deles como gostaria!!!” Graças a insistência de minha mãe e a vontade deles de viajar, eles se organizaram e vieram nos encontrar. Minha mãe falava que seria uma grande oportunidade de convivência mais intensa entre nós e que eu deveria aproveitar para “conhecê-los” muito mais. E eu não tinha noção do quanto aquelas palavras eram verdadeiras. Tinha certo receio, porque eles fariam com a gente a Karakoran, que é uma estrada que corta todo o norte do Paquistão, atravessando os Himalaias. Então, eu sabia que a viagem seria infinitamente roots, as estradas ruins e cheias de curvas. Para quem viajaria por terra o tempo todo, isso seria um desafio! A única ideia que eu fazia deles quanto a companheiros de viagem era que para o Marco seria muito difícil, pois lembrava que ele não gostava do vinagre do pai (um vinagre que ele fazia na pipa, espetacular!), o que criava certa distância entre ele e os demais membros da família, e adorava couve-flor cozida, então automaticamente pensava que ele não aguentaria a comida. O Joao sempre foi um apaixonado pelo vinagre do Pai, e comia de tuuudo, assim como eu, então tinha certeza que com o João não teríamos problemas. Bem que uma amiga minha tinha falado “a gente nunca atualiza a imagem que temos da família…” Até na Bíblia Jesus diz que o profeta nunca é reconhecido na sua própria terra. E é verdade, você pode se tornar o sucesso que for, que a tua família continuará se lembrando daquela tua característica infame de quando você tinha não sei quantos anos. Então eu falava para o Marco muito surpresa: “ você vai experimentar leite de égua (bebida típica do Quirguistão)? Comoooo? Você só comia couve-flor…?” Ele me dizia: “ Bianca, isso já faz tanto tempo…” “Mas Marco é leite de ÉGUA!!” “Sim, Bianca mas deixa eu experimentar, tem que interagir com a cultura local!” “ O quê (eu dizia)?” “ Bianca eu como de tudo!” “Até molho de tomate Marco?” “ Óbvio, da onde tu tirou que eu não como molho de tomate?” “ Do fato de você amar couve-flor só com água e sal…” “ Mas eu não amo couve-flor…” “Não, como assim? Não era tua comida favorita?” “ O quê? Da onde tu tirou isso?” Enquanto o João acabava de deixar o prato de “ravióli de carneiro” porque não gostou do gosto do carneiro… Eu não entendia mais nada! O João comia até pedra! Como assiiiim? Não posso contar às surpresas que tive com o João, porque ele nunca gostou que falassem da vida dele, para quem entende um pouco de astrologia ele é escorpião, signo que normalmente odeia que invadam sua privacidade. Enfim, ia percebendo que eu não havia atualizado os meus irmãos e nem os conhecia tanto assim como supunha. E eles dia a dia, iam me surpreendendo! Nosso primeiro passeio a cavalo no Quirguistão. Até hoje todo mundo que veio nos visitar – minhas mãe, os pais do Gui, irmãs, marido e filhos, por uma questão de idade e de crianças –, nunca pensamos em fazer a “nossa” viagem com eles, sempre colocávamos a nossa em stand-by até por uma questão de bom senso (com exceção do Quirguistão, que tirando os transportes, os pais do Gui dormiram em lugares roots pra caramba e nem reclamaram). Mas com os manos foi bem diferente, eles não tinham nenhuma barreira, nem de idade, nem de filhos, então falávamos para eles “se preparem”. Tinha muita dúvida se eles iriam gostar, pois no Paquistão os perrengues prometiam ser diários. E eles se mostraram excelentes companheiros de viagem, topavam absolutamente tuuuudo, algumas vezes reclamando, com cara de “mas eles só podem estar de sacanagem com a gente”, mas seguiam em frente e no final, já nem se irritavam com os barulhos das buzinas e sujeiras nas ruas, e entendiam porquê tínhamos levado eles ali. Fizeram muito sucesso com os locais. Normalmente esses lugares são pouco visitados, então vem pouco turista e todo mundo quer te conhecer. E como os turistas europeus são a maioria esmagadora que vem para cá, não tem como comparar com um brasileiro quando resolve ser bem simpático, então eles só faltavam dar autógrafos.

Os Manos com o Gui e escolta no Vale Kalash no Paquistao!!!

O Marco era o alvo, ele era o mais branco de nós três, com os cabelos claros e barba ruiva, parecia o mais internacional. Um dia conhecemos um casal de franceses mega ignorantes, que ficavam brincando que nós no Brasil deveríamos comer insetos de tão precário que eles imaginavam ser a situação do Brasil, e o Marco largou aquela célebre “e vocês que não tomam banho? Uma vez fui numa boate em Paris, estava eu e um amigo empolgados falando com duas francesinhas, quando elas levantaram o braço, veio aquele cheirão, e nos saímos correndo…” Os franceses murcharam e a gente dava rizada.  Depois, não largavam mais os dois, era “Marco Jony” para cá e pra lá. Depois de 50 dias juntos, os Manos foram. Se despediram de nós no hotel e foram sozinhos para a estação de trem em direção a Agra, para ver o Taj Mahal e seguir para o Brasil. Quando vi os dois de costas, com suas respectivas mochilas, saindo naquela rua escura e suja, eu comecei a chorar. Parecia que eram os meus filhos partindo. Como eles cresceram e ficaram altos! Os 50 dias tinham passado e lá estávamos, eu e Gui, sozinhos novamente! Essas idas e vindas, chegadas e despedidas da vida sempre me chamaram muito atenção desde pequena. Como a vida é essa sucessão de acontecimentos, épocas, períodos, momentos, sempre com fim… Jony e Marco, muito obrigada pela companhia, pelos momentos inesquecíveis, conversas, apoio moral, risadas, e principalmente parceria!!! Hoje conheço muito mais vocês rsrs!  Vocês são demais!! Amo vocês pra caramba! Obrigada mãe!

Chegada na Índia

De manhã cedo fizemos as malas e pegamos um táxi até a fronteira Paquistão – Índia. Deixei Lahore com o coração na mão, pois desde o Iran não gostava tanto de um país como gostei do Paquistão. Talvez por tudo o que esperava do Paquistão, tudo o que já tinha escutado, e a realidade que encontrei. Foi uma grande surpresa!

O Paquistão mexeu comigo, por seu povo, sua cultura, suas vilas intocadas, e por todo o medo que eu tinha de visita-lo. Chegar a Índia naquelas alturas, sabendo que estaríamos agora entrando em nosso último país da viagem, os Manos indo embora dali poucos dias, a Jami (amiga minha) chegando, me dava conta como a segunda viagem estava chegando ao fim, e que de agora em diante, não teria terceira tão cedo. Isso me deixou reflexiva!

Logo que começamos a procurar hotel em Amristar, comecei a me perguntar porque mesmo gostava da Índia, porque insistia em dizer que era um dos meus países preferidos, se o barulho ensurdecedor dos auto-rikshas eram insuportáveis, o transito era um caos, e tudo não tinha ordem e nem limpeza. O Gui também ficou com a mesma sensação e o João e o Marco me olhavam com uma cara de porque eles falam tão bem da Índia?

