Um País fechado!

De Mashhad seguimos para fronteira do Turkomenistao. Os Turkmen sao turcos assim como os da turquia, parentes bem proximos. Nosso primeiro pais da Asia Central, uma das regioes principais da nossa viagem pela Rota da Seda. A tal rota, que ia da Turquia ate a China/India (ou vice-versa), ligava o oriente ao ocidente numa das principais rotas comerciais da antiguidade. Os produtos variavam desde tecidos como a seda ate especiarias da India. Ha 700 anos atras Marco Polo explorou muito bem essa rota, quando decidiu se aventurar com seu pai e tio comerciante ate a China, para se reencontrar com o Kublai Kan (rei mongol descendente de Gengis Kan). O Kan havia solicitado para seu pai, levar estudiosos da religiao crista, ja que no seu reinado todos os credos poderiam ser representados. Ha quem questione se ele realmente fez essa viagem narrada no seu livro, mas no seu leito de morte, com o padre dando a ultima chance para ele se arrepender “de suas mentiras” no ritual da Uncao dos Enfermos, Marco Polo disse: ” Nao contei nem a metade do que vi”. Nos identificamos em varias das passagens do seu livro, quando ele relatava com detalhes cada lugar que passou, alguns pareciam intactos ate hoje, sentimos que ate nos poderiamos contar os mesmos relatos.

A chegada na fronteira nao foi facil. Primeiro pegamos um onibus podrasso, num calor infernal, com janelas  que nao abriam. Eu nem pensei duas vezes, joguei nossa garrafa de agua de 1,5l na cabeca para refrescar. Duas horas depois ja estava seca, pois tivemos que esperar do lado de fora da fronteira, embaixo de um toldo, batendo quase 45 graus, porque era hora do almoco.

A chegada no  Turkomenistao por Ashgabat foi impactante. Eu sabia que tratava-se de uma ditadura forte e de um pais pobre no meio do deserto, mas o que vi na chegada era um mini Las Vegas. Predios brancos imponentes para todos os lados, a maioria do governo e vazios, ninguem parecia trabalhar la dentro. Na sequencia mais predios brancos, agora apartamentos de luxo, construidos pelo governo, para seus  funcionarios de auto padrao poderem comprar. Ajuda de 50% paga pelo governo e o resto financiado, por um preco amigavel, por volta de 300 mil dolares…  resultado: estao todos vazios. Os predios foram contruidos as custas da retirada dos moradores de suas proprias casas sem indenizacao alguma.

Chegada em Ashgabat!

Os predios vazios!

 

Chafarizes e pracas arborizadas, com aguas jorrando para todos os lados e luzes coloridas. Ate uma imitacao da Blue Mosque de Istambul tem por la.  Nas ruas placas de proibido buzinar, muito silencio, poucas pessoas circulando, e militares em cada quadra. Mulheres com roupas tipicas muito elegantes. Voce tinha medo de tirar uma foto, de olhar de mais para o mesmo lado.  As pessoas nao sorriam, se mantiam serias, fechadas, cuidando ou melhor se protegendo no seu silencio.

Pracas e mulheres tipicas!

 

Mais pracas!

Blue Mosque!

 

Mini-Vegas!

O unico jornal local ‘e do governo, portanto nao ha nenhuma liberdade de imprensa. O antigo ditador morreu com 3 bilhoes na sua conta pessoal, espalhou suas estatuas de ouro pelas pracas da cidade, se confundiu com Deus escrevendo o livro da alma, que se cada Turkmen lesse 100 vezes ganharia o paraiso. O livro era exigido nas escolas e ate para passar em teste de auto escola.  Hoje o generoso ditador encontrasse no inferno, aproveitando seus dias eternos de agustia e tristeza. Uma pena! O ditador atual parece que ‘e farinha do mesmo saco. Outdoors dele espalhados pela cidade de maos dadas com criancinhas e calendarios dele espalhados por tudo, dele praticando polo, tiro ao alvo, caminhadas, etc, um verdadeiro nobre!

O antigo ditador!

A populacao se mantem silenciosa, nao diz nada, pouco fala, com excessao de algumas adolescentes nas pracas se jogando agua dos chafarises, o que mais vi foi apenas cara de “nao estou vendo nada”.

Ficamos num hotel confortavel e aproveitamos alguns cafes na cidade. Alem de irmos para um mercado que ficava nos suburbios da cidade, que antes era bem tipico, mas o tal governo concretou tudo, pintou de branco, organizou, perdendo todo o charme. La se vende desde os lencos floridos estonteantes das mulheres, eletrodomesticos, ate camelos.

