Entre amigos!

De Howrama seguimos para Tehram. Conseguimos chegar no fim de semana. Acabamos escolhendo ligar para o “casal pos moderno”. Pegamos um onibus de nove horas ate la, bem confortavel e com servico de bordo.

Quase nove horas da noite chegamos em Tehran. Era quinta-feira, o sabado para nos, já que o final de semana dos muculmanos ‘e na quinta e sexta. Abrindo um parentes as religioes semiticas fizeram bem direitinho: sexta o dia sagrado dos muculmanos, sabado dos judeus e domingo dos cristaos. Ligamos para o Payam e ele passou o endereco em farsi para o taxista, já que eles moravam ao norte e bem longe da rodoviaria. O norte ‘e a regiao chique de Tehran. No caminho, o transito era absurdo, dizem que ‘e normal por la. Nunca morei em SP, mas parece bem semelhante, a unica diferenca ‘e que voce pode ficar parado no congestionamento, sem que ninguem venha te assaltar. Aproveitei para ficar olhando pelas janelas e conhecer a cidade. Tehram, apesar de grande, parecia bem interessante. Ao meu ver, não tinha aquela cara sempre a mesma de cidade grande, tinha uma certa identidade. Os carros eram bem velhos nas ruas e o peguet branco 206 o mais cotado entre os  jovens. No limite da cidade, ficam o inicio das montanhas, um visual sem igual.

Quase onze horas da noite chegamos a casa dos nossos amigos. A recepcao foi impactante. Eles haviam arrumado a casa para nos receber, tinham musica de fundo e uma alegria estampada no rosto. Logo nos ofereceram: “voces preferem dormir no nosso quarto, ou neste aqui ao lado, ou ainda ao modo iraniano (sobre os belissimos tapetes persas no chao)?” Escolhemos o quarto ao lado, onde eles abriram alguns colchonetes sobre os tapetes, com travesseiros fofos e cobertor. Estava temendo ter que dormir no chao-tapete novamente! Mas deu tudo certo.

Tiveram o bom senso de perguntar se queriamos tomar um banho antes do jantar e para mim foi a gloria. Tomei um banho delicioso enquanto o Gui conversava com eles sem parar. Pediram entao se podiam servir o jantar. Quando sentamos, comecou a vir os pratos impecavelmente decorados por eles, pareciam de restaurante. Coisa mais bonitinha. Eles tinham realmente se empenhado para nos receber.

Cardapio: frango com legumes e pessego ao redor, arroz com acafrao e frutas secas com a parte queimadinha, um molho vermelho apimentado com carne moida bem tipico e delicioso,azeitonas, e  iogurte gelado com menta. Tambem tinham comprado um vinho para tomarmos. Mas deu para ver que foi so pela gente, pois quando foram procurar o saca-rolhas, viram que não tinham rsrs. Depois veio a sobremesa que não lembro bem o que era, mas bem gostosa.

E dali em diante, engatamos num papo mais interessante que o outro, que foi de chorar de tao bom. Eu não acreditava que aquilo poderia estar acontecendo, me beliscava de tao emocionada. Porque geralmente apesar de gostar muito de pessoas, de estar com elas e de escuta-las, dificilmente as pessoas conversam coisas que realmente me interesssam. Falam mais das coisas que estao acontecendo fora delas, seja na politica, na economia, na biologia, na moda, na educacao, no trabalho, na tv, no cinena… Ja com essas pessoas, nos falamos de tambem de diversos assuntos, mas elas estavam ali, presentes, em cada um deles. Falavam da politica, da economia ou da sociologia, mas de como isso as afeta tambem. Não como um jornalista escreve uma reportagem, imparcial, imparcial, imparcial. Se interessaram em saber a historia do cristianismo, em entender a nossa religiao. Queriam compreender as diferencas entre catolicismo e protestantismo, por exemplo, assim como nos queriamos entender as diferencas entre xiitas e sunitas. Eram pessoas que falavam de si mesmas, sem achar isso over, profundo demais ou esquisito. Mas como uma coisa natural que se fala entre pessoas que vivem, aprendem, pensam, sofrem, se alegram, buscam, encontram, perdem e ganham.

Eu não sei quantos dias eu poderia ficar ali conversando com eles… Mas foram quatro dias intensos, onde nos dormiamos as quatro ou cinco da manha, pois passamos a maior parte do tempo sentados no sofa, falando falando e falando.

Cafe da manha - cara de sono ou nao?

E o cuidado deles com a gente era impressionante, não podiamos mover uma palha para levantar um prato da mesa. Disseram que era costume iraniano, o hospede ‘e sempre um enviado por Deus, est’a no Corao. Me sentia realmente enviada por Deus, pois faziam tudo por nos. Eu ate brincava dizendo: “a princesa quer cha agora!” hehe. Alem de não deixarem nos encostarmos na carteira, ate minha ida ao salao foi paga. Nada, nada, nada, não podiamos nem pensar em pagar uma bala.