Logo achamos um hotel melhorzinho, que não passou pela minha cabeça que ficava bem no meio do caos, perto do Golden Temple, e de noite queria me arrancar os cabelos, não consegui dormir nada em função do barulho. E dormir mal é de matar! No dia seguinte nos mudamos para um “hotel paraíso” bem longe do centro e mais caro, claro.

Esperamos o entardecer para irmos todos juntos ao Golden Temple, o vaticano dos Sikis, uma religião relativamente nova da Índia, quando comparada ao Hinduísmo. Tem por volta de quase 600 anos e se diz mais como uma orientação para viver uma vida melhor, mais digna e generosa, do que propriamente uma religião que tem como objetivo a salvação da alma. O Sikismo já não é assim, fala mais de um modo de vida, do que alguma garantia pós-vida. Imagino que nos textos mais sagrados isso deva aparecer, mas para os fiéis leigos é isso que é conhecido.

No final do dia quando chegamos no glorioso Golden Temple, o João e o Marco não falavam, estavam estarrecidos diante da beleza do lugar, e mística da Índia. Os sáris coloridos, os turbantes coloridos na cabeça dos homens, a devoção das pessoas ao chegar, os mantras de fundo tocando ininterruptamente, as pessoas se purificando na “grande piscina” que tem na frente do templo, é uma visão incrível.

Entardecer!

Nós nem falávamos, ficamos todos em silencio experimentando a delicia que é ficar no templo. Todo barulho das buzinas e caos ficam lá fora, não se escuta nada, o chão é impecavelmente limpo, e as pessoas sentam ao redor da “piscina” e ali ficam por horas observando e simplesmente estando ali. Em algumas horas começam as rezas nos microfones e os devotos circulam ao redor da piscina rezando. Ficamos horas largados até quando bateu a fome e fomos jantar. O jantar é gratuito no templo, com direito a chay, e uma comida deliciosa. Se você quiser dar alguma doação, tem alguns lugares disponíveis para deixar dinheiro. Mas ninguém vai lhe pedir.

Os peregrinos!

A noite!

De lá seguimos para o hotel e nos despedimos do Marco e do Jony, que estavam seguindo para Agra para ver o Taj Mahal, de lá eles dormiriam em Delhi e seguiriam para o Brasil. Só com aquele período no templo, eles já ficaram maravilhados com a Índia, tristes que tinham que voltar. E já começaram a entender porque muitos quando vão à Índia descrevem sentimentos intensos de amor e ódio, e mesmo os que sentem isso sempre retornam, como nós. Os que sentem só ódio, saem assustados do país, e não querem nunca mais voltar. Vale a pena o esforço de passar da fase do susto, a beleza da Índia se abrirá para você!

Dois mundos!

Na volta do show das Fronteiras Paquistão X Índia, demos carona a um casal de franceses que conhemos em Karimabad, ainda no começo da nossa jornada pelo país. Ao longo do trajeto, fomos encontrando os dois diversas vezes, em lugares diferentes, até reencontrá-los na nossa última noite no Paquistao.

Era um casal novo, de vinte e poucos anos, que guardaram dinheiro por uma longa data, ate realizar a sua primeira viagem longa. Eles nunca tinham saído da França antes. Ele era marcineiro e, ela psicóloga. Estava vindo desda Marcelia,  cidade onde moram, ate o Paquistao praticamente só de carona.

Num primeiro momento, achamos eles legais, até pelo jeito que estavam viajando, mas aos poucos fomos percebendo que eles só tinham saído de corpo para viajar, nao de alma, e a viagem ja estava completando quase 6 meses. Tudo na França era melhor, todas os lugares que eles visitaram eram em geral ruins, com excessao de alguns países na Europa que cruzaram ao longo do caminho, as pessoas entao da Asia Central de uma ignorancia sem tamanho. Pegavam muito no pé dos muculmanos, fruto da crença do povo em Deus que se desdobrava em atos sem sentido para eles. As roupas da muçulmanas, o Ramadan, a chamada das mesquitas, os terroristas, tudo tudo no mesmo pacote.

Como eles cruzaram de carona desde a França até os países da Asia Central para chegar no Paquistão, os países que tinham um povo acostumado a dar caronas eram legais, os que nao eram, nao eram legais! Lugares como Turkomenistao, Uzbequistao, e Kazaquistao, onde ha um cultura fortíssima de táxi pago, nao eram legais. So porque nao existe apenas o taxista credenciado como o nosso, mas qualquer pessoa comum que esteja passando de carro pode ser o seu táxi ( seja dentro das cidades ou na estrada, voce faz um sinal para parar, e se parar é porque podem lhe dar carona, desde que seja para o mesmo sentido que a pessoa esteja indo, e ela te cobrará por isso). É uma forma, nesses países tao pobres e reprimidos pela ditadura, do cidadao comum tirar um troco a mais.

Eles achavam isso um absurdo, sem entender que naqueles lugares carona e taxi eram sinonimos. Como aqueles dinheiristas podiam cobrar, pensavam eles? Assim eles foram passando por diversos países,  levando a referencia da França e das suas necessidades individuais como forma de medir as pessoas e os lugares…

Nesse dia, lá na torcida, encontramos os dois com um paquistanes, ele sentado num bom lugar na arquibancada, tomando uma coca-cola gelada, e a sua namorada, na arquibancada das mulheres (pois as arquibancadas eram separadas em homens, mulheres, famílias e turistas). Estranhamos o lugar e a coca-cola gelada. Depois, vimos eles dispensando o tal senhor assim que nos encontraram, dizendo que iriam com a gente, sem praticamente se despedir.

Perguntei quem era aquele senhor, e eles me contaram rindo que era um homem religioso que conheceram num restaurante quando estavam almoçando, que veio puxar assunto pedindo se estavam gostando do Paquistao, se nao queriam ir para casa dele, pois os estrangeiros sao enviados de Deus, e ele tinha o dever de recebe-los bem. Os dois agradeceram dizendo que ja estavam hospedados num hotel.  O senhor entao, muito simpatico, pediu para eles outros pratos de comida, ja que como bons mochileiros tinham obviamente pedido os pratos mais baratos, e pagou tudo. Após o tal senhor concluir que eles estavam num hotel muito simples (óbvio, os locais nunca entendem porque escolhemos estes hoteis), insistiu para que eles mudassem de hotel, pois tinham outros melhores, e que ele pagaria a diária, pois precisavam estar confortáveis no país dele. Eles agradeceram tambem e, o senhor pediu entao onde eles estavam indo, e contaram que para o show das fronteiras. Na mesma hora o tal senhor pediu um taxi (evitando que eles fossem de onibus, pois era na saída da cidade) e os acompanhou ate o show, pagando a coca-cola gelada e escolhendo um lugar privilegiado para que eles assistissem. No retorno, levaria eles ate o hotel. Mas o senhor foi dispensado assim que eles nos viram!!

Fim da historia. Eles estavam rindo do homem, por ter sido “burro” de pagar tudo a eles, em nome de Alah, e que eles se deram muito bem, economizaram um monte, e comeram como reis. Aí começaram a caçoar da religiao, do islamismo, e falar de como essas pessoas podiam ser tao estupidas em acreditar em mitos e bobagens criadas como Deus, só para controlar o povo, e teceu toda aquela cartilha de sempre de argumentos que os ateus mais jovens usam.  É tudo jogo de poder, invenção, e as traduçoes, etc. Que lá na França, onde o povo é mais escolarizado e educado, isso ja nao existe mais. Nem passou pela cabeça daquelas topeiras perguntar a nós qual era a nossa crença antes de sair desconsiderando o tal homem para gente.