Provando lencos!

 

As tipicas senhorinhas turkmen!

 

Moradia para os nao ligados ao governo!

 

E o ex-presidente morre com 3 bilhoes na conta!

De Ashgabat seguimos para Meri, onde buscamos um share taxi. O motorista era um doente, corria enlouquecidamente e nao abria as janelas do carro em funcao do calor insuportavel la fora, mas tambem nao ligava o ar condicionado para economizar. Nossos dois companheiros do taxi comunitario aproveitavam ainda para fumar. Um inferno, foram quase quatro horas assim. Eu sentia que estavamos voando, mas olhava no ponteiro e mostrava 80 km/h, mas nao era km/h, era milhas,  o que significava quase 150 km, se soubesse teria pedido para parar, mas no final deu tudo certo.

Em Meri descansamos da viagem infernal num bom hotel e no outro dia pegamos um taxi para a fronteira do Uzbequistao. Quando o Gui colocou as malas, o infeliz saiu correndo com todas as nossas coisas, o Gui tentou dar um de heroi correndo atras do carro, e eu fiquei chocada olhando para o carro indo sem ter a genial ideia de anotar a placa. Como no Turkomenistao todo mundo ‘e taxi, nao tem essa de ligar para central. Eu e o Gui nao acreditavamos, a gente tremia de nervoso. O moco do hotel disse que sem placa seria muito dificil localizar o carro e nos nem sabiamos o modelo, apenas que era azul marinho.

Uns dez minutos depois, o maluco volta, e diz: “vamos!” O Gui arrancou as malas do carro e xingou o cara. Nao entendemos o que aconteceu ate agora, se ele se arrependeu, ou se viu que as bagagens de mao, onde tinha o dinheiro ficaram com a gente, ou o que. O moco do hotel, para apaziguar a situacao, disse que ele devia ter problemas mentais. Nao acreditamos! Sei que foi um sufoco, mas um presente e uma mensagem clara para nos dois: ” se liguem!” Foi isso que entendi que queriam nos dizer!

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As outras belas cidades persas!

De Isfahan seguimos para Shiras, cidade onde fica o mausoleu de dois dos grandes poetas persas: Saadi e Hafes. Hafes falava de amor e influenciou muito Goethe. Saadi de sabedoria, conhecimento. Os outros grandes sao o Ferdosi que falava da cultura persa e Molavi, que alem de poeta, era um grande sufi e mistico, que falava do caminho espiritual.

Jardins do mausoleu do Hafes!

Local onde Hafes est'a interrado!

 

Um dia na rua, passou um menino pobrezinho oferencendo alguns papeis, pedi para o Payam e a Sumi o que era, pensei em algo como jogo do bixo, mas nao, voce fazia um pedido e pagava para retirar um poema que te ajudasse a refletir sobre o teu pedido. Eu achei genial! Depois de ver na festa moderna, os amigos da Nana rescitando poemas com seus instrumentos um para o outro, a Sumi rescitando para mim na sua casa, mais o menino pobrezinho vendendo nas ruas, ficou claro para mim que assim como no Brasil sabemos de cor o nome dos principais jogadores de futebol, os iranianos sempre sabem de cor  alguns dos poemas dos seus poetas preferidos. Quando voce fala com eles, ‘e comum te contarem qual dos poetas ‘e seu preferido, como a gente falar eu sou muito mais Romario do que o Fenomeno… Em geral os iranianos sao muito orgulhosos de sua historia, de seus costumes e de sua tradicao. Nunca gostam de ser confundidos com seus vizinhos arabes, os qual consideram poucos refinados, Sempre enfatizam: “somos persas!”.

Em Shirras as pessoas nao eram tao simpaticas e sorridentes como no resto do Iran, talvez porque la tenha o maior numero de turistas por metro quadrado. Mas mesmo assim, tivemos boas experiencias. Jardins floridos, belas mesquitas, um caravan sarai (antiga hospedagem para as caravanas da rota da seda) no meio do labirinto dos mercados, e a tao comentada Persepolis, capital persa que foi destruida pelos gregos.

Persepolis!

 

Outras ruinas persas!

 

Antigos caravan sarais, hoje comercio local!