Ao longo dos dias foram vindo os presentes, em ordem: um chale colorido lindo, um brinco, um livro de poemas em farsi, um livro de poemas em farsi e ingles, um pedaco de tecido retirado do vestido de uma noiva que da muita bencao, duas canetas lindas, pois vinham que nos tinhamos diarios, um terco comprado num dos lugares mais sagrados para o muculmanos xiitas, Kerbala (onde morreu o Imam Hussein), se não estou esquecendo de nada, ‘e isso.

Durante todos os dias, os outros amigos Nana e Abbas, que nos chamavamos de Yazd, pois ele era de la, ligavam todos os dias insistindo para irmos para casa deles. Como não conseguiamos parar de conversar com a Sumi e o Payam, tentavamos despista-los, com a desculpa de amanha, e depois amanha de novo… no fim das contas acabamos não indo. Mas fizemos programas muito legais com eles tambem. Um jantar na casa deles, uma festa, e outro jantar fora de despedida.

Sexta fomos na festa da casa de campo da Nana, na saida de Tehran, perto da montanhas. Foi muito interessante ver todos os iranianos arrumadissimos nos seus carro,  para as baladas nas casas dos amigos aos arredores de Tehram, para terem algum sossego com a bebida.

A maior parte da populacao iraniana ‘e muito religiosa e tradicional e apoiam o governo, e há uma minoria moderna e secular que não apoia e tenta na medida do possivel levar uma vida livre ali.

Foi o que vimos nos carros. As mulheres super maquiadas e carros e carros de amigos indo para a casa de alguem. No caminho a policia já sabe e faz um tipo de blitz, que ‘e na verdade para verificar se eles tem bebidas, entao o engarrafamento ‘e grande.

Chegamos na casa da Nana por volta das nove horas da noite e todos os seus amigos estavam sentados ao redor de uma mesa, as mulheres todas a vontade, de saia, regata, etc., havia um quarto para mudar de roupa ao chegar, largar a scarf, e mantum. Uma das convidadas estava cantando. Os iranianos adoram rescitar poemas um para o outro, da para acreditar? Que povo mais sofisticado!

Ficamos ouvindo, depois vieram as comidas e  o DJ comecou a botar pra quebrar. As musicas eletronicas, mas iranianas. Bem interessante. Elas dancava de um jeito que lembrava as indianas, mas muito mais sexy e charmoso, não aquela coisa bracos para um lado e para o outro. Os homens dancavam juntos olhando um para o outro. Fotos e mais fotos eram tiradas. Na hora da foto, todos se juntavam e  faziam uma pose coletiva maluca, num estilo “ como nos divertimos, como somos felizes juntos, nos contra o mundo….” Bem engracado de ver.

Dancei um monte, tentei imita-las uma hora, mas disseram que eu estava dancando indiano não iraniano, enfim… e depois fomos para dentro da casa, onde cada um pegou um instrumento, daqueles super antigos, classicos que voce ve em fotos nos livros dos poetas e comecaram a rescitar um para o outro novamente. Muito legal!!!

Ate que repentinamente, veio a noticia de que a policia estava la fora e tinha sido subornada por 100 dolares para todos sairem da festa em 15 minutos, pois eles iriam voltar e prender todo mundo. La veio a correria para sairmos, eles tentavam nos deixar calmos dizendo que isso era normal, e que eles so queriam dinheiro, mas nos ficamos preocupados. Eu tava me divertindo com tudo, mas o Gui temia ser expulso do pa’is, eu achava que era exagero Guilhiano.

La fora, os carros dos convidados ficavam um em cada canto, bem longe da casa para não chamar atencao. Fomos pegar o nosso e seguimos embora. Nossos amigos pediram mil desculpas para gente pelo ocorrido. O Gui brincou que não tinha problema, que eles podiam nos levar sempre para situacoes arriscadas, desde que elas acabassem bem no final, como essa.  Eles disseram que se tivessem entrado, com certeza nos seriamos os turistas brasileiros presos numa festa de manchete nacional.

A Sumi nos contou que estava muito nervosa, pois ela não bebe e se caso a policia baixasse ali, ela seria presa junto, e como ela ‘e diretora de cinema, a carreira dela estaria arruinada no Ira… Percebemos que a situacao não ‘e brincadeira, um dos convidados por exemplo, no camiinho para a festa foi pego com seis garrafas de uisque (o equivalente a um caso de trafico no Brasil), numa das blitz da policia, e teve que pagar 3000 dolares para não ficar seis meses preso e levar 70 chibatadas. Da para acreditar? Vimos que a coisa ‘e seria, mas que eles já sabem bastante como lidar com a situacao e viver num pais fechado. E a policia corrupta no fim das contas ajuda um monte.

O Payam e a Sumi brincavam todo dia quando tinham que sair de casa para qualquer coisa, que eles  precisavam incorporar a segunda personalidade. Diziam que tinham duas, a de casa e a publica. Em casa: bermuda, camiseta, assuntos sem censura, etc, na rua: calca e camiseta, e as mulheres, calca, mantum e scarf.

