Delhi!

Apesar de todo barulho de Delhi, existem muitos lugares tranquilos para ficar. Nesse sentido a escolha pela região dos refugiados tibetanos foi perfeita. Silenciosa, pouco movimento de pessoas e carros, e hotel limpo e barato. Mas eu ainda me sentia mal do estomago desde Leh, e não foi fácil os primeiros dias.

Nas ruas.

Nas ruas.

Dia seguinte quis fazer uma massagem ayurvédica que há dias vinha pensando, mas o folder tornou o lugar muito mais interessante do que era. Saí cheia de óleo dos pés a cabeça e como estávamos longe do hotel, não tinha saída, tive que passar o dia daquele jeito.

Caminhando pelo centro percebi que os preços tinham aumentado. A Índia de 2010 era muito mais barata. Saindo do “restaurante” que almoçamos, vimos uma criança muito machucada, de cabeça baixa numa calçada, parecia ter uns 12 anos, tinha um olhar profundamente triste, e estava com a metade da sua bochecha rasgada como que por uma mordida. Com certeza era moradora de rua. Doía olhar para ela. Alguns indianos trouxeram comida para ajudá-la e ela não conseguia nem esboçar um sorriso, nem levantar a cabeça. Mas comia, com um ar não de prazer, mas de automatismo. A sensação que me passou é que ela vinha sofrendo intensos maus-tratos. O machucado no rosto dela era chocante. E a percepção de que algo extremamente injusto estava acontecendo ali, me tirou a paz. Tinha vontade de levá-la dali. Me senti muito impotente e estranha por não poder fazer nada por ela. Fiquei com aquela criança por dias e dias no meu coração.

Depois de passearmos bastante, mostramos alguns lugares especiais a Jami, e voltamos ao hotel para tomar um banho e ir ao cinema. Tivemos a sorte de ver um filme belíssimo, chamado Bol, recheado de dramas humanos típicos da região, sem final feliz. O casal romântico do filme (que longe de ser o tema principal, apenas mais um dos diversos temas levantados pelo filme), nunca se beijavam, só dançavam e se aproximavam, se insinuando um para o outro. Acho lindo esse romantismo antigo dos filmes de Bollywood. O filme durou pouco mais de 3 horas, com intervalo no meio com direito a pessoas lhe oferecendo comidas e bebidas. Voltei maravilhada com o filme, com as cenas, paisagens e música.

Mas ao voltarmos para casa mais uma outra cena me chocou. Centenas de rikishas (bicicletas-táxi) parados nas gramas, com seus motoristas dormindo em cima, todos tortos, de qualquer jeito. Depois de um dia de trabalho imenso, sobre duas rodas, levando pesos para lá e para cá a troco de centavos, naquelas temperaturas altíssimas, muitas vezes sendo explorados e mau tratados pelos seus clientes, numa competição desumana entre os outros motoristas de rikishas, no final do dia aqueles homens ainda dormiam na rua porque não valia a pena voltar para casa, talvez só no fim de semana para reencontrar suas famílias…

Eu chorei copiosamente vendo esta cena. Era um mar de gente. Uma mar!! Um grande mar!! É de matar imaginar a luta pelo pão de cada dia dessas pessoas. Verdadeiros heróis do nosso tempo!

Os indianos são sem dúvida um dos povos mais interessantes que tivemos o prazer de conhecer, seja por sua riqueza cultural e espiritual, passando pela luta diária de trabalho no meio daquela multidão de pessoas, quanto pelo jeito único e marcante que só o indiano tem.

Nos templos.

Nos templos.

Nos camelôs de muitos países que visitamos, sempre encontramos alguma camiseta que representa algo típico da cultura local, ou uma característica marcante do povo. Passando por uma loja, um vendedor oferecia em alto e bom tom mais uma dessas camisetas, agora com o seguinte escrito sobre os indianos: Full power, 24 hours and No shower!!!

Sem dúvida é um povo incansável e extremamente forte!

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