Enfim, era difícil que aqueles dois mundos tao distantes compreendessem o que estava acontecendo ali. O senhor até agora deve estar se perguntando o que ele fez de errado, para ter sido dispensado daquela forma. De um lado um homem que fazia aquil0 por Deus num ato de dever, como ele mesmo disse, do outro o casal que olhava aquilo como uma vantagem economica em nome de algo sem sentido, pois o objetivo do ato do homem que era agradar a Deus nao havia neles, e muito menos o senso de dever, ja que eles vinham dos países da Liberdade de Escolha – do quero ou nao quero, nao do devo ou nao devo.

Enfim, nós nos revoltamos!! Todos nós da mesa queríamos matá-los por falar daquele jeito do pobre senhor, e por todas os absurdos que tinhamos ouvido ao longo dos encontros que tivemos com eles. Eles perceberam a nossa cara de indignação, e perguntaram ao Gui, ” voce nao concorda?” Porque eles falavam usando uma linguagem corporal tentando persuadir que concordassemos com aquilo, e nós fazíamos uma cara de indignados, que eles nao entendiam o porquê. Será que a gente tambem era burro e achava aquilo correto? Será que no Brasil o povo é tao ignorante assim?

O Gui então sabiamente disse: “quando a gente voltou da nossa primeira viagem, nos fizemos um vídeo para dividir com as pessoas o que tinhamos visto e vivido, e começamos o vídeo assim: Deixe seu emprego, abandone seus pertences, se dispeça dos seus familiares e amigos, Esqueca Tudo o que voce aprendeu e o mundo será seu.”

E seguiu: “Pelo jeito voces deixaram o emprego…, seguiram toda a cartilha do mochileiro (guardar dinheiro, sair do emprego, etc.), mas esqueceram do mais importante. Voces nunca compreenderão nada, se voces nao colocarem a França um pouco suspensa para olharem o mundo…”

O casal se calou, assim como nós todos, rendendo um momento emocionante de reflexao para todos que estavam ali naquela mesa, naquela noite quente do dia 02 de setembro de 2011, a ultima do Paquistao… Uma bela despedida!

Do Rajastao para Rishikesh!

O Rajastao ‘e um estado ao noroeste da India que contem uma cultura muito forte. Grande parte da nossa imaginacao sobre o pais sae dali. Entre as mulheres estao os saris coloridissimos e argolas largas no nariz; com os homens seus turbantes de cores vibrantes que identificam casta, religiao, alem de diversas outras tradicoes, que pertencem. As cores variam entre branco, rosa-pink, amarelo florecente, laranjado e colorido. O mesmo ocorre com os saris.

No Rajastao passamos por Udaipur, cidade com um lindo lago no centro juntamente com o imponente Palacio do Maraja. Passamos varios dias largados nos cafes e curtindo a beleza do lago nos finais de tarde no terraco de um gostoso restaurante.

Palacio do maraja!

Vista do restaurante!

Udaipur

De la seguimos para Jodpur, a cidade azul aos arredores de um imponente forte e de mais outro palacio de um maraja. Sujeira, buzinas e vacas faziam parte do cenario. O calor estava perto dos 40 graus e eu nao aguentava mais a bagunca da India. Comemoramos nosso aniversario de casamento ao mesmo tempo que comemoramos a Pascoa. Haviamos resolvido seguir a quarentena, entao no dia 04 aproveitei para degustar meu primeiro pedaco de carne e tomar uma cerveja. O Gui preferiu manter-se sem carne e alcool ate sairmos da India.

Vista para o Forte

Palacio de outro maraja!

Quer comprar saris?

Jodpur - cidade azul!

No Forte!

Assistimos um filme maravilhoso de bollywood no cinema e deu ate para chorar. Como os filmes sao longos, depois de uma hora e meia tem intervalo e deu para aproveitar e espichar as pernas. Quero tentar baixar o filme pela internet quando voltar ao Brasil e ver de novo. Uma historia de amor daquelas dos tempos de nosso avos. Achei muito bonito ver como os indianos tem ainda um coracao ingenuo e pouco moderno, pena que alguns filmes de bollywood ja estao se contaminando e a nova geracao de jovens indianos estao ficando bem mais ocidentalizados.

Historia de amor!

De Jodpur resolvemos encarar Jaisalmer, a cidade ao lado do deserto Thar, mesmo sabendo do calor infernal que fazia. Foi uma otima decisao. Pois conseguimos encontrar um hotel baratissimo com piscina para passarmos o dia na agua e emendarmos um passeio no deserto. Conhecemos um casal portugues que estava fazendo a India de moto (que inveja!), foram nossas companhias por alguns dias. Conversavamos ao modo bem latino, dando para matar a saudades de casa, eles eram muito legais. Como nunca tinha estado no deserto e nem andado de camelo, estava curiosa de como seria a experiencia. Um casal ingles bem sem graca nos acompanhou.

O passeio de camelo foi ultra desconfortavel como todo mundo dizia, nao consigo entender porque os camelos andam daquele jeito tao insuportavel, podia ser tao legal! Como um cavalo, por exemplo, mas nao, dependendo das horas de passeio, voce pode passar alguns dias lembrando do camelo. Como estava num dia muito bom comigo, procurei me entregar ao ritmo do camelo e consegui ate meditar em alguns periodos.

Final de tarde chegou, o calor foi embora e fomos encontrar um lugar para dormir. A noite o guia fez uma comida bem gostosa e jantamos ao redor da fogueira. O sol estava estrelado e o silencio do deserto era fascinante. Para mim o deserto proporciona (nas horas de pouco calor)  um contato com Deus e  uma astmosfera sagrada que poucos lugares possuem. O silencio, o cenario todo igual, a distancia da areia e do ceu reduzida (pelo menos parece…) dao uma sensacao de que se existe um simbolo do purgatorio na terra, acho que ‘e o deserto. A sensacao ‘e de que so existe voce e Deus, cara a cara, prontos para dialogar. Amei!

Seguimos para Jairpur, somente para nao irmos direto para Delli, enfrentando muitas horas de trem. Conhecemos um local construido por mais um maraja com varios aparelhos de medicao astrologica. Ele adorava astrologia e os aparelhos eram capazes de dizer a hora do dia com precisao. Aproveitei para tirar foto do Grande Signo do Zodiaco.  Descansamos, passeamos, e a noite embarcamos para Haridwar, ao lado de Rishikesh, unica forma de chegar ate la. Estava muito empolgada, pois encontraria minha amiga Marlinda holandesa que estava me esperando e depois seguiria finalmente para o ashram que praticamente desde que comecei a viajem sonhava.

Jairpur - aparelhos de medicao astrologica.

Cena comum!

A chegada em Haridwar foi horrivel. A viagem que seria de 10 horas, foi de 15 e nos estavamos na ultima poltrona do onibus, quase nem mexia rsrs… Pegamos um transito infernal para entrar na cidade pois estava tendo o Kumba Mela, um festival importantissimo para os indianos, que ocorre a cada 4 anos, mas a cada 12, ‘e sagradissimo. Nos chegamos no dos 12 anos! Haviam 15 milhoes de pessoas na cidade, voces conseguem imaginar o que ‘e isso numa cidade minuscula? Por favor, parem um segundo e tentem. Eu nao conseguia ate ver com meus proprios olhos.

