Marco e Jony!

Quando eu tinha 12 anos, um dia antes de começar as aulas, meu irmão mais velho que tinha ido viajar, não voltou para casa naquele domingo. Ele tinha 13 anos. O Marco 8 e o Joao 7. Um abismo se abriu na minha frente e a nossa casa virou um vale de lagrimas. Cada um sofreu da sua maneira. O Silvinho estudava na mesma escola que eu, o Marco e o Jony, ainda estavam na nossa ex-escola, que ia até o fim do primário. Eu e o Silvinho fazíamos tudo juntos, tínhamos os mesmos amigos, a mesma turma de inglês, os mesmos programas e praticávamos o mesmo esporte – o tênis. Ele por paixão, eu, pela turma. Quando o Silvinho se foi, eu fiquei muito sozinha. Como o Marco e o João eram crianças, não me passava pela cabeça contar com eles. A diferença de idade nessa época criava uma distancia natural entre nós. Eu não brincava mais, eles ainda viam desenhos. Quando eu saí de casa aos 17 anos para me preparar para o vestibular, o Marco tinha 14 e o Joao 12. Nessa época, quando a barreira da idade ia começar a se dissolver, eu estava saindo e sabia que não voltaria mais. Não combinava voltar para casa depois,  sabia que uma vez dado um passo em uma nova direção, o estado anterior se tornaria impossível para mim. As coisas sempre foram assim comigo… Os feriados começaram a chegar, e cada vez que eu visitava a família, o Jony e o Marco estavam maiores. Parecia mágica, eles cresciam centímetros de um feriado para o outro. Num desses feriados, fui com uma amiga na “boate”, como chamávamos a night do Clube Recreativo Chapecoense, e eu bebi um pouco além da conta para quem voltaria dirigindo, e pedi ao Marco para voltar pilotando. Ele ainda era de menor. Lembro que naquele dia pensei “nossa já estou encontrando meu irmão na boate, que legaaaal!!!” Por fim, o Marco acabou quase atropelando um ciclista, e derrubando um muro de uma casa uns 100 metros depois. Quando tentamos sair do lugar, não haviam mais pneus para isso, e em poucos minutos estávamos cercados pela população local enraivecida, o ciclista sobrevivente e a polícia. Eu havia esquecido de perguntar se o Marco estava em condições de dirigir rssrs… Enfim, pelas diferenças de idade e minha saída relativamente cedo de casa, não foi possível conviver muito com eles, pelo menos o quanto eu gostaria, mesmo que há alguns anos já conseguíamos conversar como adultos sem eles ficarem me chamando de “Bianca Potranca” só porque rima. Sempre fiquei com a sensação de “eu não pude acompanhar de perto a vida deles como gostaria!!!” Graças a insistência de minha mãe e a vontade deles de viajar, eles se organizaram e vieram nos encontrar. Minha mãe falava que seria uma grande oportunidade de convivência mais intensa entre nós e que eu deveria aproveitar para “conhecê-los” muito mais. E eu não tinha noção do quanto aquelas palavras eram verdadeiras. Tinha certo receio, porque eles fariam com a gente a Karakoran, que é uma estrada que corta todo o norte do Paquistão, atravessando os Himalaias. Então, eu sabia que a viagem seria infinitamente roots, as estradas ruins e cheias de curvas. Para quem viajaria por terra o tempo todo, isso seria um desafio! A única ideia que eu fazia deles quanto a companheiros de viagem era que para o Marco seria muito difícil, pois lembrava que ele não gostava do vinagre do pai (um vinagre que ele fazia na pipa, espetacular!), o que criava certa distância entre ele e os demais membros da família, e adorava couve-flor cozida, então automaticamente pensava que ele não aguentaria a comida. O Joao sempre foi um apaixonado pelo vinagre do Pai, e comia de tuuudo, assim como eu, então tinha certeza que com o João não teríamos problemas. Bem que uma amiga minha tinha falado “a gente nunca atualiza a imagem que temos da família…” Até na Bíblia Jesus diz que o profeta nunca é reconhecido na sua própria terra. E é verdade, você pode se tornar o sucesso que for, que a tua família continuará se lembrando daquela tua característica infame de quando você tinha não sei quantos anos. Então eu falava para o Marco muito surpresa: “ você vai experimentar leite de égua (bebida típica do Quirguistão)? Comoooo? Você só comia couve-flor…?” Ele me dizia: “ Bianca, isso já faz tanto tempo…” “Mas Marco é leite de ÉGUA!!” “Sim, Bianca mas deixa eu experimentar, tem que interagir com a cultura local!” “ O quê (eu dizia)?” “ Bianca eu como de tudo!” “Até molho de tomate Marco?” “ Óbvio, da onde tu tirou que eu não como molho de tomate?” “ Do fato de você amar couve-flor só com água e sal…” “ Mas eu não amo couve-flor…” “Não, como assim? Não era tua comida favorita?” “ O quê? Da onde tu tirou isso?” Enquanto o João acabava de deixar o prato de “ravióli de carneiro” porque não gostou do gosto do carneiro… Eu não entendia mais nada! O João comia até pedra! Como assiiiim? Não posso contar às surpresas que tive com o João, porque ele nunca gostou que falassem da vida dele, para quem entende um pouco de astrologia ele é escorpião, signo que normalmente odeia que invadam sua privacidade. Enfim, ia percebendo que eu não havia atualizado os meus irmãos e nem os conhecia tanto assim como supunha. E eles dia a dia, iam me surpreendendo! Nosso primeiro passeio a cavalo no Quirguistão. Até hoje todo mundo que veio nos visitar – minhas mãe, os pais do Gui, irmãs, marido e filhos, por uma questão de idade e de crianças –, nunca pensamos em fazer a “nossa” viagem com eles, sempre colocávamos a nossa em stand-by até por uma questão de bom senso (com exceção do Quirguistão, que tirando os transportes, os pais do Gui dormiram em lugares roots pra caramba e nem reclamaram). Mas com os manos foi bem diferente, eles não tinham nenhuma barreira, nem de idade, nem de filhos, então falávamos para eles “se preparem”. Tinha muita dúvida se eles iriam gostar, pois no Paquistão os perrengues prometiam ser diários. E eles se mostraram excelentes companheiros de viagem, topavam absolutamente tuuuudo, algumas vezes reclamando, com cara de “mas eles só podem estar de sacanagem com a gente”, mas seguiam em frente e no final, já nem se irritavam com os barulhos das buzinas e sujeiras nas ruas, e entendiam porquê tínhamos levado eles ali. Fizeram muito sucesso com os locais. Normalmente esses lugares são pouco visitados, então vem pouco turista e todo mundo quer te conhecer. E como os turistas europeus são a maioria esmagadora que vem para cá, não tem como comparar com um brasileiro quando resolve ser bem simpático, então eles só faltavam dar autógrafos.

