Chegada da Jami!

Mal o João e o Marco saíram e recebemos nossa segunda ilustre visita – minha querida amiga Jami. Conheci a Jami em 2006 numa pós-graduação e desde lá nos tornamos grandes amigas. A Jami é uma daquelas amigas meio superdotadas que tenho, ao lado da Malu, talentosíssima, 10 em tudo e que tem um caráter de tirar o chapéu.

Quando voltamos da nossa primeira viagem a Jami nos recebeu em sua casa com uma comida mexicana deliciosa, e nos acolheu muito bem, quando eu e o Gui nos sentíamos “um pouco” (imagina!) perdidos. Nesse dia, conversamos muito sobre a viagem e as aprendizagens. A Jami foi uma das poucas pessoas que conversamos mais profundamente sobre a viagem, e ali, maravilhada com o nosso jeito pós-viagem, ela disse que se encontraria com a gente, e como vocês já podem supor, se a Jami diz, está dito. Combinamos que na nossa próxima viagem ela nos encontraria em alguma parte, e decidimos juntos que seria a Índia. Ela delirou!

Quando a Jami chegou, pouco mais de 24 horas depois que o Jony e o Marco foram embora, nós estávamos exaustos, pois o Paquistão foi uma viagem difícil em termos de transporte (claro não para o Gui, mas para mim). Muitas curvas, estradas esburacadas e como tínhamos o visto somente de 30 dias e tínhamos que chegar a Délhi a tempo dos meus irmãos pegarem o voo para o Brasil, tivemos que apressar o passo ao longo do Paquistão.

Como a Jami estava com um fuso forte na cabeça, já que o voo dela atrasou e ela encontrava-se há 36 horas na função para chegar até a Índia, aproveitamos todos para descansar. Logo que a buscamos no aeroporto de autoricksha (é claro!), ela olhava para fora e dizia: “caramba, isso parece um filme, estou encantada, obrigada por me receberem com vocês”. E seus olhos brilhavam vendo a Índia, emocionada. Ali percebemos que a Jami tinha alma de viajante, porque ao invés de ficar olhando para as sujeiras das ruas, e fazendo comentário de como eles vivem assim e blábláblá, ela ia logo se maravilhando com a experiência única que alguém pode sentir, quando pela primeira vez, experimenta estar “num outro mundo”. E para quem tem mais sensibilidade, isso se torna tão maior que a sujeira, que não dá para ficar se limitando em olhar para o chão.

Conversamos bastante e a Jami apagou no quarto do hotel. Batemos na sua porta para acordá-la mais perto do final da tarde e, fomos ao Golden Temple, que é claro, arrebentou!! A Jami estava perplexa com a beleza dos Sikis (devotos da “religião” sikki), que coitados, direto são confundidos com muçulmanos por causa do turbante no Ocidente, e muitas vezes matam os inofensivos Sikis achando que são terroristas. Quanta ignorância!

A beleza do templo a noite.

A beleza do templo a noite.

A vida dentro do templo.

A vida dentro do templo.

De Amristar pegamos um trem para Jamu, e ficamos apenas um dia nesta cidade feia e caótica, cheia de templos hindus, mas não valia muito a pena. Dormimos num hotel estranho, e a noite houve muitos trovoes, e eu senti bastante medo, aquela cidade estava bem esquisita. Os templos da cidade estavam sendo meio alvo de uns muçulmanos extremistas, e estávamos um pouco apreensivos de estar ali. A Jami disse que se assustou também com a cidade e dormiu mal.

Pegando o trem!

Pegando o trem!

No trem.

No trem.

Nossas samusas no trem.

No dia seguinte, logo cedo, pegamos um share-taxi e seguimos para Kashimira. Nossos companheiros de carro eram interessantíssimos (um sikki, um muçulmano e dois quatro hindus), e dividimos com eles todas as nossas comidas. Por sinal, no Oriente não tem essa do MEU pacote de bolacha, todo mundo oferece tudo ao vizinho e, se você oferecer, também ninguém fará cerimonia (como muitas vezes fazemos com desconhecidos), eles aceitarão na hora e comerão algumas bolachas…

Nesse dia, esperando no táxi, enquanto tomávamos um chay numa rua decadente, surgiu uma vaca com a mandíbula quebrada, a mandíbula dela estava solta, a vaca era deficiente. Ela caminhava arrastando aquela mandíbula presa a um feixe de pele. Eu e a Jami ficamos chocadas olhando para a vaca. Na Índia já vimos muitas coisas, mas vaca com a mandíbula pendurada era realmente uma novidade. Esse costume de sacrificar o animal que nós temos, não precisa nem dizer que não acontece em terra hindu.

A cidade.

A cidade.

Nossos companheiros do taxi comunitario.

No caminho.

No caminho.