Chegada em Haridwar!

Nas ruas de Rishikesh!

Ponte para o ashram!

Yogis!

Sol, acampamentos para todos os lados e mar de pessoas compunham o cenario. Depois de muitas horas conseguimos uma bicicleta que nos levasse ate a estacao de onibus para Rishikesh a 30 min dali. Desembarcamos so depois de 4 h. Na chegada pilhas de pessoas tentavam descer do onibus e outras pilhas subir, resultado? Briga, acabei tendo que sair pela janela do motorista para nao levar um soco. Relembrando, nos saimos de Jairpur nove da noite e sete horas tambem da noite estavamos descendo em Rishikesh. Eu queria gritar e explodir pelo menos 800 milhoes de indianos, eu queria explodir todos os autorikshas, eu queria desaparecer com todas aquelas pessoas e queimar todas as buzinas dos carros numa grande fogueira… Me controlava para nao parecer uma louca varrida e comecar a gritar descontroladamente. Estava com fome (tinhamos tido uma parada para comer as sete da manha), cansada, suada, suja, fedida, grudenta e muito irritada. Acabamos num quarto de hotel luxuoso ao nosso padrao, com ar condicionado e edredon macio, sala de estar e banheira. Aos poucos fui voltando ao normal, principalmente depois de comer um pratao de chicken curry com gosto de comida de mae.

No dia seguinte combinamos de encontrar a Marlinda, saimos caminhando ate o Freedom Cafe, mas como nao sabiamos direito onde era e os indianos nunca admitem nao saber uma informacao, nos mandaram para outro lado. Fim das contas, olhei para o Gui e disse: “vou voltar para o hotel, manda um abraco para Marlinda!” Nao conseguia mais caminhar por aquelas ruas entupidas de pessoas, buzinas e autorikshas barulhentos, exalando gasolina queimada.

Grande Marlinda!

Acabei num lugar de massagem ao lado do hotel me informando sobre os horarios-precos e engatei uma conversa com uma inglesa, que tambem estava tentando ver como funcionava. Nao me lembro o que ela me perguntou, mas comecei a chorar dizendo: “ nao aguento mais a India!”  Ela foi muito legal e acabou me acompanhando novamente no meu chicken curry no hotel. Depois se juntou a nos, um casal (ela argentina e ele polones) e eu e a argentina engatamos uma longa discussao, pois ela era ateia e dizia que gostava de Buda porque ele tambem era ateu. Essa ‘e a pior ignorancia que um ignorante pode dizer. Buda nunca disse que depois do silencio da mente nao havia nada, ele so nao chamou de Deus, mas deixou bem claro que havia uma coisa belissima logo apos e que era a natureza de todas as coisas vivas… Bom, discussao vai e vem, meus olhos sao tapados e advinhem quem era? A Marlinda!!! O Gui continuou o bate papo com o casal enquanto eu e a Marlinda falavamos sem parar. Ela que tambem estava fazendo uma viagem de um ano, e queria viajar pelo resto da vida, muito mais ate do que eu, enfrentou os mesmos sintomas de stress absoluto na India e pensou seriamente em voltar para casa. Foi so no ashram em Rishikesh que ela se recuperou, mas ao sair se deparou com os milhares de devotos do KumbaMella e perdeu toda paz adquirida. Resultado? Estava voltando para o ashram junto comigo. Me preparava para me despedir do Gui, pois dia seguinte seguiria com Marlinda. Era a primeira vez dentro da viagem que eu e o Gui nos separariamos. Como estava ainda bem estressada, nao sabia direito mais porque estava fazendo aquilo, mas sabia que tinha que ir!

O Rajastao ‘e um estado ao noroeste da India que contem uma cultura muito forte. Grande parte da nossa imaginacao sobre o pais sae dali. Entre as mulheres estao os saris coloridissimos e argolas largas no nariz; com os homens seus turbantes de cores vibrantes que identificam casta, religiao, alem de diversas outras tradicoes, que pertencem. As cores variam entre branco, rosa-pink, amarelo florecente, laranjado e colorido. O mesmo ocorre com os saris.

No Rajastao passamos por Udaipur, cidade com um lindo lago no centro juntamente com o imponente Palacio do Maraja. Passamos varios dias largados nos cafes e curtindo a beleza do lago nos finais de tarde no terraco de um gostoso restaurante.

De la seguimos para Jodpur, a cidade azul aos arredores de um imponente forte e de mais outro palacio de um maraja. Sujeira, buzinas e vacas faziam parte do cenario. O calor estava perto dos 40 graus e eu nao aguentava mais a bagunca da India. Comemoramos nosso aniversario de casamento ao mesmo tempo que comemoramos a Pascoa. Haviamos resolvido seguir a quarentena, entao no dia 04 aproveitei para degustar meu primeiro pedaco de carne e tomar uma cerveja. O Gui preferiu manter-se sem carne e alcool ate sairmos da India.

Assistimos um filme maravilhoso de bollywood no cinema e deu ate para chorar. Como os filmes sao longos, depois de uma hora e meia tem intervalo e deu para aproveitar e espichar as pernas. Quero tentar baixar o filme pela internet quando voltar ao Brasil e ver de novo. Uma historia de amor daquelas dos tempos de nosso avos. Achei muito bonito ver como os indianos tem ainda um coracao ingenuo e pouco moderno, pena que alguns filmes de bollywood ja estao se contaminando e a nova geracao de jovens indianos estao ficando bem mais ocidentalizados.

De Jodpur resolvemos encarar Jaisalmer, a cidade ao lado do deserto Thar, mesmo sabendo do calor infernal que fazia. Foi uma otima decisao. Pois conseguimos encontrar um hotel baratissimo com piscina para passarmos o dia na agua e emendarmos um passeio no deserto. Conhecemos um casal portugues que estava fazendo a India de moto (que inveja!), foram nossas companhias por alguns dias. Conversavamos ao modo bem latino, dando para matar a saudades de casa, eles eram muito legais. Como nunca tinha estado no deserto e nem andado de camelo, estava curiosa de como seria a experiencia. Um casal ingles bem sem graca nos acompanhou.

O passeio de camelo foi ultra desconfortavel como todo mundo dizia, nao consigo entender porque os camelos andam daquele jeito tao insuportavel, podia ser tao legal! Como um cavalo, por exemplo, mas nao, dependendo das horas de passeio, voce pode passar alguns dias lembrando do camelo. Como estava num dia muito bom comigo, procurei me entregar ao ritmo do camelo e consegui ate meditar em alguns periodos.

Final de tarde chegou, o calor foi embora e fomos encontrar um lugar para dormir. A noite o guia fez uma comida bem gostosa e jantamos ao redor da fogueira. O sol estava estrelado e o silencio do deserto era fascinante. Para mim o deserto proporciona (nas horas de pouco calor)  um contato com Deus e  uma astmosfera sagrada que poucos lugares possuem. O silencio, o cenario todo igual, a distancia da areia e do ceu reduzida (pelo menos parece…) dao uma sensacao de que se existe um simbolo do purgatorio na terra, acho que ‘e o deserto. A sensacao ‘e de que so existe voce e Deus, cara a cara, prontos para dialogar. Amei!