Em Yazd, uma cidade que fica bem no meio do deserto no Iran, fiquei nervosa, nunca passei tanto calor na vida, Quer dizer, acho que no deserto da India tambem foi assim. A cidade era bege, cor de areia, parecia que tudo era feito de areia, o que dava um charme especial. Depois das sete da noite voce conseguia caminhar nas ruas com a temperatura batendo so uns 35 graus.

Yazd!

La, conhecemos algumas torres do silencio e um templo zoroastra. O zoroastrismo era a religiao dos persas, antes de chegaram os muculmanos. Hoje existem poucos devotos do zoroastrismo no Ira. Junto com os cristaos, sao tratados como minorias e reclamam do pouco privilegio que tem frente aos muculmanos. O zoroastrismo, a primeira religiao monoteista do mundo, foi esquecida e aniquilada depois da entrada do isla. As torres do silencio eram usadas para deixar os corpos do devotos, pois conforme as crencas, nao se pode enterrar o corpo, pois contaminaria a terra, entao os corpos nao sao deixados ao ar livre para os abutres comerem. Hoje basicamente voce encontra alguns zoroastras na India, Iran e alguns gatos pingados na Inglaterra.

Templo Zoroastra!

Torre do Silencio!

 

Nas ruas de Yazd!

Em Yazd ficamos no hotel Silk Road, ponto de encontro dos viajante do Iran e Asia Central. Alem de reencontrarmos o Stu e a Merlanda, fizemos novos amigos e nos divertimos nos bate papos sem fim no jardim interno do hotel, enquanto esperavamos o sol se acalmar. Pena que nao lembramos de tirar um foto! O hotel contava com um cardapio delicioso, tinha uma boa selecao de comida iraniana, ocidental, e indiana. Eu me esbaldei. Alem de um quarto confortavel e um bom ar condicionado natural (aqui eles tem torre de captacao de ar para ventilacao). Deu para praticar yoga no terraco bem cedinho, vendo a cidade bege, antes que o sol ficasse forte. Perto do hotel ficava uma das mesquitas principais da cidade e tambem a cidade velha. Pensamos em ir para um oasis no deserto, mas o calor era tanto que desisti, preferi ficar conversando no jardim do Silk Road ate nossa ultima cidade no Ira: Mashhad!

De Yazd ate Mashhad eram doze horas dentro de um onibus confortavel. No caminho, paramos duas vezes no meio do nada, e nao entendia o que estavamos fazendo ali – nao havia nenhum banheiro ou lanchonete. As pessoas desciam, estendiam tapetes no chao e rezavam. Da pra acreditar? Mashaad ‘e a cidade mais sagrada do Iran. Como os muculmanos shiitas rezam tres vezes por dia (diferente dos sunitas que rezam cinco), duas delas foram no onibus. A ultima reza da noite e a primeira da manha antes do sol nascer.

Nas ruas de Mashhad!

 

Os famosos tapetes persas!

Quando chegamos em Mashhad fomos ate a casa de um conchsurfer que o Gui estava se comunicando a tempo pela internet desde que chegamos no Ira. Como o celular dele estava fora de area, seguimos direto para sua casa pelo endereco que tinha nos dado. Ao chegar la, no outro lado da cidade, nao havia ninguem no lugar, na verdade era o endereco de um dos escritorios que ele trabalhava. Como tinhamos mais um endereco, o da casa da mae, estavamos pensando se iamos ou nao ate la, quando um iraniano chamado Reza, que estava dentro da clinica veterinaria que o Gui parou para pedir informacao, percebeu que estavamos procurando alguem e se ofereceu para nos ajudar. Passado alguns minutos, ele disse: “eu acho que consigo encontrar o lugar, venham comigo, podem dispensar o taxi de voces…” Seguiu conosco ate a casa da mae do conchsurfer, que disse que ele estava trabalhando e so voltaria a noite, resolvemos entao ir para um hotel. O Reza nos levou. No total ele ficou quase duas horas com a gente dentro do seu carro, rodando num transito desgracado, ate nos deixar no nosso hotel. Reza tinha uns 45 anos, era empresario, pai de duas filhas, e estava perto do horario de almoco quando nos encontrou. Nao sabemos que compromissos ele precisou adiar para estar com a gente aquelas duas horas, mas pelo numero de ligacoes que ele recebeu no celular, nao foram poucas, ele era dono de uma construtora.