Quando chegamos a Kashimira depois de 16 horas de viagem, ficamos chocados com a beleza do lado Dhal e seus barcos-casas. Fomos logo pegando um barco-casa de um cara muito insistente, porque estava num preço muito bom, e apesar do nosso barco ser num lugar lindo, e ser muito aconchegante e com cara de casa de vó, era um dos mais pobrinhos do Lago.

Nosso barco-casa!

Nosso barco-casa!

Largamos as malas e vimos o sol se pôr ao som das inúmeras mesquitas e de todo comércio que acontece sob o lago. Tem farmácia, mercado, transportes, vendedores… tudo sob palafitas. Ficamos maravilhados com aquela experiência mágica de estar no lago ao som estridente de todas as mesquitas, vendo todos aqueles vendedores ambulantes passando com suas canoas, e os locais remando até em casa. Acho que foi um dos lugares mais incríveis de toda a viagem.

Lago Dhal.

Lago Dhal.

A Jami estava emocionada e nós também! Ninguém mais queria sair mais daquela “sacada” do barco… Ao fim do som das mesquitas e do silencio da oração em comunidade, o Sr. Gulmon serviu nossa comida bem caseira e fresca preparada por ele. Conversamos bastante sobre a vida, a viagem… e fomos dormir. Antes de dormir, tomamos um banho, tinha até banheira no quarto, mas a água era meio verde e fedida, mas nada que não pudesse fazer nos sentirmos limpinhas depois, e dormir maravilhadas com a experiência de estar sob o gloriosíssimo Lago Dhal.

A vida no lago que contemplávamos da sacada do nosso barco-casa.

A vida no lago que contemplávamos da sacada do nosso barco-casa.

Dois mundos!

Na volta do show das Fronteiras Paquistão X Índia, demos carona a um casal de franceses que conhemos em Karimabad, ainda no começo da nossa jornada pelo país. Ao longo do trajeto, fomos encontrando os dois diversas vezes, em lugares diferentes, até reencontrá-los na nossa última noite no Paquistao.

Era um casal novo, de vinte e poucos anos, que guardaram dinheiro por uma longa data, ate realizar a sua primeira viagem longa. Eles nunca tinham saído da França antes. Ele era marcineiro e, ela psicóloga. Estava vindo desda Marcelia,  cidade onde moram, ate o Paquistao praticamente só de carona.

Num primeiro momento, achamos eles legais, até pelo jeito que estavam viajando, mas aos poucos fomos percebendo que eles só tinham saído de corpo para viajar, nao de alma, e a viagem ja estava completando quase 6 meses. Tudo na França era melhor, todas os lugares que eles visitaram eram em geral ruins, com excessao de alguns países na Europa que cruzaram ao longo do caminho, as pessoas entao da Asia Central de uma ignorancia sem tamanho. Pegavam muito no pé dos muculmanos, fruto da crença do povo em Deus que se desdobrava em atos sem sentido para eles. As roupas da muçulmanas, o Ramadan, a chamada das mesquitas, os terroristas, tudo tudo no mesmo pacote.

Como eles cruzaram de carona desde a França até os países da Asia Central para chegar no Paquistão, os países que tinham um povo acostumado a dar caronas eram legais, os que nao eram, nao eram legais! Lugares como Turkomenistao, Uzbequistao, e Kazaquistao, onde ha um cultura fortíssima de táxi pago, nao eram legais. So porque nao existe apenas o taxista credenciado como o nosso, mas qualquer pessoa comum que esteja passando de carro pode ser o seu táxi ( seja dentro das cidades ou na estrada, voce faz um sinal para parar, e se parar é porque podem lhe dar carona, desde que seja para o mesmo sentido que a pessoa esteja indo, e ela te cobrará por isso). É uma forma, nesses países tao pobres e reprimidos pela ditadura, do cidadao comum tirar um troco a mais.

Eles achavam isso um absurdo, sem entender que naqueles lugares carona e taxi eram sinonimos. Como aqueles dinheiristas podiam cobrar, pensavam eles? Assim eles foram passando por diversos países,  levando a referencia da França e das suas necessidades individuais como forma de medir as pessoas e os lugares…

Nesse dia, lá na torcida, encontramos os dois com um paquistanes, ele sentado num bom lugar na arquibancada, tomando uma coca-cola gelada, e a sua namorada, na arquibancada das mulheres (pois as arquibancadas eram separadas em homens, mulheres, famílias e turistas). Estranhamos o lugar e a coca-cola gelada. Depois, vimos eles dispensando o tal senhor assim que nos encontraram, dizendo que iriam com a gente, sem praticamente se despedir.