Os Manos com o Gui e escolta no Vale Kalash no Paquistao!!!

O Marco era o alvo, ele era o mais branco de nós três, com os cabelos claros e barba ruiva, parecia o mais internacional. Um dia conhecemos um casal de franceses mega ignorantes, que ficavam brincando que nós no Brasil deveríamos comer insetos de tão precário que eles imaginavam ser a situação do Brasil, e o Marco largou aquela célebre “e vocês que não tomam banho? Uma vez fui numa boate em Paris, estava eu e um amigo empolgados falando com duas francesinhas, quando elas levantaram o braço, veio aquele cheirão, e nos saímos correndo…” Os franceses murcharam e a gente dava rizada.  Depois, não largavam mais os dois, era “Marco Jony” para cá e pra lá. Depois de 50 dias juntos, os Manos foram. Se despediram de nós no hotel e foram sozinhos para a estação de trem em direção a Agra, para ver o Taj Mahal e seguir para o Brasil. Quando vi os dois de costas, com suas respectivas mochilas, saindo naquela rua escura e suja, eu comecei a chorar. Parecia que eram os meus filhos partindo. Como eles cresceram e ficaram altos! Os 50 dias tinham passado e lá estávamos, eu e Gui, sozinhos novamente! Essas idas e vindas, chegadas e despedidas da vida sempre me chamaram muito atenção desde pequena. Como a vida é essa sucessão de acontecimentos, épocas, períodos, momentos, sempre com fim… Jony e Marco, muito obrigada pela companhia, pelos momentos inesquecíveis, conversas, apoio moral, risadas, e principalmente parceria!!! Hoje conheço muito mais vocês rsrs!  Vocês são demais!! Amo vocês pra caramba! Obrigada mãe!