Sera que esse exemplo da para compreender ate onde vai a hospitalidade e gentileza iraniana? Sera que da para perceber que isso nao ‘e uma simples ajuda, implica tambem em algum sacrificio pessoal? ‘E claro que, depois de um mes de convivio com os iranianos deu para perceber que essa hospitalidade e bondade era uma mistura de uma formula magica: cultura persa + religiao. Os persas sabem receber e o povo ‘e religioso de fato. A estatura espiritual dos iranianos se destaca de muitos lugares por onde passei. ‘E claro que nos despedimos do Reza com convites pra jantar com a sua familia! Reza por aqui ‘e um nome comum. Ja que os shiitas acreditam nos 12 Imans, que seguem a linha de sangue do Profeta Maome, assim detem o conhecimento. Funciona como os nossos apostolos no Cristinianismo e nao sao poucos os Joaos e Paulos, etc, no Brasil.No dia seguinte, fomos conhecer o centro dos Shiitas, um complexo de mesquitas, capelas, museus e maosoleos que ficavam no coracao da cidade. Milhares e milhares de perguinos circulavam por ali. Alem de ser ponto de encontro dos devotos de Mashhad no final da tarde. Tive que comprar um shador e me cobrir dos pes a cabeca para entrar. Passeamos pela imensidao do lugar, vimos pessoas rezando em todos os cantos, alguns lugares so podiam entrar homens e outros mulheres. Numa dessas, eu tive que me separar do Gui e nos perdemos. Depois de quase um hora, ja estava desistindo de procurar, resolvi voltar para o hotel, e de la ligar para o celular do Gui. Mas como tinhamos que andar sem sapatos, e o Gui estava segurando os meus, tive que voltar de meia. Parei para pensar algumas vezes se devia fazer isso, mas nao aguentava mais procurar, e resolvi voltar de meias mesmo. Nas ruas as pessoas olhavam para os meus pes e cochichavam. Cheguei no hotel, contei tudo a recepcionista, que ate aquela altura ja era uma amiga, que ligou para o Gui e o celular estava fora de area, para ajudar mais ainda. Enfim, voltamos eu e a recepcionista para o Imam Reza Complex, quando cruzamos com o Gui no meio do caminho, branco de tao assustado. Ele nao achava que eu conseguiria voltar para o hotel sozinha, ja que tinhamos acabado de chegar na cidade e muito menos de meias. Mas deu tudo certo, apesar do cansaco e das rizadas que demos depois da situacao.

Complexo Imam Reza!

 

No dia seguinte saimos com a familia do Reza para jantar e tambem fomos resolver os problemas do visto do Turkomenistao. A familia do Reza era muito legal, apesar de nao falar uma palavra em ingles. Fizemos um pinquineinque e fomos conhecer o maosoleo do Ferdosi, o poeta preferido do Reza.

Reza e o Gui no mausoleu do Ferdosi!

Outra coisa que chama atencao no Iran foi o transito enlouquecido. Nao existe a tal da “preferencial”, a preferencial ‘e preferencial para todos. Mas em nome da simpatia, do taruf e da educacao persa, que deveria ser modelo para todos os colegios no mundo, eles nao se xingam, nao gritam, nada. Tambem nao usam buzina. Dao finos e mais finos nos outros motoristas, olham um para o outro, sorriem, e continuam. Um dia vimos um acidente, um carro capotado no meio da rua, os envolvidos com a ajuda de alguns curiosos, simplesmente viraram o carro de “cabeca” para cima de novo e tiraram do meio da rua, acho que ainda nao chegou aquela coisa de esperar a policia chegar sem mexer um centimetro.

Transito em Mashhad!

Repetimos mais uma saida com ele no nosso ultimo dia e ele nos levou a parte cool da cidade. Nao dava pra imaginar que aquela area ficava em Mashhad. Como estavamos num hotel de centro e perto do complexo, so viamos pessoas mega conservadoras nas ruas e ele nos levou na Batel Soho da cidade. Cheio de barzinhos, que ficam abertos ate meia noite, e claro nao vendiam bebidas alcoolicas, mulheres arrumadesimas com suas calcas jeans e lencos na cabeca so tapando o rabo de cavalo, com blusas compridas mas no maior estilo, quase parecendo que nao era por causa da lei, mas a roupa que usariam normalmente. Meninos bombados fazendo cara de mal e lojas internacionais mega descoladas. Jantamos numa pizzaria e eles nos presenteou, como era de se esperar do Ira (afinal nao conhecemos ninguem que nao nos deu um presente) com um livro dos poemas do Fersosi, e como a celebre frase: “uma recordacao pra voce lembrar da gente”.