Perguntei quem era aquele senhor, e eles me contaram rindo que era um homem religioso que conheceram num restaurante quando estavam almoçando, que veio puxar assunto pedindo se estavam gostando do Paquistao, se nao queriam ir para casa dele, pois os estrangeiros sao enviados de Deus, e ele tinha o dever de recebe-los bem. Os dois agradeceram dizendo que ja estavam hospedados num hotel.  O senhor entao, muito simpatico, pediu para eles outros pratos de comida, ja que como bons mochileiros tinham obviamente pedido os pratos mais baratos, e pagou tudo. Após o tal senhor concluir que eles estavam num hotel muito simples (óbvio, os locais nunca entendem porque escolhemos estes hoteis), insistiu para que eles mudassem de hotel, pois tinham outros melhores, e que ele pagaria a diária, pois precisavam estar confortáveis no país dele. Eles agradeceram tambem e, o senhor pediu entao onde eles estavam indo, e contaram que para o show das fronteiras. Na mesma hora o tal senhor pediu um taxi (evitando que eles fossem de onibus, pois era na saída da cidade) e os acompanhou ate o show, pagando a coca-cola gelada e escolhendo um lugar privilegiado para que eles assistissem. No retorno, levaria eles ate o hotel. Mas o senhor foi dispensado assim que eles nos viram!!

Fim da historia. Eles estavam rindo do homem, por ter sido “burro” de pagar tudo a eles, em nome de Alah, e que eles se deram muito bem, economizaram um monte, e comeram como reis. Aí começaram a caçoar da religiao, do islamismo, e falar de como essas pessoas podiam ser tao estupidas em acreditar em mitos e bobagens criadas como Deus, só para controlar o povo, e teceu toda aquela cartilha de sempre de argumentos que os ateus mais jovens usam.  É tudo jogo de poder, invenção, e as traduçoes, etc. Que lá na França, onde o povo é mais escolarizado e educado, isso ja nao existe mais. Nem passou pela cabeça daquelas topeiras perguntar a nós qual era a nossa crença antes de sair desconsiderando o tal homem para gente.

Enfim, era difícil que aqueles dois mundos tao distantes compreendessem o que estava acontecendo ali. O senhor até agora deve estar se perguntando o que ele fez de errado, para ter sido dispensado daquela forma. De um lado um homem que fazia aquil0 por Deus num ato de dever, como ele mesmo disse, do outro o casal que olhava aquilo como uma vantagem economica em nome de algo sem sentido, pois o objetivo do ato do homem que era agradar a Deus nao havia neles, e muito menos o senso de dever, ja que eles vinham dos países da Liberdade de Escolha – do quero ou nao quero, nao do devo ou nao devo.

Enfim, nós nos revoltamos!! Todos nós da mesa queríamos matá-los por falar daquele jeito do pobre senhor, e por todas os absurdos que tinhamos ouvido ao longo dos encontros que tivemos com eles. Eles perceberam a nossa cara de indignação, e perguntaram ao Gui, ” voce nao concorda?” Porque eles falavam usando uma linguagem corporal tentando persuadir que concordassemos com aquilo, e nós fazíamos uma cara de indignados, que eles nao entendiam o porquê. Será que a gente tambem era burro e achava aquilo correto? Será que no Brasil o povo é tao ignorante assim?

O Gui então sabiamente disse: “quando a gente voltou da nossa primeira viagem, nos fizemos um vídeo para dividir com as pessoas o que tinhamos visto e vivido, e começamos o vídeo assim: Deixe seu emprego, abandone seus pertences, se dispeça dos seus familiares e amigos, Esqueca Tudo o que voce aprendeu e o mundo será seu.”

E seguiu: “Pelo jeito voces deixaram o emprego…, seguiram toda a cartilha do mochileiro (guardar dinheiro, sair do emprego, etc.), mas esqueceram do mais importante. Voces nunca compreenderão nada, se voces nao colocarem a França um pouco suspensa para olharem o mundo…”

O casal se calou, assim como nós todos, rendendo um momento emocionante de reflexao para todos que estavam ali naquela mesa, naquela noite quente do dia 02 de setembro de 2011, a ultima do Paquistao… Uma bela despedida!

Em fase de despedida!

Da Albania seguimos para Monte Negro em Kotor e passamos alguns dias de pernas para o ar, tomando sol e indo a cidade velha passear. Sempre tem uma cidade velha em todos os lugares. Nos hospedamos na casa de uma simpatica familia que tinha um “parreral” de kiwi no seu jardim, que nao cansavamos de olhar. E fomos desfrutando dos dias de sol e mar.

Quando ainda estavamos em Sofia, tomamos coragem para ligar para Tam e ver sobre nossa volta. Tinhamos direito a uma milhagem, entao resolvemos ligar logo para marcar, pois os lugares de milhagem sao super concorridos. Ligamos no inicio de julho e recebemos a seguinte opcao: 03 ou 05/set ou fim de novembro. Eu achei novembro muito longe, pois praticamente fim de ano e queria voltar a tempo de me reorganizar antes de 2011 chegar… Que bobagem (hoje vejo). Escolhemos setembro!