Da para perceber que ‘e um sistema que so não caiu ate hoje, porque o povo em geral ‘e muito religioso. E ‘e bastante complicado opinar, porque tem certas coisas que são bem melhores la do que no ocidente e outras que não. Alem do que, me faltam informacoes e conhecimento suficiente para poder ter uma opiniao justa, entao posso falar mais do que saltou aos meus olhos e do que as pessoas que conversamos se sentem afetadas.

O povo por ser religioso mantem o pais seguindo suas tradicoes, como se ve pelos poemas, instrumentos, musicas locais, roupas, costumes, etc., o que acaba segurando a onda para daqui um pouco não estar todo mundo escutando o mesmo hit internacional, o tipo moderno padronizado globalizado.

A seguranca ‘e enorme nas ruas, pois o povo ‘e religioso, o que torna eles muito mais morais em seu comportamento, alem da lei severa para intimidar os realmente bandidos. O clima no Ira em geral ‘e muito respeitoso, os motoristas dirigem feito loucos com suas regras de transito quebradas, e voce nao ve uma buzina, uma cara feia. Entre as pessoas ha tambem uma clima de apoio mutuo, o que nitidamente ‘e resultado de um povo com uma forte vida espiritual.

Por outro lado, as condicoes de vida para muitos ‘e dif’icil. Escutamos muitos iranianos reclamando que precisavam trabalhar demais e que os precos nao paravam de subir. Qualquer protesto na rua ‘e fortemente reprimido, e o governo usa a religiao para dizer que aquilo nao esta de acordo com o Corao, e o povo religioso, acata.

Quem quer liberdade para escolher o tipo de vida que quer levar, desde a roupa ate o comportamento, ‘e proibido de seguir sua vontade.  A liberdade de imprensa, por exemplo, ‘e quase nula. A Sumi contou que todos os filmes que ela pretende fazer, antes precisa ser enviado ao governo para aprovacao do tema, para so depois rodar. Entao, ao escolher um filme ela precisa pensar num tema que nao seja sens’ivel ao governo. Conta inclusive que nao tem vontade de sair do Ira, pois ela quer promover reflexoes para os iranianos atraves do cinema, por acreditar que o Ira precisa disso. Ela ja foi premiada por alguns de seus filmes na Europa, e ja recebeu convite de ficar por la, mas acredita que nao tem tanto a acrescentar nestes paises. Ja o Payam precisa fazer uma arte feliz, onde so expresse coisas boas, para as pessoas não verem os problemas do  pa’is. Na televisao muita comedia, isso nos chamou atencao. Alem de muuuitos sites bloqueados na internet.

As minorias religiosas, como os Zoroastras e Cristaos, são descriminados pelos muculmanos. Enfim, o Ira ‘e um pais como todos os outros – imperfeito. São problemas diferentes que os nossos, mas são problemas iguais. Uns maiores, outros menores, mas não importa, alguem já viu um pais justo? Alguem já viu uma sociedade justa? Alguem já viu um governo justo? Se fosse possivel a terra seria chamada de paraiso.

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Revolucao Turca

Com o fim do Imperio Otomano, a Turquia comecou a se organizar como um pais. A regiao era ocupada por diversas etnias, com suas respectivas linguas, costumes e tradicoes. Porem, durante esse processo de organizacao, todas estas caracteristicas foram negadas.

A proposta era construir um pais moderno, com muitas caracteristicas do Ocidente, buscando formar um sentido de unidade nos diversos povos, a custa de todos se tornarem turcos, esquecerem suas origens e tradicoes, para formarem um so povo, com uma so cultura e uma so lingua.

Os turcos já eram um povo, e a nacao que estava surgindo aparentava ser construida somente para eles, pois eram a maioria. Assim, apenas suas tradicoes seriam preservadas, após ainda uma grande modernizacao destas.

Modernizacao significava, nas maos do governo Ataturk, tornar a Turquia uma “democracia” secular: de direitos iguais para homens e mulheres, com a adocao do alfabeto latin e do modo de se vestir europeu. As comemoracoes folcloricas foram banidas e ate mulheres foram proibidas de usar veus no seu ambiente de trabalho e escolas, isso bem antes da Franca…

Tudo como manda o figurino moderno: secularismo, progresso, padronizacao, obsecao pelo novo, pela re-invencao, pelos prazeres, pela ciencia, pela tecnica e pelo futuro. Afinal para que serviram as geracoes anteriores e todos os seus valores? Parece que não serviram para nada!

Uma pena que o pensamento moderno não tenha comecado antes, tantos erros teriam sido evitados e o indice de felicidade humana seria arrebatador, como se ve hoje nos grandes centros urbanos.

De certa forma, o projeto dos turcos deu certo – como era de se esperar, já que o momento vem sendo propicio ao modernismo desde entao, e com isso surgiu um sentimento muito forte de nacionalismo. Grande parte dos turcos se orgulham da Turquia moderna, se sentem acompanhando o Ocidente. Porem, muitas minorias ate hoje lutam pelos seus direitos, como se p^ode ver pelos diversos protestos nas ruas, já que as eleicoes estao proximas.