Seguimos para Jairpur, somente para nao irmos direto para Delli, enfrentando muitas horas de trem. Descansamos, passeamos, e a noite embarcamos para Haridwar, ao lado de Rishikesh, unica forma de chegar ate la. Estava muito empolgada, pois encontraria minha amiga Marlinda holandesa que estava me esperando e depois seguiria finalmente para o ashram que praticamente desde que comecei a viajem sonhava.

A chegada em Haridwar foi horrivel. A viagem que seria de 10 horas, foi de 15 e nos estavamos na ultima poltrona do onibus, quase nem mexia rsrs… Pegamos um transito infernal para entrar na cidade pois estava tendo o Kumba Mela, um festival importantissimo para os indianos, que ocorre a cada 4 anos, mas a cada 12, ‘e sagradissimo. Nos chegamos no dos 12 anos! Haviam 15 milhoes de pessoas na cidade, voces conseguem imaginar o que ‘e isso numa cidade minuscula? Por favor, parem um segundo e tentem. Eu nao conseguia ate ver com meus proprios olhos.

Sol, acampamentos para todos os lados e mar de pessoas compunham o cenario. Depois de muitas horas conseguimos uma bicicleta que nos levasse ate a estacao de onibus para Rishikesh a 30 min dali. Desembarcamos so depois de 4 h. Na chegada pilhas de pessoas tentavam descer do onibus e outras pilhas subir, resultado? Briga, acabei tendo que sair pela janela do motorista para nao levar um soco. Relembrando, nos saimos de Jairpur nove da noite e sete horas tambem da noite estavamos descendo em Rishikesh. Eu queria gritar e explodir pelo menos 800 milhoes de indianos, eu queria explodir todos os autorikshas, eu queria desaparecer com todas aquelas pessoas e queimar todas as buzinas dos carros numa grande fogueira… Me controlava para nao parecer uma louca varrida e comecar a gritar descontroladamente. Estava com fome (tinhamos tido uma parada para comer as sete da manha), cansada, suada, suja, fedida, grudenta e muito irritada. Acabamos num quarto de hotel luxuoso ao nosso padrao, com ar condicionado e edredon macio, sala de estar e banheira. Aos poucos fui voltando ao normal, principalmente depois de comer um pratao de chicken curry com gosto de comida de mae.

No dia seguinte combinamos de encontrar a Marlinda, saimos caminhando ate o Freedom Cafe, mas como nao sabiamos direito onde era e os indianos nunca admitem nao saber uma informacao, nos mandaram para outro lado. Fim das contas, olhei para o Gui e disse: “vou voltar para o hotel, manda um abraco para Marlinda!” Nao conseguia mais caminhar por aquelas ruas entupidas de pessoas, buzinas e autorikshas barulhentos, exalando gasolina queimada.

Acabei num lugar de massagem ao lado do hotel me informando sobre os horarios-precos e engatei uma conversa com uma inglesa, que tambem estava tentando ver como funcionava. Nao me lembro o que ela me perguntou, mas comecei a chorar dizendo: “ nao aguento mais a India!”  Ela foi muito legal e acabou me acompanhando novamente no meu chicken curry no hotel. Depois se juntou a nos, um casal (ela argentina e ele polones) e eu e a argentina engatamos uma longa discussao, pois ela era ateia e dizia que gostava de Buda porque ele tambem era ateu. Essa ‘e a pior ignorancia que um ignorante pode dizer. Buda nunca disse que depois do silencio da mente nao havia nada, ele so nao chamou de Deus, mas deixou bem claro que havia uma coisa belissima logo apos e que era a natureza de todas as coisas vivas… Bom, discussao vai e vem, meus olhos sao tapados e advinhem quem era? A Marlinda!!! O Gui continuou o bate papo com o casal enquanto eu e a Marlinda falavamos sem parar. Ela que tambem estava fazendo uma viagem de um ano, e queria viajar pelo resto da vida, muito mais ate do que eu, enfrentou os mesmos sintomas de stress absoluto na India e pensou seriamente em voltar para casa. Foi so no ashram em Rishikesh que ela se recuperou, mas ao sair se deparou com os milhares de devotos do KumbaMella e perdeu toda paz adquirida. Resultado? Estava voltando para o ashram junto comigo. Me preparava para me despedir do Gui, pois dia seguinte seguiria com Marlinda. Era a primeira vez dentro da viagem que eu e o Gui nos separariamos. Como estava ainda bem estressada, nao sabia direito mais porque estava fazendo aquilo, mas sabia que tinha que ir!

A beleza das obras Sacras!

Chegamos a Jalgaon e logo fizemos amigos, fechamos um taxi para as ruinas de Ajanta e Eloara. Tratavam-se de 3 tibetanos exilados na India, um casal e uma amiga. Quando seguimos viagem, nosso amigo comecou a recitar seus mantras ate chegarmos em Ajanta 1,5h depois. Era emocionante de ver!

Ajanta ‘e muito bonita, sao uma sequencia de templos budistas cravados na pedra, mas ainda mais bonito era ver a devocao do amigo tibetano frente as esculturas de Buda. O calor estava super forte, mas nao diminuia nossa exitacao frente a beleza das obras.

Quando chegamos em Elora apos o almoco, nossa expectativa era ainda maior, porque diziam que nem se comparava a Ajanta. Mas surpreendeu, foi muito alem do que esperavamos. A harmonia dos templos, agora tambem hindus e janeistas, os desenhos na parede e a perfeicao dos deuses esculpidos na pedra, eram chocantes. Eu e o Gui nao conseguiamos falar uma palavra um para o outro. E nosso amigo estava completamente emocionado por estar ali.

No final, caminho de volta para o hotel, ja de noite, o tibetano devoto nos disse que fomos abencoados por Buda, portanto seriamos muito felizes, haviamos estado frente a frente a lugares sagradissemos de pereguinacao budista. Voltamos sorrindo e curtindo a paisagem, escutando a musica indiana que tocava no toca fita do motorista embalados ao som dos mantras recitados ininterruptamente pelo tibetano. Ate chegarmos  no hotel e eu comecar a sentir umas coceiras insuportaveis nos bracos que durante a noite se tornaram bolas e parecia que meus bracos estavam borbulhando por dentro. Peguei uma alergia da comida e me cocei por tres dias ininterruptos ate chegar ao Rajastao.

Costumes, Religiao, Cores e Temperos!

Contado um pouco da historia e da religiao, vamos agora a parte vivencial, como ‘e estar na India. Viajar na India sem duvida nao ‘e uma viagem comum, eu diria que nao ‘e uma viagem, ‘e uma experiencia, um mergulho, na terra e no ceu, ao mesmo tempo. A India provoca sentimentos intensos em tudo o que ela te apresenta. Para mim, ate a India, os paises da Africa tinham sido os que tinha gostado mais, nao pelos paises em si, apesar de belissimos, mas pela experiencia que a Africa promove. Hoje acrescentaria a India ao lado da Africa. Enquanto a Africa representa a terra no seu sentido mais profundo, a India representa o ceu.