Nos primeiros dias a sensacao foi boa, tipo tudo bem, “ja vi tanta coisa, ja viajei tanto, ja aprendi bastante, esta na hora de voltar”. Conforme os dias passaram, quando chegamos em Kotor, ja nao tinha mais certeza desses sentimentos. Que outra bobagem achar que as decisoes precisam ser tao certeiras e cheias de certeza. Tem coisas que voce vive e tem pessoas que voce conhece somente quando esta em viagem, como o Baba por exemplo, e eu lembrava disso constantemente.

Os dias em Kotor foram assim em tom de despedida. De cair a ficha. E de digerir sobre o fim. La comecamos a pensar: “mas porque essa viagem tem que acabar agora?” Nao conseguimos chegar a nenhum argumento justo.

Em Kotor, na cidade velha.

Visual da bahia.

Depois seguimos para Bosnia em Sarajevo, para mim a cidade mais linda que conheci na Europa (claro, levando em conta meu conhecimento de Europa, que nao ‘e muito grande). Charmosa, com muita personalidade, uma mistura de otomano com austro hungaro que da uma cara toda unica para Sarajevo. Passeamos pelas ruazinhas, conversamos com o Bosnios, que me lembraram  italianos toscos, sa gritoes, porem secos.

Praca utilizada tambem como cemiterio.

De la passamos por Mostar, aquela cidadezinha que destruiram a ponte, dividindo muculmanos para um lado e cristaos para o outro, onde a guerra foi terrivel. Pensar que isso ocorreu ha menos de 15 anos atras. Mas como disse o meninoa casa de familia que nos hospedamos: “ nao adianta tentar explicar como foi estar aqui durante a guerra”. Paramos de querer perguntar e dizer no final da frase: “sei sei, entendo”. Entende nada, nao entendemos nada!! Nunca vivemos uma guerra para poder captar nem de longe o que ‘e viver isso.

Mostar

Marcas da guerra.

Banho no rio que corta a cidade.

De Mostar seguimos para Croacia de onibus, paramos em Split, pegamos um ferry e seguimos para uma ilha. Queriamos um lugar para descansar e continuar a digestao do fim da viagem. Escolhemos uma bem afastada e calma, a ultima parada do ferry, chamada Lastovo. Desembarcamos quase perto da meia noite e conseguimos um apartamento numa casa de familia aparentemente bacana. Quando acordamos de manha, vimos que se tratava de um paraiso. A janela do quarto dava de frente para o mar azul transparente, e tinhamos ate sacada. Adoramos! Era o lugar perfeito para relaxar e refletir.

No ferry a caminho de Lastovo.

Na frente de casa.

Arredores.

Foram 7 dias de Lastovo, com muito banho de mar, caminhadas, por do sol, paisagens, contemplacao, ate almoco e jantares com amigos italianos que fizemos, tinhamos churrasqueira e saiu um peixe delicioso na grelha. Nestes dias, consegui pensar no post

“ Despedida da viagem!” que claro, sera publicado bem ao final, pois a viagem ainda nao acabou!

De Lastovo, paramos para conhecer a linda Dubrovinic, passeamos tambem por sua cidade velha, que dentre as diversas que vimos em todos os paises, seja na Africa, na Asia ou na Europa, esta acima da media das cidades velhas, apesar de todas serem sempre bem bonitas. Eu especialmente gostei muito da de Zanzibar. Todo mundo quer ir para Croacia agora, ‘e o destino que foi substituido pela Grecia, nossa sugestao ‘e: venham, ‘e bem bonito mesmo”. Mas ‘e como toda viagem na Europa “bonita” , ferias e nao jornada. Vai do gosto e da busca de cada um!

Dubrovinic.

De Dubrovinic pegamos o ferry noturno para Bari. Como durante a viagem perdemos nossos dois sacos de dormir e mais um de nossos cobertores de aviao (que nos ultimos dias estava sendo usado de canga na praia, porque esqueci minha canga ainda na India), so tinhamos um cobertor fino e um lencol. Montamos uma cama embaixo da mesa e capotamos. Como queria ter sido tao descolada desde o inicio da viagem, no comeco jamais conseguiria dormir no chao, “imagina doeria meu quadril haha”. Hoje capoto.

Cama.

Descemos do ferry, e com a ajuda dos nossos amigos italianos, escrevemos num papel: “Siamo due braziliani che cherchiamo una corsa per Napoli”. Resolvemos fazer isso quando soubemos que teriamos que trocar muito de trem ate chegar em Sorrento. Paramos numa esquina e ficamos la com o cartaz nas maos. Uns 15 minutos depois um carro parou com dois meninos. Ambos italianos, um morando em Londres, que estavam voltando de viagem por Monte Negro e Servia. Eles nao estavam indo para Napolis, mas eram de Pompei, que fica ha 30 minutos de trem de Sorrento. Mais perfeito ainda, pois la foi onde aconteceu a devastacao pelo vulcao Visuvio ativo ate hoje em uma cidadezinha romana logo depois de Cristo e tudo ficou pretrificado. E era um lugar que queriamos muito conhecer.