Voltei para casa super triste quando me dei conta de que aquele era o ultimo dia no Iran. Na verdade estava de luto desde os ultimos tres dias. Quando entrei no hotel, me ataquei a chorar copiosamente, me lembrando dos momentos vividos no Ira e principalmente dos momentos memoraveis com as pessoas que tivemos a “sorte” de cruzar no caminho. As melhores experiencias de viagem que tive com pessoas foi sem duvida no Iran, varias vezes tinha que disfarcar e chorar pelos atos de bondade que os iraniaos tinham com a gente.

Quando ainda estavamos na pizaria escrevi uma cartinha para o Reza entregar a familia dele, ja que eles nao puderam vir nesse dia, porque a irma de sua esposa tinha acabado de chegar no aeroporto direto da Turquia. Quando ele viu eu escrevendo se emocionou e agradeceu muito. Os iraniamos se emocionam facil, pelo que percebi. E sem alcool. E ‘e uma emocao diferente, ‘e uma emocao religiosa, ‘e uma emocao de amor ao proximo. O coracao deles ‘e muito grudado com o corpo. Nos despedimos do Reza na frente do hotel e eu ja estava com um no na garganta. Liguei para Sumi, Payam e Nana para me despedir tambem. Foi uma choradeira dos dois lados.

Deixei o Ira com uma sensacao maravilhosa de contentamento e saudosismo, um dos paises mais fantasticos que ja conheci, um dos lugares que mais me senti feliz em estar, um lugar diferente, um lugar realmente especial! Fui embora com orgulho do Ser Humano! Fui embora apaixonada pelos persas. Fui embora com o coracao apertado. Parabens Ira e muito muito obrigada!

A cidade mais bonita do Ira!

Foi bem dificil deixar a casa da Sumi e do Payam. Se nao fosse o bom senso do Gui, eu estava la ate hoje conversando no sofa. As vezes fico pensando que se viajasse sozinha, ao final de dois anos teria conhecido no maximo 10 paises. Teria ficado um mes numa ilha aprendendo massagem tailandesa e fazendo snorkling; outro mes numa vila nas montanhas aprendendo culinaria indiana; outros tres meses num retiro fazendo yoga, meditando e discutindo metafisica. Gracas ao Gui nada disso foi possivel, mas por outro lado, nao teria conhecido nem um terco dos paises que visitei.

De Tehran seguimos entao para Cashan, um dos destinos mais visitados pelos turistas. Cashan ‘e uma cidade super antiga e muito interessante!! Tinha um clima bem tradicional, mulheres cobertas com seus shadors dos pes a cabeca, mercados de rua, pracas lotadas de pessoas fazendo piquiniques, e casaroes tipicos de tirar o folego, com suas “piscinas” compridas decorativas na frente. La, aproveitamos para dormir num conchsurfer, que morava na parte de baixo de uma casa. O lugar era vazio, so tinha uma cozinha equipada e tapetes ao redor, bem ao estilo iraniano, que da uma sensacao que o pessoal nao tem dinheiro para comprar moveis.

Casas iranianas!

Casaroes tradicionais!

Mais casaroes.

 

Nas ruas de Cashan!

O Reza, era simpatico e pratico. Como ele tem uma pratica enorme em receber viajantes, eu nao sei se ele se ocidentalizou ou se ele ‘e assim mesmo. Mas a experiencia da relacao nao foi tao rica como foi com todos os iranianos ate aqui. Parecia que eu estava num hostel na Europa! Ele era super pratico, despachado, mostrava os mapas, dizia os roteiros que deveriamos fazer, precos, horarios, tudo tudo, alem de ser um capricorniano que realmente seguia a risca as suas descricoes astrologicas, fazia o estilo: “respeito voce, desde que voce pense como eu”.

No dia seguinte, juntou-se a nos, um casal da australia para ficar na casa do Reza. Como o Reza passou a noite no trabalho, ficamos os quatro “sozinhos em casa”. O casal era muito legal e meio “hippies”. Ela era alema, tinha 26 anos e estava morando ha cinco na Australia, sendo os ultimos tres dentro de um carro. Tomava banho nos chuveiros publicos da praia. Acabou nao fazendo faculdade e sua vida era viajar. Trabalhava tres meses sem parar (procurava sempre trabalhos que davam tambem a estadia), e o restante do tempo viajava. Nos ultimos anos, sua vida basicamente foi trabalhar tres meses e viajar seis. Uma conta interessante! Ela dizia que nao conseguia passar mais de tres meses numa mesma rotina. Dava para ver que ela nao conseguia nada muito tempo igual, ela mudava tambem radicalmente o cabelo de tempos em tempos: preto, louro, careca, cabeluda, etc. Dizia que so nao tatuava todo o corpo porque era muito caro e não teria dinheiro para viajar.