A India ‘e a alma do mundo como muitos dizem. O unico problema ‘e que voce nao caminha pelos jardins do Eden, caminha no meio de fezes de vacas, lixos, buzinas incessantes e muita, mais muita gente. Mas mesmo assim, o ceu esta ali, regendo tudo e no meio do caos absoluto, as pessoas se mantem meio “intactas” a toda loucura ao seu redor, ancoradas por sua fe. Mesmo que os gurus e os sadhus ja nao sejam mais como antigamente, mesmo que voce escute algum indiano dizer que hoje se compra o guru que le o mapa astral para este dizer que aquele casamento almejado sera bom, a fe e Deus estao presente na maior parte e regendo a sinfonia da India. E isso ‘e uma coisa que toca muito quem conhece o pais.

Detalhando um pouco mais o caos. O transito ‘e totalmente caotico, nas rodovias, a maioria como as nossas, vai e vem, as pessoas ultrapassam umas as outras e quem esta vindo do outro lado, tranquilamente vai para o acostamento, como se o acostamento fosse estrada e nao acostamento. Quem esta ultrapassando, ‘e ultrapassado por outro carro e sucessivamente, enquanto que o outro que esta vindo do outro lado, se joga para o acostamento e continua sua jornada. No meio da rodovia voce encontra carros, caminhoes, onibus, carrocas, vacas, bicicletas, tudo ao mesmo tempo. As buzinas nao sao usadas para chamar atencao frente a um possivel acidente, elas sao utilizadas ininterruptamente, a todo instante, todo segundo, por todos os motivos, ou pela falta de motivos tambem. Depois de quase dois meses de India, quando buzinam para mim nas ruas por nada, eu ja estou xingando o motorista, coisa que nao combina comigo, mas a India provoca todo o tipo de emocao, incluindo stress, raiva, cansaco, furia, etc.

As pessoas sao uma piada. Se voce pede informacao para alguem na rua, em poucos segundos juntam-se uns 10 indianos para escutar o que voce quer e todos querem ajudar. Se voce passa, eles perguntam: “ Where are you from?” e etc, eles sempre querem saber de voce, falar com voce, te conhecer. Nos trens sempre puxam papo, te oferecem comida sem parar, em pouco tempo tem uma plateia escutando a conversa e querendo fazer parte, trocam telefones, e-mails, voce se sente numa grande familia. Eles sao muito calorosos e generosos. E as fotos? Sempre querem tirar fotos com voce tambem. Eles nos estranham assim como nos estranhamos eles. E o curioso, ‘e que perto dos ocidentais, eles parecem ingenuos. Por exemplo, quando eles querem olhar para voce, eles param e olham fixamente sem parar, sem disfarcar. Nao so os homens, pelo fato de admirarem a beleza branca, mas as mulheres tambem. Alguns lugares do norte, eles tentam passar a mao nas mulheres que estiverem caminhando sozinhas ou com roupas justas, para a realidade deles, e se a mulher xingar ou qualquer outro ocidental que estiver junto xingar, gritar, eles abaixam a cabeca e saem meio correndo, envergonhados do seu descontrole frente ao corpo “nu” para eles. Comigo nao aconteceu, porque sempre estava com o Gui e fazia questao de caminhar na frente do Gui, mas aconteceu com algumas turistas que viajam sozinhas. Eles nao sao acostumados com poucas roupas (regata, shorts, etc), como na maioria dos paises ditos orientais, e quando vem as mulheres ocidentais, ficam bobos, literalmente. Para caminhar pelas ruas da India, no calor que pegamos de em media 37 a 45 graus, o ideal ‘e usar calcas que passam do joelho e largas e camisetas bem soltas que tapem os ombros, se voce quiser ter paz. E todas as turistas adotam o estilo indiano, por respeito e precaucao. Banho de mar ou rio? De roupa! Nunca de biquine, somente nas prais bem turisticas voce pode ficar a vontade.

E a comida? Uma delicia! Sao temperos e mais temperos, pimenta e mais pimenta, mas tudo uma delicia, em cada regiao que voce passa a comida ‘e diferente, pratos novos para descobrir, nao tem como enjoar. Eu particulamente, enjoei muito mais dos sucesssivos nasi ou mie gorengs da Indonesia ou dos phad thays da Tailandia, do que das comidas indianas. E a facilidade para se tornar vegetariano ‘e uma coisa incrivel. Nao precisa fazer muito esforco. As opcoes nao se esgotam. As roupas das mulheres embelezam o pais. O colorido e os brilhos, aderecos como brincos nos pes, narizes, colares e pulseras enriquecem ainda mais o conjunto. Nao tem muito como voce olhar para uma indiana e distinguir, como podemos nos nossos paises, se esta mulher tem mais condicoes de compra do que aquela (pelo menos para o nosso olhar), todos os vestidos sao, sem excessao, lindos e unicos, parecem nao se repetir. Os homens no Sul andam de sarong e camisa branca como muitos outros paises do Oriente e no Norte voce ve mais calcas do tipo feitas no alfaiate. As cores estao presentes em tudo, nas casas, nas ruas, nos restaurantes, nos proprios elefantes pintados e enfeitados. As vacas passeam tranquilamente, e os carros param para aguarda-las atravessar de um lado ao outro. Junto com os cheiros dos temperos, tem cheiros de bosta de vaca e de lixo. Mas em geral, os cheiros nao sao fortes.

Resolvemos comecar a viagem por Cochin no Sul, pois dizem que o Sul ‘e muito mais calmo que o Norte. Ficamos na cidade de Fort Cochin e foi perfeito. Eu me sentia na India, mas sem aquele tumulto que todo mundo conta, aquela consciencia constante de que estou num pais de 1,1 bilhao de pessoas, num espaco geografico menor que do Brasil. Deu para se impressionar, sem chocar! Voltamos de onibus do aeroporto com um casal de suicos e acabamos por passar alguns dias com eles. Bem gente boas. No primeiro dia passeamos pelas ruas para conhecer o lugar, a igreja de Sao Francisco, o bairro judeu, as redes de pesca chinesas e as casas coloniais portuguesas. As igrejas sao belissimas, eu particularmente gostei muito da igreja de Santa Maria, inclusive ao lado tem um convento e colegio, muito bom ver todas aquelas meninas indianas uniformizadas estudando num convento, seguindo uma religiao que para nos ‘e tao familiar. A maior parte dos cristaos do pais estao nos estados de Kerala e Goa.

O meu professor conta que quando Sao Franciso Xavier chegou no Sul para pregar o Cristianismo, que naquela ‘epoca era matar ou morrer, foi chamado pelos Brahmanes para uma reuniao, pois eles gostariam de entender o que era e quais eram os principios da tal religiao. Apos 3 dias reunidos, os Brahmanes disseram: “ Pode continuar pregando, isso ‘e Sanatanadharma!” Sao Francisco saiu impressionado como aquilo era possivel. Deixamos Fort Cochin felizes. Eu com uma otima impressao da India e o Gui fascinado, dizendo que nao parecia India. Eu pensava: “ o que sera que me aguarda mais pra frente….”