Fim das contas, fomos convidados para almocar com os pais do italiano, e acabamos comendo uma bela macarronada com frutos do mar, com entrada de mussarela de bufala, depois frutas e sorvete e ainda expresso ao final, alem de vinhos e licores. Saimos de la quase seis da tarde com a barriga cheia. Enquanto nao levantassemos da mesa, eles nao paravam de servir. Comer para um italiano significa participar, saborear, entreter-se. E a familia era divertidissima, voce nao tinha certeza se eles estavam conversando ou brigando, eu como descendente de italiana, adorei ver de perto. E disse: “ nossa que legal conhecer uma familia italiana, era bem como eu imaginava (referindo-me ao barulho…).” Eles disseram: “familia Napolitana, ‘e diferente!” Ha um regionalismo entre os italianos. No Sul eles sao mais barulhentos que no Norte. Exatamente o contrario do Brasil, que no norte estao os brasileiros mais quentes e tipicos e no Sul os mais “frios” e fechados – claro para o padrao brasileiro. Alem ‘e claro de no Norte a economia ser melhor.

Familia Napolitana!

Saimos antes que perdessemos o ultimo horario para conhecer a cidade petrificada de Pompei. E ficamos de boca aberta, vimos muuuuuuuuuuuuitas ruinas romanas durante toda viagem, assim como cidades velhas, fortes e mercados arabes rsrsrs. Mas as ruinas de Pompei sao impressionantes. Voce realmente consegue se ver naquele tempo. Se soubessemos teriamos visto so essa durante a viagem que teria valido por todas.

Pompei.

Acabamos dormindo ali pertinho e no dia seguinte fomos para Sorrento. Encontramos logo o hotel da Dona Ana, muito gostozinho, com moveis de vo e bem limpo. Alugamos uma moto e fomos passear e conhecer a Costa Amalfitana.

Belissima! A costa ‘e linda, na beira de penhascos e cheia de curvas. No caminho muitas cidadezinhas lindissimas e obviamente, restaurantes deliciosos. Comemos um spaghetti com frutos do mar enrolado num papel que foi de chorar. Lembrarei para sempre deste spaghetti.

Costa Amalfitana.

Parada.

Na estrada.

Sorrento.

Estavamos indecisos sobre o que conhecer na Italia, porque tem tantos lugares legais, mas como a noticia da passagem foi meio de ultima hora, so tinhamos 12 dias, por isso resolvemos fazer um pouco do Sul, ja que o retorno seria por Roma. Eu tinha bastante expectativa de conhecer a Italia desde o inicio da viagem, principalmente por quase toda minha ascendencia familiar ser italiana. Mas com o tempo este desejo foi diminuindo, nao tanto pelo pa’is, mas pela vontade de ficar mais pelo Oriente. Mas chegar na Italia fez eu me senti em casa. O jeito dos italianos, a culinaria, o estilo do povo. A comida especialmente me surpreendeu, achei muito mais gostosa do que achava. E o cuidado com o preparo, com a escolha dos temperos, com a comida fresca, ‘e algo que chama atencao. Eles nao usam freezer. Tudo deve sr fresco. Os italianos sabem comer bem e fazem isso com muito destreza, est’a impregnado nos costumes, mesmo uma pessoa que nao costume cozinhar, parece saber o que ‘e comer bem.

Depois de alguns dias desfrutando Sorrento e passeando pela costa, seguimos para Napoli. Por um lado achamos que para final de viagem Sorrento estava demais para gente, talvez um vilarejo nas montanhas em Toscana seria mais apropriado. Muitos turistas, muita muvuca, muita informacao, nao combinava com fechamento de viagem, combinava com comeco. Mas por outro lado, nos sentiamos cada vez mais perto de casa…

Napoli ‘e uma cidade linda, apesar do centro meio sujo. Buscamos uma tratoria indicada que nosso amigo napolitano nos recomendou, mas estavam em ferias. Gostei muito de ver como os italianos respeitam suas ferias e seus domingos. Nao ‘e aquela coisa de abrir o seu mercadinho para lucrar enquanto o do vizinho esta fechado. Domingo ‘e Sagrado, e eles respeitam isso, nao por ser um dia santo, mas de descanso. A religiao, mesmo estando no berco do catolicismo nao me pareceu forte, senti muito mais os costumes e as tradicoes bem vivos do que o contato com Deus propriamente dito. Nossos amigos nos contaram que inclusive na Italia ‘e legalizado o aborto, o que me surpreeendeu. Me parece que os valores modernos no ocidente realmente ultrapassam a religiao quase em todos os lugares.