Sozinhos em casa!

Ja ele tinha 56 anos, uma filha de 21, era divorciado, e ha 10 anos nao tinha mais casa. Decidiu mudar de vida radicalmente, de trabalhador de carteira assinada numa empresa, com carro e casa proprios, para vender tudo, passar a buscar trabalhos temporarios e viajar o restante. As vezes eles moravam na garagem da casa da ex-mulher. Se diziam amigos, mas com o tempo vimos que eram um casal. Nao gostavam de rotulos e nem queriam acumular cadeiras, mesas, diziam. Porque ter uma casa? Voce nao precisa de nada disso. ‘Quando vieram para o Brasil, passaram quase dez dias numa guest house na favela cheirando e indo nas festas de funk. Apesar da descricao ser estranha, eles eram de fato pessoas bem bacanas e divertidas. Eles eram reais, apesar de seu modo de vida ser bastante diferente.

Normalmente, nas minhas experiencias com pessoas que optam por uma vida muito fora da sociedade, elas tendem a se tornar meio artificiais, numa conversa, por exemplo, se voce fala que quer ter filhos, eles te olham com uma cara tipo “putz, mais um ordinario”. Se voce pergunta quais sao os planos, eles dizem: “que planos, vivemos do presente, do hoje…” Se voce fala que voce nao acha certo tal coisa, eles dizem: “certo? Nao existe certo e errado…” Isso me da um nervoso… Claro que estou fazendo uma caricatura e exagerando, porque geralmente isso nao vem tudo junto na mesma conversa.. Mas enfim, eles nao era assim! Tinham essas escolhas de vida no momento, mas conseguiam conversar com voce e falar de si com naturalidade. Eles estavam sendo de fato o que eles sabiam de si mesmos e aproveitavam suas experiencias para se tornar pessoas melhores, alem de tratar muito bem os locais, se doavam bastante as conversas e exitacao dos iranianos frente aos turistas. E conversavam com voce sem preconceito por voce ter uma casa e querer ter filhos. Prometeram nos visitar em Curitiba na Copa de 2014. Ficaremos esperando reencontrar o Stu e a Merlanda!

No dia seguinte fomos juntos ate Abyane, um vila nas montanhas maravilhosa, com suas casas feitas de barro, pessoas tipica, estranhamos apenas que a maior parte dos moradores eram idosos, o que demonstrava que logo a vila viraria apenas um museu. Depois de passearmos pelo meio das ruazinhas e tirar fotos com os iranianos que nos paravam no meio do caminho, fomos ate as ruinas de um castelo que ficava as margens da vila, no topo de uma montanha, e que tinha uma vista linda para a vila e para todos os lados que voce olhasse. Um dos lugares mais lindos que ja vi!

Populacao local!

Vista de Abyane do outro lado do vale!

Nos despedimos de Cashan poucos dias depois e seguimos para Isfahan. A cidade no Iran que me encantou. Arborizada, limpa, linda, gostosa e cheia de vida. A cidade mais bonita do Iran para mim. Tambem moraria la, depois dos seis meses de Howrama.As ruas eram cheias de pessoas e, as pessoas, novamente, uma simpatia sem tamanho. A praca Imam Russein, onde ficavam a maioria dos monumentos, era de chorar de tao linda. O conjunto monumentos + a praca mais frequentada da cidade, tornava o lugar impar. As mesquitas dos homens e das mulheres e os palacios eram estonteantes. As mesquitas e parte dos palacios eram revestidas de mosaicos estilo miniatura, todos de uma cor entre o azul e o verde, cor da espiritualidade para os muculmanos, eles fazem cada combinacao com essas miniaturas, misturam cores e estilos, que fica uma coisa impressionante.

Palacio das 40 colunas!

Dentro das mesquitas!

 

Arte Persa, nao 'e de babar?

 

Pinturas no museu do palacio!

Junto com a arte persa-muculmana presente nos monumentos da praca Imam Russein, mais os milhares de piquiniques e os inumeros pedidos para nos conhecerem, tornava Isfaham um lugar especialissimo. O highlight do highligth das cidades do Iran! Quanto mais o dia caia, mais iranianos saiam as ruas para fazer piquinique. Os iranianos costumam encher as ruas depois do calor do dia, e gostam de jantar muito tarde. Os convites de piquiniques para jantar podem comecar as cnco da tarde, e a janta efetimamente comecar la pelas dez e pouco.

