Um olhar hindu sobre os ocidentais.

Em Amristar, na volta do show das fronteiras Índia e Paquistão, eu e Jami pegamos um táxi comunitário com alguns locais. Na minha frente sentava um casal jovem de indianos, pais de duas meninas, ao meu lado direito um senhor indiano de uns 60 anos de idade, e esquerdo, um jornalista russo de uns 40 anos. Todos nós começamos a conversar e a pergunta tradicional dos hindus logo foi feita “porque vocês vêm para Índia?”.

Show das fronteiras.

Show das fronteiras.

O casal!

O casal!

Começamos com aquela resposta previsível e impessoal de “para conhecer uma cultura diferente e aprender novos conhecimentos”. Mas aqueles indianos eram indianos clássicos – diretos, especulativos e sinceros. O senhor emendou: “Conhecer o quê? Falta alguma coisa no país de vocês que gostariam de encontrar aqui?”. E ali uma conversa valiosíssima começou… Essa conversa falou da crise de valores no Ocidente atual, porque naquela altura, eu branca e com traços europeus, não importava se eu fosse do Brasil ou o russo da Rússia, nós éramos Ocidentais.

O indiano nos contou a seguinte história. – “Uma vez conheci um turista americano na rua e começamos a conversar. Como ele estava na minha terra, e para nós hospedes são enviados de Deus, procuramos sempre receber muito bem. Depois de um tempo de conversa, convidei-o para ficar na minha casa, e tratei-o como um filho: não medi nada, nem custos, nem vantagens, nem desvantagens. Minha vida pessoal ficou em segundo plano naquele período, pois meu foco era sua presença e tornar seu tempo conosco o mais acolhedor e confortável possível. Ao final de pouco mais de um mês ele foi embora, e tinha certeza de ter feito um grande amigo. Muito fechado no início, mas aos poucos foi me deixando conhecer seu coração. Mantivemos contato e uns meses depois vi na internet uma máquina fotográfica, e escrevi um e-mail pedindo se ele poderia comprar a máquina para mim e me enviar. Logo em seguida recebo a resposta:  – “claro, segue abaixo minha conta e o valor da máquina para você depositar para que eu possa comprar.” –  “Fiquei estarrecido.”

Ele perguntou então a nós: – Porque vocês Ocidentais são assim? Eu e o Russo respondemos: -” assim como?”  Ele disse: – “frios, materialistas?” Não importa o valor da máquina fotográfica, eu não calculei quanto gastei para alimentá-lo e entretê-lo, sei que não deixei ele mexer no bolso enquanto esteve aqui, porque para mim é assim que se trata um hóspede. O valor está na relação, não no custo que ela vai me dar. Sei que uma máquina custa caro, mas a que escolhi era simplória.  Sei que foi um caso isolado, mas sempre que converso com ‘vocês’ tenho a impressão de que o coração de vocês está distante. Vocês prezam em vir ao nosso país para tirar fotos de nossos templos, não para rezar, convivem com a gente para tirar foto da cultura “exótica” e compartilhar em redes sociais, seguem um roteiro inflexível de coisas para fazer e ver, e reservam pouco tempo para pensar e conviver com a gente. Alguns também vêm aqui buscando vida espiritual, mas compreendem muito pouco da nossa religião, ou o que acontece em muitos casos, escolhem o que lhes interessa e dizem que são espiritualizados. Como assim?  Não são hindus, nem espiritualizados. São eles mesmos. Seguem os seus egos e chamam isso de seguir a Deus”.

Logo o casal hindu se intrometeu e a esposa disse: – ” Ele tem razão. E vocês sempre criticam o nosso sistema de castas sem compreendê-lo, só enxergam o aspecto social e discriminatório, mas não compreendem o aspecto espiritual. Nós só podemos casar com alguém que nosso pai escolheu, é verdade, mas confiamos em nossos pais. Porque eles escolheriam uma pessoa ruim para os seus próprios filhos? Depois vamos ao Guru, que faz nosso mapa astral, e cruza nossas características de personalidade e verifica se nossa união nos tornará pessoas melhores, ou se o jeito de ser de um é compatível com o do outro. Quando o Guru e meus pais encontram uma pessoa, casamos. Às vezes demoramos meses para achar uma pessoa boa. Muitas vezes não amamos inicialmente nosso marido. Quando conheci meu marido, por exemplo, não o amava. Mas com o tempo, passei a amá-lo. Para nós é ainda mais difícil entender vocês, pois vocês vêm dos países liberais, mas se separam o tempo todo! Vocês têm liberdade sexual, podem namorar e só depois casar, ou morar juntos ainda, uns escolhem nem ter filhos para ter mais liberdade, e mesmo assim vocês se separam. Por quê? A meu ver, porque vocês estão (não sei por que razão) incapazes de compreender o amor, vocês só querem a parte interessante da história, de todas as histórias, e por isso o coração de vocês está assim.

* Essa conversa terminou em muitas confissoes de todos os lados e abraços, risos. O russo também abriu seu coração, e discutimos muito nossas vidas privadas, assim como a crise de valores e de sentido no Ocidente, que o russo também sente em sua terra.

Todos!!!

Todos!!!