Napolis.

Napolis.

Ficamos na casa de uma grande amiga minha de Chapeco city, que tambem morou comigo em Floripa durante a faculdade. Era um bom lugar para encerrar a viagem, perto de amigos e da “familia” srsrs. Apesar que Roma tem tanta coisa para ver, que por um lado, tambem nao combinava com encerramento de viagem, por isso decidimos ver o basico, ja que nao havia mais nenhum espaco em nossos coracoes para entrada de mais nada, todo nosso metabolismo estava voltado para o fim. Um dia fomos ao Palatino, lugar belissimo cheio de ruinas romanas com uma vista linda para Roma e no meio da visita, estendemos nosso lencol no gramado e comecamos a chorar….

Roma.

Amigas!

Fomos muito bem tratados por minha amiga Thaisa e seu queridissimo namorado romano Rafaelli, dois anfitrios de mao cheia. Fiquei muito feliz de ve-la com uma pessoa tao legal! Comemos muito bem, conversamos ate fazer calo nas cordas vocais e nos sentimos em casa.

Nossos queridos amigos!

Tudo ‘e muito lindo em Roma e bastante arborizado. A cidade ‘e charmosa e acolhedora. O Coliseu ‘e impressionante, imenso. E o Vaticano foi para mim a sensacao. Amei a basilica de Sao Pedro e a Capela Cistina. Foi arrepiante estar la!

Coliseu.

.

Basilica de Sao Pedro.

Vaticano.

No sabado o Gui se despediu de nos, pois nao conseguimos voltar no mesmo voo, tinhamos direito apenas uma milhagem e voltar juntos era a opcao mais cara. Foi bem dificil abracar o Gui no aeroporto e dar tchau, nos choravamos. Era muito estranho pensar que toda aquela viagem estava acabando…

Quando o Gui foi, por uma lado fiquei aliviada, tipo “ok, acabou, amanha ‘e a minha vez!”. Nao tinha mais aquele sentimento esta chegando o fim, chegou o fim da viagem . Entao relaxei e eu e  Tata fomos no parque. Conversamos sem parar sobre a vida e voltamos ao anoitecer. No dia seguinte, peguei o voo para Madri e passei a tarde caminhando pela cidade, deu ate para tirar um cochilo na praca e depois pegar o voo para o Brasil.

Compreendendo o Islamismo!

Alguns tem atracao pelas religioes orientais, como o budismo e o hinduismo, e normalmente uma certa aversao ao islamismo, porem este ultimo ‘e muito mais proximo da nossa religiao do que os anteriores. Louvam o mesmo Deus, inicialmente so dos Judeus e depois dos Cristaos.

O que afasta e dificulta o caminho para entende-los sao os diversos conflitos que houveram entre a civilizacao muculmana e ocidental (crista) ao longo da historia, desde a fundacao do Isla. E naturalmente temos a tendencia de olharmos mais para o que eles fizeram com a gente e nao tanto para o que nos fizemos com eles. Por exemplo, 11 de setembro ninguem esquece, mas o genocideo de muculmanos por cristaos na Bosnia nao ficou tao marcado… Alem dos conflitos, os costumes e tradicoes dos muculmanos nos chocam. As roupas das mulheres, a poligamia, as leis severas. Enfim, a forma que eles tem de resolver as coisas, que ‘e bem diferente da nossa.

Quando eu comecei a viagem pela Africa na Tanzania, desembarquei em Dar Es Salaan e de la seguimos para Zanzibar. Ambos os lugares com maioria esmagadora de muculmanos. Lembro que no meu primeiro dia em Dar Es Salaan, apos todos aqueles avioes, acordei as cinco da manha com o som das mesquitas… e gostei muito. Depois no dia seguinte em Zanzibar, fiquei dias observando todas aquelas mulheres tapadas dos pes a cabeca morrendo de pena, pensando “ coitadas, como sofrem, quanta opressao, que absurdo….”.

Mas com o tempo de viagem e conhecendo muculmanos e mais muculmanos, jantando junto, tomando cha, conversando com as mulheres, a gente comeca a enxergar a coisa de dentro e nao mais de fora. Do ponto de vista deles, e nao do nosso. A unica forma de compreender as coisas. E nao so perdi todo o preconceito que tinha, como hoje, os muculmanos sao um dos “povos” que eu e o Gui mais nos relacionamos afetivamente e os que mais nos acolheram.

Para voce se tornar um muculmano, diferente das outras religioes, voce nao precisa passar por um ritual de batismo, como no cristianismo para receber o Espirito Santo. O que te torna muculmano, ‘e voce considerar a seguinte verdade de fe: Nao ha deus exceto Deus e Muhammed ‘e seu profeta! Se voce acreditar nisso, voce se tornou muculmano, que significa homem limpo!