Mais iranianos querendo conversar!

Praca Imam Russein!

Mesquita das mulheres!

Movimento da praca a noite!

 

Ponte dos Arcos em Isfahan!

Nao demorou muito, e nos encontramos com a Sumi, Payam e a Sara, que aproveitaram o fim de semana para nos encontrar novamente. Passamos a maior parte do tempo na praca e arredores, alem de jantares deliciosos, com o inesquecivel fesenjun, um frango ao molho de roma, que pretendo fazer no Brasil. Delicioso!

Com choradeira, nos despedimos dos nossos amigos, que queriam nos encontrar de novo, combinamos varios lugares, entre Brasil, Ira e ate a India. Eles enlouqueceram pela India, mas ja teremos visitas suficientes no Hindustao. Por mim pode ser no Ira, porque definitivamente voltaremos muitas vezes quantas forem possiveis.

Istambul

De Londres, seguimos para Istambul. No caminho do aeroporto ate Taksim (ultima parada do onibus), o frio na barriga comecou a me pegar, aquela sensacao de “a viagem esta comecando mesmo”. Descemos num frio desgracado, daqueles de ficar de gorro. O tempo estava nublado e a sensacao era estranha, pra mim viagem combina com calor e frio com trabalho.

Seguimos para nosso hotel, que o Gui achou meio que por acaso na internet, não tinha grandes recomendacoes, nem estava no guia e impressionou: o custo beneficio era muito bom. Apesar de ser banheiro coletivo, era bem limpinho, antigo, entao os quartos eram grandes e a calefacao estava ligada o dia inteiro, fazendo voce ficar quase de manga curta. Muito acolhedor para primeiro hotel da viagem!

Passamos quase 15 dias em Istambul organizando toda parafernalha dos vistos do Cazaquistao, Uzbesquistao e Kirguistao. Tivemos alguns daqueles momentos “roubadas”, por exemplo, na volta do consulado do Cazaquistao pegamos uma chuva forte naquele frio e nenhum taxi parava, nos molhamos um monte e a unica coisa que não molhou era o que ficou por baixo da jaquetinha impermeavel, que mais uma vez mostrou sua eficiencia. Mas em compensacao tenis, calca e punhos enxarcados. E tinhamos que encarar mais 40 minutos de metro ate chegar no hotel. Deu para quase pegar uma gripe, se não fosse chegarmos e nos jogar logo em baixo do chuveiro para tomar um banho bem quente com cha de gengibre, que compramos no Spice Bazar.

Na vez do Uzbesquistao, já tinhamos comprado guarda-chuva, mas os pes molharam igual, esses tenis de hoje em dia não dao pra nada. Ficamos com os pes enxarcados das dez da manha ate as tres da tarde, quando o visto ficava pronto. Não valia a pena voltar para o hotel, porque estavamos do outro lado da cidade.

Tirando isso, os dias em Istambul foram tranquilos, deu para passar mil vezes em frente a Blue Mosque, na Aya Sophia, Spice Market, Topak Parque, alem de visitarmos o museu antropologico do Oriente Medio, que conta a respeito dos imperios que tomaram conta da regiao, desde os gregos, otomanos, egipcios, babilonicos, sumerios e por ai vai. Bem interessante!

Conseguimos nos encontrar com o Mehmet, nosso couchsurfer da ultima vez, que agora estava morando no escritorio, e com isso não conseguimos ficar na casa dele. Foi um encontro emocionante!O Mehmet foi uma das pessoas que mais adoramos conhecer durante a ultima viagem. Muito bom rever um amigo que voce conheceu viajando, ‘e um sensacao especial.

Como estavamos proximos da Pascoa, achamos uma igreja da Virgem Maria, que tinha missas em diversas linguas para os estrangeiros. Aproveitamos e fomos na sexta-feira santa, na celebracao da cruz, que foi emocionante. Nunca tinha partipado antes. Primeiro eles fazem a via sacra dentro da igreja e depois há um tempo para contemplacao da cruz. A missa era celebrada partes em turco, italiano, ingles, espanhol e coreano, meio complicado de acompanhar. Eles comecavam o pai nosso em italiano, por exemplo e voce mentalmente em portugues, era facil se perder. Mas foi emocionante ouvir a missa em italiano, principalmente por algumas palavras que eles usam que tornam muito mais claro o significado daquela frase em portugues. Me deu muita vontade de fazer italiano quando voltar ao Brasil.