Seguimos com nossos amigos suicos para Aleepei, onde ficam os famosos canais da regiao. Acabamos por decidir alugar um barco e fazer o passeio completo, de um dia e uma noite, e nao apenas pegar uma simples canoa para dar uma “voltinha”. A decisao foi otima, pois o lugar era maravilhoso. Alem de uma delicia, sair do calor umido insuportavel que fazia, para ficarmos no barco-casa, no meio dos canais, curtindo o visual, a natureza e passando por pequenas vilas ao longo do caminho. Mulheres lavando roupa no rio, homens tomando banho e por ai vai. Muito bom ficar largado no barco so comtemplando o visual e as pessoas. As refeicoes eram saborosissimas e comemos bastante. Aproveitei no fim do dia para cortar o cabelo do Gui, que ja estava uma mistura de menudo com surfista e Ze Galinha. Nunca tinha cortado um cabelo, mas adorei, e o resultado ficou bom, confiram. A noite apos o jantar vimos um filme muito engracado, sobre uma despedida de solteiro em Las Vegas, nao lembro o nome, aquela que os cara esquecem tudo, aparece o Mike Tyson, historia manjadissima, mas recomendo, choramos de rir.

Antes

Depois!

Dia seguinte fomos para Varkala, uma praia ao sul de Allepei. Tivemos que esperar um monte na rodoviaria suja local ate chegar o onibus de linha, tipo nossa “lotacao”, quando chegamos la, acabados de calor, no cansaco acabamos escolhendo mal o hotel, e ficamos num hotel muito bom, mas muito perto do centro e longe da parte mochileira, que era bem mais astral e longe do centro. Aproveitamos para tomar banho de mar todo dia e apreciar a diferenca nos dois lados da praia. De um lado, era o sitio turistico, onde os indianos nao podiam se aproximar. Nesse espaco ficavam os turistas a vontade de sunga e biquines, ate top less, e do outro, era a parte onde podia estar tanto os turistas quanto os indianos. No comeco achamos uma sacanagem com os indianos ter guarda no meio da praia impedindo-os de passar para o lado de la, mas depois fomos entendendo, eles ficavam encarando, tirando foto das turistas de biquines enlouquecidos, enquanto do lado meio indiano meio turistico, as indianas se refrescavam de sari no mar, ate com os lencos no pescoco elas entravam. Coitados, da para entender!

Lado B

Varkala!

De la seguimos para Mandurai, uma cidade sem nada para ver, mas com um belissimo templo hindu. Foi minha primeira viagem de trem e gostei bastante. Esperava que os trens fossem piores, pois li um livro de um brasileiro que escreve ate bastante livros de viagem chamado Expresso p/ India, que so metia pau em tudo, cada detalhe que ele contava da India era como se ele estivesse caminhando pelo inferno. E como ele viajou muito de trem, falava muito mal dos trens. Eu adorei. Nao sao novos, mas nao sao tao decadentes como ele dizia. Acho que esses caras escrevem assim so para ficar mais sensacionalista, para vender mais livro, so pode ser. Durante a espera, ficamos conversando com uma simpatica familia indiana, que aproveitou para pintar minha testa, um risco vertical saindo do meio da cabeca, em vermelho, querendo dizer que sou casada e o terceiro olho logo abaixo. Demais!

Esperando o trem!

Sobre o trem  aqui vale um parentes para o chai, o cha deles que tem por todos os cantos. Quando fecho os olhos e lembro dos trens, me vem o som dos vendedores gritando: chai, chai, chai, chai, chai… Imagina nesse calor de quase 45 graus, voce tomar cha quentissimo? ‘E isso que ocorre aqui, nao tem nada gelado, e para refrescar tomamos chai. E acostuma e parece ate que refresca no fim das contas. A fisica ‘e capaz de explicar isso. Os chais sao deliciosos e de temperos diferentes, chais de canela, de cravo, de capin limao e por ai vai. Eles fazem com leite, sem uma gota de agua, e aquecem o leite junto com os temperos na panela, fica muito bom. E qualquer lugarzinho de beira de estrada e lugarzinho pe sujo como diz o Gui, tem um chai para voce.

Eu e Cristine nos preparando p/ dormir!

A chegada em Mandurai foi chata, pois os hoteis eram caros e os mais em conta eram terriveis, entao gastamos um tempo, em plena madrugada ate achar algo melhor. O calor estava insuportavel, nao dava quase para ficar no quarto durante o dia. A escolha pela barulhenta e suja Mandurai valeu a pena pelo templo maravilhoso. Confiram! Triste foi, em pleno calor, ter que andar por todo o templo gigantesco de pes descalcos e ainda sairmos do lado errado. O Gui teve que ir pulando buscar nossos sapatos bem longe dali, enquanto eu aguardava descalca conversando com uma indiana…

As paredes dos templos!

Os Brahmanes que cuidam dos templos!

Templo shivaita e o touro venerado!

Pelas ruas!

O que dizer da India?

Fiquei alguns dias pensando por onde comecar a falar da India de modo que voces pudessem se sentir bem familiarizados e perdessem aquela sensacao comum quando pensamos na India, como um lugar de costumes meio descabidos, onde tudo parece nao fazer muito sentido e que talvez por isso as pessoas sintam tanta curiosidade de ir ate la. Mas depois de eu ler alguns livros sobre a historia do pais, do povo e estudar sua religiao antes de chegar aqui, a India passou a ter sentido para mim e ‘e sobre esta India com sentido que quero comecar a falar, pois tem muita coisa para dizer da India…

Quando os europeus chegaram ao subcontinente indiano a regiao era dominada por reinos hindus e muculmanos que disputavam o poder entre si ha custa de muito sangue. Com a conquista da independencia no final dos anos 40 se dividiu primeiramente em India, onde ficou a maioria hindu, e Pakistao para os muculmanos. Disputas politicas continuaram a existir no leste da India, ate que no inicio da decada de 70, houve uma nova divisao formando Bangladeshi, tambem de maioria muculmana. Apos a conquista dos povos em terem seus proprios territorios e com isso garantir a sobrevivencia de suas tradicoes religiosas, a India finalmente pode ser India!! E apesar do numero de muculmanos ainda ser maior que a populacao do Brasil, nao ha como pensar e compreender o pais, sem antes compreender o hinduismo e sua marca na populacao. Entao pretendo contar um pouquinho da religiao, das castas e do momento que a India vive neste sentido religioso e espiritual.

Da mesma maneira que o Judaismo fala dos descendentes de Abrahao e Jacob (filho de Abrahao) – os judeus, o hinduismo fala dos hindus. Para fazer parte do hinduismo, voce precisa fazer parte da comunidade vedica, voce precisa ser hindu, porque a religiao deles nao fala de um “estado de ser” como o cristianismo, mas de um valor que ‘e trazido hereditariamente e que propoe organizar a sociedade, o famoso sistema de castas. A religiao hindu comecou a partir dos Vedas, o livro sagrado. A principal questao do hindu foi compreender quem ‘e o homem, por isso toda a religiao esta baseada no estudo de sua Antropovisao, que fala do que o homem ‘e e nao do que ele deveria ser. Nesse estudo aprofundado (e umas das coisas mais lindas que tive acesso nessa viagem) explica grande parte da cultura hindu, pois ela fala do homem e a conclusao principal, se ‘e que posso dizer assim, ‘e que todo homem possue uma ordem intrinseca que o apoia na realidade, que eles chamam de dharma e ‘e essa ordem que os sacerdotes hindus vao dizer que ‘e a religiao deles.

Arquitetura dos templos hindus. Poucos deuses?