O Islamismo ‘e a ultima das religioes Abrahamicas: Judaismo-Cristianismo-Islamismo. Porem o que o Islamismo veio reafirmar na visao de um muculmano ‘e o monoteismo puro e original. Para eles, os judeus restringiram a mensagem de Deus apenas para o seu povo, os descendentes de Abrahao. E Cristo entao foi enviado para abrir essas fronteiras e nao limitar mais a mensagem apenas aos judeus, mas a todos, judeus e nao judeus. Porem, Deus ficou diluido na figura de Cristo, na fe de que Deus ‘e trino e uno (pai, filho e espirito santo). E eles vem entao resgatar esse monoteismo puro e para todos. Para o islamismo, o judaismo e cristianismo sao religioes irmas.

Para compreender o mundo muculmano que se inicou com o profeta Muhammed, ‘e preciso entender como era o mundo arabe antes do islamismo chegar. Os arabes na epoca de Muhammed (622 DC), acreditavam em 360 deuses, faziam orgias e mais orgias, as mulheres tinham um valor inferior ao de um escravo, e muitas eram enterradas vivas ao nascer, pois significava prejuizo na certa. A arabia, resumindo, era uma zona.

Muhammed nasceu de numa familia muito nobre, de uma das melhores tribos da epoca, capaz de retracar sua ascendencia ate Abrahao, tamanha a nobreza (da tribo de Isaac veio os judeus e da de Ismael vieram os arabes, ambos filhos de Abrahao). Mas como pouco antes dele nascer seu pai morreu e com 6 anos de idade a mae, ele era muito pobre. Quando a mae faleceu ele passou a ser criado pelo avo ate os 8 anos de idade, quando o avo morreu e passou a ser criado pelo Tio. O Tio morava onde hoje ‘e Meca e era a pessoa responsavel por cuidar dos peregrinos que vinham adorar os 360 deuses.

Desde cedo Muhammed trabalhava cuidando das cabras, mas como cresceu ao lado dos peregrinos, conheceu muitas pessoas importantes e aproveitava para compreender como eles pensavam, pois tinha muito interesse em Deus. Nao participava das orgias e nao gostava dos costumes. A partir de uma certa idade, ja casado, comecou a se retirar para uma caverna para rezar e numa dessas vezes houve uma aparicao do Anjo Gabriel, que disse que ele seria o profeta de seu povo. Muhammed ficou bastante assustado e achou que estava ficando louco, chegou em casa e contou para sua esposa que o tranquilizou e disse que talvez era mesmo uma mensagem do Anjo.

Dali em diante, Muhammed comecou a receber outras mensagens e a pregar o Islamismo, comecando por dizer que os arabes deveriam abandonar seus 360 deuses e passar a acreditar somente em Deus. Obviamente ele comecou a ser perseguido, pois todo o comercio de Meca na epoca era relativo aos peregrinos. Muitos muculmanos foram perseguidos e morreram de fome, pois os arabes negavam-se a fazer comercio com eles. Uma parte fugiu para onde hoje ‘e Etiopia (onde foram protegidos pelo Rei de Axum que era cristao e portanto tambem acreditava num so Deus) e outros para Medina. A religiao se multiplicou e depois de algumas guerras e muitos massacres, os muculmanos venceram.

Junto com Muhammed alguns novos costumes foram adotados. Escravos, pobres e negros podiam se sentar junto com muculmanos nobres e olhar nos seus olhos… os homens passam a ser iguais, independente da classe social ou origem etnica. As mulheres passam a ter valor e direitos civis. No tempo da arabia, como muitas tribos guerreavam entre si, o numero de homens era muito menor que o de mulheres, e restavam poucas opcoes para elas. Podiam tornar-se concumbinas sem direitos ou viver solteiras para o resto da vida e morrer de fome. A poligamia veio como uma forma de protege-las e garantir uma vida digna. Em muitos casos o irmao do marido morto passava a tomar conta da viuva.

Antes do islamismo os arabes podiam ter quantas esposas quisessem, com ou sem o consentimento delas, que nao podiam pedir o divorcio. Com Muhammed, os casamentos so podem se realizar com o aval delas; passam tambem a ter direito de pedir o divorcio; e o homem ao casar-se deve pagar a futura esposa um valor que ela estipula, para ficar com ela durante todo o casamento, e ainda deve sustenta-la integralmente, para garantir a ela alguma liberdade economica no caso de um divorcio. Elas podem tambem ter bens em seu nome, isso desde o tempo de Muhammed. Na sociedade norte americana e brasileira a mulher so p^ode ter bens no seu nome a partir do sec 20…

A poligamia entao so pode ocorrer se o homem garantir os mesmos direitos para cada esposa e o limite ‘e de quatro. Cada uma deve ter sua casa e ser sustentada pelo marido com os mesmos bens que as demais. A ideia da poligamia ‘e ser uma solucao para os periodos em que a populacao feminina e masculina estao em desequilibrio. Hoje somente 2% da populacao dos paises apontados como poligamicos exercem na pratica esse costume.