Deu tempo tambem de conhecermos um casal de suicos bem bacana que farao tambem a Rota da Seda e aproveitamos para trocar informacoes. No fim das contas acabamos jantando no flat que eles alugaram com um turco, pois como um deles ‘e suico-turco, estao aproveitando para aprender a lingua. Uma vergonha para nos, que ficamos tanto tempo e sabemos falar “mahaba” e “tesecuire.” Nada mais que ola e obrigado. Como não sabiamos ao certo quanto tempo demoraria os vistos, não pudemos nos comprometer com um curso, mas definitivamente não ‘e desculpa. Queria ter feito tambem um curso de culinaria turca, mas não vi opcoes anunciadas.

No sabado, já cansados de tanto estar numa cidade grande num hotelzinho de centro, fomos para a Princes Island, local onde serviu de exilio para familias tanto na epoca dos bizantinos como dos otomanos e hoje ‘e a praia particular dos afortundados. Paramos na segunda ilha e foi uma delicia, o passeio certo. Paz, silencio, paisagem, e muitas flores e cheiro de flor. Ruazinhas perfeitinhas com suas casas bonitinhas.

Istambul vai deixar saudades, afinal já estavamos amigos do dono do hotel, do vendedor de frutas, dos donos dos restaurantes, já ganhavamos cha e cafézinho de graca. Mas eu estava muito empolgada de pegar o longo trem ate Diabarkir, no Kurdistao turco. O trem era primeira classe e prometia vistas de montanhas belissimas pelo interior da Turquia.

Humildade!

Uma das coisas que mais paraliza o meu espirito ‘e quando estou em terra muculmana e escuto a chamada das mesquitas. Nas sextas-feiras, principalmente, que ‘e o dia sagrado dos muculmanos, elas ficam ainda mais alardeantes, parecendo uma disputa de qual mesquita chama mais alto os devotos para rezar. Tudo silencia em volta, e não tem como voce não ficar extasiado diante da beleza daquelas chamadas. Bem que podia ser assim nos paises cristaos, o barulho dos sinos da igrejas ser ensurdecedor por alguns minutos. Sinto como se as chamadas viessem diretamente do ceu, como um grito la do alto para todos os homens da terra. Sinto vontade de parar e rezar junto.

E caminhando pelas ruas, uma cena me chamou atencao. Numa das sexta-feiras, estava la, um grupo enorme de devotos, rezando em frente a mesquita. O jeito que os muculmanos rezam arrepia, porque sao diversos gestos encadeados: eles se ajoelham, encostam a testa no chao e levantam juntos, diversas vezes.

Quando voltei de viagem, algumas pessoas me perguntaram, quando eu contava da beleza que era ver os muculmanos rezarem, porque eles se ajoelhavam? Eu demorei para entender essa pergunta… O ponto era porque se ajoelhar, porque se humilhar assim! Ouvi isso algumas vezes. E entendo que fique dificil compreender, já que vivemos num tempo em que o homem ‘e o centro, o dono do universo, e entender alguem tao importante se ajoelhar para alguem, mesmo que este alguem seja Deus, fica complicado. Ate porque o Deus de hoje nem pode parecer mais tao poderoso, nem ser chamado de Deus, talvez de forca maior, consciencia universal…

Pertinho da mesquita, seguimos para uma ruazinha cheia de pequenas lojas locais e eu entrei numa delas para comprar um cachecol. Não vejo ninguem, procuro o dono da loja, ele estava ajoelhado, rezando. Discretamente eu fui embora, mas o tempo que eu fiquei ali, ate encontra-lo, era suficiente para ele parar e me atender. Mas ele preferiu rezar! Aconteceu a mesma coisa em mais duas outras lojas que entrei em seguida. Achei aquele ato tao bonito. Uma hierarquia de valores justa, que sa’i de cabeca baixa pensando nos nossos valores.

Bem aventurados os pobres de espirito, disse Jesus! Os pobres de espirito são os humildes, que não vivem apenas para buscar prazeres e riquezas e sim, para serem santos! Santo vem do latim e significa são – uma busca por ser uma pessoa virtuosa. E os ricos de espirito, são os ricos em opiniao, os orgulhosos. Orlando FedeliO Sermão da Montanha e as Bem Aventuranças Evangélicas