Os vedas se afirmar como uma colecao de aplicacoes dessa ordem intrinseca que esta no anandamaia (a camada mais pura do homem). O hindu vai nomear a religiao dele como Sanatanadharma. Sanatana significa eterno e dharma lei. Segundo os hindus, cada ser tem um dharma, que vem anterior ao proprio ser e voce nao escolhe, mas precisa descobri-lo na caminhada da vida. Eles acreditam que Deus faz pessoas diferentes e caminhos diferentes para cada um chegar ate ele, por isso dizem que para cada individuo concreto ha um caminho concreto, o dharma e na medida em que voce se distancia do ser dharma perde sua identidade e passa a ser objeto de outros seres. E o hinduismo serve para traduzir o dharma do ser humano. Falando de uma forma mais “pratica”, cada homem possui uma identidade e uma missao, portanto uma vocacao. E ‘e em razao desta que o homem se realiza verdadeiramente e cumpre seu papel como ser humano.

Os vedas propoem que para manter uma religiao assim ‘e necessario “somente” duas coisas: o sistema de castas e que qualquer outra religao que queira entrar no pais somente os brahmanes (a casta mais nobre) podem aprovar. Por isso o hinduismo anexa diversas religioes, pois considera manifestacoes de Sanatanadharma. Assim a grande abertura do Induismo com os crencas e ritus de seus fieis, que para nos podem parecer costumes descabidos, para eles, o que importa ‘e levam a realizacao do dharma.

Os brahmanes que cuidam dos templos!

O hinduismo contempla tambem tres Deuses principais: Brahma – o Criador, Vishnu – o Mantenedor e Shiva – o destruidor/regenerador. Cada um expressa um dos aspectos de Deus. Cada fiel deve adorar sempre um aspecto do Deus  e mais um que tenha um papel de padroeiro para nos. Dos principais o mais reverenciado ‘e o Shiva e dos “padroeiros” ‘e o Ganesh, filho de Shiva (aquele com cabeca de elefante). A veneracao com as vacas acontece pois o touro ‘e o transporte de Shiva.

O touro de Shiva, venerado dentro dos templos!

Do que fala o sistema de castas? Tem um pensador suico chamado Frithjof Schuon que resume muito bem quando diz: “se existem a diversidade de qualificacoes humanas e a hereditariedade, o sistema de castas ‘e possivel e legitimo”. E ‘e disso que fala os vedas, que o sistema de castas se baseia na natureza das qualificacoes humanas e que neste sentido, ele pode ser aproveitado para toda humanidade.

O sistema fala de 4 castas principais e varias subdivisoes entre elas. Vou citar bem superficialmente as principais: existem os Brahmanes que sao o tipo puramente intelectual, contemplativo, sacerdotal, onde o que importa ‘e o Transcendente; em seguida existem os Kshatriyas que tem sua forca no carater, sao os grandes guerreiros e os martires (que podemos ver ao longo de toda historia do mundo), onde o que importa ‘e o ato, que determina e modifica as coisas; em seguida vem os Vaishyas que ‘e o homem material, ‘e a riqueza, a seguranca e a prosperidade que importa, sao os ditos comerciantes; e por ultimo vem o Shudra que ‘e qualificado para os trabalhos manuais, o trabalhador bracal, onde o que importa sao as satisfacoes vitais basicas, e tem como grande valor a fidelidade. Por ultimo vem os parias ou intocaveis, os sem castas, que sao os ordenados a fazer o que os outros rejeitam, pois eles sentem prazer na transgressao.

A sociedade hindu esta sub-divida basicamente nessas 4 castas principais, e mesmo que voce nao faca parte do hinduismo, por exemplo, voce seja um cristao indiano, voce ‘e hindu e portanto pertence a algumas dessas castas. O objetivo religioso das castas ‘e ordenar a sociedade para facilitar o caminho de seu dharma. ‘E um aspecto importante da identidade.

Sei que fica complicado para nos ocidentais entendermos e nao criticarmos o sistema de castas, por diversas razoes: primeiro o sentido de identidade para nos nao ‘e uma preocupacao comum, nos preocupamos muito mais em sermos eficientes e uteis do que em saber de fato quem somos; outro ponto que para nos o livre arbitrio, a liberdade de ir e vir, ‘e muito mais importante onde a casta “limitaria”; outro ponto ainda ‘e que subestimamos a hereditariedade porque ela quase nao funciona mais hoje em dia no nosso mundo ocidental; depois temos ainda o aspecto social que para nos ‘e discriminatorio e por ultimo, para quem olha para o aspecto religioso, temos um ensinamento muito marcado “ diante de Deus todos somos iguais”. E isso ‘e interessante citar, pois nesse ponto, para as pessoas altamente espirituais que possam surgir das outras castas, o sistema de castas tambem se neutraliza, como o caso de Nandamar que foi um santo paria.

Algumas grandes personalidades e santos hindus eram contra o “sistema”, nunca ao sentido e significado, das castas, como Buda por exemplo. Alguns destes, como Ramana Maharish, que dizia que o sistema era bom, mas nao funcionava mais na India, quem nascia numa familia Brahmane ja nao ‘e mais brahamane, quem nascia Paria ja nao ‘e mais paria e etc. Inclusive ele que foi um grande santo hindu, nasceu numa familia Brahmane e conta que nunca ouviu falar nos Vedas em casa, apenas em dinheiro.

Em decorrencia de varias questoes a hereditariedade nao esta mais funcionando como antigamente e isso fica de certa forma claro quando visitamos a India. Por seculos e seculos aquela familia que comecou brahmane continuara sendo brahmane, mas nao necessariamente os valores brahmanicos estarao presentes nos membros da familia. Estamos numa epoca de superpopulacao e de valores modernos e nesse sentido o mundo respira essa realidade e nao seria diferente na India. Quando falo de valores modernos, falo do culto a materia (ao dinheiro) e ao racionalismo cientifico. A India tem vivido os mesmos valores que nos. Gosto de uma parte onde o Shuon diz que o mundo vive uma epoca meio vaishya meio shudra e ao meu ver, ‘e isso mesmo.

Nesse cenario, encontramos muitos sadhus (que sao os monges daqui), pessoas que resolveram abandonar o mundo para viver somente de doacoes e de busca por iluminacao, que nao sao serios. Grande parte dos sadhus infelizmente hoje sao assim. Passam pelos turistas pedindo dinheiro ou se oferecendo para tirar fotos em troca de algumas rupias. O mesmo ocorre com os gurus (guru num sentido preciso na India ‘e alguem que atingiu a iluminacao), que aqui sao considerados semi-deuses, onde multidoes e multidoes seguem seus ensinamentos e sao falsos gurus. Esses dias tinha uma reportagem em um jornal local, de um guru super famoso que pregava o celibato estava envolvido com uma atriz de bollywood. O mesmo ocorre nos ashrams, locais que originalmente eram a casa de algum guru e as pessoas iam para praticar yoga, meditacao e participar dos pujas (cerimonias sagradas de purificacao) e hoje sao puramente comerciais. Existem poucos ainda que se mantem serios, vivendo de doacoes dos seguidores e ajudando a comunidade.

Como disse sabiamente um local para mim: “cuidado com os gurus e os ashrams, hoje essas pessoas so querem saber de dinheiro, nao ‘e mais como antigamente. Ai ele completou: “ eles tem milhares de seguidores, uma parte sao os nossos locais que vivem de estomago vazio e  em busca de milagres, e a outra parte, sao os seguidores ocidentais, que tem o estomago cheio, mas a cabeca e o coracao vazio”!!

Os fieis no templo em ritual!