Quanto as roupas, seria interessante pensarmos que a religiao se propagou numa regiao de deserto com altas temperaturas, sol fortissimo e tempestades de areia, alem de uma arabia incivilizada e cheia de orgias. A roupa entao vem nao so proteger do meio ambiente como das pessoas. Na Arabia Saudita nos ultimos 20 anos houveram apenas dois casos de estupro. Nos temos a liberdade de usarmos a roupa que quisermos, mas nos nao temos seguranca!

Na Malasia conhecemos uma moca que estava com um vel curto e colorido, roupas modernas, apesar da calca e blusa de manga comprida, e ela nos explicou que la nao tem tempestades de areia entao nao teria porque usar a burca inteira. Outra garota belga, que nao usava o veu, mas era bastante religiosa e estudiosa do islamismo, dizia que o veu estava dentro de voce. Ou seja, costumes e religiao se misturaram ao longo dos anos e hoje as mulheres se mantem com as burcas dependendo das suas tradicoes familiares, da lei dos seus paises e de como interpretam a palavra do profeta que, em linhas gerais, apenas recomenda que se resguardem ao vestir-se.

O jeito moderno…

E o tradicional!

O profeta ao longo de sua vida foi pai de familia, comerciante, governante… entre outros, e era reconhecido como um homem de conduta impecavel e que todos podiam confiar, inclusive os comerciantes concorrentes dele, quando iam viajar longo, deixavam seus bens para ele cuidar… Como ele teve um leque enorme de papeis humanos, o muculmano tem o exemplo do profeta para as mais variadas areas da vida: de casado, de negocios, de politica, etc. Isso explica porque o muculmano procura ter uma conduta bastante correta, pois ele tem bastante material disponivel. O que falta para nos Cristaos, pois Jesus foi muito mais um lider espiritual, como ele mesmo dizia “ meu reino nao ‘e desse mundo”.

A saber, os muculmanos seguem quatro livros sagrados: o Tora (dos Judeus), o Zebur – dos Profetas (ainda no antigo testamento), o Novo Testamento e o Corao, considerado por eles o mais importante por ser o ultimo e conter ensinamentos de todos os outros, existe por exemplo, um capitulo dedicado somente para Nossa Senhora. O Corao nao ‘e cheio de referencias historicas como a biblia, fala mais do conhecimento inteligivel, o tempo todo mostra como o homem ‘e e como Deus ‘e, para haver esse paralelo e os muculmanos saberem qual o caminho a percorrer.

Existem outros livros como complemento, especialmente o do Profeta Muhammed (nao me recordo o nome), que mostra as atitudes que ele teve diante de todas as situacoes de sua vida, como um guia de conduta, feito por devotos que anotavam tudo que ele fazia e que tambem o consultavam diante de suas duvidas. Vale lembrar que o profeta dizia para anotar separado o que eram mensagens de Deus que ele recebia (o Corao) e o que ele fazia, pois eram coisas bem diferentes.

Nao ignoro que olhando para o mundo muculmano encontramos tambem os extremistas, que sao motivo de vergonha para muitos deles. Mas isso ‘e acidental. Existem os paises com as leis mais severas porque seus governantes se prendem muito a letra da lei na religiao e nao vao ao seu espirito. Mas em contra partida, em qualquer lugar que voce va hoje de cultura predominantemente muculmana, voce se sente mais seguro, respeitado e principalmente “cercado de boa gente”. O que para mim ficou muito claro, olhando para todos os lugares que passamos, onde Deus ainda ‘e um guia para o homem, o ser humano ‘e mais nobre; ja onde quem tomou lugar de Deus foi o dinheiro e a crenca de que o homem ‘e o seu proprio senhor, o homem ‘e mais “coisa”.

Por fim, a respeito do Islamismo, mais uma vez tive aquela sensacao recorrente na viagem do quanto eu estava enganada sobre muitas coisas. Viajar nao ‘e so quebrar paradigmas e preconceitos, ‘e te ensinar a manter-se atento para nao forma-los. E ‘e interessante perceber que por mais que hoje temos tanto acesso a informacao, os canais sao bastante rasos, limitados e tendenciosos, junto com a preguica ou desinteresse em procurar, assim nos conformamos com a informacao ja mastigada e mal concluida. E cheios de si e de opiniao saimos expondo nosso ponto de vista, sem levar em conta o quanto realmente sabemos a cerca daquilo e como temos nos informado.

Fonte: Informacoes obtidas em mesquitas; conversas com religiosos e devotos muculmanos; Luiz Gonzaga aulas gravadas e Fe Explicada.